Marlon Brando

Os que Chegam com a Noite, de Michael Winner

A definição do amor, dita por mais de uma personagem, inclusive por crianças, é o estopim de todos os problemas: “se você realmente ama alguém, às vezes você tem vontade de matá-lo”. Os jovens perseguem um adulto errático, desleixado, chegado à bebedeira em Os que Chegam com a Noite. Retiram dele a má educação.

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O adulto é Peter Quint, interpretado por Marlon Brando. A má influência, o homem que apresentará aos jovens não necessariamente o mundo real, mas o mundo como conhece. Nem por isso chega a ser o vilão, tampouco alguém ruim: Quint é fruto de um meio bruto, à parte, longe mas perto das salas dos patrões, habita a pocilga.

É visto quase sempre com o corpo coberto por capim. Rola pelo mato com facilidade, sobe em árvores como se às mesmas flutuasse, pertence, no fundo, à sujeira que, às crianças, é estranhamente atraente: grande, de fala firme, Quint representa aos pequenos a saída ao proibido, à aventura, homem que talvez tenha viajado muito para terminar ali.

O problema é que a criança não sabe conviver com o mal, converte amor em morte. Não é bondosa nem maldosa por natureza. Segundo a história com personagens de A Outra Volta do Parafuso (imortalizada no cinema em Os Inocentes), de Henry James, ela é influenciada.

A ignorância de Quint – banhado à beleza que não tem, à estranha fascinação que gera a partir do olhar sabichão de Brando – reflete-se na falta da percepção do perigo, ou da impossibilidade, para ele, de perceber que anjos e demônios podem conviver em um só. Logo ele, para quem inferno e céu não existem, para quem o destino final é a vala.

O diretor Michael Winner exclui os fantasmas. Prefere, com roteiro de Michael Hastings, o espaço físico o qual habita Quint, com todo seu peso, contra a beleza da professora por quem talvez esteja apaixonado. À noite, ele visita o quarto dela, a senhorita Jessel (Stephanie Beacham), para tomá-la nos braços, tapar sua boca, amarrá-la, violentá-la.

Ela permite, e talvez goste. O menino assiste ao encontro, da janela, e passa a associar a situação ao amor. Repetirá com sua irmã, também com cordas amarradas ao corpo magro da garota. O aprendizado custará caro: as crianças nunca entenderão o que se passa entre Quint e Jessel, misto de sentimentos e selvageria cada vez maior.

Winner pode parecer grosseiro em momentos, inconclusivo em outros. Impossível negar a força de algumas imagens, o horror, por exemplo, no momento em que Quint encontra a amada no lago, ou mesmo a tamanha crueldade no sorriso de felicidade do menino – de olho no “amor” – ao disparar flechas, de olhos abertos ou fechados.

O cineasta compõe monstros que residem na superfície, a natureza do mal que não permite ver com nitidez seu nascedouro. Os ambientes de época não serão capazes de frear – no jeito de Quint, nas transformações guiadas pelo desejo inexplicável de Jessel – as investidas carnais dessas pessoas, e elas podem se deixar explodir.

Situação representada, no início, pela morte do sapo. Quint coloca um cigarro na boca do réptil. Viciado, o animal incha até explodir. A essa altura, o irmão diverte-se com a natureza curiosa, a das “coisas como são”, como Quint diz ser; a irmã assusta-se, corre, sofre, mas não demora a aderir às crueldades propostas pelo outro, a aceitar – ouvir atenta, olhar fixo nas histórias do homem vivido – as brincadeiras de amor e morte.

(The Nightcomers, Michael Winner, 1971)

Nota: ★★★★☆

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A cena da manteiga, segundo Marlon Brando

Maria [Schneider] e eu simulamos muitas coisas, entre as quais uma cena de sodomia em que eu usei manteiga, mas foi tudo sexo artificial.

Marlon Brando, ator, sobre a famosa – e polêmica – sequência de sexo do filme, na autobiografia Brando – Canções que Minha Mãe Me Ensinou, co-escrita por Robert Lindsey (Editora Siciliano; pg. 338).

A versão de Brando não é a mesma da atriz Maria Schneider, que, antes de morrer, disse que o diretor teria combinado com o ator famoso a violência que ela descobriu apenas na hora da filmagem. Bertolucci confirmou a história, dizendo que havia acertado com Brando que este usaria, em segredo, manteiga como lubrificante.

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Mario Puzo em Hollywood

A verdade é que, se um novelista vai a Hollywood para trabalhar a partir do próprio livro, ele precisa aceitar que o filme não é dele. É simplesmente assim que as coisas são. E a verdade é que, se eu tivesse chefiado a realização do filme, eu o teria arruinado. Dirigir um filme é uma arte ou uma profissão. Atuar é uma arte ou uma profissão. Todos especiais às suas próprias maneiras, exigindo talento e experiência.

E embora seja fácil zombar dos chefes de estúdio, aqueles que têm quilômetros e quilômetros de filmes rodados, ano após ano, precisam saber alguma coisa.

