Juventude Transviada

Dennis Hopper, apaixonado e contido

Mesmo com coragem de puxar conversa com a garota, o menino Dennis Hopper mantém-se retraído boa parte do tempo em A Noite do Terror. Com sua maneira de lançar a mão à cabeça, ou de voltar o cigarro à boca, sempre descompromissado, mais parece uma criança em busca de descoberta – a amorosa, a sexual, a do mundo adulto.

Esse menino ainda não pode ser chamado de homem. Sem esforço, é à juventude que aponta em um filme que tenta se aproximar do terror. A mulher pela qual ele interessa-se finge ser uma sereia, pode ter sido possuída por um espírito maligno, e está sob a influência do dono do show em que representa – ou vive na pele – justamente uma sereia.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Palco perfeito para cair o jovem Johnny Drake (Hopper), que se vê atraído. As aproximações começam em um bar tomado pelo jazz, no qual a mesma moça, Mora (Linda Lawson), não dá atenção ao protagonista, no qual ele tenta de toda a forma – aproxima-se, extrai uma conversa – estar perto dela. A maneira como Hopper representa não saber nada expõe sua potência para sintetizar um certo jovem alienado e perdido no mundo.

De James Dean, com quem contracenou em filmes da década anterior, tira o jeito perdido, não a rebeldia. O jovem marinheiro que vaga entre bares, de olho em qualquer oportunidade que, de preferência, materialize o sexo oposto, diz ter forte relação com a mãe e que foi deixado pelo pai. Em sentido oposto, a personagem de Dean em Juventude Transviada – no qual Hopper faz um marginal – confronta o pai, que considera submisso à mãe.

Desse produto estranho, A Noite do Terror, não se destaca a trama de mistério, muito menos o que parece indicar seu lado místico. Resta apenas o rapaz, a síntese do menino apaixonado, ainda ingênuo, agarrado pelas dúvidas, pela imagem da mulher irreal, estranhamente sedutora que não lhe promete muita coisa – ou que só lhe confunde.

Pobre menino destinado a não ter casa, a não encontrar o amor, a quem a revelação final – na delegacia, cujas explicações formam ecos de Psicose, de Hitchcock – deixa-o encolhido, sem poder para externar sentimentos. Opção acertada: a forma de Hopper tem sozinha o drama da perda no filme de Curtis Harrington. Termina um pouco como começou, ou pior.

Dennis Hopper mudaria. Seu amadurecimento, em filmes posteriores, não deixaria escapar um pouco do miúdo Johnny Drake. Em uma de suas personagens mais famosas, o motoqueiro de bigode, cabelos um pouco longos e chapéu de Sem Destino, evoca os sonhos de liberdade que, ao fim, são interrompidos, na América profunda que se pretendia descobrir.

É como se escondesse Drake sob a máscara do homem de um novo tempo, ligado, enérgico, até um pouco poético: é a sintonia do novo cinema que, é verdade, dava as caras na obra de Harrington, mas sem o espírito de transformação de Sem Destino, dirigido e co-escrito pelo próprio Hopper, antes de se especializar em vilões explosivos.

A impressão é que Hopper levava a diversão – ou seria proposital descompromisso, como se quisesse mostrar o ator por trás da máscara? – a suas personagens. Até às piores. Alguns chamam de caricatura. No pouco lembrado A Noite do Terror, no entanto, o pequeno Drake não deixa ver esses sinais. Está bloqueado, mantido em sua redoma de dúvidas, crente de que teria encontrado sua musa não estivesse ela mais próxima de um monstro.

Veja também:
Sete grandes filmes nem sempre lembrados da Nova Hollywood

O Filme da Minha Vida, de Selton Mello

O filme dentro do filme é Rio Vermelho, clássico absoluto de Howard Hawks. Ocupou posição semelhante, na década de 70, em A Última Sessão de Cinema, sobre jovens em busca da sexualidade, em namoros de passagem, frequentadores de um cinema prestes a fechar. Como O Filme da Minha Vida, é sobre um tempo perdido.

