Luiz Zanin Oricchio

Bastidores: O Conformista

Se a beleza nunca é vazia, isso se dá porque é veículo de uma preocupação pungente, que Moravia transmite a Bertolucci e pode ser resumida a uma pergunta: como pode o homem comum italiano transformar-se em celerado sob determinadas condições históricas, como sob o domínio de Mussolini? Esta é a pergunta pela natureza e pela condição de possibilidade do fascismo, questão que atravessa a história italiana ao longo do século 20 e, como todos sabem, ressurge viva e premente no século 21.

Luiz Zanin Oricchio, crítico de cinema, em seu blog no jornal O Estado de S. Paulo (leia a crítica completa aqui). Abaixo, o diretor Bertolucci e seu diretor de fotografia, Vittorio Storaro; na imagem seguinte, a atriz Stefania Sandrelli é vista atrás do cineasta.

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Paulo Emílio Sales Gomes, 100 anos

Como resumir a vida de um escritor e professor tão importante, com tamanha relevância ao exercício da crítica de cinema no Brasil? O grande Paulo Emílio Sales Gomes, cujo centenário ocorre em dezembro de 2016, é lembrado com uma mostra de filmes em São Paulo (até 7 de setembro). Nela, são apresentadas obras variadas, de diferentes países, que ele analisou ao longo da vida. Em homenagem ao seu centenário, o blog traz um pouco da importância de Hiroshima, Meu Amor ao autor, além de um trecho de seus escritos sobre a obra de Alain Resnais.

(…) Paulo Emílio escreveu nada menos que cinco (cinco!) artigos sobre Hiroshima, Meu Amor ao Suplemente Literário do Estado. Acercando-se da obra com cuidado, vendo-a por ângulos diversos, respeitando-a como enigma colocado em desafio ao espectador. “O filme é absurdo e múltiplo como a realidade”, escreve em um desses textos. Caso raro de crítico que, ao colocar em ação seus dotes interpretativos, coloca-se à altura da obra-prima que tem diante de si.

Luiz Zanin Oricchio, no jornal O Estado de S. Paulo (“O legado crítico de Paulo Emílio Salles”, 1º de setembro de 2016; Caderno 2, pg. C8; leia texto completo aqui).

Dizer apenas que Hiroshima mon amour viola a cronologia não é suficiente. A película não oferece tampouco uma estrutura espacial contínua. Sua matéria-prima é o fragmento, geográfico, histórico, psicológico, narrativo. Confiar na pura lógica para a apreensão de Hiroshima mon amour não seria aconselhável. Essa fita exige atenção, tensão, e ao mesmo tempo abandono. É possível que seja um tanto hermética, é certamente muito contraditória.

Paulo Emílio Sales Gomes, no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo (25 de junho de 1960; a análise foi reproduzida no livro O Cinema no Século, com críticas de Paulo Emílio; Companhia das Letras, pg. 528). Abaixo, uma imagem de Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais.

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hiroshima meu amor

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Entrevista: Beto Brant

A certa altura de Cão Sem Dono, o protagonista Ciro diz que “todo mundo tem cicatrizes”. Nesse caso, a cicatriz pode ser entendida como uma marca de história, algo que prende as pessoas a locais, que revela suas raízes.

Fazer cinema, para o cineasta Beto Brant, foi uma forma de viajar, de conhecer o mundo, de viver intensamente. Em uma conversa com o Palavras de Cinema, ele contou o que o move, detalhes de seus trabalhos, o que pensa da crítica e, sobretudo, o que está por trás de seu cinema.

beto brant

Ao falar de suas obras, não esquece os colaboradores. Sobretudo o produtor e diretor Renato Ciasca, seu parceiro de décadas, e o escritor Marçal Aquino. Mesmo sem dizer, Brant deixa claro que o cinema é um projeto coletivo, uma relação de olhares, de transformações – um projeto comum, um “testemunho de inquietação”, com o Brasil e suas contradições ao fundo.

Brant é um homem de fala simples, direto, sem rodeios. Pensa antes de falar e, não raro, deixa ver sua paixão por contar histórias e “esculpir o tempo”.

Como nasceu seu interesse por cinema e por que resolveu ser cineasta?

Eu comecei a fazer quanto tinha 18 ou 19 anos, quando um amigo me convidou para fazer super 8. E aí entendi o poder da linguagem do cinema, da sintaxe, e aprendi que aquela história que eu aprendia, aquela história geopolítica, econômica, mercantilista, das guerras, que a gente aprende na escola, era possível estudar através de outros aspectos. Nesse caso, aspectos humanos. A literatura, o teatro e o cinema abrem outra perspectiva para você conhecer a humanidade. E depois o cinema passou a ser para mim um grande pretexto para passear, para conhecer o mundo. Conhecer pessoas. Um pretexto para viver intensamente.

Seu cinema toca em várias situações da história de nosso país. Por exemplo, a Ditadura Militar em Ação Entre Amigos, a exploração do meio ambiente e também do índio em Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios. Você considera o seu cinema político e acredita que ele reflete a realidade de nosso país?

