Marlon Brando

A Terra Treme, de Luchino Visconti

Os mais velhos tentam convencer os mais novos de que a revolta não compensa. À medida que essa tentativa avança pela conversa do almoço, o revoltoso que acabou de sair da prisão descobre o contrário: o que dizem os parentes, seus antepassados que voltavam do mar sem reclamar, que apenas trabalhavam, não faz mais sentido.

O revoltoso de olhos fundos, magro, que se nega a comer tamanha a raiva que sente ao tomar ciência da massa de manobra que se tornou, é Ntoni (Antonio Arcidiacono). Em A Terra Treme, observá-lo é entender um pouco da fúria jovem que recairia sobre o cinema nas décadas seguintes: tem ali um pouco do mistério de um Marlon Brando, do efeito explosivo de um James Dean – sem as “linhas perfeitas” e as cores de Hollywood.

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À frente da massa, Luchino Visconti faz um dos mais importantes filmes políticos de todos os tempos. Neorrealista, ainda antes do mesmo diretor adotar as “linhas perfeitas” das representações da aristocracia italiana, das salas luxuosas, dos quadros pintados e personagens afeminadas. Antes, um cinema real, direto, bruto.

A medida da revolta está na representação do levante dos pescadores pobres contra os comerciantes que os exploram: o momento em que o mesmo Ntoni, antes de ser preso, lança a balança dos patrões ao oceano. Chega de pesar, chega de estipular medidas! É o que parece gritar ao se destacar da massa e correr, sobre as pedras, ao mar.

O mar é destino certo, inescapável: há ali algo saído das grandes tragédias, ainda que lute para se inscrever – ao menos aqui – no campo do real, com pessoas verdadeiras dessa comunidade siciliana. Os homens lançam-se ao mar, as mulheres aguardam o retorno.

Uma das meninas que se prende à janela, que espera esse retorno, não tem romantismo. Não tem motivos para acreditar. É feita de imperfeições, de realismo, dona de um olhar abertamente falso porque talvez tenha sido levada a crer que podia interpretar: é dela, ainda no início, a frase que define a obra de Visconti: “o mar é amargo”.

Nada escapa ao controle do diretor de origem aristocrática, comunista, homossexual: é ao homem que retorna e, ainda mais, ao plano-sequência. Ao quadro, sobretudo, em que essa massa espalha-se, como se essa composição fosse uma resposta ao cinema soviético, calcado na montagem, outras vezes levado a registrar o povo e suas agruras.

Se em Eisenstein a montagem reforça o poder da massa pela junção e posição dos quadros, em Visconti o quadro permite ver a junção e a composição do que não precisa escapar a seus limites, como nas famosas sequências em que os homens vendem porções de peixes retiradas do oceano na noite anterior. O plano-sequência vai de um ponto a outro, de um canto a outro, enquanto os homens gritam, desentendem-se.

Um desses planos-sequência, talvez o mais belo, segue um menino de branco entre os homens. Não uma personagem central, talvez nem tão importante: é apenas o garoto que circula entre os pescadores, que costura o embate, essa aparente cacofonia – até correr ao fundo, ao passo que a câmera sobe e registra a distância, o menino rumo ao nada.

Os homens poderosos que compram o peixe zombam da intenção dos jovens. Um deles recorre à afirmação do verme à pedra: “um dia faço um buraco em você”. Nessa tragédia, a distância da pedra é pequena demais. Uma metáfora fácil para um grande filme. Ainda assim, fica-se com o verme, sua mutação, não com a pedra imutável.

O narrador (o próprio Visconti) olha para os outros, para a ação, para o movimento, não ao interior das personagens. O filme é duro, sem recorrer à psicologia desses seres que não querem ser mais do que parecem, figuras reais, pescadores que, sem firulas, retiram o peixe para vender, depois retornam à vida simples da região árida.

“O tema de Visconti é a decadência do capitalismo diante do processo revolucionário”, afirma Glauber Rocha. Seu Ntoni é quem desponta com consciência de transformação, quem convoca os outros a implodir as regras, para que comecem a trabalhar com barco próprio, sem depender dos patrões. Glauber, mais tarde, faria de Barravento algo próximo de A Terra Treme: o embate de um rapaz contra a alienação de um grupo de pescadores.

