Leviatã

Hannah, de Andrea Pallaoro

Com a personagem-título, o espectador fica entre a impressão de chegar longe e a de não saber nada. A segunda certamente prevalece à medida que o filme, Hannah, revela-se uma jornada física com poucas aberturas ao interior da mulher em questão.

O que está em jogo é a dor, a expressão na pele, a do pequeno gesto, no teste que a mesma impõe ao público: é uma mulher fria que deixa ver o que sente a conta-gotas, de suas aulas de teatro à companhia do marido preso, das andanças pelo metrô ao trabalho como empregada doméstica da bela casa na qual cuida de uma criança.

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De Andrea Pallaoro, o filme é um estudo poderoso sobre a presença como ausência, em que tudo e nada emergem em um único ser de jeito triste, sob as expressões da talentosa Charlotte Rampling. Algumas situações apontam ao que se pode tomar como o drama central: seu marido está preso e o filho não a recebe mais, impedindo que veja o neto.

Teria o marido feito algo à criança? O crime não fica claro, tampouco a decisão do filho de tomar distância. Na sequência mais forte, Hannah vê-se com um bolo de aniversário em mãos, para fora da casa do filho, sem que possa participar do aniversário do neto. O bolo, feito com tanto cuidado, não pôde ser entregue à criança.

Em suas andanças, Hannah faz do óbvio, do repetitivo, sua força. Não estranha se alguém encontrar nesse caminhar – ao respingo das novidades – algo semelhante ao genial Jeanne Dielman, de 1975. Mas se a obra de Chantal Akerman aprisiona o espectador aos sinais do dia a dia da mulher, aos afazeres domésticos e, principalmente, aos mesmos cômodos, Hannah encaminha ao falso respiro, à falsa libertação.

O universo da personagem-título é montado com peso, imobilismo, representado pelo leviatã encalhado na praia, no encerramento. É como se, ao encarar o animal à beira da morte, Hannah encontrasse o que sua vida toda se tornou: um monstro sem caminho, sem força, curiosamente rodeado pelo ar que, nesse caso, serve-lhe de nada.

Na contramão de um ou outro drama pessoal, resta o caminhar, a impressão de se fazer algo. A súplica de Hannah – desesperada, em silêncio – desemboca justamente em suas aulas de teatro. Dizer algo sem sentido, com o poder da voz, é sua fuga; viver outro, também. Essa mulher foge enquanto se envolve nos mesmos espaços, presa à mesma vida.

(Idem, Andrea Pallaoro, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
45 Anos, de Andrew Haigh

Pequeno Segredo, de David Schurmann

No mundo real, parece incompreensível que crianças nasçam com o HIV, que baleias terminem encalhadas na areia e se tornem vítimas de suas próprias toneladas, em algum erro de difícil compreensão ao olhar alheio. A natureza é implacável.

Os salvadores fazem o que está ao alcance: a mãe não diz a verdade para a filha doente e, com esse segredo, prefere que ela continue vivendo bem; os banhistas, frente ao leviatã encalhado, correm com seus baldes, jogando água sobre o monstro que sofre.

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A mãe biológica da menina aproveita para ajudar a jogar água na baleia. Um instinto natural ressaltado em Pequeno Segredo, de David Schurmann: o desejo de ajudar, de salvar, de fazer a vida correr – ainda que difícil quando se trata de tanto peso.

Não recorresse tanto ao excesso de bondade, com personagens quase sempre perfeitas, talvez o filme de Schurmann sair-se-ia melhor. Como está, a acrescentar outros erros, termina em um drama de mensagens gastas, cercado por belas imagens. Nem mesmo a economia do roteiro em algumas passagens evita o fracasso da empreitada.

O exemplo que o cinema não cansa de dar, e não raro como se pensa: não bastam belas imagens e sequências bem estruturadas para se ter um bom filme. Pequeno Segredo erra ao se render à palavra confortadora, a saber, que a compensação à morte de uma criança é a possibilidade de fazer nascer uma borboleta, um anjo, ou algo que transcenda a realidade que se impõe – ou nem se chega a isso.

Pois realidade não é o forte da obra. E talvez nem queira ser. O filme de Schurmann estrutura-se em um conhecido confronto entre os problemas inerentes às pessoas, no inexplicável que tanto as maltrata (a natureza é implacável), e a vontade de fazer o oposto, de nadar contra as toneladas do leviatã encalhado, ou lutar com o invisível.