O cinema – na grande chamada da fachada, com os nomes enormes de John Wayne e Montgomery Clift – ajuda a resgatar esse tempo, o do sonho com os faroestes, com mocinhos e bandidos, brancos e índios. Vai além: o filme de Hawks é sobre o confronto entre pai e filho, Wayne e Clift, que leva a todos os embates da tela.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

No trabalho de Selton Mello, a partir da obra de Antonio Skármeta, não é diferente: o protagonista, Tony (Johnny Massaro), não sabe o paradeiro do pai. Depois de ir para a cidade grande estudar, o rapaz retorna para sua pequena cidade do interior, no Brasil dos anos 60, quando o pai já foi embora. O pai francês do qual ele guarda boas lembranças.

Tony não retornou adulto. Ainda mantém sinais da adolescência – todos, é bom dizer. São os sinais do jovem perdido, infantilizado, em busca da primeiro noite de sexo em um bordel, de olho nas belas garotas que se exibem como meninas saídas de Juventude Transviada, sobre lambretas. Tony, à contramão, é um “rebelde com causa”.

Personagem confiável que tenta encaixar as partes do “filme de sua vida”, esse filme estranho e pouco resolvido, que não deixa um embate, ao fim, como o de Wayne e Clift, para assim encaixar as mesmas peças perdidas. Um pouco clássico no visual, um pouco moderno na abordagem – o que remete, de novo, ao grande filme de Peter Bogdanovich.

A mitologia do Oeste é a ligação com o passado. Em A Última Sessão de Cinema, Ben Johnson é a representação em pele desse universo, das velhas sessões de cinema. É o elo entre o clássico e o moderno, alguém que reflete sobre a passagem do tempo. Em O Filme da Minha Vida, tal papel cabe ao maquinista vivido por Rolando Boldrin.

O tempo suspenso, o tempo que persiste a despeito dos sinais da velhice, das dobras da pele sobre a face. O trem como reafirmação do passado, como a trilha da qual demora para se escapar – e da qual Tony, nos instantes finais, ousa fugir, ainda que à beira, com sua moto (na verdade, a moto que pertencia ao pai), pela estrada de terra.

A mesma estrada à qual Selton Mello, com bela fotografia de Walter Carvalho, aponta na abertura, com o convite à despedida. Tudo aqui leva à memória: as propagandas da rádio cantadas pelas personagens no café da manhã, as telefonistas incumbidas de levar mensagens, os bailinhos recheados de adolescentes afoitos pelo contato físico, os meninos – um pouco fellinianos – que querem conhecer o bordel. Mesmo com imperfeições, o passado conserva beleza.

Selton Mello consegue bons resultados, ainda que a construção inicial seja frágil e o filme demore a agarrar o público. O excesso de beleza, na tela, nada mais é que paixão pelo passado perdido, pelo cinema perdido, imunes ao cinismo do mundo moderno.

(Idem, Selton Mello, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Mulheres em metamorfose

Rebeldes e solitários de Taiwan (os primeiros filmes de Tsai Ming-liang)

Entre os espaços da cidade grande, entre os sons dos veículos, dos jogos eletrônicos, Hsiao-kang tenta encontrar companhia e algum gesto de afeto. Terá dificuldades, por exemplo, ao tentar ajudar o rapaz cuja moto ele próprio destruiu em Rebeldes do Deus Neon, ou ao se aproximar, na cama, de seu novo amigo, seu novo amor, alguém que ousa beijar enquanto o mesmo dorme em Vive L’Amour.

O jovem Hsiao-kang é levado a observar os outros nos dois primeiros filmes de Tsai Ming-liang. Observador atento e solitário, ele deixa os estudos para viver nas ruas. No primeiro, aproxima-se da marginalidade enquanto assiste às ações de dois ladrões e uma menina; no segundo, passa a frequentar um apartamento vazio, local para suas noites de sono, onde, a certa altura, conhece outro invasor, por quem se apaixona.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Suas relações, antes, sequer chegam a ser um completo problema: desajeitado, silencioso, pouco ligado à malícia dos pequenos criminosos, ele não conseguirá tocar os delinquentes ao longo de Rebeldes. Chegará perto do toque, mais tarde, em Vive L’Amour, justamente em um espaço à venda: o apartamento no qual as três personagens em algum momento se refugiam, e no qual apenas às vezes se encontram.