Nesse projeto estão envolvidos o Renato Ciasca, que é meu sócio e produtor, e também o Marçal Aquino, que é escritor e autor de roteiros. Existe sim um compromisso de testemunho, de testemunhar nossa inquietação. Claro que os filmes não são panfletários, não se justificam apenas por suas mensagens subversivas. Mas é sim uma consciência política de intervir. O Marçal Aquino, por sua origem jornalística, tem textos impregnados por essa questão política. A gente tem nos primeiros filmes uma trilogia, Os Matadores (foto abaixo), Ação Entre Amigos e O Invasor. Você tem a questão da violência do campo, a “pistolagem”, a fronteira. Já tem questões dos Sem Terra lá em 1995. A violência política em Ação Entre Amigos nos anos de chumbo e também sua resistência armada. O filme é contemporâneo e reflete essa geração nos dias de hoje. E em O Invasor, a tensão, que é muito forte, entre o Centro e a periferia em São Paulo. Todos os filmes procuram discutir esses temas. Todos têm finais abertos para promover a inquietação em quem assiste.

os matadores1

O cinema pode mudar a forma como vemos a sociedade?

Minha geração crê nisso. Veja por exemplo um cara como o Cláudio Assis, meu amigo desde os anos 90. Ele era um cineclubista, um cara que viajava com um projetor 16 mm pelo interior de Pernambuco passando filmes para promover a discussão. A tradição desse cinema cineclubista oferecia ao público uma dramaturgia fora do tradicional, que contrasta com essa hegemônica, a dos conglomerados de comunicação. A editoria dos programas dessas redes de comunicação tem uma direção muito clara. E o cinema, como tem produção descentralizada, há uma pluralidade de discursos, o que só ajuda o espectador a formar sua opinião sobre esses diversos assuntos.

Ainda sobre as questões sociais, gostaria de falar sobre seu primeiro filme, Os Matadores. Já faz quase 20 anos de seu lançamento. O Brasil hoje mudou muito, em comparação ao Brasil que você encontrou naquela época? O filme segue atual?

Completamente atual. Agora mesmo, quando filmei Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, no Pará e no norte em geral, essa questão da “pistolagem” ainda é muito forte. A gente soube [de histórias semelhantes às dos filmes], em todos os filmes que fizemos. Quando lançamos Ação Entre Amigos, na mesma época, um general aposentado veio a público contar, por um problema de consciência dele, e testemunhou seus crimes políticos. E quando estávamos filmando O Invasor (foto abaixo), surgiu um crime semelhante no Ceará [envolvendo dois homens que eliminaram um sócio]. Essa é uma “antena” muito forte do Marçal, que é um jornalista de formação, com uma visão muito analítica do momento em que vivemos. Quando fomos realizar Eu Receberia e fomos ao Pará, o tema era a nova corrida ao garimpo, e o fato é que, quando chego lá, havia uma luta pelo direito da terra, das comunidades ribeirinhas com as madeireiras. Havia um cabo de guerra, um movimento de 70 comunidades contra o tráfico ilegal [de madeira] e lutando pela fiscalização, pelo direito de terra. Achei aquilo mais forte, mais atual para colocarmos no filme, mais urgente e vivo. Mantemos a estrutura do livro, o que é seu cerne, da discussão humana, de seus personagens principais, e contextualizamos nisso que é contemporâneo. Hoje mesmo eu vi no jornal que prenderam um bando de grileiros, uma gangue forte que estava em uma região próxima do lugar em que a gente filmou.

o invasor

O que te atrai tanto nas histórias do Marçal?

Não só o fato de ele ser um cara ligado no mundo, presente e inquieto, mas pelo talento narrativo que ele demonstra, da sintaxe e da construção da história, a forma como ele constrói o olhar. E a gente já tem um pacto de muitos anos, de amizade…

E com o Renato [Ciasca] também…

Com o Renato também. E a gente não filma exatamente o livro, mas fazemos uma leitura. Esse jogo está muito implícito. O Marçal nunca ficou magoado quando um personagem sumiu ou porque foi contextualizado em outro lugar. Ele [Marçal] gosta do diálogo, de ver a reinvenção do que escreveu. Quando ele tem um livro novo, eu quero ler. Vou na casa dele tomar um café. Ele escreve um livro tendo eu como sua primeira opção [para fazer a adaptação ao cinema].

Sobre o Eu Receberia (foto abaixo), há uma cena que me inquieta e gostaria de saber sua interpretação. Trata-se da primeira imagem do filme, que é aquela moça nua [Lívea Amazonas], parcialmente coberta de areia. Uma cena selvagem e ao mesmo tempo erótica. O que significa essa cena?

Dentro do filme, para mim é muito claro: é um fotógrafo que fotografa mulheres [o personagem central] e é como se ele estivesse fotografando aquela menina. E na cena seguinte, inclusive, ele está chegando naquela cidade com a máquina. Aquele é o ponto de vista dele. Ele está em um local de conflito e aquela é uma mulher de traços indígenas, com uma força da natureza. Para mim, é uma entidade. A menina simboliza aquele lugar, a beleza do lugar.

