lista negra

Sombras do Mal, de Jules Dassin

O apostador barato sonha em chegar ao topo do mundo e enriquecer. Segundo sua namorada, ele tem cérebro, ambição e “trabalhou mais que dez homens”. No entanto, nessa Londres às sombras, o protagonista segue como sempre foi, atolado em problemas, dívidas, o mesmo desmiolado nascido para o tombo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Difícil compreender por que ela continua a amá-lo, a segui-lo, a apostar nesse competidor fracassado ao longo de Sombras do Mal. “Você não encontrará nenhum dinheiro aí, Harry”, afirma a moça, quando o flagra mexendo em seus pertences, atrás de alguns trocados. Para sobreviver às ruas, vencer as dívidas, subir, será capaz até de agredí-la.

Ela, Mary (Gene Tierney), simplesmente não consegue deixá-lo. Cansou de ouvir seus planos, de fingir que o mesmo poderia ter sucesso, e até permitiu que saísse de seu apartamento com notas no bolso. Harry Fabian (Richard Widmark) usou a força de “dez homens” para se tornar um pequeno trambiqueiro, um golpista.

Trabalha para o mesmo homem que a amada, também para a mesma mulher – o casal Philip (Francis L. Sullivan) e Helen Nosseross (Googie Withers), seres da pior espécie à frente de um bar. Enquanto Mary é treinada para vender qualquer tipo de produto aos frequentadores, Harry encontra caminhos para atrair clientes ao agitado comércio.

A história é dele. Mary serve de alívio, figura honesta no grande filme de Jules Dassin, que foi para a Inglaterra trabalhar após cair na Lista Negra de Hollywood. Harry, em sua tentativa de chegar ao topo, sonha em controlar os espetáculos de luta livre londrinos nos quais impera a falsidade, em aberta comunhão com o universo que conhece bem.

A oportunidade aparece quando ele conhece um velho atleta de luta greco-romana. Vem a ser o pai do chefão dos ringues de luta livre, alguém que ainda crê no esporte como arte e, por isso, algo distante da dissimulação com quedas, saltos e golpes levados ao público. Para o velho lutador, o lucro do filho vale-se do espetáculo de circo.

Para Harry, é necessário aproximar-se do pai (Stanislaus Zbyszko) para ocupar o espaço do filho (Herbert Lom), dono do monopólio dos ringues da cidade em questão: fingir que pode ressuscitar um respiro de arte em um mundo marcado pelo show ordinário, ao público que aceita a mentira a serviço de patrocinadores gatunos.

O universo em questão dá luz a alguém como Harry, que só pode existir em terreno como tal. Que surge à tela correndo, perseguido por alguém cuja identidade não importa; outro, entre tantos, ao qual deve uma quantia de dinheiro, em aventuras de ganhos e perdas, de saltos e quedas, de riscos que não o retiram da sombra dos outros.

Harry reflete os ânimos e a visão de Dassin naquele momento: o filme noir, reino das sombras, é perfeito para o movimento dos pecadores que buscam redenção, para as várias delações em troca de dinheiro, para o espetáculo barato a um público pouco crítico, para um reino de miséria em que ninguém (ou quase) se salva.

Não é difícil pensar no macartismo do qual Dassin foi vítima e em seus efeitos, período vergonhoso da história americana em que suspeitos de colaboração comunista foram perseguidos e proibidos de trabalhar. Nesse meio, a força de vontade de Harry não será suficiente para salvá-lo; seu avanço é freado pelo mundo que o cerca.

Widmark está perfeito como golpista. Pouco depois, em 1953, estrelaria Anjo do Mal, de Samuel Fuller, cineasta acusado de alinhamento à direita. Na trama, os comunistas são vilões que tentam matar o protagonista, o batedor de carteira que acidentalmente rouba planos secretos dos soviéticos. Widmark serve filmes brilhantes que se aproximam e se repelem. Para Dassin, ao contrário de Fuller, a saída ao fim é impossível.

(Night and the City, Jules Dassin, 1950)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Vídeo: o macarthismo e o cinema

Dez filmes recentes sobre o cinema

Da Hollywood clássica ao atual regime das câmeras digitais e estrelas sem muito brilho, a lista abaixo contempla também a variedade do cinema (o verdadeiro) feito atualmente: produções de cineastas variados, de Monte Hellman a Martin Scorsese, de Ari Folman a David Cronenberg. Algumas obras surpreendem, outras nem tanto.

Caminho para o Nada, de Monte Hellman

Longe da aparência dos longas que lhe deram sucesso, Hellman explora a realização de um filme e o mistério de sua protagonista, que talvez seja a personagem que interpreta.

caminho para o nada1

O Artista, de Michel Hazanavicius

Essa bela homenagem ao período clássico do cinema americano chega pelas mãos de um francês, com atores franceses, a partir do declínio de um astro com o surgimento do som.

o artista

A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese

Faz-se o caminho inverso ao anterior: é um americano que vai à França para contar o período em que o grande Georges Méliès, pai do ilusionismo na tela, era dado como esquecido.

