macartismo

Sombras do Mal, de Jules Dassin

O apostador barato sonha em chegar ao topo do mundo e enriquecer. Segundo sua namorada, ele tem cérebro, ambição e “trabalhou mais que dez homens”. No entanto, nessa Londres às sombras, o protagonista segue como sempre foi, atolado em problemas, dívidas, o mesmo desmiolado nascido para o tombo.

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Difícil compreender por que ela continua a amá-lo, a segui-lo, a apostar nesse competidor fracassado ao longo de Sombras do Mal. “Você não encontrará nenhum dinheiro aí, Harry”, afirma a moça, quando o flagra mexendo em seus pertences, atrás de alguns trocados. Para sobreviver às ruas, vencer as dívidas, subir, será capaz até de agredí-la.

Ela, Mary (Gene Tierney), simplesmente não consegue deixá-lo. Cansou de ouvir seus planos, de fingir que o mesmo poderia ter sucesso, e até permitiu que saísse de seu apartamento com notas no bolso. Harry Fabian (Richard Widmark) usou a força de “dez homens” para se tornar um pequeno trambiqueiro, um golpista.

Trabalha para o mesmo homem que a amada, também para a mesma mulher – o casal Philip (Francis L. Sullivan) e Helen Nosseross (Googie Withers), seres da pior espécie à frente de um bar. Enquanto Mary é treinada para vender qualquer tipo de produto aos frequentadores, Harry encontra caminhos para atrair clientes ao agitado comércio.

A história é dele. Mary serve de alívio, figura honesta no grande filme de Jules Dassin, que foi para a Inglaterra trabalhar após cair na Lista Negra de Hollywood. Harry, em sua tentativa de chegar ao topo, sonha em controlar os espetáculos de luta livre londrinos nos quais impera a falsidade, em aberta comunhão com o universo que conhece bem.

A oportunidade aparece quando ele conhece um velho atleta de luta greco-romana. Vem a ser o pai do chefão dos ringues de luta livre, alguém que ainda crê no esporte como arte e, por isso, algo distante da dissimulação com quedas, saltos e golpes levados ao público. Para o velho lutador, o lucro do filho vale-se do espetáculo de circo.

Para Harry, é necessário aproximar-se do pai (Stanislaus Zbyszko) para ocupar o espaço do filho (Herbert Lom), dono do monopólio dos ringues da cidade em questão: fingir que pode ressuscitar um respiro de arte em um mundo marcado pelo show ordinário, ao público que aceita a mentira a serviço de patrocinadores gatunos.

O universo em questão dá luz a alguém como Harry, que só pode existir em terreno como tal. Que surge à tela correndo, perseguido por alguém cuja identidade não importa; outro, entre tantos, ao qual deve uma quantia de dinheiro, em aventuras de ganhos e perdas, de saltos e quedas, de riscos que não o retiram da sombra dos outros.

Harry reflete os ânimos e a visão de Dassin naquele momento: o filme noir, reino das sombras, é perfeito para o movimento dos pecadores que buscam redenção, para as várias delações em troca de dinheiro, para o espetáculo barato a um público pouco crítico, para um reino de miséria em que ninguém (ou quase) se salva.

Não é difícil pensar no macartismo do qual Dassin foi vítima e em seus efeitos, período vergonhoso da história americana em que suspeitos de colaboração comunista foram perseguidos e proibidos de trabalhar. Nesse meio, a força de vontade de Harry não será suficiente para salvá-lo; seu avanço é freado pelo mundo que o cerca.

Widmark está perfeito como golpista. Pouco depois, em 1953, estrelaria Anjo do Mal, de Samuel Fuller, cineasta acusado de alinhamento à direita. Na trama, os comunistas são vilões que tentam matar o protagonista, o batedor de carteira que acidentalmente rouba planos secretos dos soviéticos. Widmark serve filmes brilhantes que se aproximam e se repelem. Para Dassin, ao contrário de Fuller, a saída ao fim é impossível.

(Night and the City, Jules Dassin, 1950)

Nota: ★★★★★

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Woody Allen entre a realidade e a ficção

Humphrey Bogart é um exemplo para Woody Allen. É o tipo durão que conquista as mulheres, capaz de arrancar lágrimas de Ingrid Bergman no tão celebrado encerramento de Casablanca. É o momento em que o cínico dobra-se: deixa ver seu lado romântico e sedutor.

No cinema, o público vê Allen. Seus olhos não despregam da tela, sua boca abre lentamente. Em Sonhos de um Sedutor, de Herbert Ross, ele é Allan, alguém que não consegue se despregar da ficção, fã incondicional de Bogart e de seus filmes.

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sonhos de um sedutor

É vítima dos sonhos, o que lhe distancia do aparente mundo verdadeiro – com amigos, amigas, jantares, encontros e tudo o que as “pessoas normais” costumam fazer.

Em outro filme estrelado por Allen nos anos 70, Testa-de-Ferro por Acaso, ele será vítima justamente da realidade, o oposto àquele universo povoado por um Bogart imaginário. Na obra de Martin Ritt, o ator é Howard Prince, caixa de um bar convidado a assinar alguns roteiros de televisão escritos por outros homens.