O Cauby me parece um personagem misterioso. A gente sabe um pouco sobre a personagem da Camila Pitanga e do personagem de Zécarlos Machado. Mas o Cauby, ao mesmo tempo em que parece ser o protagonista, é misterioso, o homem que anda pelo mundo. Você se identifica com esse personagem?

Sim. O Cauby do Marçal, do livro, é um pouco mais intelectual, e o que dá a densidade do livro é que ele já viveu a história e a relata. É o relato de um passado. Ele já tem a dor. O Cauby no filme é puro, porque ele vê a história acontecer, vai pelo presente, e então tem a imaturidade. Isso é muito diferente do ponto de vista narrativo do livro. Outra questão é que o Cauby do Marçal é mais intelectualizado, ele tem uma ilusão maior. O animal de estimação dele no livro é um tatu. No nosso, é um camaleão. Já que a minha linguagem é a imagem, eu vou fazer o Cauby mais ligado à imagem, à psicodelia, um camaleão que vive na árvore e está livre. O Renato e eu propusemos um Cauby diferente.

eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

Tem algum cineasta, vivo ou morto, com uma linguagem que te atrai?

Eu não sou de… “pagar pau” para nomes e figurões (risos). Enquanto estou criando, a minha inspiração é a própria imagem, o meu embate com a realidade. Minha inspiração é com o objeto que eu vou filmar. No entanto, às vezes, quando estou fazendo um roteiro, me preparando, assisto um filme e isso me inspira de alguma maneira. No caso de Crime Delicado, eu tinha visto O Discreto Charme da Burguesia, do Buñuel. Aquilo de alguma maneira me impulsionou àquele caminho que o filme tomou. Para meu primeiro curta, Aurora, eu estava vendo Kusturica, Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, e assim o clima de filmar ficou diferente. Como gosto de viajar, procuro ver filmes que me levem também para outro lugar, que tenham uma inquietação. Ver um filme turco, espanhol, colombiano, é também um jeito de eu tomar contato com outros locais. [Para fazer] cinema é fundamental você ter curiosidade pelo outro. Se você não tem, você nem faz e nem assiste.

Você lê as críticas sobre seus filmes ou elas não importam?

Gosto de ler. Quando lanço um filme, não vejo a hora de ler o que o Zanin [Luiz Zanin Oricchio, crítico de cinema do jornal O Estado de S. Paulo] escreve. É um cara que me interessa. É um diálogo, né? Para você saber como o tempo que você “esculpiu” (risos) – olha eu aqui citando o Tarkovski – “bateu” no outro. É também o caso de um ensaísta como o Ismail Xavier [teórico e professor de cinema] ou a Lúcia Nagib [professora de cinema], que escreveu um livro com um capítulo dedicado a O Invasor. Acho fantástico como um ensaísta, um pensador, consegue desembaralhar as cartas e tocar em semânticas, com uma conexão, uma costura, com um significado que é uma novidade para mim e que é legal de descobrir. A gente faz [a criação cinematográfica] de uma maneira muitas vezes intuitiva, e o sujeito treinado a raciocinar vai lá e busca uma ideia que te surpreende. Eu gosto sim de ler. O que não gosto é de ler a crítica do cara que não entrou no filme e vai pela negação, por aquilo que o filme não tem segundo a concepção dele. Isso não dialoga comigo.

A imprensa, em geral, tem sido generosa com seus filmes?

Sempre tenho tido uma recepção favorável. Sou de um tempo em que a comunicação era feita por jornais diários, que era a grande repercussão que tinha o filme. Hoje tem muita gente escrevendo em blog. Outro dia, entrei em um blog e tinha um texto muito legal sobre o Eu Receberia. Sem querer encontrei esse texto e achei tão legal que enviei para o Marçal. Eu tinha achado uma agulha em uma caixa de costura (risos). É legal quando o cara faz uma análise “de dentro” do filme. E para nós é um diálogo bom. Já faz quase dez anos que não leio jornal. Parei na época do Mensalão. Estava perdendo muito tempo lendo jornal e disse para mim mesmo que deveria fazer coisas mais legais para minha vida. Claro que leio matérias jornalísticas, mas pela internet, e escuto rádio. Não estou alienado. Mas receber o jornal, pegar o papel, é uma prática que não tenho mais. Eu adoro pegar o jornal na mão, mas me alforriei, não quero mais. Estou liberto da imprensa diária. Acho fabuloso isso, de estar todo mundo escrevendo. A geração do meu filho está escrevendo, está engajada, e é uma geração que já cresceu sem o jornal diário.

Foto do topo: Beto Brant nos bastidores de Crime Delicado (crédito: Priscila Prade).

Entrevista: Miguel Barbieri Jr.

