Lincoln

O Destino de uma Nação, de Joe Wright

O herói aproxima-se do povo. Do espectador, também. Natural que se aceite, ao fim, sua investida: o senhor ao centro, Winston Churchill, cansa dos gabinetes, das salas de guerra, das pompas do Palácio de Buckingham. Vai à fonte. Quer ter referendada a sua escolha, já tomada, à qual alguns se colocam contra: peitar a poderosa Alemanha nazista.

São tempos de guerra. Para descobrir o que o povo pensa, ela vai ao metrô de Londres. As pessoas logo se mostram dispostas a lutar. Não demora nada nesses instantes que tão bem definem O Destino de uma Nação, de Joe Wright. É quando se percebe o golpe esperto mas baixo do roteiro de Anthony McCarten, feito de pitadas cômicas.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Esperto porque aproxima o herói do povo. Baixo porque aproxima o herói do povo. É a velha saída para fixar certezas, não distante de tantas desconfianças: o momento em que o líder se lança aos braços das pessoas comuns. Mulheres com filhos pequenos, meninas de olhos apaixonados, senhores simpáticos, negros sorridentes saídos de Piccadilly.

Não estão dispostas a se curvar a Hitler. É quando Churchill tem certeza de que pode seguir em frente. É quando o filme, pelas curvas da ficção, leva o herói a seu embate final, nada disposto a aceitar o terror: o povo, afinal, pensa como ele, e o mesmo, antes distante do povo, lamentando nunca ter tomado o metrô, chega à altura desses seres.

Esse encontro entre líder e gente comum é o ponto final da aproximação. O momento em que este Churchill deixa ser tocado, em que se percebe algo no fundo das bochechas gordas, da pele branca, do olhar aparentemente desavisado. O filme faz dele um criança esperta, não raro o bebê chorão que cativa pelas palavras impensadas, pelo riso curioso, pelas gafes que não atrapalham em nada seu destino, o confronto com Hitler.

O visual, com a fotografia de Bruno Delbonnel, faz pensar em outro filme recente sobre outro líder conhecido: Lincoln, de Steven Spielberg. Ambos se passam em tempos de guerra, ambos com personagens centrais em situações complicadas e articulações políticas, ambos em salas fechadas atravessadas apenas (ou nem por isso) pelas luzes da janela, como um refresco, uma possibilidade de vida.

O Lincoln de Spielberg prende-se à moldura intocada, a que ronda a cabeça das pessoas, do homem que fala como profeta. Bate na mesa com força para provar seu estrondo. Nem precisava. O Churchill de Gary Oldman escapa a esse fundo quando propõe algo cômico. Aceita ser engraçado e, aos poucos, é real, curioso, um senhor preocupado em alimentar o gato embaixo da cama, com quem o espectador estaria disposto a conversar por horas.

Fica claro, ainda no início, que é o homem que restou à função que ninguém quer: estar à frente de uma nação em momento crítico. Hitler, visto em imagens documentais, em filmes, avança pela Europa. O Reino Unido seria o próximo passo. Churchill marcha por salas escuras, dita suas falas até quando está no banheiro. Não para nunca.

Ao seu lado está a datilógrafa Elizabeth Layton (Lily James), personagem sacada pelo texto para representar o lado humano da história – antes de o protagonista chegar a tanto. No início, ela entra na casa do líder para seu primeiro dia de trabalho; termina escorraçada do quarto do velho homem gordo quando não escreve à maneira aprovada. Mas volta. Insiste. É inclusive convidada, a certa altura, a conhecer uma sala de guerra proibida para mulheres. É nesse ponto que Churchill surge através dela: alguém capaz de quebrar regras.

A força desse homem na tela – e, sobretudo, a do ator que o interpreta – é tamanha que ultrapassa os (poucos) atrativos da direção. Se Wright o quer cômico, ele será. No entanto, será à forma do velhinho simpático e confiável, alguém que, mesmo com tantas situações difíceis de acreditar, chega ao fim ileso. Será o mesmo ao dialogar com reis e plebeus, à maneira que se constrói alguns mitos adoráveis do cinema.

(Darkest Hour, Joe Wright, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Dunkirk, de Christopher Nolan

Oito filmes recentes sobre a política feita por políticos

Há filmes em que a política é feita por gente comum, em relações cotidianas, greves e revoluções. E há aqueles em que a política serve quase sempre como manutenção do poder, quase nunca às causas nobres. A lista abaixo se situa nesse campo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

As salas fechadas e os conluios de bastidores dão o tom dos filmes, de países e diretores diferentes – alguns inclinados à comédia e até ao suspense. Presidentes, senadores, ministros – todos com seus segredos e pecados em evidência.

