Lucia Nagib

Vida e política, segundo Kieslowski

Pertenço a uma geração que teve esperanças. Nasci durante a Segunda Guerra, e a seguir passei a vida sob o regime comunista. Mas tivemos esperanças algumas vezes, em 55, quando Stalin morreu, depois em 68, em 70, um pouco em 76 e em 80, acreditamos que a política poderia mudar nossa vida. E sobretudo em 89/90, quando o comunismo acabou. Mas não é verdade, a vida não muda por causa da política. Acho que as pessoas podem mudar suas vidas individualmente, mas não adianta esperar que alguém vá mudar por elas. Não gosto dos políticos, não acredito em nenhum deles.

(..) não acredito que as pessoas do mundo estejam especialmente interessadas na história polonesa, nos seus problemas políticos, isso é para os jornais e para a televisão. Assim, não mostro uma determinada nacionalidade no meu cinema, mas o que há de semelhante entre as pessoas. É verdade que você não usa a minha língua e mora em outro país com cultura diferente. Mas sua dor de garganta é igual à minha. Quero fazer filmes sobre a dor de garganta.

Krzysztof Kieslowski, cineasta, em entrevista para Lúcia Nagib, na Folha de S. Paulo (“Kieslowski, diretor de Não Amarás, diz que quer filmar dores universais”, em 18 de dezembro de 1991). Abaixo, Kieslowski durante as filmagens de Não Matarás.

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Três Bêbados Ressuscitados, de Nagisa Oshima

Entre os filmes de Nagisa Oshima, Três Bêbados Ressuscitados é talvez o mais desafiador. Não pela violência ou pelo debate que deseja suscitar, mas pela aparência de absurdo, pelo surrealismo, uma comédia de aventuras típica das novas ondas da época.

Em cena, três jovens japoneses tentam se salvar após serem confundidos com coreanos. Na praia, dois deles têm as roupas trocadas. Os verdadeiros coreanos deixam dinheiro no local, sobre a areia. A confusão logo se expõe: os jovens tentam comprar cigarros e levantam suspeitas do vendedor, que liga para a polícia.

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O trio é interpretado pelos músicos do The Folk Crusaders, pouco chegados à seriedade, com cabelo tigelinha e mínimas expressões além de um sorriso distante. À câmera, são jovens livres como os Beatles, quase em uma versão japonesa – porém politizada – de Os Reis do Iê-Iê-Iê, o sucesso de Richard Lester de 1964.

Três Bêbados Ressuscitados foi lançado no Japão em 1968, pouco depois de o fotógrafo americano Eddie Adams captar sua imagem mais famosa, Execução em Saigon, em fevereiro daquele mesmo ano. A imagem mostra o exato momento em que um vietcongue é assassinado por um general, com um tiro na cabeça.

Ela integra um dos momentos finais desse filme provocador. Oshima expõe não apenas o momento do tiro: uma reprodução em cores da fotografia de Adams, observada pelos jovens no interior do trem, simula a ideia de movimento, da chegada da vítima à própria queda, enquanto é cercada por soldados. A pintura da foto é exposta em um grande muro, à frente do qual um coreano é executado por autoridades japonesas.

A obra de Oshima reflete a fotografia às vezes como comédia, de forma a provocar: os três jovens – talvez embriagados, não se sabe – tentam simular o rosto do vietcongue no momento do tiro, de sua execução, retorcendo a boca e outros músculos da face. A execução será vista em outros momentos, nas investidas de coreanos contra japoneses e também o contrário, como se passa nos já citados momentos finais.

Do que trata o filme? Identidade, ou de sua confusão. É sobre se sentir estrangeiro em seu próprio país, ser transformado no “outro” a ser executado entre as fileiras de coreanos que foram lutar na Guerra do Vietnã, em apoio ao governo americano.

O trio termina nessa luta, ao menos em sonho. Oshima chega à teatralidade exagerada, em comunhão com os absurdos que sua obra expõe. A certa altura, os jovens conhecem uma garota coreana, seu pai adotivo e abusador (com tapa-olho e gancho no braço) e os dois coreanos que vieram para o Japão como clandestinos para fugir da guerra.

O filme retorna ao início quando atinge a metade: os mesmos três garotos estão à praia, com roupas trocadas, e o que poderia ser a reprise da mesma história encontra variações. Oshima conta outra história e ao mesmo tempo a mesma. Em ambas, coreanos e japoneses trocam de posições e são executados.

