mestre do suspense

Os sinais de Alfred Hitchcock em O Gato de Nove Caudas

A exemplo de Brian De Palma, Dario Argento seguiu os passos de Alfred Hitchcock. Desde seu primeiro filme, O Pássaro das Plumas de Cristal, o cineasta italiano soube como mobilizar a atenção do espectador e causar medo. Assassinos em câmera subjetiva, personagens mentalmente perturbadas, ligações familiares mal resolvidas e o uso de diferentes recursos visuais levam a pensar no mestre Hitchcock.

Em seu segundo filme, O Gato de Nove Caudas (a segunda parte da Trilogia dos Bichos, encerrada com Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza), essa influência fica ainda mais clara, como se vê abaixo.

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A espiral (Um Corpo que Cai)

A imagem da escada, vista em plongée em Um Corpo que Cai, será repetida por Argento em O Gato, mas em oposto, ou seja, em contra-plongée (como se vê abaixo). É o momento em que o homem cego vivido por Karl Malden desce das escadas do prédio, após conversar com uma das futuras vítimas do assassino.

Para Hitchcock, a espiral reproduz a vertigem da personagem central (James Stewart). Mas não só: é também a representação de seu mergulho no universo da personagem feminina, o mergulho em seu redemoinho, sua aproximação à morte. Em outro momento, a mulher vivida por Kim Novak reproduzirá a espiral também em seu cabelo.

Em Argento, a espiral pode representar o esmagamento, a estrutura (aqui captada com lente grande angular) de um universo maior que a personagem, que ainda ousa atravessá-lo. Também funciona como a representação do caminho oposto àquele que leva ao paraíso, à luz vista no alto da imagem.

O copo de leite (Suspeita)

Em uma das cenas mais famosas criadas por Hitchcock, Johnnie (Cary Grant) leva leite para sua amada, a protagonista de Suspeita (Joan Fontaine). O leite em questão talvez esteja envenenado. O espectador assiste ao movimento de Grant pela escada e o copo é iluminado a partir de seu interior, ganhando destaque.

Em O Gato, o espectador já sabe que o leite está envenenado. No momento em que o protagonista (James Franciscus) leva a bebida para a companheira (Catherine Spaak), Argento aproxima a câmera dos dois copos, com foco curto, dando destaque aos objetos. É uma clara referência ao filme do mestre inglês.

A face da vítima (Psicose)

Após levar diversas facadas, naquela que talvez seja a sequência mais conhecida da carreira de Hitchcock (e do cinema), Marion Crane (Janet Leigh) permanece caída no chão do banheiro. Em Psicose, a câmera aproxima-se de sua face, de seu olho.

Uma das vítimas do assassino agoniza pouco antes de morrer enforcada em O Gato. Argento capta o desespero dessa mulher, Bianca (Rada Rassimov), com sua saliva e seus últimos suspiros enquanto mantém a face colada ao chão. Ainda que as câmeras sejam colocadas em diferentes posições, difícil não enxergar semelhanças entre o filme de Hitchcock e o de Argento. Outro encontro entre mestre e pupilo.

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Quando Fala o Coração, de Alfred Hitchcock

A personagem de Ingrid Bergman adianta, em Quando Fala o Coração, que não poderia amar um assassino. No filme de Alfred Hitchcock, o suspense não sacrificará a história de amor, e o faro da bela protagonista não engana – mesmo quando seu par amoroso assume a identidade de um homem morto.

O suspense acompanha a história de amor e, em sonhos, as distorções da obra de Salvador Dalí. Constance Petersen (Bergman) é psicanalista em um hospital voltado a pessoas com distúrbios mentais e se vê apaixonada pelo novo diretor da instituição – um pouco jovem, como comentam todos, para assumir tal cargo.

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quando fala o coração

Ele, mais tarde revelado John Ballantyne (Gregory Peck), toma a identidade de um homem que acredita ter matado. Sequer sabe a real circunstância do caso, que envolve a morte do verdadeiro diretor da clínica. É uma das histórias de Hitchcock na qual um inocente acaba tragado a um redemoinho de aventuras e descobertas.

E o clima remete aos seus suspenses de espionagem dos anos 30. Difícil não pensar em Os 39 Degraus, com seu herói acidental, com personagens coadjuvantes sempre suspeitas. Qualquer passo ou entrada em novo cômodo carrega apreensão.

