Michael Haneke

Dez filmes contundentes sobre a destruição da família

A família, instituição sagrada, para muitos um pilar da sociedade, é levada aos cacos nos filmes da lista abaixo. Do cinema político italiano à Nova Hollywood, do Dogma 95 ao cinema grego recente, ganham a vez obras contundentes e traumáticas. Bellocchio, Pasolini, Coppola, Haneke e outros autores estão presentes.

De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio

O protagonista, interpretado por Lou Castel, vive situações de amor e ódio com os irmãos e trama a morte da mãe, que é cega. Ponto alto do cinema político italiano e primeiro filme do grande Marco Bellocchio.

Teorema, de Pier Paolo Pasolini

Família burguesa é destruída após hospedar um rapaz (Terence Stamp) em sua grande casa. O mesmo mantém relações sexuais com todos, incluindo a empregada (Laura Betti), que passa a operar milagres.

O Poderoso Chefão – Parte 2, de Francis Ford Coppola

Michael Corleone (Al Pacino) descobre estar sendo traído pelo próprio irmão (John Cazale). Ao mesmo tempo, é confrontado pela mulher (Diane Keaton), que não quer que os filhos cresçam em uma família de mafiosos.

Ran, de Akira Kurosawa

Adaptação de Rei Lear, de Shakespeare, passada no Japão Medieval. Os conflitos familiares têm início quando o líder do clã anuncia a divisão de bens entre os três filhos, que abrem guerra em disputa pelo poder.

O Sétimo Continente, de Michael Haneke

A escapada para outro local, para um paraíso possível, talvez não seja mais que um plano de autodestruição. Esse filme intrigante, frio, já com a marca de seu diretor, revelou ao mundo o cinema de mal-estar de Haneke.

Festa de Família, de Thomas Vinterberg

Uma família reúne-se para o aniversário do patriarca. O que deveria ser uma festa tranquila dá vez a confusões quando vêm à tona algumas histórias do passado. Vinterberg ganhou o prêmio do júri em Cannes.

Beleza Americana, de Sam Mendes

O que deveria ser o retrato de uma típica família americana dá espaço a um universo de problemas, de estranhas relações com vizinhos, chegando à tragédia. Kevin Spacey brilha como o homem que decide mudar de vida.

Dente Canino, de Yorgos Lanthimos

O branco constante não traz alívio ao filme pesado do grego Lanthimos, sobre um pai que aprisiona os três filhos e impõe à família regras próprias. Os alienados encontram crueldades, dores e medos.

Alabama Monroe, de Felix Van Groeningen

Quando um casal perde a filha pequena, vítima de câncer, a relação a dois desmorona. A mulher acredita na vida após a morte, o homem é ateu. O conflito de ambos chega ao insuportável, ainda que haja amor.

Custódia, de Xavier Legrand

O filho não quer contato com o pai. No entanto, devido a uma decisão judicial, ele tem de passar alguns fins de semana com o homem, que não aceita o fim do casamento. Nada deixa prever o encerramento explosivo.

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Happy End, de Michael Haneke

Imagens captadas por câmeras de celular abrem e fecham Happy End, de Michael Haneke. Imagens que atendem aos estranhos desejos de uma menina, a inclinação a captar e fazer o mal, ao passo que seus familiares, ao redor, pouco a pouco se deixam ver: o pai que trai a madrasta, a tia que toca os negócios da família, o primo que bebe além da conta, o avô que, cansado de viver, um pouco senil, tenta encontrar alguém para matá-lo.

A família, enfim, e nem por isso a partir de formas e dramas esperados, em caricatura previsível. O que se sabe, desde o início, é que Haneke não crê em finais felizes – tampouco em desenrolares felizes, ou em qualquer sequência ou instante que tente conferir tranquilidade. Seus seres não são malvados por completo.

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O diretor austríaco segue fiel a suas ideias desde que surgiu como nome promissor do cinema, no fim dos anos 80, no início da chamada Trilogia da Frieza. Algumas temas são recorrentes: a família que se destrói de dentro para fora, as crianças que expõem a maldade, a relação das pessoas com as imagens de suas pequenas máquinas.