Bem ou mal, alienada ou nem tanto, a comunidade ainda não havia se deixado corromper pela vida na cidade, ainda estava, de certa forma, bloqueada. Rocco e Seus Irmãos, por isso, pode ser visto como o capítulo seguinte dessa história universal, a da relação do homem com seu meio, sua terra, da qual nasce a verdadeira tragédia do filme.

(La terra trema, Luchino Visconti, 1948)

Nota: ★★★★★

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A diferença entre teatro e cinema, segundo Marlon Brando

Se alguém resolvesse produzir uma peça como se produz um filme em Hollywood, seria expulso do palco sob gargalhadas. Nas peças da Broadway os atores e diretores passam cinco ou seis semanas reunidos falando sobre motivação, discutindo o roteiro e os personagens, repassando a história, examinando o palco, procurando abordagens diferentes; só então acabam montando o espetáculo. Depois levam a peça para Schenectady ou New Haven, veem como o público reage, acertam os detalhes e oito semanas depois voltam para Nova York e fazem a pré-estreia. Finalmente, quando tudo já foi montado, remontado e aprimorado, há uma noite de estreia. Em Hollywood geralmente há uma reunião de negócios em que a conversa é só a respeito de dinheiro, “objetivos” e “participação nos lucros”. Então o ator recebe um roteiro e a ordem de ir para o estúdio já sabendo o papel; daí em diante, fica praticamente por conta própria. Raramente os diretores de filmes dão ao ator sequer uma vaga sugestão de como ele deve representar o personagem.

(…)

No teatro é possível modificar a ênfase de uma cena, estabelecer o ritmo e determinar quais os principais pontos emocionantes de uma peça com base na reação do público das cidades do interior. Mas no cinema o diretor diz “corta” e “copie” e pronto. Na moviola, se eles quiserem, fazem picadinho de tudo. O ator não tem nenhum controle, a menos que tenha experiência suficiente para saber fazer o jogo, assumir e atuar apenas como quiser.

Marlon Brando, ator, na autobiografia Brando – Canções que Minha Mãe Me Ensinou, co-escrita por Robert Lindsey (Editora Siciliano; pgs. 172 e 173). Abaixo, Brando nas filmagens de Uma Rua Chamada Pecado.

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O sonho da Nova Hollywood

A previsão que Coppola fizera em 1968 de que não haveria mais “uma Hollywood como conhecemos quando sua geração de estudantes de cinema deixar a faculdade” provou estar parcialmente correta. A indústria mudou, embora certamente não da maneira que Coppola um dia esperara que fosse mudar – e ele, assim como seus companheiros autores George Lucas e Steven Spielberg, tem culpa parcial nisso.

O estupendo sucesso de bilheteria de filmes autorais caros como O Poderoso Chefão, Tubarão (Jaws, 1975) e Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977) – o próprio tipo de filme que Coppola um dia pensara que iria fomentar uma nova indústria autoral em Hollywood – levou a indústria a generalizadamente se focar em faturamentos provindos de blockbusters. O sucesso de filmes de autor nos anos 1970 não permitiu, como Coppola esperava que fosse acontecer, que os autores tivessem mais acesso a financiamento para seus filmes. Em vez disso, os diretores tornaram-se cada vez mais dependentes de financiamentos de estúdios para produzir e distribuir “grandes” filmes.

Com a possibilidade de se obter receitas enormes derivadas de um único produto (de um só filme), os estúdios começaram a concentrar seus esforços na procura pelo próximo O Poderoso Chefão, Tubarão ou Guerra nas Estrelas, à custa de qualquer coisa e de qualquer outra coisa. O resultado final do cinema autoral, então, não era uma maior independência para os autores (como o Zoetrope Studios de Coppola resumia e simbolizava) ou um aumento na oferta para o consumidor. Em vez disso, por volta de 1980, Hollywood parecia estar encolhendo, e o papel dos intermediários que poderiam unir financiamentos de produção e de distribuição tornou-se mais importante do que nunca.