W., de Oliver Stone

Depois de abordar alguns momentos conturbados dos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e a morte do presidente John Kennedy, Oliver Stone leva à tela uma das figuras mais controversas da política recente: George W. Bush. Mesmo sem o vigor de suas obras passadas, como Platoon e Nascido em 4 de Julho, o filme tem momentos interessantes e engraçados, como o “batismo” do jovem Bush na universidade.

w

Il Divo, de Paolo Sorrentino

Homem aparentemente pacato, o senador italiano Giulio Andreotti mais parece um vampiro. Articulador de bastidores, sempre de fala lenta, ar sinistro. Difícil não pensar em Nosferatu, o monstro sem alma. O papel cabe a Toni Servillo, fiel colaborador do cineasta. O filme – como a personagem – não é fácil, sobretudo porque o político nunca se assume um vilão. Sorrentino oferece uma figura repulsiva e distante.

il divo

Tudo Pelo Poder, de George Clooney

Uma sequência resume a briga pelo poder e a política nos tempos atuais: um assessor entra no carro do líder vivido por Clooney e, sem acompanhar o diálogo no interior, o espectador já sabe o que ocorreu: ele foi dispensado. Nesse jogo de bastidores cheio de tramoias, passado na corrida pelas eleições americanas, há um assessor (Ryan Gosling) que sabe demais e que, a certa altura, deverá deixar o idealismo de lado.

tudo pelo poder

O Exercício do Poder, de Pierre Schoeller

Nesse filme extraordinário, o ministro dos Transportes da França encara diferentes desafios. O acidente de ônibus com crianças é apenas o início de seu “inferno astral”, que ainda inclui a guerra de egos com outro ministro, as pressões para privatizar terminais de trem e a morte de seu motorista em uma estrada ainda não inaugurada. O talentoso Olivier Gourmet dá o tom ideal para essa personagem sob pressão.

o exercício do poder

Lincoln, de Steven Spielberg

O diretor de A Lista de Schindler reconstitui as articulações de Abraham Lincoln para aprovar a emenda que possibilitaria o fim da escravidão. Apesar de traços de bondade e justiça em excesso nos trejeitos de Daniel Day-Lewis, o filme é lúcido na amostragem das negociações para a compra do voto dos políticos da oposição, os democratas. Passa-se durante a Guerra Civil, com um Tommy Lee Jones na medida.

lincoln

O Palácio Francês, de Bertrand Tavernier

Interessante filme sobre o poder do discurso político, a partir da situação de um tal Arthur Vlaminck (Raphaël Personnaz), que da noite para o dia se torna responsável pelos textos do ministro das Relações Exteriores da França. O talentoso Tavernier explora as bobagens do político distante das falas públicas, em suas repetições e exageros – com o olhar do jovem que passa a conviver nos bastidores.

o palácio frances

Viva a Liberdade, de Roberto Andò

A trama central pode parecer batida: homem assume o posto de seu gêmeo quando este, um político influente, sai de cena. O problema – ou não – é que o novo líder fala o que vem à mente, o que, em seu caso, passa a ser positivo. E muda a própria imagem dos outros a respeito do irmão sumido, como da própria política: o que vence é a espontaneidade, a liberdade para dizer o que quiser. Na política, algo raro.

viva a liberdade3

Getúlio, de João Jardim

Como Lincoln, faz-se em salas fechadas, com acordos, pressões. Por outro lado, é sobre perdas. É sobre a solidão do presidente, que prefere a tragédia e assim entrar para a história à possibilidade de sair algemado – como visto em seus pesadelos – do Palácio do Catete. Como Getúlio Vargas, Tony Ramos tem boa interpretação. Nele, vê-se a fragilidade do poder, a impotência do líder que se suicida para se eternizar.

getúlio

Veja também:
Oito filmes recentes sobre a difícil relação entre mãe e filho

As melhores atuações de 2013

Atriz

Mulheres extraordinárias, jovens ou mais velhas, novatas ou veteranas, mostraram que 2013 foi um ano melhor para as mulheres do que para os homens. São tantos nomes bons, em papéis tão fortes, que algumas belezas como Sandra Bullock em Gravidade e Julie Delpy em Antes da Meia-Noite tiveram de ficar de fora.

Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente)

azul é a cor mais quente

Cate Blanchett (Blue Jasmine)

blue jasmine

Denise Fraga (Hoje)

hoje

Juliette Binoche (Camille Claudel, 1915)

Camille Claudel, 1915

Luminita Gheorghiu (Instinto Materno)

instinto materno

Ator

Um presidente, um marinheiro de volta à sociedade, um professor acusado de pedofilia, um capitão de um barco sequestrado por piratas e um italiano boa-vida compõem esse quadro de diferentes seres que, aos atores, conferem algo mágico. E eles próprios, os atores, respondem ao público: brilham do começo ao fim.

