Longe do Paraíso

20 grandes filmes sobre a morte do sonho americano

Importante dizer, de partida, que o chamado “sonho americano” é um rótulo, utopia embalada pela televisão, pela propaganda de margarina, pelo cinema idealista dos anos 30. O american way of life, com sua economia robusta, suas famílias suburbanas felizes, direitos iguais para todos, não resiste ao retrato da realidade – seja pela comédia ou pelo drama de contornos obscuros – levado à frente pela da lista abaixo.

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Existem outros vários filmes sobre a degradação desse ideal americano que ficaram de fora da relação. A lista também traz longas-metragens que se banharam em livros conhecidos, de autores como John Steinbeck e F. Scott Fitzgerald. Ainda assim, a visão dos cineastas tem peso maior, com narrativas de forte impacto. À lista.

Fúria, de Fritz Lang

Austríaco e fugitivo do nazismo, Lang deu vez a uma história sobre intolerância em seu primeiro filme americano, no qual um homem é considerado culpado por um crime que não cometeu. Do lado de fora da prisão, a multidão descontrolada pede seu pescoço.

fúria

Alma em Suplício, de Michael Curtiz

Esse filme noir traz Mildred Pierce (Joan Crawford), cuja escalada social será acompanhada pela degradação da filha, a quem a protagonista tenta dar a melhor educação. A história é contada em flashback, à polícia, após o assassinato do ex-marido de Mildred.

alma em suplício

O Cúmplice das Sombras, de Joseph Losey

O policial de Van Heflin descobre uma mulher casada, em uma bela casa de subúrbio, sozinha enquanto seu marido apresenta um programa de rádio. Passa a frequentar o local, torna-se seu amante. O destino desses fracassados tomará rumos inesperados.

o cúmplice das sombras

Vidas Amargas, de Elia Kazan

Vários filmes de Kazan tratam da morte do sonho americano. Nenhum deles, contudo, de maneira magistral como Vidas Amargas, da obra de Steinbeck, sobre um rapaz (James Dean) filho de um pai religioso e de uma mãe prostituta, em busca do amor de ambos.

vidas amargas

Delírio de Loucura, de Nicholas Ray

James Mason interpreta um professor pai de família que passa a ter comportamento violento com a mulher e o filho após iniciar um tratamento com cortisona. Esse remédio – amostra “milagrosa” da vida moderna – não garantirá a continuidade da família.

delírio de loucura

O Indomado, de Martin Ritt

A sequência mais famosa dá ideia da degradação geral: pai, filho e outros rancheiros matam o rebanho doente da fazenda. O filho (Paul Newman) quer vendê-lo mesmo assim, o pai (Melvyn Douglas) é contra. Por esses contrapontos, a família aos poucos se dissolve.

o indomado

O Beijo Amargo, de Samuel Fuller

A Kelly de Constance Towers esbofeteia seu cafetão antes de ir embora. Migra à pequena cidade interiorana, a uma “outra” América, indo trabalhar como enfermeira em um hospital para crianças com deficiência. Ali, apenas as crianças serão verdadeiras.

o beijo amargo

Sem Destino, de Dennis Hopper

Outra América é o que esperam também os motociclistas chapados de Hopper e Peter Fonda. Ganham um pouco de dinheiro e destroem um relógio antes de embarcar nessa viagem igualmente existencial – e repleta de intolerância, a dos outros.

sem destino

Perdidos na Noite, de John Schlesinger

Enquanto canta, no chuveiro, o caipira Joe Buck (Jon Voight) sonha acordado com as belas mulheres que almeja encontrar, na cidade grande, trabalhando como gigolô. A realidade é outra: termina quase sem nada, apenas com a companhia do marginal Ratso (Dustin Hoffman).

perdidos na noite

A Noite dos Desesperados, de Sydney Pollack

Nos tempos da Grande Depressão, algumas pessoas decididas a ganhar dinheiro se arriscam em um jogo insano: precisam sobreviver ao cansaço, horas sem dormir, em uma pista de dança na qual se convertem no centro de um espetáculo doentio.

a noite dos desesperados

O Grande Gatsby, de Jack Clayton

A versão de Baz Luhrmann desaparece quando comparada ao elegante trabalho de Clayton, a partir do livro de Fitzgerald, com suas passagens entre o paraíso e o inferno, seus amantes condenados, todos gravitando em torno do poderoso Gatsby (Robert Redford).

o grande gatsby

Stroszek, de Werner Herzog

Um rapaz com aparente problema mental (Bruno S.), uma prostituta (Eva Mattes) e um baixinho (Clemens Scheitz) saem da Alemanha para tentar a vida na América. Após os imaginados fracassos, como a perda da casa, eles decidem aderir à violência.

stroszek

Eles Vivem, de John Carpenter

A sociedade capitalista é descortinada de forma original nessa ficção científica: o mundo foi dominado por alienígenas que não se deixam ver, nem suas mensagens. O herói grandalhão (Roddy Piper) só consegue enxergá-los quando utiliza óculos especiais.

eles vivem

Nascido em 4 de Julho, de Oliver Stone

Antes uma criança que brincava com armas, jovem apaixonado e patriota, o protagonista (Tom Cruise) retorna do Vietnã em uma cadeira de rodas. Repensa tudo, muda de lado: não demora a protestar, a aderir às passeatas contra seu próprio governo.