Antes era o vídeo, agora é a imagem digital. Em O Vídeo de Benny, o adolescente assiste ao sacrifício de um porco e, com a mesma arma, mata uma amiga de classe em sua casa. O ato de crueldade será registrado em vídeo, sob processo analógico, época em que muita gente já empunhava câmeras para registrar o dia a dia com banalidade e frieza.

Para Haneke, o homem moderno é moldado pela relação com essas mesmas imagens, pela naturalização de um espetáculo mórbido que deixa ver novas camadas de quem o produz, não necessariamente o que ele contém. É como se Haneke dissesse: “olhe pelos olhos dos outros, pela reprodução do nada e, ao mesmo tempo, sob a ótica do mal”.

Inevitável, por isso, chegar a Violência Gratuita, no qual as personagens flertam com o público, no qual o próprio cineasta – em sua visão irônica da violência explícita levada ao cinema – deixa que sua obra seja escancaradamente adulterada; ou, claro, chegar a Caché, com seu protagonista atormentado pelas fitas de vídeo que recebe em sua casa.

Sem algo a agarrar, em Happy End o espectador é obrigado a olhar para trás, levado a observar Haneke e uma carreira moldada por grandes obras. Claro que isso não serve àqueles que agora descobrem o cineasta; e, é honesto dizer, todos esses filmes não devem depender necessariamente de um conjunto para sobreviverem.

Nesse sentido, Happy End pode ser considerado um dos piores filmes de Haneke, ainda que distante do desprezível. É às vezes contido demais se comparado a outras obras do autor. É sobre uma família que desmorona sem que deixe ver facilmente, no estranho limite em que a crueldade pode se converter também em algo cômico.

Basta pensar na imagem feita pelo celular da menina, no término, quando os filhos correm ao mar para tentar tirar dali o pai que tenta morrer. Há duas questões em jogo: o patriarca que não consegue satisfazer seu desejo e dar fim à vida e a situação dos filhos, que correm, em gesto engraçado, para retirar do oceano a figura que ainda representa o que eles possuem de mais forte: a suposta solidez do homem velho, a imagem da experiência.

Curioso notar que dois filmes que concorreram à Palma de Ouro em Cannes em 2017 possuem sequências-chave passadas em celebrações, nas quais se detonam os bons modos. Em The Square: A Arte da Discórdia, de Ruben Östlund, uma performance artística em um jantar chique termina em violência; em Happy End, o filho embriagado surge no meio da comemoração do noivado da mãe na companhia de imigrantes negros, como se todos pudessem almoçar sob o mesmo teto.

A imagem cristalina do belo jantar tem efeito curioso. O branco, o brilho, o mar azul ao fundo. Haneke compõe a paisagem dos sonhos logo cortada pela imagem crua do celular, pela mesma menina que empurra o avô rumo ao oceano. Duas gerações da família unem-se em suas necessidades. Enquanto tentam matar ou morrer, chegam a ser engraçadas.

(Idem, Michael Haneke, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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The Square, de Ruben Östlund

Bastidores: Amor

O “amor” se manifesta nas pequenas coisas, na troca de ideias, em conversas soltas. Durante um café da manhã, um lapso de memória de Anne sinaliza que o poder do tempo sobre corpo e mente dos simples mortais começou sua marcha irreversível. Aquela interrupção no fluxo da vida será apenas o primeiro de vários acidentes cerebrais rumo à deterioração física e mental de Anne. A princípio, Georges reage com vigor e exige o mesmo da companheira. Mas o tempo não costuma jogar a favor de quem se aproxima do fim. Ou daqueles que acompanham a caminhada final de seus entes queridos.

Susana Schild, crítica de cinema e roteirista, na revista Teorema (nº 22, agosto de 2013; pg. 28). Abaixo, Haneke (à esquerda) ao lado de seu casal de atores, Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant.