Daniel Day-Lewis (Lincoln)

daniel day-lewis

Joaquin Phoenix (O Mestre)

o mestre

Mads Mikkelsen (A Caça)

a caça

Tom Hanks (Capitão Phillips)

Tom Hanks stars in Columbia Pictures' "Captain Phillips."

Toni Servillo (A Grande Beleza)

a grande beleza

Jobs, de Joshua Michael Stern

O segredo do sucesso de Steve Jobs é logo revelado: ele é um homem do mundo, da natureza, da arte, das mensagens de vida e do olhar além do alcance comum. Não é um homem qualquer: é uma divindade.

Pois esse é o problema de Jobs, de Joshua Michael Stern. Vê-se sempre alguém distante, nunca natural: alguém tão cheio de contornos que mais parece uma miragem. Assim, resulta chato, sem qualquer humanidade mesmo com aquelas palavras que parecem querer mudar o mundo – saídas, talvez, de algum livro de autoajuda.

jobs2

Quando retratados assim, os gênios são chatos. Não sobrevivem nem mesmo à piada que soltam ora ou outra. São seres quase sempre explosivos, quase sempre incompreensíveis, quase sempre desligados da normalidade.

Jobs, o filme, tem essas características levadas à sua personagem, o criador da Apple e um dos homens – justiça seja feita – que mudaram a maneira de pensar os computadores, quando pouca gente acreditava no potencial dessas máquinas dentro da casa das pessoas, os consumidores, ao lado de qualquer outro eletrodoméstico.

Jobs, a personagem, ou o homem que um dia existiu, entendeu a máquina como extensão humana. O computador tornar-se-ia, então, indissociável – o que realmente parece ter ocorrido na atualidade, com as máquinas de bolso.

A abertura do filme de Stern mostra, de cara, o homem ali retratado como gênio. Ele caminha em um corredor de poucas luzes, chega a uma escada. À frente, uma foto de Albert Einstein aguarda-o, como se seguisse os passos de outro grande homem.

Figura importante ao tempo presente, Jobs é interpretado por Ashton Kutcher, impossibilitado de dar à personagem o peso que necessita. É como se o espectador visse, em cena, sempre alguém tentando tocar o mito sem o encarnar com profundidade. Não poderia. Kutcher é limitado ao rosto inteligente, como quando levanta as pálpebras para anunciar possíveis descobertas, “iluminações”, ou para soltar uma frase de efeito.

JOB_1884.NEF

Não consegue dizer quem, no fundo, é Jobs, e, pior ainda, está sempre distante da figura humana esperada. Cai sempre no vazio, à espera do efeito da câmera, a depender da trilha sonora que vem para socorrer e avisar: chegou o pico dramático.

O filme fracassa do início ao fim, dentro de uma linha de produção voltada às obras baseadas em figuras verdadeiras. O mito é vazio e deseja, com tão pouco, resumir muito. Basta olhá-lo para ver o que representa.

O mesmo poderia ser dito do recente Lincoln, de Spielberg. No entanto, um grande ator, Daniel Day-Lewis, serve o ex-presidente assassinato com detalhes, com pequenos trejeitos, com aquela humanidade que brota facilmente do discurso. Lincoln e Jobs são tratados como mitos. A cada um, construções visuais servirão de formas diferentes.

Por que os gênios, com frequência, são tão chatos? É uma das perguntas que, durante Jobs, não sai da cabeça. Por que o espectador deveria se sentir emocionado em qualquer reunião na qual são apresentadas novas máquinas, como se aquilo fosse um berçário e estivesse a surgir uma nova criança, um novo filho?

Por trás de Jobs está uma mensagem bela e irreal: o novo mundo sonhado pelo gênio só poderá ser construído à base da máquina pensada como arte, à base das pessoas em busca do melhor às outras e da felicidade, sem pensar apenas no lucro ou no custo de um projeto. Seria bom se fosse verdadeiro, tal como o Jobs de Kutcher.

Qual o Lincoln definitivo?

Diversos outros atores tentaram, até mesmo gente do calibre de Walter Huston. Ao que se sabe, com o bom momento de Daniel Day-Lewis a somar, duas interpretações do ex-presidente podem ser consideradas definitivas: uma sobre sua juventude, período de formação e com Henry Fonda no papel central; a outra sobre os últimos dias, nos tempos da Guerra Civil e na luta para abolir a escravidão.

Ambos os enfoques estão em A Mocidade de Lincoln, obra-prima não menos patriótica de John Ford, e no recente Lincoln, de Steven Spielberg, sobre a aprovação da 13ª Emenda. Filmes diferentes que não deixam de apontar ao mito, mesmo quando um homem comum, de histórias variadas, esconde-se por trás. Aqui, um texto sobre o filme de Spielberg, indicado a 12 Oscars.

mocidade de lincoln

lincoln