Luc Besson

Diva – Paixão Perigosa, de Jean-Jacques Beineix

A soprano não quer ter sua voz gravada. É, para ela, um insulto, a tentativa de encapsular a arte, reproduzir o que cabe apenas ao instante, à apresentação. Por outro lado, uma prostituta – em universo, às aparências, longínquo – tem como arma contra o inimigo, seu cafetão, uma confissão gravada em fita, para levar à polícia.

A tecnologia embrenha-se, entre extremos, na trama do divertido Diva – Paixão Perigosa, de Jean-Jacques Beineix: a conjugação do que há de mais puro àquilo que há de mais sórdido, da arte à bandidagem, em um clima moderno em que tudo cabe no mesmo espaço. A tecnologia – as gravações, a parafernália – fica ao meio.

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O protagonista é o carteiro magro interpretado por Frédéric Andréi, Jules. No início, ele ousa cometer um crime artístico, ou quase isso: grava a apresentação da já citada soprano (Wilhelmenia Fernandez). Fã da mulher, Jules leva a gravação para casa, seu galpão, cenário em que carros arrebentados dividem espaço com a tecnologia.

É ali que ele refugia-se para ouvir sua diva quando bem quiser: o futuro, agora com cara de passado, diz Beineix, reduz-se à capacidade dos homens em criar seus próprios refúgios, onde encapsulam o mundo como é lá fora. Podem gravar, arquivar a experiência para viverem em paz, talvez, em seus espaços particulares.

Ao que parece, o filme aponta ao início da morte da arte como experiência coletiva, ao mesmo tempo em que Beineix lança essas pessoas a uma aventura cômica, às vezes estranha, para não se levar a sério: é como se as personagens tivessem de “viver lá fora”, a vida como ficção barata, como velocidade, a pensar no filme policial clássico.

A história envolve um rapaz apaixonado que, por acidente, vê-se no meio de uma trama de fitas trocadas, mortes misteriosas, bandidos com insígnias policiais, capangas engraçados, além de uma adolescente oriental (Thuy An Luu) chamada por Pauline Kael, em análise entusiasmada do filme, de “namoradinha pós-godardiana”.

Difícil não pensar na nouvelle vague. Alguns dos cineastas que surgiram na França nos anos 80 – como Beineix, Luc Besson e Leos Carax – beberam na fórmula de Godard e dos jovens turcos: o casamento do erudito com o popular, a imposição de histórias que resgatam o clássico e seus clichês, concentradas em uma forma mais realista.

Por outro lado, como se vê em Diva, o real às vezes perde espaço para o onírico, com passagens compostas por luzes neon e um estofo em que tudo induz à mentira. Todo um velho cinema clássico será remontado, resumido, como na geração de Godard.

A situação de Jules assemelha-se à de outras personagens que gravaram o que não deveriam gravar, como o protagonista de Blow-Up ou, mais tarde, de Um Tiro na Noite. No fundo, e com suas diferenças claras, essas personagens, por acaso, aproximam-se do filme noir, do espaço proibido, à penumbra, em que todas estão submetidas a forças superiores.

Blow-Up é sobre um fotógrafo atrevido que acredita ter registrado um crime; Um Tiro na Noite, sobre um sonoplasta que, acidentalmente, capta o som de um assassinato; Diva, ambicioso, vai um pouco além: é sobre um amante da música que acredita poder controlar o que grava, extrair um universo todo para dentro de suas fitas, para compor seu templo à parte – ainda que outra fita obrigue-o a voltar para fora.

(Diva, Jean-Jacques Beineix, 1981)

Nota: ★★★★☆

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13 filmes pretensiosos e medíocres do cinema recente

Há filmes que partem de uma grande ideia e não conseguem sustentá-la ao longo da projeção. Ideias políticas, científicas, sociais etc. Há também aqueles que se envolvem nessas mesmas ideias, com o estofo de grande produção, e apostam em histórias de figuras verdadeiras ou se baseiam em livros consagrados – como se apenas essas figuras e as obras originais fossem suficientes para garantir sucesso.