Apaixonada pelo homem perturbado, com amnésia e suspeito de assassinato, Constance resolve tomar o caso: torna-se ao mesmo tempo sua salvadora e amante. Explicar suas atitudes pela via racional não funciona. Em meio a Freud e Dalí, sempre se deixa levar pelo inexplicável, e a aventura torna-se um suplemento estranho.

A heroína transforma-se ao longo da história. Ao se entregar a John, Constance deixa de usar seus óculos. Quando precisa se esconder, mostrar seriedade ou se tornar outra pessoa, logo coloca o objeto na face. A metamorfose é evidente. O recurso funciona.

Se o labirinto de John é demarcado aos poucos, as divisões dela estão às claras: personagem mais interessante, a moça refugia-se nos óculos, tenta escapar das portas que levam ao seu interior: veste então a máscara da doutora séria e irretocável.

quando fala o coração

Quando a heroína entrega-se ao amante, na bela sequência do encontro de ambos no quarto dele, a imagem do casal é mesclada às imagens das portas que se abrem. E, à frente, quando John é preso, o rosto dela é fundido à cela da prisão.

A personagem de Peck não tem rumo, não se quer mostrar. Sua fuga é o desmaio. A de Bergman é força pura, com sua deliciosa lição: é sempre necessário forçar máscaras para seguir jogando esse estranho jogo, entre crimes e psicanálise.

Longe do melhor exemplar hitchcockiano, Quando Fala o Coração ainda assim tem momentos sublimes. As sequências na casa do amigo de Constance estão entre as melhores, como a passagem em que John desce as escadas carregando a navalha. A câmera põe o objeto em destaque, em plano detalhe para evidenciar o perigo.

Poucas vezes Bergman pareceu tão linda, e poucas vezes sua face foi tão bem explorada. Com o olhar à câmera, fundido à cela da prisão, ou mesmo voltado ao amante, ela diz (não em palavras) o que já se sabe: seu grande amor não é um assassino.

(Spellbound, Alfred Hitchcock, 1945)

Nota: ★★★☆☆

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Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcock

A imagem de Berlim Oriental não é nada assustadora: fora do avião, os passageiros americanos encontram um bando agitado de fotógrafos, como na sequência da chegada de Anita Ekberg à Itália, em A Doce Vida, de Federico Fellini.

Tais fotógrafos, em Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcock, não estão ali para fotografar uma celebridade ou alguém do universo das artes, como a bailarina que viaja no mesmo avião e se sente excluída ao não atrair os flashes das câmeras.

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O centro das atenções é o jovem cientista Michael Armstrong (Paul Newman), americano que acaba de declarar apoio aos comunistas para fazer valer o “progresso” da ciência em um mundo frio e dividido. Sem tocar diretamente na política, Hitchcock deixa que corra ao fundo. Convive com o clima, com o medo.

É o medo de ser reconhecido, o medo de ser visto, de não ser alguém da massa que aprendeu a entregar companheiros e vigiar a todos – à simples convocação.

O mundo do outro lado do muro, na Alemanha Oriental, não deixa de carregar, para Hitchcock, a visão do ocidental capitalista, crente no poder de sua ideologia, e, ainda mais, crente nas características indissociáveis do inimigo.

Não é preciso se esforçar, aqui, para mostrar a que lado do jogo se pertence. Basta o olhar ao outro, a vigia, o movimento, ao passo que público não demora a entender quem é quem nessa luta entre nações, o que se aplica ao herói, Michael.

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A personagem de Newman não se vendeu aos comunistas. Infiltrada, foi para o outro lado para tentar descobrir a chave de uma importante fórmula e trazê-la de volta aos Estados Unidos. O problema é que ele não contava com a companhia da namorada, Sarah Sherman (Julie Andrews), descontente ao ser deixada para trás.

Diferente do público, ela demora um pouco para descobrir que o amado não é um traidor. E se mantem como típica atrevida dos filmes de Hitchcock, a conduzir o público, a se deixar levar pela emoção – contraponto ao universo frio.

Não é o melhor item de Cortina Rasgada, mas é necessário. Personagens como Sarah injetam emoção, são inesperadas, impedem que o filme se renda ao político; com ela, resta a história de amor, a escapada que leva ao inesperado beijo.

