Lana Turner

Bastidores: Imitação da Vida

A hipocrisia hollywoodiana não tem limites. Em 1958, a Universal queria que um filme abordasse a “questão racial”, mas, se possível, sem negros. Uma tamanha contradição, só um cineasta poderia encarar: Douglas Sirk. Pois qualquer crítico de cinema minimamente antenado vai dizer: “Sirk é o cineasta do espelho”. Nada lhe perturba mais do que o abismo entre a coisa refletida e o reflexo deformador. Abismo sem fundo. O espelho não nos dá nada além da imagem da imagem. Uma imagem esconde a outra, substitui outra. Não se pode escapar (é isso, o reflexo do kitsch). É porque ela teve essa ideia imodesta e vingativa de um enterro grandioso que Annie Johnson atinge, pós mortem, o estatuto de imagem. A famosa última cena de Imitação da Vida também é: bem-vindo ao reino da imitação, cara Annie. E o falso, é possível ser fabricado. Para isso, é preciso um grande talento. Toda personagem depositada na beira da tela tornou-se uma imitação. Como a chuva de diamantes na tela escura dos créditos. Não há exceção. O cinema é apenas uma barca e lágrimas, resultado de um ligeiro enjoo.

Serge Daney, crítico de cinema, para o jornal Libération (3 de maio de 1982; a tradução é do professor Pedro Maciel Guimarães, curador da Mostra Douglas Sirk, o Príncipe do Melodrama, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em 2012; leia aqui uma entrevista com o professor, feita na ocasião da mostra). Abaixo, a estrela Lana Turner durante as filmagens das cenas de abertura de Imitação da Vida.

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Kirk Douglas, 100 anos

Não se pode dizer que Kirk Douglas será lembrado por um filme menor. Spartacus é uma grande obra. Stanley Kubrick, à época, não era um diretor das primeiras fileiras de Hollywood. Após ter trabalhado com o jovem cineasta em Glória Feita de Sangue – que é melhor que o seguinte – Douglas decidiu levá-lo para Spartacus.

Não apenas ele. O ator e coprodutor do épico de 1960 bancou o nome de Dalton Trumbo no roteiro. Uma ousadia: Trumbo integrava a Lista Negra de Hollywood, a apontar os comunistas “infiltrados” na indústria do espetáculo. Por anos, Trumbo teve de assinar roteiros com pseudônimos. Seu retorno marcou o início do fim do período.

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A ação de Douglas revela alguém tão combativo dentro das telas quanto fora. Algumas de suas melhores interpretações remontam à imagem: o homem intenso em cada ato, explosivo em diferentes personagens. Spartacus, de escravo a líder de uma revolução, é apenas um deles. Seus vilões também merecem lugar de destaque.

Mito vivo, o ator completou 100 anos em dezembro de 2016. Em seu terceiro filme, o noir Fuga do Passado, ele interpreta o vilão Whit, em cena com o protagonista Robert Mitchum. Os atores voltariam a se encontrar mais tarde em Desbravando Oeste. Mitchum como o guia pacato, Douglas como o ambicioso desbravador.

Apesar do sucesso Quem é o Infiel?, em outro papel menor, Douglas chegou de vez ao estrelato com O Invencível, de 1949, que lhe valeu a primeira indicação ao Oscar de melhor ator. A segunda veio em seu grande momento nas telas, o papel do produtor de cinema sem escrúpulos de Assim Estava Escrito, no qual atua ao lado de Lana Turner.

De queixo perfurado, sua marca registrada, o ator viveria o pintor van Gogh em Sede de Viver. Outra grande interpretação, outra indicação ao Oscar – perdendo para o Yul Brynner de O Rei e Eu, musical com todos os traços do cinema clássico da época.

Pouco antes, a face cínica de Douglas serviu bem ao diretor mais ácido da Hollywood clássica: Billy Wilder. Produto das pitadas de sexo da comédia screwball, sempre a zombar de regimes totalitários, Wilder, com Douglas, voltou suas armas à imprensa americana da época em A Montanha dos Sete Abutres.