A discriminação aos coreanos no Japão é um assunto caro a Oshima. Segundo o diretor, os coreanos refletem os próprios japoneses (ou deveriam). “Olhando para os coreanos, podemos nos encontrar. Sempre pensei que devíamos olhar para os coreanos, é preciso reconhecer que eles existem, especialmente os coreanos no Japão. Eles estão sempre muito deprimidos, porque são discriminados, eu quis me solidarizar com eles, contra o Japão”, disse o diretor, em entrevista a Lucia Nagib.

O filme foi lançado logo após O Enforcamento, um dos melhores trabalhos do cineasta japonês. Nele, um coreano é condenado à forca e sobrevive, mas fica sem memória. As autoridades japonesas tentam fazê-lo recordar sua identidade e seu crime para que assim possam tentar matá-lo novamente. Essa tentativa de regressão leva à crítica de Oshima sobre a condição do coreano na sociedade japonesa.

Com câmera na mão, o trio do Folk Crusaders sai às ruas e aborda os transeuntes. Três Bêbados Ressuscitados ganha contornos de documentário. Eles perguntam às pessoas se elas são japonesas. “Não, sou coreano”, diz uma delas. “Por quê?” “Porque sim”. É justamente o ator Do-yun Yu, o protagonista de O Enforcamento.

(Kaette kita yopparai, Nagisa Oshima, 1968)

Nota: ★★★★☆

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Entrevista: Beto Brant

A certa altura de Cão Sem Dono, o protagonista Ciro diz que “todo mundo tem cicatrizes”. Nesse caso, a cicatriz pode ser entendida como uma marca de história, algo que prende as pessoas a locais, que revela suas raízes.

Fazer cinema, para o cineasta Beto Brant, foi uma forma de viajar, de conhecer o mundo, de viver intensamente. Em uma conversa com o Palavras de Cinema, ele contou o que o move, detalhes de seus trabalhos, o que pensa da crítica e, sobretudo, o que está por trás de seu cinema.

beto brant

Ao falar de suas obras, não esquece os colaboradores. Sobretudo o produtor e diretor Renato Ciasca, seu parceiro de décadas, e o escritor Marçal Aquino. Mesmo sem dizer, Brant deixa claro que o cinema é um projeto coletivo, uma relação de olhares, de transformações – um projeto comum, um “testemunho de inquietação”, com o Brasil e suas contradições ao fundo.

Brant é um homem de fala simples, direto, sem rodeios. Pensa antes de falar e, não raro, deixa ver sua paixão por contar histórias e “esculpir o tempo”.

Como nasceu seu interesse por cinema e por que resolveu ser cineasta?

Eu comecei a fazer quanto tinha 18 ou 19 anos, quando um amigo me convidou para fazer super 8. E aí entendi o poder da linguagem do cinema, da sintaxe, e aprendi que aquela história que eu aprendia, aquela história geopolítica, econômica, mercantilista, das guerras, que a gente aprende na escola, era possível estudar através de outros aspectos. Nesse caso, aspectos humanos. A literatura, o teatro e o cinema abrem outra perspectiva para você conhecer a humanidade. E depois o cinema passou a ser para mim um grande pretexto para passear, para conhecer o mundo. Conhecer pessoas. Um pretexto para viver intensamente.

Seu cinema toca em várias situações da história de nosso país. Por exemplo, a Ditadura Militar em Ação Entre Amigos, a exploração do meio ambiente e também do índio em Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios. Você considera o seu cinema político e acredita que ele reflete a realidade de nosso país?

Nesse projeto estão envolvidos o Renato Ciasca, que é meu sócio e produtor, e também o Marçal Aquino, que é escritor e autor de roteiros. Existe sim um compromisso de testemunho, de testemunhar nossa inquietação. Claro que os filmes não são panfletários, não se justificam apenas por suas mensagens subversivas. Mas é sim uma consciência política de intervir. O Marçal Aquino, por sua origem jornalística, tem textos impregnados por essa questão política. A gente tem nos primeiros filmes uma trilogia, Os Matadores (foto abaixo), Ação Entre Amigos e O Invasor. Você tem a questão da violência do campo, a “pistolagem”, a fronteira. Já tem questões dos Sem Terra lá em 1995. A violência política em Ação Entre Amigos nos anos de chumbo e também sua resistência armada. O filme é contemporâneo e reflete essa geração nos dias de hoje. E em O Invasor, a tensão, que é muito forte, entre o Centro e a periferia em São Paulo. Todos os filmes procuram discutir esses temas. Todos têm finais abertos para promover a inquietação em quem assiste.