O diretor não perde de vista a importância do relacionamento, ao passo que a busca pela fórmula nas mãos do inimigo – também o encontro com homens nada simpáticos, com suas salas frias – é apenas desculpa para contar essa história de amor.

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Constrói-se assim um filme para todos os gostos, de ações nem sempre naturais, e com sequências de suspense que não raras vezes desafiam a paciência do espectador, justamente para martirizá-lo, a fazê-lo sentir o “lado comunista”.

A certa altura, quando Michael encontra-se com um agente infiltrado, ele termina na casa de uma mulher e é encurralado pelo vilão. O resultado é uma briga e uma das mortes mais poderosas de um filme de Hitchcock: cada corte e cada movimento revelam, de novo, a paciência do diretor em compor o mal.

Michael não deseja ser notado. Incomoda-se com câmeras e qualquer olhar à volta. Quando é encontrado, ao fim, tenta escapar em meio a um teatro lotado, sua porta de fuga, em nova sequência impressionante – justamente em um teatro.

A massa desesperada quase separa o casal. A essa altura, fórmulas secretas do mundo comunista não importam mais. São efeitos ao fundo, que movem a história e, ainda assim, valem menos. O que importa é a emoção, a união de Michael e Sarah.

Nota: ★★★★☆

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Oito grandes filmes que terminam com portas fechando

De dentro para fora ou o oposto, para se sentir preso ou para ver a prisão dos outros. São assim as cenas da lista abaixo, de filmes variados, dirigidos por gênios da sétima arte. Certamente há milhares de obras com encerramentos semelhantes. A lista é apenas um apanhado rápido, de grandes filmes que seguem na memória do cinéfilo.

O Testamento do Dr. Mabuse, de Fritz Lang

Lang teve tempo de dirigir essa grande produção antes de fugir da Alemanha nazista. Seu filme mostra muitos problemas da época: como o nazismo e seu líder, Mabuse é onipresente. Suas forças agem como um vírus, um fantasma perseguidor, e o final mostra que a loucura segue viva em outro homem enclausurado.

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Interlúdio, de Alfred Hitchcock

O mestre do suspense, ao fim de Interlúdio, seu melhor filme dos anos 40, não precisa mostrar a morte do vilão. Prefere a sutiliza da porta fechada e, pouco antes, o caminhar do nazista (Claude Rains) ao covil dos comparsas, na bela mansão. O herói (Cary Grant) não lhe deu espaço em seu carro ao salvar a amada indefesa (Ingrid Bergman).

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Rastros de Ódio, de John Ford

Para alguns, o maior filme de Ford. Começa com a imagem da porta que se abre, do homem (John Wayne) que retorna da Guerra Civil e é recebido pela família. Mais tarde, ele encontra nova tragédia: os índios matam e raptam seus parentes. Ele sai em busca de justiça, da pequena sobrinha (transformada em índia) e, ao fim, volta ao isolamento.

rastros de ódio

Estranho Acidente, de Joseph Losey

O mestre Losey volta a trabalhar com um roteiro de Harold Pinter depois do magistral O Criado e explora um curioso jogo de desejos e relacionamentos sob o verniz de belos ambientes. O encerramento leva ao esconderijo: o pai de família (Dirk Bogarde) retorna para sua mansão e o espectador ainda ouve o som do acidente de carro.

estranho acidente

Os Rapazes da Banda, de William Friedkin

Antes de alcançar fama mundial com Operação França e O Exorcista, Friedkin dirigiu esse drama intimista sobre um grupo de amigos gays que se reúne para comemorar o aniversário de um deles. Após muitas discussões, jogos e velhas histórias, Michael (Kenneth Nelson) pede que seu companheiro apague a luz antes de sair.

os rapazes da banda

O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola

É o momento em que, ao olhar da mulher (Diane Keaton), o marido (Al Pacino) assume o posto de chefão da máfia, da família, e recebe os comparsas para ter a mão beijada. Leva à escuridão e à não menos genial música de Nino Rota, além de confirmar a ideia geral de Coppola: uma obra sobre salas fechadas, apenas para alguns convidados.

o poderoso chefão

Kramer vs. Kramer, de Robert Benton

Drama belo e sincero, às vezes feito apenas de olhares, como no momento em que Ted (Dustin Hoffman) conta com a ajuda do pequeno filho Billy (Justin Henry) para fazer o café da manhã. Eles aguardam a chegada da mãe, que deverá levar o menino embora. Após um diálogo revelador, o elevador fecha-se e a obra chega ao fim.