The Invention Of Hugo Cabret

Sete Dias com Marilyn, de Simon Curtis

A pequena Michelle Williams consegue captar a volúpia de Marilyn Monroe nessa história interessante sobre os poucos dias em que a diva filmou O Príncipe Encantado na Europa.

sete dias marilyn

Hitchcock, de Sacha Gervasi

Não é o Hitchcock que os fãs esperavam, provavelmente irreal: o famoso diretor é reduzido a menino mimado nesse longa que aborda os bastidores de Psicose.

hitchcock

The Canyons, de Paul Schrader

Consagrado diretor e roteirista, Schrader expõe as atuais regras do jogo em Hollywood ao abordar o rumo da estrela decadente que se junta a um ator pornô para realizar um filme.

The Canyons

O Congresso Futurista, de Ari Folman

Trata-se do futuro do cinema: os estúdios de Hollywood passam a captar o interior e o exterior dos atores, tê-los digitalmente, cópias seguras que dispensam particularidades humanas.

o congresso futurista

Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg

Menina retorna para Hollywood para encontrar a família. Seu irmão é uma jovem estrela em ascensão e, no período que passa por ali, torna-se assistente de uma atriz em baixa.

mapas para as estrelas

Mia Madre, de Nanni Moretti

Belo relato pessoal de Moretti sobre uma cineasta cuja mãe encontra-se em estado terminal no momento em que prepara seu novo filme e tem de lidar com um ator temperamental.

mia madre2

Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach

O famoso roteirista é colocado na lista negra do período macarthista, perde o emprego, vai preso, ao mesmo tempo em que revela uma indústria do cinema covarde e conservadora.

trumbo1

Veja também:
Mia Madre, de Nanni Moretti
Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach
Mapas para as Estrelas, de David Cronenberg

Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach

Na Hollywood de Trumbo – Lista Negra, existem figuras exóticas, estranhas, como Hedda Hopper e John Wayne. A direção de Jay Roach salienta o que há de pior nesses seres: próximos ou não dos verdadeiros, ambos deixam claro quem são.

Estão do lado oposto da batalha, o lado errado, como inimigos de Dalton Trumbo, o roteirista comunista. Estão a serviço do extremismo, como o inimigo fácil, pronto para ser odiado. Nesse sentido, logo se vê a cilada do filme.

trumbo1

Para escapar dela talvez valha a pena recorrer a outro filme sobre o macarthismo, que trata o drama de forma adulta e lega ao inimigo a imagem real, de antigas gravações da época. Fala-se aqui de Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney.

O filme de Roach prefere o risco de recriar esses inimigos, seguidores de Joseph McCarthy. Trumbo, sabe-se, tornou-se um dos Dez de Hollywood, perdeu o contrato com seu estúdio, foi preso e depois teve de escrever roteiros sob pseudônimos.

Ao contrário dos outros, Trumbo é cínico e um pouco sábio, diz o oposto do que se espera para surpreender – ou apenas para parecer dúbio. Ainda que a interpretação de Bryan Cranston impressione, a direção de Roach não permite arroubos.

De inimigos manjados e heróis ainda mais, o filme leva ao clima da época, entre os anos 40 e 50, quando os Estados Unidos e a União Soviética travam uma guerra ideológica. O cinema logo se torna um problema, ou mesmo uma solução: é o espaço para se projetar a imagem do país, a ideologia a ser levada ao público.

trumbo2

O grande veículo de massa, como mostra o filme, não pôde correr o risco de estar sob a influência de textos de autores como Trumbo, ainda que insistissem em heroísmo. Como se sabe, Trumbo lutou na Segunda Guerra, ao contrário de Wayne.

Aos supostos patriotas, o risco aproximava-se de um vírus mortal, de uma substância alienígena típica de filmes B. O cinema reserva-se ao cinema. Por isso, ironicamente, o protagonista usará um argumento que se aproxima do cinema para justificar o erro dos outros: após anos apontando o risco dos comunistas, nada aconteceu. Foi instalado apenas um clima, um estado contínuo de ficção e histórias irreais.

Muitos punidos para nada, e por nada. A vida americana seguiu como sempre foi, ou quase. A pior parte deve-se aos amigos de McCarthy: para darem vez à caça, chegaram até a rasgar a Constituição Americana. No filme, a vilania de Helen Mirren, como Hopper, ou de David James Elliott, como Wayne, revolta e constrange.

trumbo3

Não estranha que termine com a vitória do protagonista. Após algumas batalhas, vê-se a amarga volta por cima, mas sem a forma “redonda” das velhas vitórias dos filmes clássicos americanos, com patriotas prontos para abater inimigos.

Em uma das melhores cenas, Trumbo observa a reação de alguns presidiários que assistem a um filme de John Wayne. Se na vida real ele não esteve no campo de batalha, a Hollywood da época encarregou-se de resolver o problema.

Essa terra de ficção cria suas lendas e varre para longe o que não lhe interessa. Por algum tempo, o trabalho de Trumbo só era possível se escondido, problema real quando se pensa nos créditos de um filme e nos produtores covardes.

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Oito filmes recentes sobre a política feita por políticos