Karel Reisz

Albert Finney (1936-2019)

Alguns rostos definem o cinema britânico do fim dos anos 1950 e início dos 1960. Difícil não pensar no Laurence Harvey de Almas em Leilão, na Rita Tushingham de Um Gosto de Mel ou mesmo no inesquecível e inocente Tom Courtenay de O Mundo Fabuloso de Billy Liar. Havia também Albert Finney em Tudo Começou num Sábado.

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Sua personagem, Arthur, reflete um tempo de desilusão, uma juventude sem caminho senão o dos pubs, das fábricas, dos casamentos feitos à medida. O rapaz da paisagem, no fim, não é diferente do rapaz da abertura: com o jeito furioso de Finney, Karel Reisz realizou um grande filme sobre a indiferença, a aventura nula, certos costumes.

Com Finney, o ator perfeito àquele que poderia ser um pequeno papel, de um pequeno ser, viu-se uma geração desfilar. Ou a ideia do que um país podia ser. Ficavam de lado os quadros perfeitos do cinema britânico de estúdio, passava-se à expressão de quem não estava nem aí para tudo, ou apenas desesperado para escapar para o bar.

O mesmo Finney que, não muito depois, serviria ao Tom Jones de Fielding, alguém que, só por Finney, não seria diferente do rapaz de Reisz, inserido no universo dos anos 1960: o falso aventureiro, mulherengo, à estrada, não exatamente em busca de si mesmo. O filme ganhou o Oscar. Finney recebeu a primeira de cinco indicações. Nunca venceu.

Para alguém que fazia o que quisesse, melhor era ser criança. Jones, ou Finney, adota esse estilo descontraído, esse dar de ombros constante a uma história – agora a favor dos segundos, das delícias de se estar na tela, e seguir fazendo nada senão se divertir. Chega-se então à cena da refeição, plano e contraplano que resumem o desejo pela carne.

O mesmo ator poderia ser outro, se banhar em maquiagem, retornar ao teatro e ao ornamento, à aparência de névoa que recobre, por exemplo, Assassinato no Expresso Oriente. Finney, um perfeito Hercule Poirot, servia-se das falsidades de seu tipo escondido sob o bigode, cabelo oleoso, cujos pensamentos alguém poderia pagar caro para saber.

Nada lhe escapa. Finney fica entre o monstro e o sábio, alguém que despeja as cartas pouco a pouco, no jogo ao qual cada um – todos os outros, os criminosos – adere, como se do herói deslocado pudessem se livrar. Não podem. Continua ali até decifrar o que ocorreu e, habilidoso, monta o cenário ideal para reunir o grupo e comunicar a descoberta.

Às damas – não às falsas de Assassinato – seria um perfeito contraponto: no filme de relacionamento Um Caminho para Dois, ao lado de Audrey Hepburn, ou, mais tarde, no extraordinário À Sombra do Vulcão, de John Huston, ao lado de outra musa, Jacqueline Bisset. Nele, faz um cônsul embriagado em um país da América Latina.

Huston conhecia bem os embriagados. Ele próprio, em diferentes filmes e continentes, teve seus momentos de “fuga”, a ver sentido nessa perdição. A jornada de Geoffrey Firmin, do livro de Malcolm Lowry, não deixa prever caminhos, e cada pequena rota fornece um novo achado, outra queda, ataques de alguém que encontra saídas para viver.

Como outros grandes atores de sua geração, Finney ficaria, mais tarde, com coadjuvantes. Para Steven Soderbergh ou Tim Burton. Presenças que não vendiam ingressos, é certo, mas que davam peso e faziam a diferença. Não seria pequeno nem em uma avalanche de ação como 007 – Operação Skyfall. A um ator como tal podia se reservar apenas uma pequena parte, sob forte máscara, e não passaria despercebido.

Foto: Tudo Começou num Sábado

Veja também:
À Sombra do Vulcão, de John Huston
Assassinato no Expresso Oriente, de Sidney Lumet
12 grandes rostos do novo cinema britânico

A Mulher do Tenente Francês, de Karel Reisz

Em dois tempos, diferentes histórias de amor levam a caminhos opostos: no passado, o romance não se consome sem os problemas sociais, as marcas de classe, os rompimentos; no presente, o casal de atores mostra aparente leveza, facilidade, o que depois passa à dificuldade de separação quando o trabalho termina.