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O cinema pode mudar a forma como vemos a sociedade?

Minha geração crê nisso. Veja por exemplo um cara como o Cláudio Assis, meu amigo desde os anos 90. Ele era um cineclubista, um cara que viajava com um projetor 16 mm pelo interior de Pernambuco passando filmes para promover a discussão. A tradição desse cinema cineclubista oferecia ao público uma dramaturgia fora do tradicional, que contrasta com essa hegemônica, a dos conglomerados de comunicação. A editoria dos programas dessas redes de comunicação tem uma direção muito clara. E o cinema, como tem produção descentralizada, há uma pluralidade de discursos, o que só ajuda o espectador a formar sua opinião sobre esses diversos assuntos.

Ainda sobre as questões sociais, gostaria de falar sobre seu primeiro filme, Os Matadores. Já faz quase 20 anos de seu lançamento. O Brasil hoje mudou muito, em comparação ao Brasil que você encontrou naquela época? O filme segue atual?

Completamente atual. Agora mesmo, quando filmei Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, no Pará e no norte em geral, essa questão da “pistolagem” ainda é muito forte. A gente soube [de histórias semelhantes às dos filmes], em todos os filmes que fizemos. Quando lançamos Ação Entre Amigos, na mesma época, um general aposentado veio a público contar, por um problema de consciência dele, e testemunhou seus crimes políticos. E quando estávamos filmando O Invasor (foto abaixo), surgiu um crime semelhante no Ceará [envolvendo dois homens que eliminaram um sócio]. Essa é uma “antena” muito forte do Marçal, que é um jornalista de formação, com uma visão muito analítica do momento em que vivemos. Quando fomos realizar Eu Receberia e fomos ao Pará, o tema era a nova corrida ao garimpo, e o fato é que, quando chego lá, havia uma luta pelo direito da terra, das comunidades ribeirinhas com as madeireiras. Havia um cabo de guerra, um movimento de 70 comunidades contra o tráfico ilegal [de madeira] e lutando pela fiscalização, pelo direito de terra. Achei aquilo mais forte, mais atual para colocarmos no filme, mais urgente e vivo. Mantemos a estrutura do livro, o que é seu cerne, da discussão humana, de seus personagens principais, e contextualizamos nisso que é contemporâneo. Hoje mesmo eu vi no jornal que prenderam um bando de grileiros, uma gangue forte que estava em uma região próxima do lugar em que a gente filmou.

o invasor

O que te atrai tanto nas histórias do Marçal?

Não só o fato de ele ser um cara ligado no mundo, presente e inquieto, mas pelo talento narrativo que ele demonstra, da sintaxe e da construção da história, a forma como ele constrói o olhar. E a gente já tem um pacto de muitos anos, de amizade…

E com o Renato [Ciasca] também…

Com o Renato também. E a gente não filma exatamente o livro, mas fazemos uma leitura. Esse jogo está muito implícito. O Marçal nunca ficou magoado quando um personagem sumiu ou porque foi contextualizado em outro lugar. Ele [Marçal] gosta do diálogo, de ver a reinvenção do que escreveu. Quando ele tem um livro novo, eu quero ler. Vou na casa dele tomar um café. Ele escreve um livro tendo eu como sua primeira opção [para fazer a adaptação ao cinema].

Sobre o Eu Receberia (foto abaixo), há uma cena que me inquieta e gostaria de saber sua interpretação. Trata-se da primeira imagem do filme, que é aquela moça nua [Lívea Amazonas], parcialmente coberta de areia. Uma cena selvagem e ao mesmo tempo erótica. O que significa essa cena?

Dentro do filme, para mim é muito claro: é um fotógrafo que fotografa mulheres [o personagem central] e é como se ele estivesse fotografando aquela menina. E na cena seguinte, inclusive, ele está chegando naquela cidade com a máquina. Aquele é o ponto de vista dele. Ele está em um local de conflito e aquela é uma mulher de traços indígenas, com uma força da natureza. Para mim, é uma entidade. A menina simboliza aquele lugar, a beleza do lugar.

O Cauby me parece um personagem misterioso. A gente sabe um pouco sobre a personagem da Camila Pitanga e do personagem de Zécarlos Machado. Mas o Cauby, ao mesmo tempo em que parece ser o protagonista, é misterioso, o homem que anda pelo mundo. Você se identifica com esse personagem?