Em um local perdido no mapa, ele, Chuck Tatum, vê a oportunidade de dar uma virada em sua carreira de jornalista. Aproveita-se de uma vítima presa em uma mina, manipula autoridades e a opinião pública para fabricar, dias a fio, novas manchetes.

A energia de Douglas produzia grandes personagens como Tatum. Magnífica, de estranha atração apesar de corrupta. A mesma levaria ao oposto, ao destemido coronel Dax de Glória Feita de Sangue. Difícil não se emocionar com sua convicção ao defender três soldados condenados à morte. Bom ou mau, há sempre o grande ator.

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Dez loiras fatais do cinema

Elas compõem o grupo das damas fatais, ou femme fatales, que por muito tempo povoou o cinema noir americano. São mulheres perigosas, capazes de tornar a vida dos companheiros um verdadeiro inferno. Boa parte delas não ama. Algumas ainda mostram sentimentos e podem se transformar ao fim. Abaixo, dez loiras de filmes inesquecíveis.

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Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) em Pacto de Sangue

O diretor Billy Wilder confessou que a peruca loira era proposital. A ideia era tornar Stanwyck uma “mulher barata”. Sua composição é assustadora e histórica.

Barbara Stanwyck

Cora Smith (Lana Turner) em O Destino Bate à Sua Porta

Difícil esquecer a primeira aparição de Smith, a loira aproveitadora em um restaurante à beira da estrada, casada com o homem errado, sob os flertes de John Garfield.

o destino bate à sua porta

Elsa Bannister (Rita Hayworth) em A Dama de Shangai

Tão perfeita quanto Hayworth no papel – o oposto da Gilda de cabelos volumosos – é o “pato” interpretado por Orson Welles, também diretor e então marido da atriz.

a dama de shangai

Gabrielle (Gaby Rodgers) em A Morte Num Beijo

A falsidade e o desejo ficam claros na forma como ela alisa a mala, a suposta Caixa de Pandora. Ela engana o anti-herói de Ralph Meeker e, a certa altura, ousa abrir a caixa.

a morte num beijo

Madeleine/Judy (Kim Novak) em Um Corpo que Cai

Em meio ao jogo que inclui o medo de altura do herói de James Stewart, ela terá novamente de assumir os cabelos loiros ao fim, ser sua velha personagem.

um corpo que cai

Marnie Edgar (Tippi Hedren) em Marnie, Confissões de uma Ladra

O terreno é, de novo, o de Hitchcock, com suas relações psicanalíticas, sobre uma ladra compulsiva e um ricaço que talvez deseje fazer amor com ela enquanto esteja roubando.

marnie

Alex Forrest (Glenn Close) em Atração Fatal

Não é muito bonita. Torna-se cada vez mais estranha, repulsiva: mata pequenos animais, faz jogos com a mulher do amante e até leva o filho dele para passear.

atração fatal

Catherine Tramell (Sharon Stone) em Instinto Selvagem

Lembrada pela cruzada de pernas, Stone está à vontade e se deixa levar pelo jogo perigoso. Paul Verhoeven acerta o tom nessa homenagem aos homens fracos do cinema.

instinto selvagem

Lynn Bracken (Kim Basinger) em Los Angeles: Cidade Proibida

Hollywood abriga figuras falsas, prostitutas com rostos de atrizes. É o caso de Bracken, sósia de Veronica Lake, que coloca os dois protagonistas e policiais a seus pés.

los angeles cidade proibida

Laure/Lily (Rebecca Romijn) em Femme Fatale

Os filmes de Brian De Palma sempre foram acusados de beber na fonte de Hitchcock. Os ingredientes são irresistíveis: a bela fatal, o mundo do cinema e identidades trocadas.

femme fatale

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15 damas da Grande Depressão

Dos dias obscuros da Grande Depressão surgem mulheres diferentes. Por exemplo, a ladra de Faye Dunaway em Bonnie e Clyde. Claro que há casos semelhantes, mas é provável que nenhum outro sintetize tão bem esse momento.