Trata-se do mundo do entretenimento dos anos 50, época da caça às bruxas levada à frente pelo senador Joseph McCarthy, contra simpatizantes do comunismo. Prince, por outro lado, nada tem de comunista: é um alienado, pequeno trabalhador, pequeno americano, apostador que não incomoda quase ninguém.

De olho no dinheiro que poderá ganhar ao emprestar seu nome, ele aceita o novo emprego e sua vida se transforma. Não poderá ser mais o mesmo ao assumir essa nova função: será tragado àquele universo de injustiças, e se tornará outro.

Ambos os filmes trazem meios divididos entre a realidade e a ficção. Sonhos de um Sedutor apresenta essa personagem confusa, engraçada, que projeta em Bogart – o imaginário ou o real, na tela – o que almeja ser.

testa de ferro por acaso1

Em seu apartamento de paredes forradas por velhos cartazes de filmes clássicos, ele conversa com o Bogart (Jerry Lacy) pelos corredores. A personagem dá-lhe dicas e, à frente, está ao seu lado quando o protagonista não sabe o que fazer com a mulher do melhor amigo (vivida por Diane Keaton), sua última conexão com o mundo real.

Allan, tão imerso na irrealidade dos filmes, vai pouco a pouco mergulhando na névoa que levará à sequência final. Em um aeroporto, o filme retorna a Casablanca, àquela despedida. A diferença é que Bergman virou Keaton e Bogart, Allen.

É uma homenagem ao cinema com traços de pastelão – como a primeira fase da carreira do cineasta, de filmes como Bananas e O Dorminhoco. Vale dizer ainda que o filme brinca com tipos da época, no início dos anos 70, como a menina que anuncia o suicídio, a ninfomaníaca nem tão viciada em sexo quanto parece e os usuários de droga.

O tempo de Testa-de-Ferro por Acaso é outro. A América é outra, mas, à revelia, Allen é sempre o mesmo. Ritt imprime um tom mais sério do que Ross. A primeira parte é mais engraçada. A segunda, em pequenos momentos, esbarra no drama.

testa de ferro por acaso2

Poucas vezes o Allen ator chegou tão perto desse gênero como no momento em que observa o velório de um amigo. Engraçado e famoso na televisão, o falecido é Hecky Brown (Zero Mostel), investigado por suposto flerte com o comunismo.

O roteiro e a direção são econômicos, com o clima dos tempos da Guerra Fria, quando qualquer um podia ser suspeito e quando, em meio à paranoia, até mesmo um alienado como Prince tornava-se herói ou vilão – a depender do ponto de vista. É o que há aqui de mais irônico: Prince será diferente justamente quando passa a perseguido.

Mesmo como comédia, retorna-se à época em que alguns artistas – como Ritt e seu roteirista, Walter Bernstein – caíram na lista negra, sob o olhar do Grande Irmão. As primeiras imagens apresentam o “jeito americano” de ser. Em seguida, traz um país de desacertos, de gente simples que deseja apenas ganhar uns trocados.

Como Sonhos de um Sedutor, não chega a ser um grande filme, mas tem momentos de grandeza. Ambos são feitos com liberdade, um sobre o cinema, o outro sobre a televisão. E, em qualquer época ou material, o Allen ator continua o mesmo.

(Play It Again, Sam, Herbert Ross, 1972)
(The Front, Martin Ritt, 1976)

Notas:
Sonhos de um Sedutor: ★★★☆☆
Testa-de-Ferro por Acaso: ★★★★☆

Foto 1: Sonhos de um Sedutor
Fotos 2 e 3: Testa-de-Ferro por Acaso

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Brutalidade, de Jules Dassin

Presidiários que não se comportam bem terminam em um ambiente perigoso, um túnel repleto de lama. É para lá, em Brutalidade, que alguns perseguidos são levados, e dele nem todos saem vivos, como se constata no início da obra de Jules Dassin.

Quando esse túnel é enfim mostrado, na parte final, o protagonista, um distante Burt Lancaster, já se lançou ao sacrifício: descobre ter sido traído por um companheiro de cela, nada restando senão se entregar à luta, sem esperanças como está.

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O drama de Brutalidade faz do presídio instransponível a representação da sociedade americana da época, ao passo que seu roteirista, Richard Brooks, explorava o clima anticomunista que ganharia, não muito depois, ainda mais espaço.

O diretor Dassin teria de ir embora ao cair na malha fina da “caça às bruxas” do macarthismo. Fez carreira na Europa, com outros filmes exemplares como Rififi.

À exceção das lembranças, todo o resto se passa na prisão. Uma nova sociedade repressiva cercada por muros, de estruturas metálicas certamente menores do que parecem, algo ao mesmo tempo falso e assustador – como se vê nos créditos.

A chuva ajuda a compor o clima: é, como se vê, de um ambiente amargo, mas ainda não caótico, que se fala. Amargo o suficiente para matar aos poucos, com sua repressão sob o rosto aparentemente frágil do vilão, interpretado por Hume Cronyn.

