Kim Novak

Amor pela mulher morta

Scottie “sente” o absurdo da aventura e é tocado principalmente naqueles instantes em que sua dignidade profissional é ameaçada. Primeiro, a vergonha de sentir a vertigem das alturas; depois, o complexo de culpa, somado a um amor que se iniciava nas cenas posteriores à morte de Madeleine. A importância que o diretor confere ao seu abatimento, à maneira desconsolada com que acompanha as palavras do promotor (admiravelmente jogadas em um recitativo lento, espécie de humor macabro muito do gosto de alguns realizadores), supera aquela rapidez que, nos filmes de “suspense” comum, o herói é colocado à salvaguarda de sentimentos desse tipo. De forma idêntica, o amor de Scottie pela mulher loura é prolongado além de uma simples enunciação, pois as sequências que apresentam o detetive recompondo a figura que julga morta são, todas elas, isentas daquele jogo de cenas que torna a ação exclusivamente física – o caso de Ladrão de Casaca. Como o acordo entre Farley Granger e Robert Walker, em Pacto Sinistro, é filmado sobre a ingenuidade e incredulidade, levando a um tipo de crime totalmente novo, nos anais do “suspense” cinematográfico (o rapaz que mata a noiva do outro, esperando que este, em compensação, assassine o seu próprio pai), a perseguição da verdade, em Vertigo, leva a uma descoberta diferente, quase metafísica – o amor desesperado do detetive pela mulher morta, o retorno dessa mulher, a repetição do acidente, levando Scottie a um círculo interminável de dúvidas e deduções.

Maurício Gomes Leite, crítico de cinema, na Revista de Cinema (fevereiro de 1961; a crítica está no livro Revista de Cinema – Antologia 2; Azougue Editorial; pg. 329). Abaixo, Kim Novak em Um Corpo que Cai.

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Os sinais de Alfred Hitchcock em O Gato de Nove Caudas

A exemplo de Brian De Palma, Dario Argento seguiu os passos de Alfred Hitchcock. Desde seu primeiro filme, O Pássaro das Plumas de Cristal, o cineasta italiano soube como mobilizar a atenção do espectador e causar medo. Assassinos em câmera subjetiva, personagens mentalmente perturbadas, ligações familiares mal resolvidas e o uso de diferentes recursos visuais levam a pensar no mestre Hitchcock.

Em seu segundo filme, O Gato de Nove Caudas (a segunda parte da Trilogia dos Bichos, encerrada com Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza), essa influência fica ainda mais clara, como se vê abaixo.

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A espiral (Um Corpo que Cai)

A imagem da escada, vista em plongée em Um Corpo que Cai, será repetida por Argento em O Gato, mas em oposto, ou seja, em contra-plongée (como se vê abaixo). É o momento em que o homem cego vivido por Karl Malden desce das escadas do prédio, após conversar com uma das futuras vítimas do assassino.

Para Hitchcock, a espiral reproduz a vertigem da personagem central (James Stewart). Mas não só: é também a representação de seu mergulho no universo da personagem feminina, o mergulho em seu redemoinho, sua aproximação à morte. Em outro momento, a mulher vivida por Kim Novak reproduzirá a espiral também em seu cabelo.

Em Argento, a espiral pode representar o esmagamento, a estrutura (aqui captada com lente grande angular) de um universo maior que a personagem, que ainda ousa atravessá-lo. Também funciona como a representação do caminho oposto àquele que leva ao paraíso, à luz vista no alto da imagem.

O copo de leite (Suspeita)

Em uma das cenas mais famosas criadas por Hitchcock, Johnnie (Cary Grant) leva leite para sua amada, a protagonista de Suspeita (Joan Fontaine). O leite em questão talvez esteja envenenado. O espectador assiste ao movimento de Grant pela escada e o copo é iluminado a partir de seu interior, ganhando destaque.

Em O Gato, o espectador já sabe que o leite está envenenado. No momento em que o protagonista (James Franciscus) leva a bebida para a companheira (Catherine Spaak), Argento aproxima a câmera dos dois copos, com foco curto, dando destaque aos objetos. É uma clara referência ao filme do mestre inglês.

