memória

Doris Day (1922–2019)

Entre 1959 e 1962, depois de uma carreira que já tivera grandes momentos, Doris rodara uma série de filmes – Confidências à Meia-Noite, Volta Meu Amor, Carícias de Luxo e outros – que a estabeleceram, para surpresa geral, como a bilheteria número 1 do mundo. Não que os filmes fossem grande coisa. Eram comédias urbanas, contemporâneas, em que, por um desses paradoxos que então floresciam em Hollywood, a graça estava em Doris resistir às investidas do galã (quase sempre Rock Hudson) contra a sua virgindade – a qual só era justiçada no último rolo do filme e, mesmo assim, depois do casamento. Talvez parecesse mais engraçado porque, ao fazer aqueles papéis de virgem, ela já tivesse quase quarenta anos. Os filmes eram banais, divertidos e inofensivos, donde o enorme sucesso, mas os críticos foram soezes. Eles não julgavam os filmes – julgavam Doris Day.

Ruy Castro, jornalista e escritor, em Saudades do Século 20 (Companhia das Letras; pg. 50).

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Marilyn, por Norman Mailer

Bibi Andersson (1935–2019)

Quando eu era muito jovem, eu tinha um certo tipo de inocência, pelo visto o suficiente, que a vida não me deixou manter. Eu era inocente, no sentido que eu era muito confiante, eu amava as pessoas, eu amava a vida. Mas eu não era tímida. Eu estava desabrochando. Eu era eu mesma naquelas roupas em O Sétimo Selo, e eu acho que se percebe isso. Quando eu vejo hoje, eu acho bonito. Naqueles dias, eu não estava consciente do que estava fazendo. Eu só estava tentando ser natural.

Bibi Andersson, atriz, sobre seu trabalho no filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, em trechos de um seminário publicados em março de 1977 na revista American Film e reproduzidos no catálogo da mostra Ingmar Bergman, de 2012 (Centro Cultural Banco do Brasil; pg. 233).

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Vídeo: O Sétimo Selo

Stanley Donen (1924-2019)

(…) era um dançarino e um homem de cinema. Dominava tanto as piruetas humanas quanto as da câmera. Foi ele o introdutor de uma técnica que depois seria adotada por todo mundo: dividir a tela em duas, três ou dez partes, o que seria chamado de tela múltipla. E o freeze-frame, a imagem congelada? Era um recurso que já vinha do cinema mudo, mas, modernamente, também foi ele quem voltaria a usá-lo. A prova de que Donen não era apenas um apêndice de Gene Kelly está no fato de que teve uma grande carreira paralela sem o parceiro, inclusive como diretor de ótimos não-musicais, como Indiscreta, Charada, Arabesque e Um Caminho para Dois. O contrário, infelizmente, não aconteceu: longe de Donen (ou de Vincente Minnelli, seu outro mentor), Kelly nunca se deu bem. E suas tentativas de dirigir sozinho foram uma tristeza – vide Hello, Dolly!, filme mais dirigido por Barbra Streisand do que por ele.

Ruy Castro, jornalista e escritor, no jornal O Estado de S. Paulo. (11 de abril de 1998; o artigo está no livro Um Filme é Para Sempre, com organização de Heloisa Seixas; pg. 256). Abaixo, Donen entre Donald O’Connor e Gene Kelly no set de Cantando na Chuva, que dirigiu com o segundo.

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Milos Forman (1932-2018)

Bruno Ganz (1941-2019)

(…) como ator, como Bruno Ganz, às vezes tive a sensação de que estava fazendo algo extraordinário e, em certos momentos, até celestial. Mas o que mais me tocou foi que durante vários meses depois do lançamento do filme, quando as pessoas – especialmente mulheres – me reconheceram, em Berlim ou em outro lugar, os olhos arregalavam e eles diziam: “É o anjo da guarda”. Na verdade, [o papel] me levou para um anjo. E as pessoas nos aviões disseram: “Ah, não precisa ter medo, porque, com você aqui, nada pode acontecer. Agora estamos a salvo”. Ou uma mãe disse ao filho: “Olha, tem o seu anjo da guarda”. Eles não estavam brincando. É claro que eles sabiam que somos homens e mulheres reais, mas de alguma forma … É estranho. Eu não sei o que realmente aconteceu. Essa foi uma sensação incrível. Eu amei isso. Porque isso significa muito mais do que as pessoas dizendo: “Você é um ator muito bom” ou “Adoro o seu trabalho”. Se eles disserem: “Oh, você é um anjo”, é como um milagre. De alguma forma eu me tornei um anjo, e quem, exceto eu, experimentou isso em vida?

Bruno Ganz, ator, sobre sua experiência com Asas do Desejo, no qual interpreta o anjo Damiel, em A Danish Journal of Film Studies (número 8, dezembro de 1999; pg. 50; veja aqui em PDF; a tradução é deste site). Abaixo, Ganz em Asas do Desejo.

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A Festa, de Sally Potter
A Casa que Jack Construiu, de Lars von Trier
Os anjos de Wim Wenders pairam sobre Berlim

Bernardo Bertolucci (1941–2018)

(…) durante muito tempo abordei cada plano como se fosse o último, como se fossem me tirar a câmera assim que eu o tivesse filmado. Eu tinha, portanto, a sensação de roubar cada plano, e nesse estado de espírito é impossível refletir em termos de “gramática” ou até mesmo de lógica. Ainda hoje, não preparo nada com antecedência, não faço nenhuma decupagem prévia. Geralmente tento sonhar durante o sono com os planos que vou filmar no dia seguinte no set. Com um pouco de sorte, consigo. Senão, quando chego ao set de manhã, peço para ficar um pouco sozinho e passeio no cenário com meu visor. Olho através dele e tento imaginar os personagens se mexendo e dizendo suas falas. É um pouco como se a cena já estivesse lá, mas invisível ou impalpável, e que eu tentasse adivinhá-la, materializá-la.

Bernardo Bertolucci, cineasta, em declaração a Laurent Tirard em Grandes Diretores de Cinema (Editora Nova Fronteira; pgs. 153 e 154).

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Ermanno Olmi (1931–2018)