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O Sucesso a Qualquer Preço, de James Foley

Sob as ordens do chefe, alguns corretores imobiliários correm para vender mais e cumprir as metas, em noite chuvosa. O roteiro é de David Mamet, baseado em sua própria obra. O protagonista, entre o cômico e o cínico, é ninguém menos que Jack Lemmon.

o sucesso a qualquer preço1

Felicidade, de Todd Solondz

Painel sobre a vida privada dos moradores de subúrbio, com seus segredos e a busca pela inclusão. Há o pai de família pedófilo, a solteira chorona em busca do “príncipe encantado”, o rapaz solitário atrás de sexo fácil, a escritora frustrada, entre outros.

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Beleza Americana, de Sam Mendes

O protagonista (Kevin Spacey) sonha com as rosas vermelhas que saltam do corpo da bela garota (Mena Suvari), ninfeta e amiga de sua filha. Outro painel de degradação da doce vida americana, com tipos variados como o vizinho que vende drogas e seu pai militar.

beleza americana

Longe do Paraíso, de Todd Haynes

O tempo e as cores de Douglas Sirk. Também os traços de suas personagens, a sociedade que desaba, a família infeliz. Em cena, uma dona de casa (Julianne Moore) descobre as inclinações homossexuais do marido enquanto se encanta com a presença de um jardineiro negro.

longe do paraíso

O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

O consagrado diretor de Taxi Driver vai a Wall Street mostrar a trajetória de jovens em busca de dinheiro fácil, sem qualquer humanidade. A vida é uma diversão feita de escritórios abarrotados com homens caçando números, de orgias paralelas. É a loucura americana.

o lobo de wall street

O Ano Mais Violento, de J. C. Chandor

O ano é 1981, quando os índices de criminalidade foram os mais altos em Nova York. Nesse cenário, o jovem empresário Abel Morales (Oscar Isaac) tenta conquistar espaço com sua empresa, ao lado da mulher “perfeita” (Jessica Chastain) e homens estranhos. Ser honesto não será fácil.

o ano mais violento

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Os filmes de Todd Haynes

A ousadia de filmes como Veneno e Não Estou Lá divide espaço na filmografia de Haynes com o melodrama à maneira de Douglas Sirk, com os preconceitos da sociedade americana, em obras como Longe do Paraíso e Carol. Um diretor mutante e capaz de retirar interpretações inesquecíveis de seus elencos. Abaixo, o blog traz seus principais trabalhos para o cinema.

Veneno (1991)

O longa-metragem de estreia de Haynes deixa claro seu lado experimental: são três histórias visualmente distintas, a partir de textos de Jean Genet, em cores e em preto e branco. Em uma delas, um homem faz uma experiência científica e fica leproso; em outra, um presidiário tem experiências homossexuais e lembra o passado; na terceira, o cineasta desenvolve um falso documentário sobre um garoto que fugiu de casa.

veneno

Mal do Século (1995)

Após trabalhar com Robert Altman e Louis Malle, Julianne Moore encara uma personagem desafiadora no grande filme de Haynes. Poderoso mergulho no mal-estar social criado na América rica e branca dos anos pós-Aids, a partir da paranoia de pessoas que pensavam estar doentes. Na pele de uma dama da alta sociedade, Moore é a personagem central que entra em processo de loucura e se isola.

mal do século

Velvet Goldmine (1998)

O cenário é a Inglaterra dos anos do glam rock, no início dos anos 70, tempo de artistas como David Bowie e Iggy Pop. Os excessos, as frases de efeito, as drogas: uma reunião de situações fortes, às vezes engraçadas, quando ter estilo era uma forma de viver. Em paralelo, nos anos 80, um jornalista tenta investigar o que teria ocorrido a uma das lendas dessa época – em uma narrativa que remete a Cidadão Kane.

velvet goldmine

Longe do Paraíso (2002)

A inspiração é Douglas Sirk e seus inesquecíveis melodramas feitos para a Universal nos anos 30. Seus ingredientes estão ali: o amor proibido, a sociedade preconceituosa e repressiva, o falso belo mundo por trás das grandes casas, em bairros abastados. Julianne Moore volta a brilhar no papel da mulher que descobre a atração do marido por outros homens, ao mesmo tempo em que recebe a visita de um belo jardineiro.

longe do paraíso

Não Estou Lá (2007)

Parte dos fãs de Bob Dylan não aceitava sua conversão à guitarra elétrica. E isso é representado pelo momento em que o artista atira contra seus espectadores. Para diferentes fases de sua vida, diferentes atores. Estão por ali Christian Bale, Richard Gere, Heath Ledger e Cate Blanchett. A última tem um momento iluminado na pele do músico (indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), em passagens em preto e branco.

não estou lá

Carol (2015)

O diretor retorna à América de hipocrisia e repressão ao abordar o caso de amor entre duas mulheres, a Carol do título, vivida por Blanchett, e a Therese de Rooney Mara. Verdadeira batalha de interpretações, enquanto a primeira luta com seus problemas familiares (com o marido, sua família, seu passado) e a segunda tenta se descobrir. Bela história sobre o universo feminino, com alta dose de sensibilidade.

carol

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