Antes da entrevista, o crítico Miguel Barbieri Jr. havia acabado de sair de uma cabine (sessão voltada à imprensa), no cinema Reserva Cultural, na avenida Paulista. Assistiu, uma semana antes da estreia, o último filme de Philippe Garrel, Um Verão Escaldante. Para ele, um filme menor, que não agradou. Na mesma sessão estava Inácio Araújo, que depois elogiaria a produção na Ilustrada. Para Miguel, no entanto, não se tratava de grande coisa: o filme de Garrel, uma semana depois, chegaria às bancas acompanhado por apenas uma estrelinha na cotação da Veja São Paulo.

“Gostei de Amantes Constantes, mas não de A Fronteira da Alvorada”, disse, antes de degustar um croissant e dar uma entrevista para este site. Falador mas ponderado, Miguel ocupa a função de crítico na revista da Editora Abril há mais de 10 anos. Segundo um breve perfil no site da editora, vê mais de 400 filmes por ano e, em suas palavras, livre de preconceitos. Na hora de pregar os olhos na tela grande, um blockbuster do momento merece a mesma dedicação que uma produção premiada em Cannes.

Na profissão, Miguel vê de tudo e, com exceção do período em que está em férias, preenche sozinho as várias páginas da revista dedicadas ao cinema – o que ele chama de roteiro e nas quais diz “ter tudo”. Fala também das estrelinhas utilizadas pela revista para dar nota aos filmes, das incursões por caminhos variados até chegar à posição de crítico de cinema, da Mostra de São Paulo e da abundância de “especialistas” atualmente na internet. “Os veículos, acredito, sabem escolher os melhores profissionais”, afirma. “O leitor não é bobo.”

No livro Os Filmes da Minha Vida – Volume 3, você dá um longo depoimento sobre o que lhe formou enquanto crítico de cinema. Você diz que descobriu os filmes um pouco acidentalmente, com 13, 14 anos, por pura curiosidade. Você se tornou crítico por acidente ou já tinha isso na cabeça?

Quando eu tinha uns 14 anos, eu tinha um caderninho, no qual anotava minhas observações sobre filmes. Não sei se era uma crítica. Eu recortava algumas notícias e colocava ali. Não sei onde foi parar esse caderno. Havia críticas do Rubens (Ewald Filho) que guardava nele, também do Edmar Pereira, do Jornal da Tarde, do Rubem Biáfora, que escrevia no Estadão. Eu escrevia alguma coisa e colava a crítica deles. Já profissionalmente, eu nunca pensei em ser crítico porque nunca pensei em ser jornalista. Para você ter uma ideia, eu fiz Biológicas no colegial. Não sabia se queria ser médico, se queria ser biólogo. No terceiro ano do colegial, dei uma guinada total. Achei que pendia muito mais para artes, para cultura, até mesmo para psicologia. Embora tenha feito Biológicas, fiz, depois, um cursinho para Humanas. Prestei para publicidade, arquitetura… Quando temos 17 anos, não sabemos muito bem o que queremos, não é? E prestei jornalismo na PUC. Mas, na verdade, não queria fazer jornalismo, mas o foi o único lugar em que acabei entrando. No primeiro ano, na PUC, tinha aquilo que eles chamavam de básico, e você fica menos com sua turma de jornalismo – uma ou duas vezes por semana. Não sei se hoje ainda é assim, mas há 30 anos era. E, na época, nas aulas com o básico, comecei a fazer amizades com pessoas que não faziam jornalismo. Enfim, terminei por fazer a faculdade e descobri o fazer cinema também na faculdade, com um curta-metragem que ganhou prêmio, uma brincadeira que fiz com um amigo meu, que era estilista. Consistia em pegar algumas amigas da classe e fazer uma transformação. Era uma viadagem que tínhamos feito (risos) e que acabou dando certo. E acabamos ganhando um prêmio em Campinas. Gostei de fazer cinema e gostava muito de ir ao cinema, mas nunca pensei em casar as duas coisas, ou seja, jornalismo com cinema. O que eu queria mesmo era trabalhar com publicidade e, se tivesse feito isso, hoje estaria bem melhor de vida (risos). Terminando a faculdade, fui morar um ano em Paris, que é uma vitrine cinematográfica que não tem em lugar nenhum do mundo, não é? Nem em Nova York não tem. E, quando não tinha nada para fazer em Paris, onde fui para fazer um curso de vídeo e onde fiz um cursinho de arte e francês, ia muito ao cinema. Vi ciclos do Fassbinder, do Wim Wenders, cineastas que descobri lá, que estavam no auge. Era o início dos anos 1980. Quando voltei de Paris, fui trabalhar com publicidade, não fui ser jornalista logo de cara. Trabalhei dois anos com isso e parei. Não era meu caminho.

No mesmo livro, você fala de uma dificuldade que existia no Brasil, mesmo antes do vídeo, que era encontrar alguns filmes. Antigamente, ou o crítico ia ao cinema ou ele não via nada. Se perdesse a sessão, acabava não vendo mais o filme. Hoje, com a facilidade de encontrar as obras, é mais fácil ser crítico de cinema?