Pois as pessoas, aqui, quase sempre surgem com mensagens prontas, com diálogos conhecidos, além da pré-adolescente que recorre a seu diário para descrever seus desejos – e, claro, partir o coração do espectador que sabe de seus problemas.

E não se trata de dizer que a essência é responsável pelo resultado final. Nunca é. Talvez falte distanciamento. Schurmann sabe como chegar à beleza, mas não como construir personagens de maneira satisfatória ou como estruturar suas relações.

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O resultado é um drama atrapalhado entre dois tempos, uma narrativa de relações entre pais e filhos, continentes, entre pessoas que quase sempre se entendem contra uma natureza que insiste em atrapalhá-las, em colocar baleias ou doenças no caminho.

O encerramento já se sabe. As imagens da abertura, com personagens à beira-mar, não escondem o ritual. E as imagens da mãe e da filha, em outra praia, sob o pôr do sol, igualmente limitam o filme à mensagem de amor, ao melaço conhecido.

Para que nem tudo pareça esquemático, elege-se a vilã, a personagem de Fionnula Flanagan, com o olhar colonizador europeu, que não cansa de apontar os brasileiros como selvagens. Mãe possessiva, ela não aceita a união do filho (Erroll Shand) com uma brasileira (Maria Flor), nem o fato da neta ser adotada por outro casal latino, da família Schurmann, interpretado por Júlia Lemmertz e Marcello Antony.

Barbara (Flanagan) surge nessa história ao lado de belas flores e, mais tarde, as mesmas estão secas e sem vida. Mas nem ela resistirá à bondade e ao açúcar que recobre o filme.

(Idem, David Schurmann, 2016)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Macbeth: Ambição e Guerra, de Justin Kurzel

13 grandes filmes sobre personagens em viagens existenciais

O caminho de diferentes personagens não se limita ao simples deslocamento. Como se vê nos filmes da lista abaixo, são viagens de significados profundos. De descobrimento. A estrada pode assumir sua forma conhecida, de terra ou asfalto, ou mesmo a inimaginável, quando o homem sai em busca de outros planetas e dimensões. A lista traz obras de diferentes diretores, de Ingmar Bergman a Andrey Zvyagintsev.

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Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman

Um velho professor viaja para receber uma homenagem. É o que lhe resta para coroar a vida, enquanto, na mesma viagem, assiste ao passado, às lembranças, tomado de assalto. A aparente vida pacata toma outro rumo. Ao mesmo tempo, tem de conviver com jovens que cruzam seu caminho na bela obra de Bergman, autor de mais filmes sobre viagens existenciais, como Monika e o Desejo e O Sétimo Selo. O protagonista é interpretado pelo cineasta Victor Sjöström.

morangos silvestres

Édipo Rei, de Pier Paolo Pasolini

Nem sempre fica entre os mais lembrados do controvertido italiano. É parte daquela galeria mítica do cineasta, à qual se lança para explorar diferentes autores. Com Édipo, tem-se o homem luta contra o próprio destino. Ao longo de sua jornada, matará o pai e se casará com a mãe. Pasolini também investiu tempo e esforços em outras histórias sobre viagens existenciais, como em Gaviões e Passarinhos, e sua própria jornada tornar-se-ia, depois, outra jornada existencial pelas mãos de Abel Ferrara.

édipo rei

2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Na aurora do homem, o macaco lança o osso ao alto e, milênios à frente, este dá vez à nave espacial. O salto de séculos, diz Kubrick, é a maior jornada possível: é a consagração máxima da elipse no cinema, o poder do corte, a amostra de que a máxima tecnologia é fruto da violência. Depois, no futuro, o homem toma outra jornada. Lutará contra sua própria máquina – sem aparência nítida, com voz humana – enquanto assiste ao nascimento de outro mundo. Possivelmente o melhor filme do diretor.