Os atores do segundo caso interpretam as personagens do primeiro, no melodrama de época desenhado sem exageros, A Mulher do Tenente Francês. Esses atores aos poucos vão ganhando espaço, ajudam a explicar a conexão entre o casal supostamente fictício daquela história de época. O filme de Karel Reisz é sobre uma obra dentro de outra.

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Mesmo sabendo disso, desde o início, o espectador deixa-se levar mais pelas dores da ficção, menos pelo drama da suposta realidade. No fundo, Sarah e Anna, bem como Charles e Mike, começam a se confundir. Apesar do filme escancarado, ao qual servem a claquete da abertura e o grito de “ação”, é pela história de amor da atualidade que se compreende a história passada: seus atores lançam-se ao amor verdadeiro.

Nesse jogo de espelhos, Sarah pode amar Mike, Charles pode amar Anna. Não estranha que ele, o ator, grite pela personagem ao fim, pela mulher que vai embora, pela Sarah que nunca poderá ter para sempre – diferente do homem que viveu, que termina na companhia da amada, no barco, após três anos de sofrimento, à sua procura.

Pode parecer repetitivo, clichê, mas a ficção resolve os problemas insolúveis à realidade. O jogo de espelhos por isso mesmo é cruel: da leveza do mundo real, no qual os amantes traem seus companheiros enquanto filmam juntos, não se sai com soluções fáceis. Eles não estão dispostos a apelar às quebras, ao risco de perder a família e a vida que já construíram fora dos sets de filmagem, dos trabalhos temporários.

No presente, apesar do amor, a relação é uma aventura passageira; no passado – ou na ficção -, o amor propõe o rompimento, a possibilidade de se deixar tudo para trás – um casamento rentável porém arranjado, uma identidade, um título.

A história da “mulher do tenente francês” é curiosa. Sarah (Meryl Streep) parece pequena, frágil, e pouco a pouco se revela grande: ela é considerada prostituta pelos moradores de uma pequena cidade à beira-mar, fêmea fácil que circula por bosques pecaminosos na falta dos becos londrinos, alguém que teria se entregado aos braços do tal tenente francês.

Seguida por Charles (Jeremy Irons), paleontólogo que trabalha na região, prometido a outra dama de família abastada, Sarah começa a se revelar. Para o darwinista, nada mais forte, à época, que a mulher que nega os papéis convencionais: essa “mulher do tenente francês” – militar que talvez não exista – não quer ser esposa nem prostituta.

Ela teria criado a fama de pecadora ao redor de si mesma. Repousa sob sua face frágil a escolha que a faz crer estar sobre todos, que a fortalece, naturalmente incompreendida. Um amigo de Charles, médico da região, chama o caso de melancolia, diz que a mulher pode manipular o paleontólogo que, àquela altura, está apaixonado.

De fato, Sarah desafia as convenções, as regras, sem que precise gritar. Encontra, ao fim, sua própria fuga: renuncia ao amor esperado para ser a mulher inesperada, a artista emancipada ainda na era vitoriana. A Charles cabe a destruição, ou quase; à procura da amada, desestabiliza, vê-se face a face com prostitutas carregadas de maquiagem, todas devidamente entregues; a ele, coitado, só restam os mesmos locais.

Sarah, na pequena cidade em que boa parte do filme é ambientada, prefere o molhe que ajuda a compreendê-la: uma estrutura forte, inderrubável, porém repleta de curvas, torta, em direção ao oceano, ao infinito. Nos dois tempos, o longa é dela, ainda que o ponto de vista seja o dele. Nos dois casos, ela, misteriosa, oscila entre fragilidade e força.

Outra questão interessante é perceber o quanto a segunda história, a dos atores, não apequena a primeira – a partir do roteiro de Harold Pinter, do livro de John Fowles. Não se trata de revelar os bastidores, o mundo do cinema. Nesse belo filme de Reisz, uma camada alimenta-se da outra o tempo todo, imbricam-se, a ponto de se confundirem no grito desesperado de Mike à “mulher do tenente francês”.

(The French Lieutenant’s Woman, Karel Reisz, 1981)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Vídeo: A Mulher do Tenente Francês

Adultério (em 30 filmes)

No terreno do suspense ou da pura história de amor, o adultério sempre acompanhou a ficção, da literatura ao cinema. Em alguns casos, mulheres ou homens traídos se tornaram heróis, como parece ser o caso de Anna Karenina, a personagem de Tolstói, tantas vezes levada ao cinema. Mais do que contra desejos, lutaram contra a sociedade.

