McGuffin

A Trapaça, de David Mamet

As personagens de David Mamet ora ou outra são vítimas dos sentimentos: deixam-se levar pelos outros e, quando percebem, estão presas a uma trapaça. Quem serve o público é quase sempre o inocente, ou a vítima, a personagem que cairá na teia dos golpistas. É quem serve o filme com sentimentos, os únicos verdadeiros.

Ao conhecer os métodos de Mamet, o espectador começa a ficar viciado. O diretor e roteirista, tão aclamado, quase sempre se rende às situações, às possíveis e previsíveis reviravoltas – mais que às personagens. E, a certa altura, é como se o próprio Mamet reconhecesse a necessidade de superar seu método: contra a reviravolta que se desenha ele impõe outra, talvez ainda mais mirabolante, às vezes inverossímil.

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É assim em A Trapaça, de 1997. Desde os primeiros instantes fica claro que alguém enganará o protagonista – desde sempre confiável por trás dos óculos redondos, do jeito sério como se coloca ao chefe (Ben Gazzara), ao questionar sua parte nos negócios – para conseguir o projeto que desenvolve, considerado lucrativo e ultrassecreto.

Ao público não é entregue tudo. O projeto – mais tarde roubado, claro – é um McGuffin, ou seja, algo vital ao movimento da trama, mas que não precisa sequer ganhar forma material. Além do recurso narrativo, Mamet mostra que aprendeu outras lições com Alfred Hitchcock, a começar por uma coleção de personagens cruéis e detalhes variados, como chaves, livros, armas, cofres.

Cada pequena peça leva o honesto Joseph (Campbell Scott) à derrocada. Entre os tubarões escondidos por ali ele é quase nada. Em viagem a algum lugar paradisíaco ao qual os mesmos tubarões fogem para fazer seus negócios (e conseguir presas), ele acredita ser importante. Impressiona os demais com números, tenta resistir aos flertes de uma jovem companheira da empresa e conhece um homem atraente.

Ela, interpretada por Rebecca Pidgeon, deseja ganhar sua confiança: oferece-se sem ruborizar, ao mesmo tempo suspeita, ao mesmo tempo amável. Ele, o homem atraente, é vivido por Steve Martin, um ricaço que pede ao outro não mais que a amizade. E, com ela, ganha a atenção do espectador, que logo percebe o desenho da trapaça.

Tão importante quanto a teia é a ambientação, além dos sinais paralelos. Mamet leva à espionagem empresarial, ao meio de pessoas educadas, bem vestidas, ao universo quase exclusivamente americano que se impõe: se não tem uma conta na Suíça, basta um clique no computador para concretizá-la; se não faz parte de um clube chique e exclusivo, basta comprar o passaporte e colocar nele a assinatura.

O que os golpistas oferecem é, antes, a elegância – mas embalada pela ideia da camaradagem. O golpe maior está na cegueira em relação ao mesmo sistema que antecede a espionagem empresarial e a “empresa” que administra o golpe: o próprio sistema que se escancara, no qual Joseph ainda tentava acreditar. Ao fim, quando um dos criminosos diz que o dinheiro move o mundo, está dizendo a pura verdade.

E, de novo, dizendo algo que extrapola o espaço dos criminosos, com suas salas e clubes falsos: está apenas falando a língua à qual Joseph manteve-se adepto, um jovem escudeiro que lança números altos em pequenas lousas, nos paraísos perdidos, em reuniões com homens de negócio. Para, quem sabe, retirar deles alguns suspiros.

Quando o fundo e a frente se confundem, o golpe é quase natural. Por ali, Joseph é esmagado pelos próprios trejeitos, pelos sentimentos, pela maneira como ainda alimenta esperanças no público. Como se, entre tantos larápios, o fraco fosse desejável.

(The Spanish Prisoner, David Mamet, 1997)

Nota: ★★★☆☆

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Anjo do Mal, de Samuel Fuller

O casal surge em circunstâncias estranhas: ele sabe bem o que fazer, o que quer furtar, ela não tem ideia do valor do material que carrega a tiracolo. O bandido deseja alguns trocados, a bolsa dela. É um batedor de carteiras. Ela – também trapaceira atrás de alguns trocados – deseja apenas terminar seu serviço.

O meio desses seres comuns e criminosos abre espaço para a política em Anjo do Mal. Ela carrega um microfilme para os comunistas, com valiosas informações sobre os americanos. Ele, a certa altura, estranhamente se inclinará à consciência – não pelo seu país (que o prendeu três vezes), mas pela possibilidade de que tudo pode ser pior.

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A Guerra Fria é pano de fundo. À frente estão os alienados, gente que se vende fácil. O diretor Samuel Fuller é um mestre em criar o clima que se põe ao meio: ao longo de sua obra, importa menos a política, ainda que ela – sintetizada no microfilme – seja o que Hitchcock chamou de McGuffin (vital à continuidade da ação, mesmo que secundário).

No encalço do bandido e protagonista, Skip McCoy (Richard Widmark), estão os policiais americanos e os comunistas. Ou seja, o mundo todo.

Não dá a mínima àquilo. Quando parece mudar, ao fim, segue o mesmo: deixa à sua nova garota, sua perfeita companheira, a tirada final. O mundo está com ele, talvez, e agora é feito – talvez não em sua totalidade – de pessoas assim: cínicas, debochadas.