Jon Lewis, professor da School of Writing, Literature, and Film da Oregon State University, onde leciona cursos sobre cinema e estudos culturais desde 1983. O texto foi publicado originalmente sob o título The New Hollywood em Whom God Wishes To Destroy… Francis Ford Coppola and The New Hollywood (Durham e Londres: Duke University Press, 1995) e reproduzido no catálogo da mostra Francis Ford Coppola – O Cronista da América (pgs. 175 e 176; tradução de André Duchiade; leia aqui). Abaixo, Marlon Brando e Coppola nos bastidores de O Poderoso Chefão.

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Corpo e Alma, de Robert Rossen

Desde o início há o corpo. O pedaço do homem desfigurado, a forma fixa sobre os pés, que deita para rememorar o que ocorreu – minutos antes de ser chamado ao ringue, em sua luta decisiva, em Corpo e Alma, de Robert Rossen. O homem em questão vê sua vida correr por alguns instantes, ou alguns minutos. É quando começa a surgir a alma.

Difícil, desajeitada, em briga com o mesmo corpo. A fúria, aqui, é comum. O ator é John Garfield, talvez aquele que esteve mais próximo, em Hollywood, de James Cagney. Há atores que conseguem expressar com facilidade essa estranha força animal, o odor fétido que, em um piscar de olhos, converte-se em humanidade. Garfield era um deles.

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Em Corpo e Alma, ele é o boxeador Charley Davis. Sabe-se de seu status desde o início, antes de retornarem as lembranças: ele é o campeão e segue à luta de sua vida. Será a última, é certo. Charley tem ali, antes de ser assaltado pelo passado, luta maior, esta com a consciência. Antecipa assim o Marlon Brando de Sindicato de Ladrões.

No entanto, vale lembrar, Terry Malloy nascia à tela como total fracassado. Às margens – ou ainda mais distante – dos ringues. Charley teve tempo de ver o sucesso, ainda que à sombra dos mafiosos de rostos lisos e ternos caros. A mitologia do perdedor dava seu passo decisivo: o campeão é avisado pelo bandido que deve entregar a luta.

Retornaria, depois, em filmes variados. Dinheiro, esse intrometido, casava-se com a luxúria. Atrás vêm as mulheres, as festas, o bar brilhante – repleto de garrafas – que surge da parede giratória como mágica ao rapaz pobre, agora sucesso entre os figurões. O lutador desfigurado encontra-se no terreno das facilidades, do falso conforto.

O filme deixa ver contornos do melodrama, do menino que insiste em seguir aos figurões, a despeito dos avisos ao lado. Ao espectador, é fácil – não menos sedutor, nesse cinema de clima, de alma, sobretudo de dor intensa – entender em que ponto tudo vai dar. Ponto que ainda pode possibilitar um retorno, não sem tropeços.

As figuras que aliviam, que facilitam o acesso ao paraíso: a mãe interpretada por Anne Revere, que se diz “linda”, adjetivo para indicar plenitude; a namorada Peg (Lilli Palmer), bondosa e pintora, pouco inclinada ao dinheiro; os amigos, como o agitado Shorty (Joseph Pevney) e mais tarde o treinador Ben (Canada Lee).

Do outro lado, os malvados, a começar pelo vilão Roberts (Lloyd Gough) e pela bela Alice (Hazel Brooks). Em uma cena especial, ela observa Charley treinando. Rossem enquadra-a de baixo para cima. A mulher ganha potência, ocupa toda a tela. Nem mesmo o homem bruto, a esmurrar o saco de pancadas, alcança tal força.

Em outro momento, entre a plateia, ela grita para que Charley mate seu oponente. Ao lado, Peg sofre com a violência, revira-se na cadeira. Anjos e demônios duelam à câmera, com suas formas, paralelos à luta de tons realistas. Entre cinéfilos, corre a história de que o diretor de fotografia, James Wong Howe, teria usado patins nas sequências de luta.