Quando realizou Renegados Até a Última Rajada – cuja história já havia sido levada às telas por Nicholas Ray em Amarga Esperança –, Robert Altman parecia se despregar da obra de Arthur Penn: não desejava necessariamente amantes loucos, entregues à balada agitada, mas amantes jovens, mais em fuga do que em conflito.

Fez algo belo, com a imagem final que resume à perfeição a Depressão Americana: à espera do ônibus, a jovem Keechie (Shelley Duvall) não é mais a mesma, e é levada pela multidão feita de gente simples, que sobe as escadas.

Da Depressão também surge a figura da assassina, da aproveitadora. E ninguém a fez tão bem quanto Lana Turner no poderoso O Destino Bate à Sua Porta – que já havia sido feito na Itália, com Obsessão, e mais tarde na versão de 1981, com Jessica Lange na pele da mesma personagem, Cora, a mulher atraente à beira da estrada.

A lista abaixo ainda contempla pequenos papéis, como a inesquecível Madeline Kahn em Lua de Papel, ou mesmo Zohra Lampert, cujo sorriso desesperador – a esconder a tragédia, a vida que não deu certo – surge apenas no encerramento de Clamor do Sexo, de Elia Kazan. Pouco ou muito em tela, elas resumem o tempo retratado.

Ann Darrow (Fay Wray), em King Kong

king kong

Panama Smith (Gladys George), em Heróis Esquecidos

heróis esquecidos

A garota (Veronica Lake), em Contrastes Humanos

contrastes humanos

Cora Smith (Lana Turner), em O Destino Bate à Sua Porta

o destino bate à sua porta

Angelina (Zohra Lampert), em Clamor do Sexo

clamor do sexo

Bonnie Parker (Faye Dunaway), em Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas

bonnie e clyde

Gloria (Jane Fonda), em A Noite dos Desesperados

a noite dos desesperados

Mona Gibson (Diane Varsi), em Os Cinco de Chicago

os cinco de chicago

Trixie Delight (Madeline Kahn), em Lua de Papel

lua de papel

Loretta (Dimitra Arliss), em Golpe de Mestre

golpe de mestre

Keechie (Shelley Duvall), em Renegados Até a Última Rajada

renegados até a última rajada

Cecilia (Mia Farrow), em A Rosa Púrpura do Cairo

a rosa púrpura do cairo

Clara (Isabella Rossellini), em Os Chefões

os chefões

Grace Margaret Mulligan (Nicole Kidman), em Dogville

dogville

Billie Frechette (Marion Cotillard), em Inimigos Públicos

inimigos públicos

As dez melhores damas fatais do cinema noir

Elas fazem o cinema noir ainda mais interessante e este, é certo, não seria a mesma coisa sem elas. Belas e perigosas, fazem entender o que leva um bando de homens à desgraça. E, antes que alguém aponte à ausência de Gilda ou Laura, a lista abaixo – com as dez mais – traz apenas mulheres que tiveram a clara intenção de acabar com a vida dos outros e, de uma forma ou de outra, são vilãs. Às belas.

10) Jean Simmons em Alma em Pânico (1952)

Jean Simmons

9) Ida Lupino em Dentro da Noite (1940)

ida lupino

8) Mary Astor em O Falcão Maltês (1941)

mary astor

7) Lana Turner em O Destino Bate à Sua Porta (1946)

lana turner

6) Ann Savage em Curva do Destino (1945)

DETOUR, Ann Savage, Tom Neal, 1945, lamppost

5) Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses (1950)

Gloria Swanson

4) Ava Gardner em Os Assassinos (1946)

Ava Gardner

3) Jane Greer em Fuga do Passado (1947)

Jane Greer

2) Gene Tierney em Amar Foi Minha Ruína (1945)

Gene Tierney

1) Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue (1944)

Barbara Stanwyck