Hoje você tem muito mais acesso. Naquela época você tinha a televisão, onde era possível pegar reprises de alguma coisa, também os cineclubes, mas essa facilidade não existia. Cheguei a pegar o primórdio do vídeo e abri uma locadora (Over Vídeo, uma das primeiras locadoras de vídeo de São Paulo) com uma amiga minha em 1986, que durou até 1998. Foi uma grande experiência. E, ainda antes, comecei a descobrir filmes porque meu cunhado tinha um videocassete. As locadoras estavam surgindo aqui no Brasil. Na época, fiquei sócio da Vídeo Clube do Brasil. Por ali também vi muita coisa, sobretudo filmes dos anos 1980 e mais antigos. A qualidade era péssima, porque era tudo pirata. Via alguns do Coppola, mais antigos, também de Woody Allen.

E nessa experiência, do outro lado do balcão, quando indicava filmes você já fazia crítica de cinema?

(Pensa um pouco.) Não… Era uma relação diferente. O que me trouxe foi uma experiência para saber o que o público gosta. Isso eu trago muito, hoje, ao meu trabalho. Ou seja, sempre procuro escrever para quem está me lendo. E aí que cheguei e disse para mim mesmo que gostaria de ser crítico, já que havia me formado em jornalismo. Na época havia poucos nesse ramo. Hoje em dia, em uma cabine, pode ter até 100, 200 pessoas nas mais badaladas. Nesta semana (a entrevista foi feita no dia 25 de maio) teve a do Homens de Preto (a terceira parte da série) e estava cheia. Agora há blogs, sites, jornais variados. Mas na época em que comecei, você ia nas cabinas e tinha poucas pessoas. Tinha o Merten (Luiz Carlos Merten, crítico do Estadão), o Zanin (Luiz Zanin Oricchio, crítico do Estadão) e outros poucos, como o Inácio (Araújo, da Folha de S. Paulo). Em 1992, uma amiga minha, aquela que era minha sócia, era editora cultura do Diário Popular, hoje o Diário de São Paulo. E ele me disse que estava mandando embora o crítico de vídeo. Ela perguntou se eu queria assumir. Disse que não sabia, que nunca havia escrito crítica. Mas ela argumentou que eu já tinha visto muitos filmes e me deu alguns toques. Para ter uma ideia, eu escrevia, ia na casa dela, mostrava e ela fazia apontamentos. Então eu comecei…

Então, se não fosse a locadora, você não teria se tornado crítico de cinema?

Não só pela locadora, mas se não fosse o meio se abrir. Sempre achei que era uma panela. Havia o Rubens e alguns outros. Não tinha essa coisa mais ampla como é hoje. E não sei se isso é muito bom.

Acha que o excesso de gente escrevendo na internet banalizou o trabalho do crítico?

Acho. Perdeu um pouco o critério. Os veículos, acredito, sabem escolher os melhores profissionais. E o leitor também sabe ler aquele crítico com quem está acostumado. O leitor não é bobo. Para você ter uma ideia, no Diário eu fiquei de 1992 a 2000 e, depois, até 2012, na Vejinha. São dois lugares apenas onde eu trabalhei. Claro que fiz freela para outros lugares. Já fiz uma revista que teve dois ou três números apenas, mas não era um exercício de crítica. Quando entrei na Vejinha, percebi que o público era outro se comparado com o do Diário Popular. Tinha que escrever de uma outra maneira e, não digo indicar, mas saber para qual público eu estava falando. E isso foi a locadora que me deu, como experiência. Em um bate-papo no Cinesesc eu falei isso: não gosto do último filme de Godard, o Film Socialisme. Detesto. E o fato não é nem eu detestar, mas jamais poderia indicar esse filme para um leitor da Vejinha. Não é o perfil desse leitor. Se escrevesse na Cahiers du Cinema até poderia ser, mas não é o caso.

Acha que quem lê a Veja São Paulo busca mais entretenimento, programa com a família, não um filme do Godard?

Pode até ser uma visão errada minha, mas acho que não. Pelas cartas que eu recebo, pelo que eu escuto, é um gosto médio. E meu espaço, hoje, comparado àquele que eu tinha na época do Diário, é muito pequeno. Tem gente que gosta. Um colega, inclusive, disse usar meus textos para demonstrar exemplos de concisão. Nunca tinha percebido isso: em dez ou 15 linhas acabo escrevendo o que eu acho de determinado filme. Por incrível que pareça, hoje eu não sei se teria saco de escrever coisas tão grandes. Não digo capacidade, mas saco.

Sobre seu trabalho na Veja São Paulo, você vê muita coisa.

Vejo praticamente tudo.

Mas você vê porque é seu trabalho, sua obrigação. Se não fosse crítico, você assistiria tantos filmes assim?

Uma coisa que me irrita demais, ao ir ao cinema como espectador comum, é o público. Hoje em dia está infernal. Gente com celular. A luz do celular me irrita, gente conversando. Muita coisa me irrita. Uma vez ou outra, quando perco algum filme, tenho que ir ao circuito. Talvez eu selecionaria mais os filmes se não fosse crítico, mas gosto de ver tudo. Gosto de ver Homens de Preto, gosto de ver Missão Impossível. Também gosto de ver um Hasta La Vista, um Koreeda (Hirokazu Koreeda, cineasta japonês), um Philippe Garrel (cineasta francês).