Sim. O Cauby do Marçal, do livro, é um pouco mais intelectual, e o que dá a densidade do livro é que ele já viveu a história e a relata. É o relato de um passado. Ele já tem a dor. O Cauby no filme é puro, porque ele vê a história acontecer, vai pelo presente, e então tem a imaturidade. Isso é muito diferente do ponto de vista narrativo do livro. Outra questão é que o Cauby do Marçal é mais intelectualizado, ele tem uma ilusão maior. O animal de estimação dele no livro é um tatu. No nosso, é um camaleão. Já que a minha linguagem é a imagem, eu vou fazer o Cauby mais ligado à imagem, à psicodelia, um camaleão que vive na árvore e está livre. O Renato e eu propusemos um Cauby diferente.

eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

Tem algum cineasta, vivo ou morto, com uma linguagem que te atrai?

Eu não sou de… “pagar pau” para nomes e figurões (risos). Enquanto estou criando, a minha inspiração é a própria imagem, o meu embate com a realidade. Minha inspiração é com o objeto que eu vou filmar. No entanto, às vezes, quando estou fazendo um roteiro, me preparando, assisto um filme e isso me inspira de alguma maneira. No caso de Crime Delicado, eu tinha visto O Discreto Charme da Burguesia, do Buñuel. Aquilo de alguma maneira me impulsionou àquele caminho que o filme tomou. Para meu primeiro curta, Aurora, eu estava vendo Kusturica, Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, e assim o clima de filmar ficou diferente. Como gosto de viajar, procuro ver filmes que me levem também para outro lugar, que tenham uma inquietação. Ver um filme turco, espanhol, colombiano, é também um jeito de eu tomar contato com outros locais. [Para fazer] cinema é fundamental você ter curiosidade pelo outro. Se você não tem, você nem faz e nem assiste.

Você lê as críticas sobre seus filmes ou elas não importam?

Gosto de ler. Quando lanço um filme, não vejo a hora de ler o que o Zanin [Luiz Zanin Oricchio, crítico de cinema do jornal O Estado de S. Paulo] escreve. É um cara que me interessa. É um diálogo, né? Para você saber como o tempo que você “esculpiu” (risos) – olha eu aqui citando o Tarkovski – “bateu” no outro. É também o caso de um ensaísta como o Ismail Xavier [teórico e professor de cinema] ou a Lúcia Nagib [professora de cinema], que escreveu um livro com um capítulo dedicado a O Invasor. Acho fantástico como um ensaísta, um pensador, consegue desembaralhar as cartas e tocar em semânticas, com uma conexão, uma costura, com um significado que é uma novidade para mim e que é legal de descobrir. A gente faz [a criação cinematográfica] de uma maneira muitas vezes intuitiva, e o sujeito treinado a raciocinar vai lá e busca uma ideia que te surpreende. Eu gosto sim de ler. O que não gosto é de ler a crítica do cara que não entrou no filme e vai pela negação, por aquilo que o filme não tem segundo a concepção dele. Isso não dialoga comigo.

A imprensa, em geral, tem sido generosa com seus filmes?

Sempre tenho tido uma recepção favorável. Sou de um tempo em que a comunicação era feita por jornais diários, que era a grande repercussão que tinha o filme. Hoje tem muita gente escrevendo em blog. Outro dia, entrei em um blog e tinha um texto muito legal sobre o Eu Receberia. Sem querer encontrei esse texto e achei tão legal que enviei para o Marçal. Eu tinha achado uma agulha em uma caixa de costura (risos). É legal quando o cara faz uma análise “de dentro” do filme. E para nós é um diálogo bom. Já faz quase dez anos que não leio jornal. Parei na época do Mensalão. Estava perdendo muito tempo lendo jornal e disse para mim mesmo que deveria fazer coisas mais legais para minha vida. Claro que leio matérias jornalísticas, mas pela internet, e escuto rádio. Não estou alienado. Mas receber o jornal, pegar o papel, é uma prática que não tenho mais. Eu adoro pegar o jornal na mão, mas me alforriei, não quero mais. Estou liberto da imprensa diária. Acho fabuloso isso, de estar todo mundo escrevendo. A geração do meu filho está escrevendo, está engajada, e é uma geração que já cresceu sem o jornal diário.

Foto do topo: Beto Brant nos bastidores de Crime Delicado (crédito: Priscila Prade).