melhor atriz

Kitty Foyle, de Sam Wood

Os confrontos de Kitty Foyle são conhecidos e seriam explorados muitas vezes mais tarde. Mulheres contra homens, contra o mundo, contra as tradições – mas levadas, e sem muita a fazer, pelo coração. Traem a si mesmas, estão à margem. À época, na passagem aos anos 40, a personagem de Ginger Rogers tinha ainda alguma novidade.

No início da obra de Sam Wood, com roteiro de Dalton Trumbo, as mulheres pediam por direitos, desejavam espaço na sociedade. Logo vem o sufrágio. Antes, enquanto os homens davam as cartas, restava a elas o prazer de “pertencer a uma posição”, a um “papel”, como no momento em que uma delas entra no bonde. Forma-se um corredor para que desfile.

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É como se o filme dissesse: as mulheres eram mulheres, eram damas, como princesas. A igualdade leva ao mesmo bonde, mas a novo visual: agora as mulheres amontoam-se, desajeitadas, entre homens. Alguns em pé, outros sentados. Entre a multidão, todos chegam ao mesmo patamar. Passou o estado da beleza, da classe, do sonho.

O filme tem seu lado machista. É inteiro sobre o confronto da protagonista com este estado, com esse mundo que, em um cinema acanhado, não revela todas as suas transformações. Pequenas são elas, ainda que marcantes: Foyle, ao centro, é a datilógrafa que aprendeu a não sonhar, vítima (mais de uma vez) dos sentimentos, disposta a enfrentar séculos de uma linhagem familiar emoldurada em palácios, à moda da Filadélfia.

Ama o rapaz rico, seu chefe. Nem ele, um homem, pode contra sua linhagem. Está destinado a seguí-la: casar-se com uma mulher do meio, ter um filho com seu nome. O destino está dado. Ao contrário, desafio o texto, o destino só pode ser quebrado quando é o homem que dá o passo: ele resolve fugir para a América Latina (refúgio predileto dos bandidos do cinema americano) na companhia da amada. É a forma de ficarem unidos.

Trumbo tem boa resposta ao fim. Não vale revelar o desfecho, claro. Sua mulher ainda guarda força – sem renunciar à beleza dos sentimentos. Não se pede tanto, claro. Foyle é uma boneca cuja força escorrega pelos dedos, perde-se no sorriso irresistível e infantil de Rogers, que ficou com o Oscar de melhor atriz em 1941.

A resposta para resolver seu impasse – entre dois homens, duas cidades, dois tempos – vem por ela própria: seu reflexo no espelho encara-a para lhe dizer verdades. Ou seja, a mulher precisa confessar a si mesma, do reflexo racional à carne cheia de paixão, que seguir o coração pode não ser o melhor negócio. É a vez dos tempos racionais. Os sentimentos aquietam-se. O trabalho de Wood tem algo moderno.

O filme dá-se em confronto interno, da mulher à mulher. Apenas ela poderá resolvê-lo. Entre uma lembrança e outra a neve de seu pequeno globo de vidro toma a tela: estão por ali as partículas que embaçam, que talvez impeçam que se veja a verdade. A trilha de Foyle é longa, não a mais justa. Difícil resistir ao filme – mesmo com seus pontos baixos, sua visão estreita das mudanças que, nos anos 40, gritavam a todos os lados.

(Idem, Sam Wood, 1940)

Nota: ★★★☆☆

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Centrais
As mulheres em destaque abaixo apoiam-se em diferentes máscaras: uma deles veste 13 personagens; outra, transexual, luta para ser apenas uma – contra os preconceituosos que não a aceitam. Há também uma mulher fechada, com dificuldade de amar, porém poetisa famosa; outra que perdeu seu amor e vaga sozinha, além da aparente liberal que termina sob as inesperadas investidas do pai descolado.

Cate Blanchett, em Manifesto

Cynthia Nixon em Além das Palavras

Daniela Vega em Uma Mulher Fantástica

Kim Min-hee em Na Praia à Noite Sozinha

Sandra Hüller em Toni Erdmann

Outras que merecem destaque: Alexandra Borbély em Corpo e Alma; Annette Bening em Mulheres do Século 20; Eili Harboe em Thelma; Emma Stone em La La Land: Cantando Estações; Florence Pugh em Lady Macbeth; Judith Chemla em A Vida de uma Mulher; Kate Winslet em Roda Gigante; Maria Ribeiro em Como Nossos Pais; Natalie Portman em Jackie; Patrícia Niedermeier em Guerra do Paraguay; Paula Beer em Frantz; Ruth Negga em Loving; Soria Zeroual em Fátima; Yuliya Vysotskaya em Paraíso.

Coadjuvantes
A mãe sofre e não larga o cigarro. Ao piano, tem em cena um momento tocante; outra, mais jovem, faz o possível para sustentar os filhos pequenos quando o Estado deixa de representá-la. Há também a mãe poderosa que mantém as rédeas da família, contra o marido descontrolado em conflito com o filho. Destaque ainda à criada que luta para ter voz e à moça de cabelo vermelho, em mundo à parte, que não raro rouba a cena.

Clarisse Abujamra em Como Nossos Pais

Greta Gerwig em Mulheres do Século 20

Hayley Squires em Eu, Daniel Blake

Naomi Ackie em Lady Macbeth

Viola Davis em Um Limite Entre Nós

Outras que merecem destaque: Emma Bell em Além das Palavras; Michelle Williams em Manchester à Beira-Mar; Naomie Harris em Moonlight: Sob a Luz do Luar; Raph em Mistério na Costa Chanel; Solène Rigot em Faces de uma Mulher; Tilda Swinton em Okja; Zita Hanrot em Fátima.