kramer vs kramer

O Jogador, de Robert Altman

No reino de Hollywood, os criminosos saem pela porta da frente. Aqui, o protagonista (Tim Robbins) é um produtor de cinema perseguido por um roteirista vingativo, alguém que precisa se salvar. Na cena final, antes de caminhar para sua mansão, ele confere a barriga da mulher grávida e anuncia assim a chegada do herdeiro. Ele venceu.

o jogador

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Ladrão de Casaca, de Alfred Hitchcock

O velho ladrão não gosta de ser chamado de “gato”. O velho apelido revive seu passado, tempos difíceis e anteriores à guerra. Mas talvez ele não tenha mudado tanto. Ou talvez seus crimes não caibam mais no mundo limpo, ao sol, de gente rica e paz.

O tempo de Ladrão de Casaca leva todos a desconfiar de John Robie (Cary Grant), o “gato”: como aparentemente não há outro de sua espécie, ele é sempre o suspeito de sempre. Por isso, segue negando a autoria dos crimes.

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Uma bela francesa, filha de outro velho ladrão, insiste que ele é o responsável pelos furtos de algumas joias. Sua identidade é fácil: outra mulher que surge em sua vida, interpretada por Grace Kelly, também não será enganada e logo reconhece o ladrão.

Nesse estranho mundo pós-guerra, Robie não pode deixar de ser ele próprio, e talvez seja este seu grande trunfo. Nesse novo mundo de tranquilidade abalada, a agência de seguros responsável pelas joias das vítimas ricas precisa recorrer justamente ao ladrão para tentar solucionar os crimes.

Ao mesmo tempo problema e solução, Robie é tragado ao vai e vem do “gato”, dele ou de qualquer outro que utilize seus métodos, que faça reviver o velho homem.

Grant faz o que sabe bem: entrega ao público a maravilhosa caracterização da personagem perdida mas consciente, ao mesmo tempo abobalhada e esperta demais, o que retorna em Intriga Internacional, com o homem que precisa provar inocência.

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E Alfred Hitchcock faz do filme pura diversão, sem levá-lo a sério por completo – ao contrário de Um Corpo que Cai ou Marnie. Explora essa brincadeira com o gato, o animal de verdade, que vem e vai sobre o telhado, na abertura, enquanto o criminoso age de quarto em quarto.

Os sinais do poder do cinema não param por aí: a certa altura, Hitchcock mostra um garçom manco que deixa a champanhe escapar para fora da garrafa (como se ejaculasse) e, depois, faz um paralelo entre imagens do casal central e dos fogos de artifício.

Contra a malícia de Grant, à moda antiga, está a sofisticação de Kelly, a bela menina solteira sob a saia da mãe, também sob sua influência – que lhe indica os próprios desejos ao dizer que não deixaria um homem como Robie passar.

Por sinal, Frances Stevens (Kelly) surpreende: quando menos se imagina, avança e beija o herói. Depois fecha a porta e desaparece até o dia seguinte. E ele, segundo a brincadeira de Hitchcock, até certa altura não se mostra atraído pela musa.

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Nesse novo mundo supostamente pacífico, os homens lutam mais para salvar a identidade, ou para se livrar dela, e menos para saltar de cama em cama. Pois o mundo de Robie mudou: agora ele é suspeito até que prove o contrário.

Ele deverá voltar a escalar telhados e, por isso, é fonte de atração à bela menina rica: é diferente daqueles que precisam de fantasias, o que remete aos momentos finais. A malícia de Robie é dizer a verdade, é ser ele próprio.

E a menina, por sua vez, está disposta a acompanhá-lo nessas aventuras e diversões – a exemplo da personagem de Kelly em Janela Indiscreta, decidida a provar seu amor e, para isso, colocar a vida em risco ao invadir o apartamento do assassino.

O diretor adora personagens atrevidas. Faz de suas belas a imagem impossível, ou quase, pois parece impensável ver Kelly – uma das mulheres mais lindas do mundo, intocada, ou, como diria Truffaut, “hierática” – disposta àquilo. Nem vale questionar a profundidade do amor. O que vale mesmo é a diversão.

Nota: ★★★★☆

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