Nesses filmes de abertura, dentro da chamada nova onda de Taiwan (iniciada na década de 1980 e à qual Ming-liang agrupa-se para se tornar um dos principais expoentes), o protagonista é alguém em busca de um local, de uma vida, de uma companhia. E, nessas tentativas, revela-se a dificuldade de comunicação entre todos.

Em linhas gerais, Rebeldes toma a situação básica do jovem incompreendido, que não consegue se conectar à família e ao papel que a mesma o levou a desempenhar – história contada, décadas antes, em Juventude Transviada, de Nicholas Ray. Não por acaso, a imagem de James Dean divide espaço com fliperamas em uma casa de jogos.

Hsiao-kang mata uma barata em sua primeira aparição. Perfura-a com o compasso e, ao tentar espantar o bicho que continua na janela, machuca a própria mão ao quebrar o vidro. A partir desse ponto – sendo o corte e o sangue os sinais de sua própria existência –, o garoto toma outro rumo e sai às ruas em busca de outros marginais.

Do interior do carro do pai, um taxista, ele vê um dos rebeldes em sua bela moto e com uma menina na garupa. São seus escolhidos: ao mesmo tempo a imagem que admira, ao mesmo tempo a imagem que ousará combater para que possa ver fragilizada. Ao destruir a moto do rebelde, Hsiao-kang diverte-se enquanto assiste, da janela de um hotel, à fraqueza e ao desespero do outro ao encontrar o veículo depredado.

O novo rebelde vaga pela cidade neon, pelos centros comerciais, por ambientes que evocam a impessoalidade desse grande filme de Ming-liang. Seu trabalho seguinte, Vive L’Amour, mostra que algo mudou: os jovens não são mais rebeldes e criminosos, mas trabalhadores que ainda sofrem com a ausência de alguém e terminam sozinhos.

Nesse filme, que rendeu a Ming-liang o Leão de Ouro no Festival de Veneza, os jovens talvez não sejam mais jovens. Vestem-se como adultos, vivem como adultos. Hsiao-kang trabalha agora como vendedor de urnas funerárias. Ainda no início, ele furta a chave de um apartamento à venda e passa a frequentá-lo.

O local servirá para encontros e revelações: é ali que o protagonista tentava se suicidar enquanto um casal fazia sexo em outro cômodo. Ah-jung (Chen Chao-jung) termina no mesmo imóvel após ter uma relação passageira com May Lin (Yang Kuei-Mei), a corretora que tenta vender o apartamento e outros espaços ao longo do filme.

As personagens quase se esbarram. A situação é curiosa: dividem o mesmo local sem que possam dividir sentimentos, problemas, desejos. A crueldade e a distância são reveladoras na mise-en-scène de Ming-liang: ao adotar uma câmera com menos movimento e planos longos, o diretor dá vez a seres enclausurados, sem rumo.

Em apenas um momento as três personagens serão vistas no mesmo quadro, quando Ah-jung vende roupas na rua. O espaço é reduzido quando se pensa no anterior Rebeldes e seus jovens que tentavam se desviar da necessidade de afeto em corridas e aventuras, em jogos eletrônicos e noites de bebedeira.

Em Vive L’Amour, o espaço quase não permite a fuga. O silêncio é valorizado, a menor expressão tem peso maior. Basta pensar no momento em que Hsiao-kang permanece embaixo da cama enquanto o casal faz sexo e, em seguida, no seu lento movimento rumo à face do homem que ama, até chegar à boca e enfim beijá-lo.

Entre a frieza e a falta de toque, Ming-liang conquista momentos raros, momentos nos quais seu protagonista – suicida, observador, alguém que esconde os sentimentos e precisa do outro, vivido por Lee Kang-sheng – toma coragem para tocar o amigo que dorme, alguém que talvez nunca se dê conta daquele amor.