Veja também:
Manifesto, de Julian Rosefeldt
Toni Erdmann, de Maren Ade
Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

Para Sempre Alice, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland

Para Alice (Julianne Moore), sua doença leva à “arte de perder”. Diagnosticada com Alzheimer aos 50 anos, aos poucos ela passa a viver outra vida em Para Sempre Alice. O drama é sobre essa perda, a suposta arte de viver de outra forma.

Uma de suas filhas, Lydia (Kristen Stewart), entende que a vida pode ser, também, uma arte de perder: durante o filme, ela serve de lição à mãe. Ao contrário de Alice, Lydia está disposta a arriscar, a talvez perder, a talvez receber algo. Não se sabe.

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A moça, diferente da mãe, não deseja fazer faculdade, ter um emprego comum. Parece não desejar a vida simples e previsível – a mesma vida que Alice buscou.

Apesar do drama do Alzheimer, Para Sempre Alice é mais interessante quando visto pelo prisma das diferenças entre mãe e filha: a maneira como elas ficaram mais próximas após a descoberta da doença – e apesar dela.

O filme tem tom leve mesmo com o drama pesado ao fundo. De repente, a trilha sonora toma a tela, desaparece, e volta a surgir. Drama familiar que não deixa explosões, não deseja confrontos fáceis. Prefere leves pinceladas de dor, cada vez maiores.

Ao drama da doença soma-se outra interessante questão: Alice é professora de linguística. Com Alzheimer, passa a perder as palavras. Durante uma palestra, no início, esquece o que ia dizer, talvez algum termo importante; depois, em outra, tem de usar uma caneta para marcar o texto, sob o risco de retornar ao ponto anterior.

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Para Sempre Alice faz essa ponte entre a vida pública e a privada, com a tentativa de estar bem em ambas. Para uma renomada professora, nada mais comum do que dar palestras, aulas, e nada mais complicado do que perder as preciosas palavras.

Em casa, o tom é outro: Alice cozinha, conversa com os filhos, recebe o marido e também a nova namorada de um dos filhos. Sem perceber, dá as boas vindas à moça duas vezes, sempre causando certo susto nos outros, menos em si própria.

Nessa arte de perder, quem perde talvez não seja o maior sofredor. Quem perde, aqui, sequer percebe a perda: segue em frente e ignora o que foi deixado para trás, e simplesmente vaga, para além da memória, à base do impulso.

A família de Alice, caso não houvesse a doença, poderia ser definida como “perfeita”: o marido sempre presente, trabalhador; a filha que deseja ter filhos, e que depois revela esperar gêmeos; o outro filho, tão belo e sério – visto a distância – que não deixa duvidar do que parece ser. E há Lydia, o ponto fora do eixo.

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Ao mesmo tempo em que busca outro caminho, busca a arte de encontrar palavras – talvez para se perder. Novamente, não se sabe. Viver longe das certezas é o que move a menina, o que Alice e sua família provavelmente não entendem.

Mas viver é a arte de se perder – e talvez apenas a filha compreenda isso. Não à toa, ela toma o caminho inesperado: enquanto a doença de Alice avança e a desconecta cada vez mais do mundo, a filha volta para perto da mãe e da família.

O fim não poderia ser diferente, com Alice e Lydia, com a vida que não é mais a mesma, com seres perdidos em palavras e, como anuncia o momento final, ainda tentando encontrar o caminho, ou apenas uma palavra: “amor”.

Nota: ★★★☆☆

As melhores atuações de 2014

Como grandes filmes, 2014 teve grandes atuações. Atores e atrizes famosos, do primeiro escalão de Hollywood, e outros nem tanto, do cinema feito fora dos Estados Unidos – e de países variados. Entre eles, o Brasil.

Melhor ator

Dois deles não tem escrúpulos: são capazes de tudo por dinheiro e fama. Outro, portador do vírus da aids, consegue mudar ao longo de sua história: é no caminhar duro, com sua doença, que ele continua a sobreviver e muda. Há também um jovem viciado em drogas e um espião sem prazer na vida e na profissão.

Anders Danielsen Lie, em Oslo, 31 de Agosto

Oslo

Jake Gyllenhaal, em O Abutre

abutre

Leonardo DiCaprio, em O Lobo de Wall Street

o lobo de wall estrett

Matthew McConaughey, em Clube de Compras Dallas

clube de compras dallas

Philip Seymour Hoffman, em O Homem Mais Procurado

o homem mais procurado

Melhor atriz

Entre elas, uma é vítima total, explorada em outro país. Sofre, não deixa aparecer seu amor. Talvez não ame nenhum dos homens em seu caminho. Outra, uma mãe, ama o filho incondicionalmente. Há também duas mulheres que dão dores de cabeça aos amantes e, por fim, o espírito livre que faz o público ficar um pouco mais leve.

Leandra Leal, em O Lobo Atrás da Porta

o lobo atrás da porta

Luminita Gheorghiu, em Instinto Materno

instinto materno

Marion Cotillard, em Era Uma Vez em Nova York

imigrante

Paulina García, em Gloria

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Rosamund Pike, em Garota Exemplar

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