Luiz Carlos Merten

Harry Dean Stanton (1926–2017)

O cineasta alemão Wim Wenders planejava um road movie nos EUA. Um filme escrito por Sam Shepard, sobre um derrotado que parte com o filho em busca da mulher. No imaginário de Wenders, Paris, Texas seria uma variação da Odisseia. O pai ausente. O filho Telêmaco. O filme recebeu a Palma de Ouro em Cannes, fez sucesso de público e crítica em todo o mundo. De repente, aos 58 anos, Harry Dean Stanton virou cult. Iniciou-se outra carreira e, entre outros títulos de prestígio, participou de Twin Peaks e Império dos Sonhos, ambos de David Lynch.

Luiz Carlos Merten, crítico de cinema, no jornal O Estado de S. Paulo (leia o texto aqui). Abaixo, Dean Stanton em Paris, Texas.

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Jeanne Moreau (1928–2017)

Dunkirk, de Christopher Nolan

Estar na guerra – na linha de fogo, longe dos gabinetes dos poderosos – é permanecer às cegas. Voar às cegas, navegar às cegas, caminhar às cegas. São muitos os momentos que provam isso em Dunkirk, de Christopher Nolan, não exatamente um filme sobre heroísmo, ainda que este, ora ou outra, com certa obrigatoriedade, esteja por lá.

Em seu desenrolar, três histórias, em três linhas temporais diferentes, encontram-se. Aos poucos, as peças encaixam-se, levando à fuga da cidade portuária de Dunquerque, na qual ingleses e franceses foram encurralados pelos alemães. É – com a consciência da expressão que virou clichê – um filme sobre sobreviver, não sobre heroísmo.

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Permanecer às cegas, por isso, é situação comum. Os soldados, ou os civis que resolveram ajudar, terminam sem enxergar muita coisa. O passo seguinte, diz Nolan, é o inesperado. Do ar, da terra, do mar. O vilão não tem face. Na verdade, não há vilão. Dos alemães surgem os aviões, as balas, os torpedos, ou mesmo o batalhão sem rosto do encerramento.

Nolan não apela ao corpo a corpo, não imprime proximidade. Esse grande filme constrói-se a partir da incerteza, como se qualquer torpedo, a certa hora da noite, contra o grande navio inglês, fosse possível. Sim, ele é. É aterrorizante, o que leva à fuga dos soldados que se alimentavam na companhia de mulheres, no calor do gigante metálico.

Por sinal, gigantes metálicos tombam com facilidade – e Nolan não perde tempo com eles. O diretor resolve-se bem com essas questões. Fosse outro, como tantos que sucumbiram à megalomania, perderia seus segundos com essas mesmas quedas, com explosões, com o caminho da bomba. Mas Nolan leva à face do garoto – apenas um entre tantos – que sobreviveu aos ataques, sob punhados de areia.

Às cegas, esse menino segue pela rua, com seus companheiros, para logo se ver sozinho: após um ataque com tiros, ele é o único a saltar um portão e sobreviver. Dá sinais de seu destino: mesmo às cegas, coitado, está destinado a sobreviver. Precisa, antes, tocar os grandes, ouvir a conversa dos líderes sobre o molhe – enquanto ele, raquítico e imperceptível como pode parecer, permanece entre os pés da estrutura.

Do mar vem o pai com seus dois filhos, o homem mais velho que talvez tenha lutado na Primeira Guerra Mundial. É interpretado por Mark Rylance, o espião soviético humano do belo filme de Steven Spielberg, Ponte dos Espiões. Sabe de sua missão, talvez um pouco dos riscos, mas continua, como todos, um pouco às cegas, à mercê do imprevisível.

O heroísmo maior reside aí, nos civis que aceitaram sair da Inglaterra, com seus barcos, em direção a Dunquerque, para resgatar soldados. São recebidos como heróis. E o filme permite tal momento de euforia e patriotismo: é a compensação dada a Nolan após tanta preparação, tanta proximidade, após convencer com seres reais e frágeis.

