machismo

A Mulher do Dia, de George Stevens

As mulheres incomodam: basta uma opinião sobre o desperdício de energia humana em uma partida de beisebol – ou de qualquer outro esporte – para que os homens fiquem arrepiados. Um deles, no desenrolar de A Mulher do Dia, momento em que o casal central ainda não se conhece, corre para desligar o rádio – para calar a mulher.

A dama, nesse caso, é a poderosa Tess Harding (Katharine Hepburn), feita de certezas, de palavras voltadas aos homens como uma metralhadora incansável: é do material ao mesmo tempo inteligente, ao mesmo tempo espontâneo e alegre. Fica claro o motivo da paixão dele por ela: difícil não se apaixonar por uma mulher como tal.

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A presença de Hepburn explica muito: Tess tem muito dela, ou quase tudo. E não se duvida do oposto: Spencer Tracy nasceu para viver Sam Craig, o colunista esportivo que primeiro confronta a colunista de assuntos internacionais, e que depois aprende a amá-la. Ambos trabalham no mesmo jornal, cada um em seu terreno, em seu andar.

Após a troca de farpas em suas colunas, ambos são chamados à sala do chefe. Ficam frente a frente pela primeira vez. Instante único, daqueles que fazem compreender por que o cinema clássico não se repete em tempos atuais: Hepburn, em um misto de malícia, independência e molecagem, estica a perna para além da saia, no exato momento em que Tracy cruza a linha da porta para entrar na sala do chefe.

O olhar dele perde-se entre susto e deslumbramento, a boca dela fecha-se aos poucos, à medida em que o corpo encolhe para esconder a perna. Nem seria necessário lembrar o espectador que os atores viviam um romance na vida real tamanha a química em tela, do primeiro ao último encontro, da guerra às juras de amor.

Do primeiro encontro resta a análise do outro, da cabeça aos pés, a aproximação. Logo se apaixonam. Logo ela será levada a um estádio para assistir a uma partida de beisebol; logo ele será convidado ao apartamento dela, em um encontro que inclui embaixadores, pessoas da alta roda, espaço em que todos falam diversas línguas.

Se no terreno dele imperam gritos e alguma boçalidade, no dela resta a profusão de línguas de um inevitável progresso ao qual o tempo de guerra parecia apontar: os diferentes vivem no mesmo lugar, ao menor ou ao maior sinal da inteligência feminina, sob o protagonismo da mulher que ganhava espaço cada vez mais.

Nem por isso o filme esconde o estranhamento dele, tampouco seus momentos de razão: a grandeza de A Mulher do Dia, com direção de George Stevens e roteiro de Ring Lardner Jr. e Michael Kanin, é não ceder ao artificialismo da perfeição, menos ainda ao estado em que um ou outro sexo parece perder poder – ainda que, em certa medida, tenha viés feminista.

Na plateia, entre homens que berram aos jogadores, Tess impõe-se com naturalidade confrontante: ela ergue-se à frente de todos, volta-se àquele jogo que, a distância, parece não indicar muita coisa senão a indiferença dos homens – daquela multidão que grita – à possível sensibilidade e aproximação, que, é verdade, não são o forte deles.

Pode parecer idiota pedir sensibilidade a homens assim, em uma partida de beisebol. As escolhas de Stevens, no entanto, dizem muito: a câmera prefere a multidão a distância, os jogadores chegam a cair sobre os pés de Sam enquanto ele trabalha, além do amigo pugilista cheio de histórias para contar, a se expressar com golpes.

Toda essa comédia gravita em torno de um delicioso “pacto de não agressão” entre o casal, perto do drama em alguns momentos, de olho na vida moderna em que os homens são obrigados a frigir os ovos, em que as mulheres ainda precisam aprender a lidar com as máquinas da cozinha, criadas justamente para elas.

O jeito de Tess sobrepõe o de Sam. Fica a impressão, mais tarde, na segunda parte do filme, que resiste a forma conservadora: a mulher terá de se sujeitar ao seu velho papel para ficar com o homem que ama. O conforto ainda pertence a ele, confrontado pela moça que discute política internacional, usa ternos e debocha do sexo oposto.

(Woman of the Year, George Stevens, 1942)

Nota: ★★★★☆

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Kitty Foyle, de Sam Wood

Os confrontos de Kitty Foyle são conhecidos e seriam explorados muitas vezes mais tarde. Mulheres contra homens, contra o mundo, contra as tradições – mas levadas, e sem muita a fazer, pelo coração. Traem a si mesmas, estão à margem. À época, na passagem aos anos 40, a personagem de Ginger Rogers tinha ainda alguma novidade.

No início da obra de Sam Wood, com roteiro de Dalton Trumbo, as mulheres pediam por direitos, desejavam espaço na sociedade. Logo vem o sufrágio. Antes, enquanto os homens davam as cartas, restava a elas o prazer de “pertencer a uma posição”, a um “papel”, como no momento em que uma delas entra no bonde. Forma-se um corredor para que desfile.