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É verdade que Atração Fatal fez barulho em 1987. Há quem diga que a taxa de adultérios nos Estados Unidos chegou a cair depois do longa de Adrian Lyne. Mulheres perigosas já rondavam o cinema há muito tempo: podem ser vistas em grandes obras como Aurora e Pacto de Sangue, personagens capazes de levar seus companheiros às últimas consequências. É o risco da traição, como se vê em alguns filmes abaixo.

Aurora, de F. W. Murnau

aurora

Anna Karenina, de Clarence Brown

anna karenina

A Carta, de William Wyler

a carta

Obsessão, de Luchino Visconti

obsessão

Pacto de Sangue, de Billy Wilder

pacto de sangue

Desencanto, de David Lean

desencanto

Desejos Proibidos, de Max Ophüls

desejos proibidos

A um Passo da Eternidade, de Fred Zinnemann

a um passo da eternidade

Amantes, de Louis Malle

amantes

Tudo Começou no Sábado, de Karel Reisz

tudo começou no sábado

Meu Passado me Condena, de Basil Dearden

meu passado me condena

Faca na Água, de Roman Polanski

a faca na água

As Duas Faces da Felicidade, de Agnès Varda

as duas faces da felicidade

O Mercador das Quatro Estações, de Rainer Werner Fassbinder

o mercador das quatro estações

O Grande Gatsby, de Jack Clayton

o grande gatsby

Corpos Ardentes, de Lawrence Kasdan

corpos ardentes

Possessão, de Andrzej Zulawski

possessão

Gosto de Sangue, de Joel Coen

gosto de sangue

Atração Fatal, de Adrian Lyne

atração fatal

Decálogo: Nove, de Krzysztof Kieslowski

decálogo nove

Sexo, mentiras e videotape, de Steven Soderbergh

sexo mentiras e videotape

Todas as Coisas São Belas, de Bo Widerberg

todas as coisas são belas

As Pontes de Madison, de Clint Eastwood

pontes de madison

De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick

de olhos bem fechados

Beleza Americana, de Sam Mendes

beleza americana

Ponto Final, de Woody Allen

ponto4

Pecados Íntimos, de Todd Field

pecados íntimos

Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, de Beto Brant e Renato Ciasca

eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios

O Amante da Rainha, de Nikolaj Arcel

o amante da rainha

Garota Exemplar, de David Fincher

garota exemplar

Os dez melhores filmes com Meryl Streep

São raras as edições do Oscar em que Meryl Streep não aparece entre as indicadas. Vencedora do prêmio três vezes, em 2015 ela concorre a melhor coadjuvante por Caminhos da Floresta, dessa vez como uma bruxa. Nada melhor que lembrar, por isso, essa carreira incrível, de filmes variados e papéis desafiadores.

Ainda que suas personagens guardem diferenças óbvias, principalmente quando vive a bruxa de um universo de fantasia, é possível encontrar os traços de Meryl em quase todas. O principal talvez seja a comum fragilidade levada aos dramas, em grandes papéis como em A Escolha de Sofia, As Horas, ou mesmo quando sai do esperado em Silkwood.

“Meryl não se cansa. Ela é durona nos ensaios e em tudo mais. Ela pode até fazer graça, mas nada é brincadeira para Meryl”, disse o produtor Joseph Papp, em entrevista à revista Rolling Stone, em um perfil da atriz publicado em 1981.

A lista abaixo não traz necessariamente as melhores interpretações da atriz, mas os melhores filmes, segundo este blog, com os quais ela esteve envolvida.

10) Silkwood – O Retrato de uma Coragem, de Mike Nichols

silkwood

9) Adaptação, de Spike Jonze

adaptação

8) A Mulher do Tenente Francês, de Karel Reisz

a mulher do tenente francês

7) As Horas, de Stephen Daldry

as horas

6) As Pontes de Madison, de Clint Eastwood

as pontes de madison

5) Kramer vs. Kramer, de Robert Benton

kramer vs kramer

4) A Escolha de Sofia, de Alan J. Pakula

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3) Manhattan, de Woody Allen

manhattan

2) O Franco Atirador, de Michael Cimino

o franco atirador

1) Entre Dois Amores, de Sydney Pollack

entre dois amores