2001 uma odisseia no espaço

Cada um Vive Como Quer, de Bob Rafelson

À medida que tenta se incluir, a personagem de Jack Nicholson termina sempre em explosão. E a certa altura fica clara sua renúncia: simplesmente deixa tudo, o mundo para trás, e embarca para lugar algum. Robert Eroica Dupea não quer mais jogar o jogo. Quer encontrar uma saída, um caminho, talvez um amor no meio de toda sua baderna interna e externa. Nicholson chega ao âmago de uma geração com sua personagem niilista.

cada um vive como quer

A Longa Caminhada, de Nicolas Roeg

O ponto de partida dessa viagem é o conflito entre a civilização e o mundo selvagem. Após o suicídio do pai, dois irmãos ficam perdidos no deserto australiano e, com a ajuda de um jovem aborígene, tentam encontrar o caminho para casa. O mesmo caminho levará a diferentes descobertas. O diretor Nicolas Roeg vinha de outra “viagem” ousada em Performance, e ainda faria outra, logo depois, com o magistral Um Inverno de Sangue em Veneza.

a longa caminhada

Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

O jornalista, ao ter de capturar a vida alheia, talvez nunca esteja totalmente inserido em um meio. A personagem central do filme de Antonioni é interpretada por Nicholson, em outro momento sublime, como o jornalista que muda de vida ao trocar de identidade com um homem morto. A mudança ocorre em um hotel distante, na África, continente ao qual é enviado para sua nova reportagem. O protagonista, Locke, passa a se chamar Robertson e busca assim outro caminho para sua existência.

profissão repórter

Stalker, de Andrei Tarkovski

Outro cineasta que se dedicou a diferentes “viagens existenciais”, com suas personagens percorrendo caminhos físicos e íntimos ao mesmo tempo. Vale lembrar outros de seus filmes – ou de quase todos – que cabem no tema: A Infância de Ivan, Andrei Rublev, Solaris, O Espelho e Nostalgia. Mas Stalker talvez simbolize melhor a busca pelo desconhecido, em um clima selvagem e ao mesmo tempo futurista, quando alguns homens – os stalkers – tentam alcançar um lugar mítico chamado Zona.

stalker

Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

A ideia de levar No Coração das Trevas às telas é antiga. Foi levada em conta por Orson Welles, que sequer conseguiu finalizar outra importante jornada da sétima arte, seu É Tudo Verdade. Na versão de Coppola, gestada por anos, encontram-se a composição perfeita, as personagens imperfeitas, o provável discípulo em busca do mestre – talvez para matá-lo e tomar seu posto. Martin Sheen é tão sombrio quanto Brando. Outra figura repulsiva é o Kilgore de Robert Duvall, capaz de destruir uma aldeia para poder surfar.

apocalypse now

Sem Teto, Nem Lei, de Agnès Varda

Os filmes anteriores de Varda são carregados de dor. É o caso de La Pointe-Courte, que antecipa a nouvelle vague, e o incrível As Duas Faces da Felicidade. Nos anos 80, com Sem Teto, Nem Lei, ela mergulha na jornada de uma jovem pela estrada. Chama-se Mona Bergeron (Sandrine Bonnaire), cuja imagem não é suavizada. A partir de histórias de pessoas que cruzaram com ela, essa viagem não a revela por completo, o que fica evidente desde o início.

sem teto nem lei

Paisagem na Neblina, de Theodoros Angelopoulos

Com crianças à frente, o filme de Angelopoulos ganha uma forma especial: cada pequeno trecho percorrido tem sentido de descobrimento maior. Quando se chega ao plano final, com a paisagem sob a neblina, percebe-se que nem tudo pode ser visto. Nessa jornada de descobrimento, as crianças desejam encontrar o pai que nunca conheceram, em viagem da Grécia para a Alemanha, ao passo que são obrigadas a amadurecer.

paisagem na neblina

Naked, de Mike Leigh

O melhor filme de Leigh acompanha o deslocado Johnny (David Thewlis), que furta um carro e foge após violentar uma mulher – nos primeiros e conturbados instantes da obra. Contra todos, a arma do protagonista é a palavra: fala sem parar, como uma metralhadora, e chega a enlouquecer lançado ao chão. Ao procurar uma velha amiga, esse anti-herói termina perdido pelas ruas de Londres e se encontra, ao acaso, com os mais diferentes tipos. Filmaço.

naked

Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami

Viagens e janelas são constantes nos filmes de Kiarostami. Em um de seus últimos trabalhos, Um Alguém Apaixonado, as personagens andam muito de carro e falam através das janelas. A obra, por sinal, termina com o rompimento de uma. Em Gosto de Cereja, feito antes, tem-se um homem a bordo de seu carro, que pede aos outros que lhe façam companhia no momento da própria morte. Ele desistiu de viver e precisa que alguém o enterre.