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É como se o filme dissesse: as mulheres eram mulheres, eram damas, como princesas. A igualdade leva ao mesmo bonde, mas a novo visual: agora as mulheres amontoam-se, desajeitadas, entre homens. Alguns em pé, outros sentados. Entre a multidão, todos chegam ao mesmo patamar. Passou o estado da beleza, da classe, do sonho.

O filme tem seu lado machista. É inteiro sobre o confronto da protagonista com este estado, com esse mundo que, em um cinema acanhado, não revela todas as suas transformações. Pequenas são elas, ainda que marcantes: Foyle, ao centro, é a datilógrafa que aprendeu a não sonhar, vítima (mais de uma vez) dos sentimentos, disposta a enfrentar séculos de uma linhagem familiar emoldurada em palácios, à moda da Filadélfia.

Ama o rapaz rico, seu chefe. Nem ele, um homem, pode contra sua linhagem. Está destinado a seguí-la: casar-se com uma mulher do meio, ter um filho com seu nome. O destino está dado. Ao contrário, desafio o texto, o destino só pode ser quebrado quando é o homem que dá o passo: ele resolve fugir para a América Latina (refúgio predileto dos bandidos do cinema americano) na companhia da amada. É a forma de ficarem unidos.

Trumbo tem boa resposta ao fim. Não vale revelar o desfecho, claro. Sua mulher ainda guarda força – sem renunciar à beleza dos sentimentos. Não se pede tanto, claro. Foyle é uma boneca cuja força escorrega pelos dedos, perde-se no sorriso irresistível e infantil de Rogers, que ficou com o Oscar de melhor atriz em 1941.

A resposta para resolver seu impasse – entre dois homens, duas cidades, dois tempos – vem por ela própria: seu reflexo no espelho encara-a para lhe dizer verdades. Ou seja, a mulher precisa confessar a si mesma, do reflexo racional à carne cheia de paixão, que seguir o coração pode não ser o melhor negócio. É a vez dos tempos racionais. Os sentimentos aquietam-se. O trabalho de Wood tem algo moderno.

O filme dá-se em confronto interno, da mulher à mulher. Apenas ela poderá resolvê-lo. Entre uma lembrança e outra a neve de seu pequeno globo de vidro toma a tela: estão por ali as partículas que embaçam, que talvez impeçam que se veja a verdade. A trilha de Foyle é longa, não a mais justa. Difícil resistir ao filme – mesmo com seus pontos baixos, sua visão estreita das mudanças que, nos anos 40, gritavam a todos os lados.

(Idem, Sam Wood, 1940)

Nota: ★★★☆☆

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Audição, de Takashi Miike

O problema com a menina meiga e magra talvez não passe de medo masculino. O viúvo Shigeharu Aoyama (Ryo Ishibashi) esteve, por algum tempo, apaixonado, deixando-se levar pela moça que só lhe dizia coisas boas, a mesma moça que desapareceu na viagem que fizeram juntos a um balneário, sem que ele entendesse seus motivos.

Entre devaneio e realidade, Audição, de Takashi Miike, prefere o ponto de vista do homem. Do homem que busca uma companheira anos depois de perder a mulher, após o filho – agora um adolescente – sugerir que o pai case-se de novo. A mulher que foge do hotel, eleita a “companheira perfeita”, será também, mais tarde, uma torturadora.

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E talvez seja assim, segundo o olhar dele, para maquiar sua impotência ou qualquer outro motivo que a fez fugir. Para ele, é mais fácil imaginá-la como vilã, alguém que vive em um mundo grotesco o suficiente – e oposto ao seu – para não ser digno de um homem como ele. O que está em cena é o medo do sexo oposto, ou sua incompreensão.

Aoyama encontra Asami (Eihi Shiina) em um jogo tipicamente masculino: com um amigo, um produtor de cinema, ele participa de uma audição. A desculpa, ali, é encontrar uma atriz para um filme a ser feito – e o foco, claro, é aproveitar a situação em que essas mulheres despem-se (até de forma literal) para os entrevistadores.

O sexo masculino coloca-se de um lado da mesa: analisa, observa, escolhe. Ao feminino resta falar de si, fazer graça, certamente – para muitas delas – viver um papel. Ao se eleger vilã – ou ser feita assim pelo olhar de Aoyama –, Asami decide participar do jogo. Mais tarde, quando se torna torturadora, levará à frente suas próprias regras.

Ainda que pareça machista, ao colocar o homem como presa da mulher louca, um homem humanizado e vítima completa aos olhos do público (é verdade que sua opção pela audição nunca soa muito ofensiva), o que se vê é uma crítica ao olhar masculino. Nesse caso, um machismo que se esconde não apenas no bom homem, mas, sobretudo, na mulher vítima de outros homens, como o padrasto e o professor de balé.