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O Tempo do Lobo, de Michael Haneke

A proximidade do presente é assustadora. À beira da linha do trem, pessoas ainda brigam por água, por algumas cabras, atiram contra cavalos para comer sua carne e, após a perfuração do pescoço do animal e o sangue que jorra, a chuva oferece a ideia de purificação. Michael Haneke faz assim um filme sobre o fim de certa civilização.

Ao longo de diversas situações, o espectador sabe pouco, um observador a certa distância dos fatos. Tudo é tão real que assusta: as pessoas não explicam por que estão ali, para onde desejam ir, do que fogem, a que recorrem, no que creem. Ao centro de O Tempo do Lobo, uma mulher e seus dois filhos tentam sobreviver.

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O espectador perguntará, a certa altura, o que ocorreu com o mundo, ou com a Europa: uma doença devastadora? Uma guerra? Alguém fala em contaminação da água. À beira da linha, eles esperam o trem que talvez não chegue nunca, ou que talvez tenha chegado com mais pessoas entre um e outro corte temporal. Surgem novas personagens. A selvageria de alguns explode em pequenos gestos, em poucos diálogos.

Estão confinados, antes, à escuridão. Quase não há sol. O filme é cinzento, próximo do preto e branco. O verde da natureza e o marrom das árvores secas chegam a tranquilizar. Um garoto vaga por perto, sem nunca se misturar ao grupo, alguém disposto a furtar para sobreviver, coberto da cabeça aos pés por roupas largas, com um gorro.

O futuro é o presente, diz Haneke: fosse este um filme ambientado em um continente pobre, ou em um país em guerra, ninguém suspeitaria do futuro que aponta. É das possibilidades que fala, é o horror que toca, maneiras de se ver pouco, ou o suficiente: uma história sobre pessoas perdidas em um espaço que conhecem, cercadas por tipos que acreditavam conhecer: os homens logo se convertem em animais selvagens.

A protagonista, Anne Laurent (Isabelle Huppert), fugiu para o campo com o marido e os dois filhos. O filme tem início com sua chegada à casa de campo, ao refúgio, local tomado por outra família. O problema está instalado, é antigo: a briga pela propriedade, o que faz pensar em algum velho faroeste sobre homens armados e crianças assustadas.

O invasor atira contra o marido de Anne. A face da mulher, suja de sangue, antecipa o que vem em seguida: o horror será feito pelo choque silencioso, mais do que pelos gritos; será formatado à base do rosto que talvez não entenda o peso dos problemas que agora recaem, nesse universo em que o mínimo é o máximo: nesse tempo de lobos, será preciso trocar objetos por água, o corpo por alimentos.

Os cães selvagens atacam em silêncio, são vistos a distância. O pássaro tenta escapar do casebre em que a família esconde-se, termina preso ao peito de seu dono, o filho de Anne, e, após morrer, recebe um pequeno funeral sobre o feno. Os sinais religiosos não escapam: ao fim, o mesmo menino lança-se ao sacrifício, na fogueira sobre os trilhos, talvez para tentar corrigir os problemas desse mundo estranho do qual é parte.

O mal está suspenso no efeito opaco. Haneke não poupa, não explica. Faz um filme misterioso que não chega a ser o mais brutal de seus trabalhos, nem o mais ambicioso. Como em outras de suas obras, insere o horror no espaço do real, das pessoas comuns, das famílias autodestrutivas. Se em obras contundentes como O Sétimo Continente o horror via-se preso a pequenos espaços, em O Tempo do Lobo o diretor volta-se ao grupo, à relação com estranhos, à sociedade vítima de suas necessidades básicas.

O campo visto do interior do trem, nas imagens do fechamento, talvez indique a saída. O objetivo, contudo, não é encontrar um desfecho de conciliação, um enigma a ser decifrado e algum alívio. Haneke muda o trajeto, foge do esperado. Sua locomotiva leva a lugar algum. Suas personagens começam e terminam em uma viagem de destino incerto.

(Le temps du loup, Michael Haneke, 2003)

Nota: ★★★★☆

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