gosto de cereja

O Retorno, de Andrey Zvyagintsev

Antes do sucesso de Leviatã, o diretor russo realizou esse filme forte, ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em cena, a trajetória de dois irmãos com o pai desconhecido. Até então, o único contato com o homem havia se dado por uma foto. Nessa viagem, eles descobrirão outra face do lado paterno, em diversos conflitos. A fotografia gélida ajuda a dar o tom. Zvyagintsev dirigiria depois o poderoso Elena, sobre uma mulher que luta para ter a herança do companheiro.

o retorno

Veja também:
15 filmes para refletir sobre a morte (e sobre a vida)

Os 20 melhores filmes de 2015

Em um ano com tanto a esquecer, o cinema merece ser lembrado. São grandes não apenas os filmes da lista abaixo, mas também os ausentes. Muita coisa boa ficou de fora, obras marcantes como La Sapienza, Mia Madre, Mapas para as Estrelas, Casadentro e o recente e divertido Star Wars: O Despertar da Força. Que venha 2016!

20) Phoenix, de Christian Petzold

Sobrevivente do Holocausto muda de face e aceita interpretar um papel para se aproximar do marido traidor. Outra bela parceria entre Petzold e a atriz Nina Hoss.

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19) Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

Após o extraordinário Era Uma Vez na Anatólia, Ceylan entrega mais um grande filme, com longos diálogos, drama que envolve família, cobiça e delinquência juvenil.

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18) Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller

Espetáculo embalado a muita gasolina e tipos estranhos: o herói que passa boa parte do filme preso, a heroína de braço mecânico e os rapazes brancos e suicidas, entre outros.

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17) Adeus à Linguagem, de Jean-Luc Godard

O senhor Godard mais uma vez leva ao radicalismo e segue fiel à experimentação: ao dar adeus à linguagem cinematográfica convencional, não deixa ninguém indiferente.

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16) Timbuktu, de Abderrahmane Sissako

Filme urgente em tempos de extremismo, passado em uma pequena cidade aterrorizada por tipos armados, cujo sentido da imagem inicial retorna ao fim: a caça ao inocente.

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15) Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

O jogo teatral é utilizado para questionar o cinema, a fragilidade do sucesso, a busca – tão atual em tempos de internet – pelo segundo seguinte, sob a ótica do estranho protagonista.

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14) Casa Grande, de Fellipe Barbosa

A exemplo de Que Horas Ela Volta?, mas não com a mesma exposição, mostra a relação entre patrões e criados, entre o pai que perde dinheiro e o filho transformado.

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13) De Cabeça Erguida, de Emmanuelle Bercot

O garoto, vivido por Rod Paradot, não é fácil de engolir: revoltado com frequência, confrontador, que descobre a vida adulta aos trancos, com muitas quedas.

de cabeça erguida

12) O Julgamento de Viviane Amsalem, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz

A peregrinação de Viviane, que tenta o divórcio por anos e termina julgada pelos homens que a cercam, incluindo juízes retrógrados e o marido inflexível.

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11) A Gangue, de Miroslav Slaboshpitsky

Os jovens deficientes auditivos formam uma gangue implacável: assaltam, torturam, aliciam meninas e tentam conviver entre si, em uma instituição de paredes frias.

a gangue

10) Força Maior, de Ruben Östlund

A imagem da bela família desmorona. Os problemas começam com a fuga do pai, que não fica para ajudar a mulher e os filhos na ocasião de uma avalanche.

força maior

9) Chatô, O Rei do Brasil, de Guilherme Fontes

Retrato do próprio Brasil, cheio de exageros, no qual o protagonista, Assis Chateaubriand, diverte-se ao mesmo tempo em que acumula poder e muda a história.

chatô

8) O Pequeno Quinquin, de Bruno Dumont

É difícil descrever o filme de Dumont, sua primeira comédia. Inclui meninos à beira mar, um cadáver escondido no interior de uma vaca e policiais desastrados.

o pequeno quinquin

7) Dívida de Honra, de Tommy Lee Jones

Faroeste classe A que revisa o gênero, sobre uma diligência formada por uma solteirona, um beberrão e três mulheres enlouquecidas. Obra de mestre.

dívida de honra

6) Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

A odisseia de uma mulher em busca de seu emprego, em contato com outros funcionários do trabalho, em um retrato do capitalismo no mundo atual.