O passado de Asami aos poucos vem à tona. Nos delírios de Aoyama, ele descobre – ou cria – essa personagem feminina aniquiladora, alguém que invade sua vida, toma-lhe seu coração e simplesmente desaparece; alguém maquiavélica, fechada, que certamente não poderia assumir outra imagem, ao homem, senão a da torturadora.

Essa mulher malvada será montada aos poucos. Alguns momentos deixam ver algo errado: é possível acompanhar seu silêncio, sua cabeça voltada para baixo, os cabelos na frente da face, a menina solitária em sua casa desarrumada, esperando o telefone tocar.

A personagem que ela assume pode ser um desejo oculto do mesmo homem: ver a bela menina ingênua, magra, bailarina, converter-se em dominatrix, carregando inclusive seus apetrechos, invadindo sua casa para envenenar sua bebida. Ao homem impotente é mais fácil aceitar essa personagem. Talvez essa fraqueza cause mais dor que a tortura.

Ao espectador, vista de baixo para cima, no ponto em que passa a dominar, a vingadora deixa palavras quase como sussurros: “Kiri, kiri, kiri”. É assustador pela aparente leveza, pela forma quase delicada que impõe antes de atacar o homem no chão e imóvel. Em mais de uma hora, o filme limita-se às andanças e descobertas do viúvo, sem revelar muito sobre ela. Ao fim, sua revelação é perturbadora e inesquecível.

(Ôdishon, Takashi Miike, 1999)

Nota: ★★★★☆

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Cinco Graças, de Deniz Gamze Ergüven

Cada vez mais fechada, a grande casa de Cinco Graças ainda deixa a luz invadir. A paisagem observada pela janela, ou através da estrada, deixa ver o mar, a grandeza. É a libertação possível – e o desejo, sobretudo – que o filme pretende retratar.

O título original, Mustang, remete a algo selvagem: as meninas ao centro, não por acaso, buscam liberdade. Uma ou outra consegue, mas nem todas escapam ao pior.

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No caso das mulheres, o destino, nessa Turquia, está traçado: serão prometidas a rapazes que não conhecem, submetidas a casamentos de mentira, como em velhas sociedades patriarcais regadas ao homem mais velho, de bigode saliente.

Este pode ser uma caricatura, ainda que seja real e indispensável ao drama do filme. Não é o pai, é o tio. As cinco meninas são criadas pela avó e por esse homem duro, que, ora ou outra, à noite, passa por cômodos em suspeito movimento, o que a direção às vezes discreta de Deniz Gamze Ergüven faz parecer abuso.

O homem enfurece-se com o movimento libertador das jovens: elas conseguem namorados, diversões, e, se necessário, fogem pela janela para viver não mais que uma vida normal, para cruzar a mata, a estrada e talvez chegar a um ponto qualquer.

Ainda que incômodo, o filme é leve. Nunca fácil, ainda que sua fluidez mostre liberdade mesmo atrás das grades da janela. Contra elas, as meninas lançam os pés enquanto a câmera flagra suas roupas curtas, divertimentos, da infância à adolescência.

Mesmo com a câmera tão perto, ainda assim é difícil penetrá-las, ou saber o que desejam além das inevitáveis escapadas. Confidenciam detalhes do sexo a dois, em um pacto ao qual levam a palavra baixa, as conversas em quartos fechados, os planos às vezes frustrados. Um filme sobre a adolescência, que começa com provocação.

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No início, as meninas saem da escola e aceitam nadar com alguns rapazes na praia. Sobem em seus ombros, duelam, divertem-se, o que pode ser considerado afronta aos adultos e seus espaços fechados, suas festas de véu e armas ao alto.

A avó descobre a farra no mar e leva as meninas, uma a uma, ao quarto. Precisa então analisá-las; durante essa breve passagem, enquanto são observadas pela mulher mais velha, as outras se desesperam ao perceber que a brincadeira ganhou outro peso.

Cinco Graças é contado pela irmã mais nova, Lale (Günes Sensoy). Durante o campeonato turco de futebol, ela pede que o tio leve-a ao estádio. Trata-se, diz ele, de um espaço de homens. Quando homens são proibidos de entrar no estádio, mais tarde, em nova partida, ela e as irmãs fogem para assistir ao jogo.

O futebol serve de provocação: no estádio, com a arquibancada cheia de mulheres, a cineasta registra a vibração feminina, a alegria ao fazer parte de outro jogo, de simplesmente romper o limite do “espaço masculino”, como dizia o tio.

O mérito do filme é se voltar mais aos desejos, ao que antecede as ações, menos às consequências e tragédias posteriores. O que importa à cineasta é registrar reações e corpos, movimentos constantes, a materialização da liberdade.

(Mustang, Deniz Gamze Ergüven, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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