Todos são assim, inclusive o piloto vivido por Tom Hardy, astro que pouco mostra o rosto, enclausurado o tempo todo em sua cabine, sem saber ao certo o quanto lhe resta de combustível. Aceitou a guerra, aceitou voar às cegas. Ao fim, aceita o destino que lhe cabe em outro sinal de patriotismo de Nolan. Belo como em um filme de Ford.

A referência ao mestre do cinema clássico não é novidade. O crítico Luiz Carlos Merten já havia lembrado de Ford nas folhas do jornal O Estado de S. Paulo. Faz sentido. Ford tomava o patriotismo como elemento de meio, nunca de fim. Era parte do resultado, espírito de um tempo, a maneira de fazer da derrota a vitória.

Difícil não pensar, por isso, em Fomos os Sacrificados, o filme belicista que Ford fez em 1945, quando os conflitos da Segunda Guerra borbulhavam na cabeça de todos. Antes dos sinais de patriotismo, o grande diretor revelava a face de um garoto, um jovem soldado perdido entre tantos – com medo, encolhido, ou tomando um copo de leite no bar.

Dunkirk, décadas mais tarde, prefere igualmente a face frágil, a partícula, a vida perdida. A caminhada às cegas de alguém que insiste em sobreviver em meio ao inferno. A função cabe a Fionn Whitehead. Na tela, o medo, o menino cercado por explosões, pelo som dos ataques, por gigantes metálicos.

(Idem, Christopher Nolan, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Fomos os Sacrificados, de John Ford

Sonho e tristeza com Massimo Troisi

Não havia muita firmeza na fala de Massimo Troisi. Parecia triste com constância. Era um ator um pouco distante, do universo dos grandes cômicos do passado. Com ele, tudo era leve, fácil. Seria levado a viver personagens sonhadoras, que lhe serviram à perfeição. Não estranha.

Seja em A Viagem do Capitão Tornado, de Scola, ou mesmo em O Carteiro e o Poeta, de Michael Radford, Troisi era o sonhador, o artista, o aspirante a poeta e homem apaixonado. Como bem definiu o crítico de cinema Luiz Carlos Merten, “havia uma delicadeza, mesclada de gentileza, que fazia de Massimo Troisi um ser muito especial”.

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Gene Wilder (1933–2016)

O melhor filme de Francis Ford Coppola, segundo Sofia

Qual seu filme preferido dele [Francis Ford Coppola]?

A Conversação, que ganhou a Palma de Ouro (em 1974).

E o Chefão?

Tive de rever o filme recentemente. Posso gostar mais de A Conversação, mas não existe lição de cinema narrativo melhor que a do primeiro Chefão.

Sofia Coppola, cineasta, em entrevista ao crítico de cinema Luiz Carlos Merten (O Estado de S. Paulo; 29 de maio de 2017, pg. C3). A entrevista ocorreu durante a edição 2017 do Festival de Cannes, da qual Sofia saiu com o prêmio de melhor direção por O Estranho que Nós Amamos. Abaixo, Francis dirige Gene Hackman em A Conversação.

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Bastidores: O Exorcista

Dois irmãos, um cineasta

Fisicamente, somos dois, você está vendo. Mas, na verdade, somos um. Um só coração, uma só mente. Nosso cinema reflete um pensamento, uma sensibilidade. Pode parecer piegas, mas fazemos cinema para abraçar o mundo.

Jean-Pierre e Luc Dardenne, cineastas belgas, em entrevista ao crítico Luiz Carlos Merten, no jornal O Estado de S. Paulo (Caderno 2, 23 de fevereiro de 2017; leia texto completo aqui). Eles ganharam duas vezes a Palma de Ouro em Cannes – a primeira por Rosetta, em 1999, a segunda por A Criança (foto abaixo), em 2005.

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Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
A Garota Desconhecida, de Jean-Pierre e Luc Dardenne