Não acha seu espaço, na Veja São Paulo, um pouco limitado?

Na verdade, aquilo é um roteiro. E como roteiro e serviço acho o melhor que tem. Se você parar para pensar em qualquer outro veículo, você não tem algo tão bem esmiuçado, pelos menos em cinema. E detalhe: escrito por uma única pessoa. Sem querer falar mal de outros veículos, mas a Folha tem mais críticos e, se ver o roteiro, vai ver que tem quatro estrelas para um filme, três para outro, duas para outro – mas são críticos diferentes que estão escrevendo. Na Vejinha sou eu e minha opinião. Então, quem confia em mim, vai ler o que escrevo. O espaço é um roteiro de cinema e, por ser um roteiro, acho que tem tudo. Falamos de festivais variados, de mostras importantes. Me perguntam se, além das estreias, eu vou a essas mostras. Não dá. Tem várias, muita coisa. A única que tento acompanhar melhor é a Mostra Internacional de Cinema. Não dá para ir em muitos outros, como o É Tudo Verdade, Anima Mundi. É uma questão de tempo mesmo.

Sobre as estrelinhas, na revista, acho que isso sempre geram amor e ódio. Até hoje, se bem me lembro, só vi três filmes com cinco estrelas na Veja SP: O Segredo de Brokeback Mountain, o recente A Separação e Violência e Paixão, do Visconti.

Antes, acho que eu já havia dado cinco estrelas para As Invasões Bárbaras e alguma outra coisa que voltou ao circuito, algum clássico. A coisa das estrelinhas surgiu quando eu estava lá. Estou lá há 12 e isso deve ter surgido há uns 7 ou 8. De uma hora para outra resolveram colocar as estrelinhas. E ficou estabelecido que era de uma a cinco estrelinhas. A bombinha veio depois, com o filme da Eliana, inclusive, que é O Segredo dos Golfinhos. Aquilo era o fundo do poço, não tinha mais onde chegar. Pensei: gente, temos que dar uma coisa ainda menor.

Mais ou menos como ocorreu com o filme da Carla Perez.

Sim, o Cinderela Baiana. Se tivesse a bombinha, naquela época, com certeza. Cinco estrelas, segundo meus editores, devem vir acompanhadas de muito critério. Você não pode comparar um ótimo filme de hoje como um clássico, desses que voltam ao cinema, como Amarcord. Se você reparar em teatro, nunca tinha cinco estrelas. É o que falam: só se for Shakespeare com a Fernanda Montenegro. Ela fazendo Lady Macbeth (risos). De uns tempos para cá, eu estou, aos poucos, tentando. A Separação foi um caso assim. E tem outras coisas: meu editor mudou e a confiança em mim, nesses 12 anos, foi ficando cada vez maior. Quando entrei na Veja SP era mais complicado, não havia tanta confiança. Sou o crítico de cinema que mais tempo ficou na Vejinha. O Orlando Margarido ficou um tempo, a Neusa Barbosa também. Acho que eles gostam de mim. E adoro o que eu faço. Adoro ver filmes e faço com prazer. Acho também que sou uma pessoa sem preconceito, o que considero muito importante. Vou ver um filme do Garrel com o mesmo prazer que vou ver um Missão Impossível e Os Vingadores. A disposição é a mesma.

Quando está em casa e quer ver um filme que te satisfaz, o que você assiste?

Então, ultimamente tenho assistido algumas coisas. Revi Doutor Jivago, Ladrão de Casaca, Bonequinha de Luxo, O Iluminado, Nascido para Matar. Revi com uma vontade muito maior do que uma coisa nova. É muito difícil eu ter tempo para ver uma coisa que eu gosto. Para ter uma ideia, tenho dez filmes baixados no computador, filmes que não saíram no Brasil e provavelmente não vão sair. A única forma de ver esses filmes é baixando. Claro que não baixo filmes de coisas que estão passando, que saíram no Brasil ou vão sair. Nesses casos, vejo nas cabines ou, muitas vezes, recebo o DVD de algumas distribuidoras. Isso também é um problema, pois, como sou obrigado a ver tudo, acabo vendo sete ou oito filmes por semana. E tenho três ou quatro dias na semana, no máximo, para ver filmes. Tenho segunda, terça, geralmente de manhã. Quarta-feira eu não posso, devido ao fechamento da revista. Quinta, se saio tarde da redação na quarta, não dá, e resta a sexta. Se o horário de uma cabine não se encaixa, tenho que me virar, muitas vezes, com o DVD.

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, são mais 400 filmes em duas semanas. Acompanhar a Mostra não se tornou uma batalha inglória?