Esse mesmo tom realista seria levado, mais tarde, ao Touro Indomável de Martin Scorsese, com fotografia de Michael Chapman. O homem desfigurado – Garfield ou Robert De Niro – via-se sob as luzes de um espaço essencialmente às sombras, no centro de uma redoma, no ponto sem volta em que o corpo ainda deixa ver sua consciência, sua alma.

(Body and Soul, Robert Rossen, 1947)

Nota: ★★★★☆

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Planeta dos Macacos: A Guerra, de Matt Reeves

Ao “outro”, na primeira versão de O Planeta dos Macacos, de 1968, o homem oferecia um beijo. Para sua tristeza, ele descobria que não havia deixado o planeta Terra. A Estátua da Liberdade estava cravada na areia. Na versão mais recente, que aponta à guerra desde o título, o que o homem oferece é um muro para se proteger de seus próprios pares.

Os macacos, ainda que pareçam protagonistas, encabeçados sempre por César (Andy Serkis), na verdade são coadjuvantes. A guerra – à qual servirá, a certa altura, o já citado muro – é dos homens. Os macacos são massa de manobra, escravos a serviço de um rei militar que imita o Marlon Brando de Apocalypse Now – não com a mesma ambiguidade.

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Alguns sinais comuns à guerra estão por ali, revelados nos primeiros instantes. As frases nos capacetes dos soldados, pela mata, dão o tom belicista, debochado, comum a esse tipo de serviço sujo: é o tom do invasor que desconhece o outro, em busca de seu escalpo. “Macaco bom é macaco morto”, ou algo próximo a isso. A guerra já está formada.

Guerra que os macacos desejam evitar. Os homens não. O chefão militar cita a ironia de toda essa história: foram eles que criaram os macacos. Está errado. A Evolução mostra o contrário. Mas os homens aqui são “sábios”, a quem a natureza não precisa ensinar nada. É quando Planeta dos Macacos: A Guerra – mesmo com momentos pulsantes e um roteiro cheio de expectativas subvertidas – segue o caminho usual: o problema é o ignorante.

Essa história foi contada inúmeras vezes. Com o muro erguido entre a neve, para que militares contenham outros militares do lado de fora, chega-se ao momento atual: os políticos ainda insistem em erguer barreiras contra os vizinhos do “andar de baixo”. A burrice, por isso, encontra ecos do mundo real. Planeta dos Macacos tem muito a dizer.

A história da humanidade repete-se, as representações também. César é convertido em Cristo: é preso, açoitado, crucificado, tem de mostrar que ainda reina entre seu grupo e precisa conviver com alguns macacos que servem ao papel de Judas, os traidores. Ergue-se, antes do muro, um campo de concentração. Os macacos são os perseguidos da vez.

Para salvar seus pares, César move-se em direção ao líder militar vivido por Woody Harrelson. É obrigado a dialogar, a ouvir o outro, a entender o traço que define os humanos – e o humano que revela ser: precisa observar seu reflexo, seja o do homem branco de cabeça raspada, seja o do vilão do filme anterior, o macaco Koba.

Pois César tem seu lado vingativo, destruidor, como outros seres – homens ou macacos – que apelaram à guerra, ao campo de concentração, ao muro. Pode ser mau como todos, à medida que o diálogo fornece tristeza, a ideia de que a racionalidade produziu muito pouco. O que corre ao lado é a história da guerra, de qualquer uma.

Enquanto os macacos são escravizados para construir o muro, César revolta-se e confronta os homens quando estes decidem desferir chicotadas em um inocente. Mal alimentados, sem uma liderança, os macacos não querem dar sequência à empreitada. Situação semelhante à do clássico A Ponte do Rio Kwai, no qual o oficial britânico investe contra o carrasco japonês.

Os macacos ainda não encontraram um lugar para viver. Ainda se deslocam. A paisagem que ganha espaço ao fim remete aos faroestes, ao Monument Valley de John Ford. A história seguinte, descobrirá a personagem de Charlton Heston, troca índios por homens brancos. Justamente os homens brancos. O planeta ganha então outro dono.

(War for the Planet of the Apes, Matt Reeves, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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