Ao roubar esse microfilme, McCoy obriga o filme a se voltar ao submundo, à sujeira: nem às salas simples dos comunistas, tampouco à delegacia abarrotada. O mundo de McCoy é cinematográfico, falso não fosse verossímil – ou caso não dialogasse com o herói acidental. O protagonista vive à deriva, em casa de madeira sobre o mar.

Nesse espaço onde quase tudo acontece, McCoy está à beira de se despregar: apenas algumas tábuas de madeira separam o homem durão de todo o resto – da grande cidade, dos comunistas, dos policiais, daquele universo considerado real.

Quando fica sabendo que os comunistas estão dispostos a pagar caro pelo microfilme, McCoy não perdoa: joga o preço nas alturas. Poderia ter faturado 500 dólares, mas quer mais, e sabe que pode cobrar: pede nada menos que 25 mil dólares.

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Os comunistas devem pagar mais, aponta o texto. Aqui, tudo está à venda – sobretudo aos comunistas. Na América de Fuller os bandidos tornam-se heróis, ou fingem ser. O filme quer menos politização, mais o bom entretenimento que nasce de histórias de amor entre ordinários, de bolsas furtadas no metrô, de chantagens às claras.

Além de McCoy e de sua companheira, a esperta Candy (Jean Peters), há outra importante personagem. Trata-se de Moe, vivida por Thelma Ritter, que diz as coisas certas e age como quase todos em Anjo do Mal: vende informações e gravatas ao mesmo tempo, e fatura assim alguns trocados para sobreviver.

Ao negar aos comunistas informações sobre o anti-herói, deverá encontrar o que sempre procurou: a morte. Ela sonha em ser enterrada em uma cova descente, não em qualquer vala comum. Em uma das sequências mais fortes, McCoy sai em busca de seu corpo, realiza seu desejo. Não é um mero batedor de carteiras.

Para Fuller, McCoy é a complicação, o fruto de interesse, alguém que desafiará o espectador a cada cena, disposto a chegar ao certo sempre pelo caminho inesperado. Seu modo de ser torna-o autêntico, com direito à bela garota e à porta da frente.

(Pickup on South Street, Samuel Fuller, 1953)

Nota: ★★★★★

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Alguns itens inesquecíveis de dez filmes de Alfred Hitchcock

Ao manipular o espectador e guiá-lo ao suspense, Alfred Hitchcock entregou ao público detalhes marcantes e até passageiros. Alguns ajudam a entender o termo McGuffin, provavelmente criado pelo mestre do suspense.

Ou seja, o que é vital para as personagens, mas que não serve de combustível à trama e às necessidades do espectador – como a estatueta de Intriga Internacional e talvez o dinheiro roubado pela Marion Crane de Psicose. Na lista abaixo, há ainda outros detalhes levados à frente por Hitchcock e inesquecíveis ao olhar de qualquer cinéfilo.

O pincel de barbear (O Homem que Sabia Demais)

Um homem simples é avisado de que algo importante está escondido em um pincel de barbear, no banheiro do hotel. É apenas o início de um caso de intriga e sequestro.

o homem que sabia demais

Os rolos de filme e o pacote com a bomba (Sabotagem)

O próprio diretor lamentou a explosão da bomba. Nessa obra estranha, ele mostra os últimos momentos da vida de uma criança: sua passagem por ruas lotadas e com a bomba no ônibus.

sabotagem

O nome da desaparecida (Froy) no vidro do trem (A Dama Oculta)

A protagonista não entende o nome de uma senhora simpática, devido ao barulho do trem. É quando resolve escrevê-lo no vidro – mais tarde, o sinal para saber que não enlouqueceu.

a dama oculta

O copo de leite (Suspeita)

Estranho ver Cary Grant como vilão, levando um copo de leite para a mulher, talvez para matá-la. É o momento mais famoso do filme, no qual Hitchcock colocou uma luz dentro do copo.

suspeita

O anel de esmeralda (Sombra de uma Dúvida)

A menina ingênua ganha um anel de seu tio assassino. A inscrição no objeto, feita com iniciais, ajuda a heroína a descobrir a verdadeira face do homem estranho, em passagem por sua casa.

sombra de uma dúvida

A chave em poder de Alicia (Interlúdio)

O vilão nazista esconde urânio em sua adega, em sua casa na Argentina. Nesse covil de bandidos, a bela moça tem de pegar a chave da adega e conduzir o herói ao sucesso.

interlúdio

Os sapatos que se esbarram (Pacto Sinistro)

Antes de aceitarem cometer crimes trocados, os homens esbarram seus sapatos no interior de um trem, momento sutil em que a relação deles sugere mais que acordos verbais.

pacto sinistro

O cabelo preso de Madeleine (Um Corpo que Cai)

O protagonista, vivido por James Stewart, compara o cabelo de sua perseguida à imagem de um quadro, em um museu. A imagem também remete à espiral de seus pesadelos, à sua vertigem.

um corpo que cai

A estatueta comprada no leilão (Intriga Internacional)

De novo, o vilão esconde planos secretos no interior de um objeto e, de novo, um homem simples envolve-se com perigosos espiões em tempos de Guerra Fria.

intriga internacional

O jornal com o dinheiro escondido (Psicose)

Antes de o assassino levar o jornal, Hitchcock trabalha o suspense como poucos: ele observa o quarto, limpa cada espaço, dá fim ao cadáver da mulher. E não deixa o jornal por ali.

psicose