No ano passado já deram uma enxugada. O Leon (Cakoff, fundador do evento) já não estava muito bom. De 300 filmes, acho, caiu para 200 e poucos. O que acho que falta na Mostra é critério seletivo. Todo ano, na Veja SP, faço um quadro dando algumas dicas do que vai passar no evento. É claro que é um quadro de cartas marcadas, com os filmes mais esperados, com vencedores de Cannes, Berlim etc.

Que é exatamente aquilo que sairá depois no circuito.

É, de certa forma. Mas gosto também de descobrir algumas coisas. Nunca me esqueço da primeira coletiva da Mostra que cobri para a Vejinha. Levantei o braço e perguntei para o Leon: “Gostaria que você desses uns toques, do que acha legal ser indicado ao leitor”. Ele disse: “Isso é trabalho seu. Nosso trabalho é trazer os filmes, o trabalho de vocês é selecionar e dizer o que é bom e o que não é”. Depois disso, meu amigo… (risos) Mas era uma pessoa maravilhosa. Adoro o Leon. Ele que me convidou para fazer Os Filmes da Minha Vida e tenho grande gratidão por ele. O que eu faço, em tempos de Mostra, é ir ao escritório deles um mês antes, ver uma lista do que deverá vir, dou uma pesquisada e vejo se tem ganhadores de prêmios e filmes importantes. Para mim, a Mostra começa um mês antes. E, quando efetivamente começa, para trabalho tenho apenas uma semana, porque quando uma edição da revista sai o evento já está acabando. E todo ano eu fico muito perdido. Todo ano é a mesma coisa. Não sei se vejo filmes que vão estrear, para me adiantar. Não sei se vejo os clássicos que estão voltando, com cópias restauradas. No ano passado, gostaria muito de ter revisto Taxi Driver. Não vi e me dá raiva. E gosto de fazer um “seguidinho”: pegar um cinema e ficar por lá, em sessões seguidas. Três ou quatro filmes diretos.

Mas, de vez em quando, surge um Mistérios de Lisboa por ai e pode tomar o dia todo, não é?

Às vezes ocorre isso ou tem, no meio, aquele filme bosta e você se pergunta: “O que isso está fazendo aqui?” Portanto, acho que às vezes falta um critério de seleção. Não é só porque é um filme pervertido, underground, que precisa estar passando na Mostra. E, no ano passado, os organizadores fizeram uma coisa que não sei se farão esse ano: eles não trouxeram os filmes que passaram no Festival do Rio, o que acabou gerando certo desconforto. Mas a Mostra é o grande evento. São Paulo tem muita oferta, muita coisa. Não sei se pode ser comparada a Paris, mas talvez seja a segunda ou terceira cidade mais importante em termos de cinema. Veja, por exemplo, um cinema como o Frei Caneca, a diversidade de títulos que tem, que une desde blockbusters a filmes iranianos. O que o Leon e o Adhemar (Oliveira, criador do Espaço Unibanco e que também dá depoimento em Os Filmes da Minha Vida 3) fizeram por São Paulo foi algo sensacional, mas isso é aqui. Você sabe que eu faço Veja Rio e agora estou fazendo Veja Belo Horizonte. Para ter uma ideia, essa semana não havia os dez melhores filmes em Belo Horizonte. Não tinha filmes para completar os dez, todos com três estrelas. No Rio tem. O Rio é até meio chato, pois alguns filmes ficam eternamente em cartaz. Se bobiar, ainda está passando O Artista por lá. Em São Paulo sai mais rápido.

Rafael Amaral (07/08/2012)

Entrevista: Luiz Zanin Oricchio

O crítico Luiz Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP, fez pós-graduação em psicanálise, clinicou, estudou fora do país e descobriu no cinema seu exercício diário. Como explica ele, são de dez a 15 filmes por semana. E tudo começou quando escrevia um livro de ficção. Mergulhou em Bertolucci e seu O Conformista. Sem querer, viu-se fazendo crítica de cinema.

É o que ele conta, entre uma pergunta e outra, na entrevista. Fala sobre a reação de um leitor a uma análise de Não Matarás, sua opinião sobre o investimento estatal e faz declarações esclarecedoras. “O cinema de mercado não deve ser culpabilizado. Ele não esconde o que quer: grana.” Zanin foi editor do Suplemento Cultura do Estadão por nove anos. Atualmente é repórter especial, colunista e crítico de cinema do jornal. É também presidente da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

Em uma análise recente de O Artista, você termina seu texto questionando. Diz “e daí?”, o que dá a impressão de que filmes como este parecem mera diversão ou nostalgia. Você se deixa levar pelo coração quando analisa um filme?

Com o “e daí” quis dizer que o filme, apesar de muito legal, não deixava mais nenhum lastro em meu imaginário. Não tinha maiores consequências. O coração está sempre presente, enquanto bater. Mas não pretendo jamais fazer crítica unicamente “com a emoção”, isto é, descerebrada. Estilo meu, o que fazer?

O trabalho do crítico inclui, além de informação, a opinião. Você recebe muitas críticas por causa das coisas que escreve? Lembra-se de algum caso que lhe chamou a atenção, de algum filme que criticou ou mesmo elogiou e que não foi bem recebido pelos leitores?

