Martin Scorsese

Bastidores: Era uma Vez na América

(…) quando criança, a América existia na minha imaginação. Eu acho que a América existia na imaginação de todas as crianças que compravam histórias em quadrinhos, liam James Fenimore Cooper e Louisa May Alcott, e assistiam a filmes. A América é a negação determinada do Velho Mundo, o mundo adulto. Eu morava em Roma, onde nasci em 1929, quando era a capital do melodrama imperial de Mussolini – cheio de jornais mentirosos, laços culturais com Tóquio e Berlim, e um desfile militar após o outro. Mas eu vivi em uma família antifascista, que também era dedicada ao cinema, então eu não tive que sofrer qualquer ignorância. Eu vi muitos filmes.

(…)

A América era algo sonhado por filósofos, vagabundos e infelizes do mundo antes de ser descoberta por navios espanhóis e povoada por colonizadores de todo o mundo. Os americanos só a alugaram temporariamente. Se eles não se comportam bem, se o nível mítico é reduzido, se os seus filmes não funcionam mais e a história assume uma qualidade comum do dia a dia, então podemos sempre expulsá-los. Ou descubra outra América. O contrato pode sempre ser retido.

(…)

Eu não sou fascinado, como você diz, pelo mito do Ocidente, ou pelo mito do gângster. Não estou hipnotizado, como todos a leste de Nova York e a oeste de Los Angeles, pelas noções míticas da América. Estou falando do indivíduo e do horizonte infinito – Eldorado. Acredito que o cinema, exceto em alguns casos muito raros e notáveis, nunca fez muito para incorporar essas idéias. E se você pensar sobre isso, a própria América nunca fez muito esforço nesse sentido. Mas não há dúvida de que o cinema, ao contrário da democracia política, fez o que pôde. Basta considerar Sem Destino, Taxi Driver, Scarface ou Onde Começa o Inferno. Adoro os vastos espaços de John Ford e a claustrofobia metropolitana de Martin Scorsese, as pétalas alternadas da margarida americana. A América fala como fadas em um conto de fadas: “Você deseja o incondicional, então seus desejos são concedidos. Mas de uma forma que você nunca reconhecerá”. Minha produção de filmes joga com essas parábolas. Eu aprecio muito a sociologia, mas ainda estou encantada com fábulas, especialmente pelo seu lado sombrio.

Sergio Leone, cineasta, em entrevista a Pete Hamill durante a realização de Era Uma Vez na América, seu último filme (leia aqui, em inglês; a tradução é do site). Abaixo, o diretor durantes as filmagens.

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Bergman segundo Scorsese

Nos anos 1950, havia certos filmes e cineastas que tinham um impacto dramático nos espectadores, nas possibilidades do cinema, no que podiam fazer e até onde podiam ir. Havia Kurosawa, com Rashomon (1950) e Os Sete Samurais (1954). Havia Fellini, com Noites de Cabíria (1957) e A Estrada da Vida (1954). Havia Satyajit Ray com a trilogia Apu. Havia os filmes russos como Quando Voam as Cegonhas (1957). E havia Bergman. É impossível superestimar o efeito que esses filmes tinham nas pessoas. Não que Bergman tenha sido o primeiro artista a confrontar temas sérios. Mas ele havia trabalhado com uma linguagem simbólica e emocional que era séria e acessível. Ele era jovem, impunha um ritmo incrível, mas tratava de memória, de velhice, da realidade da morte, da realidade da crueldade, e fazia tudo de forma tão vívida, tão dramática. A conexão de Bergman com o público era um pouco como a de Hitchcock – direta, imediata.

Martin Scorsese, cineasta, em entrevista a Stig Björkman (íntegra da entrevista feita em 2010 para o documentário …Mas o cinema é minha amante, publicada no catálogo da mostra Ingmar Bergman, de 2012, do Centro Cultural Banco do Brasil; pg. 197).

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Jogada de Risco, de Paul Thomas Anderson

A aproximação às personagens é instantânea. A impressão é que existem há muito tempo, que teriam saltado de outro filme ou que viviam por ali, nos arredores de Las Vegas, feitas de uma triste história pregressa. É o que torna a curta experiência de Jogada de Risco tão animadora, tão curiosa, grande em pequenos instantes.

As personagens são jogadoras. Algumas jogam melhor, outras nasceram para perder. O que fica estampado desde o início, quando o protagonista, um certo senhor Sydney (Philip Baker Hall), convida John (John C. Reilly) para retornar com ele às mesas de jogos. O convite é aceito. Para tanto, emprestará alguns trocados ao rapaz.

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E os mesmos trocados convertem-se em mais dinheiro: é com o senhor experiente que o novo rato das apostas aprende a jogar, a marcar pontos no espaço em que tudo termina em cifras e empolgação. Mais tarde será revelado o motivo da ajuda ao novato John, e como esse passo foi determinante para seu mergulho de cabeça em um mundo estranho.

O longa-metragem de estreia de Paul Thomas Anderson prefere o senhor um pouco desiludido – estampado na pele caída sob os olhos, nas rugas do tempo – ao matador jovem. Em cena, o pacato jogador que não resiste às mesas de dados, cartas e álcool. Alguém como Sydney habita o cinema há décadas, mas nem sempre foi notado: poderia ser uma personagem secundária de Cassino ou outro longa de Scorsese.

Anderson dá voz aos excluídos. Em Jogada de Risco, talvez eles ainda tenham fôlego para assumir a dianteira, para voltar a ser o que foram. Escapam à máscara que tanto vestiram nessa terra de falsidades, de luzes atraentes, de homens bem vestidos e meninas obrigadas a ser simpáticas – ou fáceis – com visitantes que gastam em cassinos.

Reina, claro, a podridão dos quartos apertados, conjugados, das relações que só se revelam quando à mira da arma. Será Sydney, claro, quem socorrerá os mais jovens, determinados a arrancar dinheiro dos outros a qualquer custo, cobertos por enrascadas até o pescoço.

John descobre com Sydney o “mapa da mina”. O homem mais velho é direto, astuto; o mais jovem vacila, revela fraqueza. Na terra do dinheiro, há sempre um caminho para fazer mais, e para fazer certo. E se por algum motivo esse filme parece o oposto do já citado Cassino, é justamente por tratar de seres pequenos, até dignos de pena.

Importante destacar a segurança do diretor, com roteiro de sua autoria: a maneira como tece, sem pressa, a relação do velho jogador com a garçonete loura (longe da candidata à mulher do chefão) e o recém-chegado à roda de apostas (não mais que um abobalhado). Sua câmera não recorre ao fundo, à imagem da “linha de produção” do dinheiro.

Qualquer comparação com Cassino, vale ressaltar, soa injusta: são filmes diferentes. E o de Anderson é melhor. Mas são, ambos, sobre a cobiça nessa terra de luzes, sobre serpentes que apostam o tempo todo, vivendo às beiradas, sobre o instinto americano que obriga esses homens e mulheres a serem o que sempre foram.

O pequeno grande filme de Anderson está, em sua atmosfera, mais próximo de Atlantic City, de Louis Malle, no qual o francês enxerga a América de detalhes desagradáveis, de personagens que talvez se amem sem que seja necessário exclamar em alto e bom som. Suas confissões situam-se nos gestos de socorro, na fadiga após noites em claro.

(Hard Eight/ Sydney, Paul Thomas Anderson, 1996)

Nota: ★★★★☆

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