Mario Puzo, autor do livro O Poderoso Chefão e co-roteirista do filme ao lado de Francis Ford Coppola (The Godfather Family Album; Editora Taschen; tradução de André Duchiade, na publicação do mesmo artigo no catálogo da mostra Francis Ford Coppola: o Cronista da América, do Centro Cultural Banco do Brasil; pgs. 131 e 132). Abaixo, o escritor entre os atores Red Buttons (que não faz parte do elenco) e Marlon Brando.

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A Terra Treme, de Luchino Visconti

Os mais velhos tentam convencer os mais novos de que a revolta não compensa. À medida que essa tentativa avança pela conversa do almoço, o revoltoso que acabou de sair da prisão descobre o contrário: o que dizem os parentes, seus antepassados que voltavam do mar sem reclamar, que apenas trabalhavam, não faz mais sentido.

O revoltoso de olhos fundos, magro, que se nega a comer tamanha a raiva que sente ao tomar ciência da massa de manobra que se tornou, é Ntoni (Antonio Arcidiacono). Em A Terra Treme, observá-lo é entender um pouco da fúria jovem que recairia sobre o cinema nas décadas seguintes: tem ali um pouco do mistério de um Marlon Brando, do efeito explosivo de um James Dean – sem as “linhas perfeitas” e as cores de Hollywood.

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À frente da massa, Luchino Visconti faz um dos mais importantes filmes políticos de todos os tempos. Neorrealista, ainda antes do mesmo diretor adotar as “linhas perfeitas” das representações da aristocracia italiana, das salas luxuosas, dos quadros pintados e personagens afeminadas. Antes, um cinema real, direto, bruto.

A medida da revolta está na representação do levante dos pescadores pobres contra os comerciantes que os exploram: o momento em que o mesmo Ntoni, antes de ser preso, lança a balança dos patrões ao oceano. Chega de pesar, chega de estipular medidas! É o que parece gritar ao se destacar da massa e correr, sobre as pedras, ao mar.

O mar é destino certo, inescapável: há ali algo saído das grandes tragédias, ainda que lute para se inscrever – ao menos aqui – no campo do real, com pessoas verdadeiras dessa comunidade siciliana. Os homens lançam-se ao mar, as mulheres aguardam o retorno.

Uma das meninas que se prende à janela, que espera esse retorno, não tem romantismo. Não tem motivos para acreditar. É feita de imperfeições, de realismo, dona de um olhar abertamente falso porque talvez tenha sido levada a crer que podia interpretar: é dela, ainda no início, a frase que define a obra de Visconti: “o mar é amargo”.

Nada escapa ao controle do diretor de origem aristocrática, comunista, homossexual: é ao homem que retorna e, ainda mais, ao plano-sequência. Ao quadro, sobretudo, em que essa massa espalha-se, como se essa composição fosse uma resposta ao cinema soviético, calcado na montagem, outras vezes levado a registrar o povo e suas agruras.

Se em Eisenstein a montagem reforça o poder da massa pela junção e posição dos quadros, em Visconti o quadro permite ver a junção e a composição do que não precisa escapar a seus limites, como nas famosas sequências em que os homens vendem porções de peixes retiradas do oceano na noite anterior. O plano-sequência vai de um ponto a outro, de um canto a outro, enquanto os homens gritam, desentendem-se.

Um desses planos-sequência, talvez o mais belo, segue um menino de branco entre os homens. Não uma personagem central, talvez nem tão importante: é apenas o garoto que circula entre os pescadores, que costura o embate, essa aparente cacofonia – até correr ao fundo, ao passo que a câmera sobe e registra a distância, o menino rumo ao nada.

Os homens poderosos que compram o peixe zombam da intenção dos jovens. Um deles recorre à afirmação do verme à pedra: “um dia faço um buraco em você”. Nessa tragédia, a distância da pedra é pequena demais. Uma metáfora fácil para um grande filme. Ainda assim, fica-se com o verme, sua mutação, não com a pedra imutável.

O narrador (o próprio Visconti) olha para os outros, para a ação, para o movimento, não ao interior das personagens. O filme é duro, sem recorrer à psicologia desses seres que não querem ser mais do que parecem, figuras reais, pescadores que, sem firulas, retiram o peixe para vender, depois retornam à vida simples da região árida.

“O tema de Visconti é a decadência do capitalismo diante do processo revolucionário”, afirma Glauber Rocha. Seu Ntoni é quem desponta com consciência de transformação, quem convoca os outros a implodir as regras, para que comecem a trabalhar com barco próprio, sem depender dos patrões. Glauber, mais tarde, faria de Barravento algo próximo de A Terra Treme: o embate de um rapaz contra a alienação de um grupo de pescadores.

Bem ou mal, alienada ou nem tanto, a comunidade ainda não havia se deixado corromper pela vida na cidade, ainda estava, de certa forma, bloqueada. Rocco e Seus Irmãos, por isso, pode ser visto como o capítulo seguinte dessa história universal, a da relação do homem com seu meio, sua terra, da qual nasce a verdadeira tragédia do filme.

(La terra trema, Luchino Visconti, 1948)

Nota: ★★★★★

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