A face da vítima (Psicose)

Após levar diversas facadas, naquela que talvez seja a sequência mais conhecida da carreira de Hitchcock (e do cinema), Marion Crane (Janet Leigh) permanece caída no chão do banheiro. Em Psicose, a câmera aproxima-se de sua face, de seu olho.

Uma das vítimas do assassino agoniza pouco antes de morrer enforcada em O Gato. Argento capta o desespero dessa mulher, Bianca (Rada Rassimov), com sua saliva e seus últimos suspiros enquanto mantém a face colada ao chão. Ainda que as câmeras sejam colocadas em diferentes posições, difícil não enxergar semelhanças entre o filme de Hitchcock e o de Argento. Outro encontro entre mestre e pupilo.

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Dez loiras fatais do cinema

Elas compõem o grupo das damas fatais, ou femme fatales, que por muito tempo povoou o cinema noir americano. São mulheres perigosas, capazes de tornar a vida dos companheiros um verdadeiro inferno. Boa parte delas não ama. Algumas ainda mostram sentimentos e podem se transformar ao fim. Abaixo, dez loiras de filmes inesquecíveis.

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Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) em Pacto de Sangue

O diretor Billy Wilder confessou que a peruca loira era proposital. A ideia era tornar Stanwyck uma “mulher barata”. Sua composição é assustadora e histórica.

Barbara Stanwyck

Cora Smith (Lana Turner) em O Destino Bate à Sua Porta

Difícil esquecer a primeira aparição de Smith, a loira aproveitadora em um restaurante à beira da estrada, casada com o homem errado, sob os flertes de John Garfield.

o destino bate à sua porta

Elsa Bannister (Rita Hayworth) em A Dama de Shangai

Tão perfeita quanto Hayworth no papel – o oposto da Gilda de cabelos volumosos – é o “pato” interpretado por Orson Welles, também diretor e então marido da atriz.

a dama de shangai

Gabrielle (Gaby Rodgers) em A Morte Num Beijo

A falsidade e o desejo ficam claros na forma como ela alisa a mala, a suposta Caixa de Pandora. Ela engana o anti-herói de Ralph Meeker e, a certa altura, ousa abrir a caixa.

a morte num beijo

Madeleine/Judy (Kim Novak) em Um Corpo que Cai

Em meio ao jogo que inclui o medo de altura do herói de James Stewart, ela terá novamente de assumir os cabelos loiros ao fim, ser sua velha personagem.

um corpo que cai

Marnie Edgar (Tippi Hedren) em Marnie, Confissões de uma Ladra

O terreno é, de novo, o de Hitchcock, com suas relações psicanalíticas, sobre uma ladra compulsiva e um ricaço que talvez deseje fazer amor com ela enquanto esteja roubando.

marnie

Alex Forrest (Glenn Close) em Atração Fatal

Não é muito bonita. Torna-se cada vez mais estranha, repulsiva: mata pequenos animais, faz jogos com a mulher do amante e até leva o filho dele para passear.

atração fatal

Catherine Tramell (Sharon Stone) em Instinto Selvagem

Lembrada pela cruzada de pernas, Stone está à vontade e se deixa levar pelo jogo perigoso. Paul Verhoeven acerta o tom nessa homenagem aos homens fracos do cinema.

instinto selvagem

Lynn Bracken (Kim Basinger) em Los Angeles: Cidade Proibida

Hollywood abriga figuras falsas, prostitutas com rostos de atrizes. É o caso de Bracken, sósia de Veronica Lake, que coloca os dois protagonistas e policiais a seus pés.

los angeles cidade proibida

Laure/Lily (Rebecca Romijn) em Femme Fatale

Os filmes de Brian De Palma sempre foram acusados de beber na fonte de Hitchcock. Os ingredientes são irresistíveis: a bela fatal, o mundo do cinema e identidades trocadas.

femme fatale

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