Madre Joana dos Anjos

Agnus Dei, de Anne Fontaine

As freiras não sabem lidar com seus filhos. Algumas conseguem aceitá-los, outras os recusam e tentam continuar como sempre foram. Mais tarde, na parte final de Agnus Dei, uma delas diz ter se transformado, descoberto sua missão – com o filho no colo, ao lado da jovem protagonista, a médica Mathilde (Lou de Laâge).

Durante a Segunda Guerra Mundial, na Polônia, elas foram abusadas por soldados nazistas e soviéticos, quando o convento foi ocupado. Ocorre o pior, mas as mulheres, meses depois, ainda tentam manter silêncio.

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O drama de Anne Fontaine questiona o limite dessa escolha: ainda no início da obra, uma das freiras decide romper o silêncio, e tal abertura aumenta à medida que o filme avança. Outras confinadas aceitam a ajuda de Mathilde, que passa a acompanhá-las.

A natureza em comum une mulheres de diferentes olhares. Modos de viver, influenciados pela religião ou por sua falta, estão em jogo: as freiras vivem trancadas, negam o mundo para se entregar a Deus por completo, enquanto Mathilde é materialista, não crê no Criador, preferindo a ciência.

Mas o filme vai além dos extremos. Apoia-se no entrosamento, não no contrário. Iguala Mathilde às outras mulheres. Primeiro, a médica quase é abusada por alguns soldados soviéticos que continuam por ali; depois, uma das freiras retira o véu, solta os cabelos, enquanto outra caminha pela estrada, para ser livre como a médica.

O que as iguala é o horror: com a guerra, todas estão a servir os inimigos – os homens – com seus corpos. Os inocentes do título original vêm depois: são os filhos que nascem desses crimes, sacrificados pela madre superiora. Velha prática da poderosa instituição continua por ali: inocentes são mortos para manter as aparência e a ordem.

O ambiente é frio, coberto por neve. As freiras caminham entre sombras, ou entre o bosque localizado na frente do convento. Uma delas, ao seguir a madre superiora, não consegue mais continuar em seu rastro. A sequência é simbólica: por aqueles bosques, todas estão a se perder, principalmente a mais poderosa entre elas.

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É desse labirinto que trata, como se viu antes em filmes como Madre Joana dos Anjos – ainda que comparar a obra de Fontaine à do polonês Jerzy Kawalerowicz soe exagerado. O fechamento, ou a volta em falso, leva apenas ao mesmo lugar: à escuridão.

O destino da freira que persegue a madre e não encontra o caminho, e o filho, é o pior possível: retorna ao convento para se suicidar. Mesmo as tantas situações dramáticas não impedem que a obra pareça otimista: a abertura ao mundo externo será natural.

Ao fim, aponta o problema às pessoas, não à Igreja. A culpa recai na vilã. Ao dar vez a ela, prefere o caminho menos ambíguo e, é verdade, mais cômodo. Isso não retira a força do trabalho de Fontaine, que já havia abordado o universo feminino nos inferiores Coco Antes de Chanel e Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte.

Em Agnus Dei, a cineasta batalha para escapar de caminhos fáceis. Quase sempre obtém sucesso. Sua Mathilde, com olhar pregado ao nada, sem dividir pensamentos com o espectador, consegue conferir à obra certo mistério. Prefere não se explicar.

Nota: ★★★☆☆

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Cais das Sombras, de Marcel Carné

Um filme pessimista que não traz qualquer saída às suas personagens, na França antes da Segunda Guerra.

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Os Esquecidos, de Luis Buñuel

A realidade sobre a juventude pobre na Cidade do México, com um encerramento brutal e realista.

os esquecidos

Uma Rua Chamada Pecado, de Elia Kazan

A atmosfera aprisiona o público, com uma casa desarrumada, ao preto e branco, onde todos se confrontam.

uma rua chamada pecado

Kanal, de Andrzej Wajda

Durante a Segunda Guerra, um grupo de soldados tenta resistir aos alemães enquanto vaga pelo esgoto.

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Túmulo do Sol, de Nagisa Oshima

A realidade das favelas japonesas, onde alguns bandidos tentam comprar sangue de trabalhadores locais.

túmulo do sol

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O desejo de liberdade é retirado de um grupo de freiras que vivem isoladas, supostamente diabólicas.

madre joana dos anjos

O Criado, de Joseph Losey

Um rico aristocrata é destruído, pouco a pouco, pelo seu cínico criado. Losey sugere algo mais entre eles.

criado

Cenas de Caça na Baixa Baviera, de Peter Fleischmann

Em uma pequena vila alemã, os moradores perseguem um rapaz supostamente gay que retornou para casa.

cenas de caça na baixa baviera

A Noite dos Desesperados, de Sydney Pollack

Um grupo de pessoas, durante a Depressão, aceita passar dias dançando sem parar em um maluco concurso.

a noite dos desesperados

A Confissão, de Costa-Gavras

Vice-ministro é sequestrado e levado à tortura nesse filme sobre a mentira transformada em verdade.

a confissão

Johnny Vai à Guerra, de Dalton Trumbo

Jovem retorna da guerra mutilado e se vê preso em seu próprio corpo, consciente do que ocorre fora.

Johnny vai à Guerra

Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman

Três mulheres acompanham os últimos momentos da vida de outra mulher enquanto verdades vêm à tona.

gritos e sussurros

Gêmeos, Mórbida Semelhança, de David Cronenberg

Gêmeos ginecologistas, diferentes no jeito de ser, destroem a si próprios quando surge uma mulher entre eles.

gêmeos

A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforo, de Aki Kaurismäki

A protagonista é esmagada pelo repetitivo trabalho, pela família e pelo amor que não deu certo.

a garota da fábrica de caixas de fósforo

Louca Obsessão, de Rob Reiner

Escritor sofre acidente e acaba preso e torturado por uma mulher – papel que rendeu o Oscar a Kathy Bates.

louca obsessão

Mulheres Diabólicas, de Claude Chabrol

Duas amigas – uma funcionária dos Correios e uma criada – resolvem destruir uma rica família.

mulheres diabólicas

Violência Gratuita, de Michael Haneke

Dois rapazes vestidos de branco sequestram uma família e passam a fazer jogos violentos por diversão.

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4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu

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A estranha relação de uma mãe com o filho adolescente, mais tarde um cruel assassino.

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Michael, de Markus Schleinzer

Homem esconde criança em cômodo de sua casa por anos, abusa dela e finge ser alguém equilibrado.

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