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A lista abaixo traz 13 exemplos de filmes pretensiosos, de 2011 a 2015, que não se sustentam. A certa altura, o naufrágio é sentido. O espectador não sai saciado. E vale lembrar: no caso de adaptações literárias, a mediocridade dessas obras nada tem a ver com o fato de estarem à altura ou não das originais, mas simplesmente porque não se realizam como cinema. Simples assim.

A Dama de Ferro, de Phyllida Lloyd

Abordar figura tão ambígua como Margaret Thatcher é um desafio. E ainda que Meryl Streep dê conta do fardo, o filme não se realiza nunca. Drama de idas e vindas, sobre o poder e, no presente, sobre sua fragilidade estampada na senil personagem.

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Os Miseráveis, de Tom Hooper

O livro é um monumento. Não vale a comparação, claro. A versão de Hooper coloca as famosas personagens em estrutura de filme musical, tudo um pouco rápido e atropelado, sob as canções que tentam forçar o drama a todo custo. Bonito, inchado e vazio.

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Looper: Assassinos do Futuro, de Rian Johnson

A ideia é interessante: assassino de aluguel viaja no tempo com a missão de matar a versão mais velha de si mesmo. Resulta em uma mistureba sem empolgação, com Bruce Willis no piloto automático, na rabeira de filmes como A Origem e Matrix.

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Anna Karenina, de Joe Wright

Outro caso de filme recente baseado em livro consagrado. E, aqui, um caso ainda mais curioso, pois o diretor Wright embala a história em visual teatral, com todos os cenários abertamente falsos – o que só o faz parecer mais maquiado e distante.

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O Grande Gatsby, de Baz Luhrmann

O carnaval de Luhrmann não tem fim. A partir da obra de F. Scott Fitzgerald, o diretor embute peso em quase todas as sequências, com Leonardo DiCaprio como a personagem-título, o ricaço distante e festeiro, sem graça e emoção.

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Serra Pelada, de Heitor Dhalia

A corrida pelo ouro em Serra Pelada tornou-se um episódio histórico e selvagem da História brasileira. O filme de Dhalia, para tentar imprimir a grandeza dessa miséria, recorre sempre a imagens de arquivo, e foge à trama manjada e esquemática de amor proibido.

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A Vida Secreta de Walter Mitty, de Ben Stiller

Stiller, ator e diretor, tenta embarcar em uma obra existencial sobre a passagem do tempo: o fim da revista Life e a perseguição à ideia de viver intensamente, de desbravar o mundo. Tenta parecer “descolado”, “inteligente”, e termina quadrado.

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Interestelar, de Christopher Nolan

A avalanche de ideias científicas, de teorias, choca-se com a mensagem do amor como “única salvação” aos heróis astronautas. Os efeitos são o ponto alto do filme de Nolan, que não chega a ser tão ruim como seu anterior, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

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A Teoria de Tudo, de James Marsh

A pretensão tem lugar no título, nesse drama sobre a vida de Stephen Hawking, outra figura ambígua e desafiadora a qualquer realizador. Alguns momentos têm inegável beleza. A tal teoria do físico quase não tem espaço. Perde vez ao drama conhecido.

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Lucy, de Luc Besson

A bela Scarlett Johansson é uma assassina nesse filme que vai da origem do homem à sua materialização em pen-drive. Tudo não passa de desculpa para a ação desenfreada, com violência gráfica e Morgan Freeman tentando assegurar alguma seriedade à obra.

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A Travessia, de Robert Zemeckis

Ao que parece, nasceu para ser uma experiência em 3D, um capricho do diretor, em mais uma daquelas tentativas de colocar o público à beira de um abismo. A ironia não poderia ser maior: o documentário de 2008, sobre o mesmo caso, é mais emocionante.

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Viva a França!, de Christian Carion

Mais um drama sobre a Segunda Guerra Mundial. E, nesse caso, nada mais amargo do que ser “mais um”. Carion trata de uma história com várias personagens em encontros e desencontros, cujo tamanho da empreitada não acompanha o roteiro sem emoção.

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As Sufragistas, de Sarah Gavron

Esse momento histórico do movimento feminista merecia algo melhor. Outro caso em que o realizador prefere o drama de contornos lacrimosos à questão política que deveria se impor, talvez para afagar um público em busca de histórias emocionantes.

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