Laurent Tirard

Oliver Stone: ‘Uma vez no set, o roteiro não significa mais nada’

As filmagens são o momento crítico do filme, pois, bem mais que na escrita ou na montagem, estamos à mercê de acidentes de todo tipo, que podem levar o filme em várias direções diferentes. É por isso que sempre chego ao set com a lista dos dez a vinte planos que pretendo filmar naquele dia, e sempre começo pelos mais importantes. Porque nunca se sabe o que pode acontecer. Pode começar a chover, um ator pode ficar doente, a comida do almoço pode fazer você dormir o resto do dia… Talvez você filme seus vinte planos, mas talvez faça apenas três. Então é muito importante determinar o que é essencial e começar por aí. Geralmente tenho uma imagem bem precisa do filme na cabeça, mas sei que não é o que vou filmar, que isso vai mudar ao longo dos ensaios. Pois os atores trazem muitas coisas, fazem sugestões ou críticas que me obrigarão a rever tudo na última hora. Uma vez no set, o roteiro não significa mais nada. Sobretudo não se deve ser rígido e dizer “não se pode fazer isso, não está assim no script!” O roteiro é uma indicação, nada mais. A realidade do set ultrapassa amplamente tudo o que pode ser escrito no papel. Trabalho sozinho com os atores e mantenho o resto da equipe fora do set enquanto eu não tiver encontrado a essência da cena. Geralmente isso leva uma hora. Às vezes duas. E às vezes não começamos a filmar antes da tarde.

Oliver Stone, cineasta, em declaração a Laurent Tirard em Grandes Diretores de Cinema (Editora Nova Fronteira; pgs. 164 e 165). Abaixo, Stone durante as filmagens de JFK: A Pergunta que Não Quer Calar.

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Bernardo Bertolucci (1941–2018)

(…) durante muito tempo abordei cada plano como se fosse o último, como se fossem me tirar a câmera assim que eu o tivesse filmado. Eu tinha, portanto, a sensação de roubar cada plano, e nesse estado de espírito é impossível refletir em termos de “gramática” ou até mesmo de lógica. Ainda hoje, não preparo nada com antecedência, não faço nenhuma decupagem prévia. Geralmente tento sonhar durante o sono com os planos que vou filmar no dia seguinte no set. Com um pouco de sorte, consigo. Senão, quando chego ao set de manhã, peço para ficar um pouco sozinho e passeio no cenário com meu visor. Olho através dele e tento imaginar os personagens se mexendo e dizendo suas falas. É um pouco como se a cena já estivesse lá, mas invisível ou impalpável, e que eu tentasse adivinhá-la, materializá-la.

Bernardo Bertolucci, cineasta, em declaração a Laurent Tirard em Grandes Diretores de Cinema (Editora Nova Fronteira; pgs. 153 e 154).

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