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A história é antecipada pelo rosto de Lancaster, sob a chuva, em abertura extraordinária em composição e clima. Dassin articula as faces dos outros presos, no interior da cela, à do homem sofrido, que vê o amigo morto ser levado embora, do lado de fora, ainda na chuva – como se a saída fosse possível apenas pela morte.

É da morte que se serve a personagem de Lancaster, Joe Collins. Existe por ali um profundo ressentimento em relação à instituição (a sociedade de paredes espessas e guardas armados), personificada pelo raquítico e malvado capitão Munsey (Cronyn).

Ou seja, a história antes da história é evidente, o que comprova a grandeza do trabalho de Dassin. Explica-se muito com muito pouco, com a vida que brota nos homens – um mundo de homens, por isso com antigas histórias sobre mulheres – que exercem diferentes funções. Há por ali, por exemplo, o jornalista em busca de novas histórias.

Há o cinema, local em que os presos reúnem-se para alguns momentos de descontração, ou a igreja, na qual Collins explica seu plano de fuga, depois, a um de seus parceiros. Sociedade miniaturizada, fria, feia, guiada pelo pequeno ditador inclinado à tortura.

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Collins não é o herói típico. Sua pequena história quase o absolve: do lado de fora, antes de ser encarcerado, ele envolve-se em um crime para salvar uma garota com problemas de mobilidade. Lancaster sabe como parecer verdadeiro, não menos honesto. Os homens têm seus motivos para escapar, enquanto sonham com as companheiras.

Sonho resgatado pelo desenho de um rosto feminino colado na parede da cela. É uma e ao mesmo tempo todas as mulheres, como uma figura feminina morta à espera do olhar de cada um desses homens: voltam a ela para recordar a realidade.

Pouco antes da tentativa de fuga, o vilão Munsey é alçado ao cargo de líder máximo. Como já havia anunciado o médico da prisão, ele chega assim à cobiçada cadeira desse reino – à base de tortura – e cuja calmaria é capaz de enlouquecer os outros.

Do material que são feitos os piores. Brutalidade inverte os lados: os prisioneiros são os oprimidos, distantes do direito de escolha, vigiados, sob as regras dos verdadeiros criminosos, estes aparentemente serenos e fãs de música clássica.

Nota: ★★★★☆

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Pecado sem Mácula, de Anthony Mann

Os dez melhores indicados ao Oscar que não venceram o prêmio (anos 00)

Ganhadores como GladiadorO Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei e Crash: No Limite revelam que, se tratando do prêmio, uma década até então nunca tinha sido tão desinteressante. Alguns indicados, contudo, compensam, superam – e de longe – os vencedores. É a década do 11 de Setembro, com Michael Moore tão vaiado quanto aplaudido ao ganhar o Oscar por Tiros em Columbine, com Polanski e Scorsese finalmente ganhando suas estatuetas – não por seus melhores trabalhos.

10) Traffic: Ninguém Sai Limpo, de Steven Soderbergh

Três histórias diferentes, com tonalidades diferentes, sobre personagens no mundo das drogas, na fronteira entre Estados Unidos e México.

Vencedor do ano: Gladiador

traffic

9) Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood

Três garotos têm a infância marcada por um crime que continuará a persegui-los. Décadas depois, um deles tem a filha assassinada.

Vencedor do ano: O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei

sobre meninos e lobos

8) O Tigre e o Dragão, de Ang Lee

Com esse filme de artes marciais, o diretor de Razão e Sensibilidade traz grandes cenas de ação e ainda deixa espaço para uma história de amor.

Vencedor do ano: Gladiador

o tigre e o dragão

7) Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino

Uma moça judia que trabalha em um cinema e alguns vingadores decretam o fim dos inimigos nazistas nesse filme original e inventivo.

Vencedor do ano: Guerra ao Terror

bastardos inglórios

6) Capote, de Bennett Miller

A obra desenrola-se após um crime brutal, com o outro lado da vida americana: é o clima que inspira Truman Capote a escrever A Sangue Frio.

Vencedor do ano: Crash: No Limite

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5) As Horas, de Stephen Daldry

Enquanto a escritora Virginia Woolf sofre com depressão, seu livro Mrs. Dalloway muda a vida de outras pessoas, décadas mais tarde.

Vencedor do ano: Chicago

as horas

4) Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney

O apresentador de televisão Edward R. Murrow compra briga com o senador Joseph McCarthy, contra sua “caça às bruxas”.

Vencedor do ano: Crash: No Limite

boa noite e boa sorte

3) Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman

Como em A Regra do Jogo, personagens em uma casa de campo começam a se revelar. E o tal assassinato não é o mais importante.

Vencedor do ano: Uma Mente Brilhante

assassinato em gosford park

2) O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

O amor entre dois brutos dá espaço à sensibilidade – apesar de tudo. De tempos em tempos, eles reencontram-se e lutam para ficar juntos.

Vencedor do ano: Crash: No Limite

1) Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson

Essa obra-prima tem Daniel Day-Lewis em seu melhor papel, com as mãos molhadas de sangue, tendo de afagar o filho encharcado de petróleo.

Vencedor do ano: Onde os Fracos Não Têm Vez

sangue negro

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