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5) O Segredo das Águas, de Naomi Kawase

Garota descobre o amor ao mesmo tempo em que assiste aos últimos dias da vida da mãe. Em paralelo, um crime é investigado na cidade à beira mar em que vivem.

o segredo das águas

4) Leviatã, de Andrey Zvyagintsev

O drama familiar mistura-se à corrupção política no incrível filme de Zvyagintsev, autor dos também ótimos O Retorno e Elena. Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro.

leviatã

3) As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes

A primeira parte da fantástica trilogia do português Gomes retrata a crise em seu país e na Europa a partir das histórias ficcionais de Xerazade.

as mil e uma noites

2) As Maravilhas, de Alice Rohrwacher

Entre o velho mundo e a modernidade, menina sonha em levar sua família a um programa de televisão. Ao mesmo tempo, tem de lidar com as irmãs e o pai bruto.

as maravilhas

1) Norte, o Fim da História, de Lav Diaz

A situação de Raskólnikov, o protagonista de Crime e Castigo, é o ponto de partida para esse filme filipino de quatro horas de duração. Não houve obra mais bela lançada nos cinemas brasileiros em 2015. É feita de longos planos-sequência, com diálogos que aos poucos revelam a profundidade das personagens, tomadas pela ideia de um universo supostamente sem sentido ou pela necessidade de simplesmente seguir em frente.

norte o fim da história

PS: Todos os filmes da lista foram lançados no Brasil em 2015.

Veja também:
Os 20 melhores filmes de 2014

Não é fácil ser ‘estrangeiro’

Os filmes estrangeiros que concorrem ao Oscar 2015 são superiores aos indicados à categoria principal. São cinco contra oito, e ainda assim ganham de lavada. Há muito tempo foi criada essa categoria à parte, como se tais filmes – os “estrangeiros” – fossem também “diferentes”.

O cinema nasceu mudo. O som só chegou 1927, com O Cantor de Jazz nos Estados Unidos. Em outros países demorou um pouco mais.

a separação

O Oscar, por sua vez, é fruto da necessidade de valorizar os melhores em diferentes categorias. Com o passar dos anos, e com a inevitável relevância das produções estrangeiras, seus membros resolveram criar a categoria “filme estrangeiro”.

Assim, os profissionais “de fora” foram colocados à parte, como se a linguagem do cinema pudesse ser resumida à língua falada nos filmes, não às suas imagens. Devido às imagens, o cinema assume condição universal: não é preciso ter vivido no Irã ou falar a língua do país para perceber a força de A Separação (foto acima), por exemplo.

Por isso, a Academia não pôde esnobar A Grande Ilusão, de Renoir, provavelmente o primeiro filme não falado em inglês (neste caso, o francês) a ser indicado ao Oscar de melhor filme, na década de 30 – quando a categoria de “estrangeiro” não existia.

Só na década de 50, 30 anos após sua criação, o Oscar resolveu incluir a categoria. Antes, filmes como Ladrões de Bicicleta (foto abaixo) e Rashomon ganharam prêmios especiais, pela inegável contribuição artística – mas não entraram na lista principal.

ladrões de bicicleta

De tempos em tempos um filme vai além e consegue aparecer nas duas categorias, ser “estrangeiro” e ao mesmo tempo suficientemente bom para estar entre os melhores – revelação de um potencial que passa pela opinião do votante.

Talvez seja honesto questionar se os votantes da Academia não gostam de legendas, ou se simplesmente querem proteger – e apenas valorizar – o produto de sua própria indústria, como se o cinema fosse resumido a esse círculo. A segunda opção parece a mais correta, ainda mais quando as bilheterias não vão bem.

O Oscar – um prêmio que traz não exatamente o melhor, mas a opção de um grupo de pessoas em um determinado momento – tem muitos votantes, mais de seis mil, e não há garantias de que toda essa gente – a maior parte branca e com mais de 60 anos – viu todos os filmes relevantes de um mesmo ano. Ou mais: se viu ao menos os indicados.

Assim, sobra politicagem. E não se pode esquecer a força do marketing: em geral, os filmes que investem mais em publicidade saem na frente na hora de faturar uma indicação. Estar lá, para alguns, já é um prêmio.

Tangerines

Neste ano, concorrem a “filme estrangeiro” Leviatã, Ida, Timbuktu, Relatos Selvagens e Tangerines (foto acima). Alguns são belos, outros são grandes. Não fariam feio ao lado dos indicados à categoria principal – que prefere, por sua vez, A Teoria de Tudo e Selma, obras que não vão além do convencional.

Nesse cenário, é fácil notar que o Oscar continua cheio de barreiras, repleto de escolhas discutíveis, ao mesmo tempo com aversão aos “estrangeiros” e tentando valorizar o cinema, arte que está além das palavras, além das fronteiras.