Lembro de dezenas de casos assim. Num deles, escrevi um texto longo, falando de Não Matarás, do Kieslowski, e classificando-o como obra-prima. Alguns dias depois recebi uma carta (era tempo da carta, não havia e-mail) de um juiz de direito dizendo que eu lhe havia proporcionado uma das piores noites da vida dele. Respondi dizendo que sentia muito, etc, mas o grande cinema era assim. Podia desagradar. Mesmo porque (isso eu não disse) o filme questionava a própria profissão do meu leitor.

Quando começou a trabalhar no Estadão, acha que já tinha um conhecimento de cinema suficiente para tal cargo? Você se cobra muito?

Já tinha uma informação relativamente boa, e com o tempo a gente vai melhorando um pouco. Mas sempre acho muito insuficiente. Não sei se algum dia vou me satisfazer com meu trabalho. Mas se esse dia chegar, será a hora de parar.

Quantos filmes assiste por semana? Resta tempo para ficar com a família?

Os filhos, enteados no caso, estão crescidos. Minha mulher (Maria do Rosário Caetano) é jornalista e crítica de cinema também, o que resolve bastante as coisas. Fazemos muita coisa juntos, inclusive viagens de trabalho. Acho que, entre filmes no cinema e DVD, dá entre dez e 15 por semana. Em época de festival é muito mais. Chega a quatro ou cinco por dia. Mas não gosto dessas maratonas. Faço porque sou obrigado.

As grandes capitais do país representam, de certo modo, muita diferença em relação a outras cidades (muitas delas sem um único cinema e espaços para exibição). Acha que investimento estatal em salas de espetáculos em geral é uma saída para preencher esse vazio?

Acho que o Estado deveria investir em salas populares. É a única saída para o déficit que ainda temos em termos de cinema. O nosso circuito não chega a 2,7 mil salas. É muito pouco.

Com tanto enlatado chegando aos cinemas semanalmente, ainda é possível acreditar no cinema americano de estúdios?

Chega muito enlatado e chega também cinema de estúdio. Na verdade, eles dominam a máquina, em nível mundial.

Não acha que falta um pouco de ousadia aos cineastas da atualidade em relação aos temas abordados ou mesmo às formas utilizadas? Nos últimos anos vimos, tenho a impressão, poucas propostas e novos olhares para causar alguma mudança (lembro-me do movimento Dogma, do cinema iraniano, mas isso ainda nos anos 1990). Essa carência tem explicação?

Sempre há alguma ousadia, se você olhar e pesquisar bem. Mas são casos isolados. O cinema, de maneira geral, está muito conformista, muito voltado ao mercado. O público, também de maneira geral, anda muito acomodado, sem vontade de experimentar novas abordagens, novas linguagens, etc. Não é um problema só do cinema. É a nossa época.

Em uma análise recente de números da Ancine, você fez alguns apontamentos sobre obras brasileiras que fizeram grande bilheteria. Em geral, comédias sem muito cérebro. A televisão e a dita “estética da Rede Globo” têm culpa nessa procura do público?

O cinema de mercado não deve ser culpabilizado. Ele não esconde o que quer: grana. O problema, acho, é financiar esse tipo de cinema com recurso público. Acho um contra-senso.

Você escreve muito também sobre futebol. Por que acha que é tão difícil fazer um bom filme sobre futebol?

Se você quiser encenar um jogo, vai parecer falso. O jeito é ir atrás da história humana que existe por trás do jogo. Isso, o Ugo Giorgetti percebeu e realizou muito bem em seus dois Boleiros. Mas o futebol, como recurso narrativo, aparece em vários outros filmes, como Linha de Passe, por exemplo. Não é sobre futebol, mas o futebol está dentro. Acho que, pelo que representa em termos do nosso imaginário social, o futebol é ainda um filão a ser mais (e melhor) explorado. Mas há o mito de que filme de futebol não dá bilheteria…

Como aquele gol que o torcedor não esquece, existe a cena que o cinéfilo sempre resgata em mente. Qual é a sua?

Várias. Para ficar com uma, a corrida de Geraldo Del Rey em direção à praia no final de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, ao som da música de Sérgio Ricardo.

Se tivesse que de citar um filme que fez a “lâmpada” acender em sua cabeça, para que se tornasse crítico, qual citaria? Alguma história por trás dessa relação com a obra?

Antes de me tornar jornalista nunca pensei (nem a sério e nem de leve) em ser crítico de cinema. Era só cinéfilo e isso me bastava. Mas eu estava escrevendo um livro de ficção e percebi que um dos personagens tinha uma relação profunda com um filme que eu havia visto, na época fazia pouco tempo, e me deixara impressionado. Era O Conformista, de Bernardo Bertolucci, baseado no romance de Alberto Moravia. Sem querer, fazendo ficção, eu havia escrito uma crítica. Pode ser que a coisa tenha nascido aí.

Leia aqui uma das críticas que Zanin escreveu sobre O Conformista.

Rafael Amaral (29/02/2012)