As personagens choram sozinhas, vivem isoladas. Se durante o filme todo May Lin parece distante e forte, a moça trabalhadora que às vezes adere a aventuras sexuais, no fim ela cede: por alguns longos minutos (inesquecíveis) em um parque, à frente de um terreno em obras, ela desaba e chora. Sua dor é como a dor de todos, diz Ming-liang: a revelação de que há vida e emoção entre a cidade grande, quadrada e barulhenta.

(Qing shao nian nuo zha, Tsai Ming-liang, 1992)
(Ai qing wan sui, Tsai Ming-liang, 1994)

Notas:
Rebeldes do Deus Neon: ★★★★☆
Vive L’Amour: ★★★★☆

Foto 1: Rebeldes do Deus Neon
Foto 2: Vive L’Amour

Veja também:
O cinema novo taiwanês

Humanos esmagados: os primeiros filmes de Ken Loach

A falta de espaço move o drama de Cathy Come Home. A família em cena vaga de casa em casa, sem condição de pagar o aluguel, em dívidas constantes, e está destinada a se separar. Perto do fim, Cathy (Carol White) chega a lamentar a escolha pela família. Com ela vêm as necessidades e seus problemas. Viver sozinho, conclui, é mais fácil.

Feito para a televisão britânica, o longa-metragem de Ken Loach – que assinava, à época, como Kenneth Loach – retrata os problemas sociais da Inglaterra, que não tinha moradias suficientes ou distribuídas de maneira adequada a seus cidadãos.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A questão social seguiria em todos os filmes seguintes de Loach, até nos mais inclinados à comédia. O problema de Cathy e de seu marido (Ray Brooks) resume-se à falta de espaço, enquanto vagam o tempo todo, enquanto sofrem várias humilhações.

O início da relação é feliz mesmo com a falta de recursos. São vistos pela cidade, em movimento; ela desconfia dele, mas se deixa levar; ele fala de filhos e ela vê-se encantada. Logo estão juntos. Loach não perde tempo: seu drama empresta a estrutura dos documentários, com pessoas reais – ao lado, ao fundo, à frente – que aceitam participar dessa história de deslocamento. À exceção do casal, todos estão de passagem.

A opção pelas elipses constantes e pelo tom documental não torna o filme difícil de agarrar. Mais do que confiar no material humano, no problema evidente, Loach investe nos constantes diálogos entre esperança e desilusão, à medida que Cathy ganha mais filhos e descobre que não terá um espaço para todos.

O narrador, em paralelo, aponta às deficiências do país, ao surgimento dos sem-teto como resultado da falta de moradias. Um problema de espaço, problema que Loach leva à questão humana, não ao mero registro do deslocamento dos seres em cena.

Seus atores quase não atuam: o tom naturalista faz com que acompanhem todos ao redor. A câmera trepida, esse cinema rende-se aos cortes constantes e à distância dos planos, ao curto espaço em que sobra a dor de quem não tem onde viver. O espaço inalcançável é aqui o espaço físico. Submetidas às elipses, as personagens parecem viver uma situação que, de tão absurda, beira o delírio, a falsidade.

Cathy Come Home chegou à televisão britânica em 1966 e é considerado um marco. Três anos depois, um filme ainda melhor solidificaria o nome de Loach: Kes, sobre um menino solitário que ocupa parte de seu tempo – quando não passa por problemas no emprego, na escola, na família – treinando um falcão.

“No pássaro reside a síntese do afeto e da liberdade. Ele será seu amigo e seu sonho”, observa o crítico de cinema João Nunes. O pássaro oferece ao menino, Billy (David Bradley), uma nova saída, ou um novo espaço. Enquanto Cathy Come Home trata do espaço físico, Kes leva sua personagem à busca do espaço do afeto, dos sentimentos.

Espaço que o menino talvez não consiga ocupar até o fim: com o irmão bruto e a mãe indiferente, com o chefe que desconfia dele, ou mesmo com o professor que aposta em castigos (como na cena do banho), Billy arrisca-se a ficar sem coisa alguma.

A mãe e o irmão não fornecem nada além de discussões sobre dinheiro e moradia. Ela precisa lembrar o filho mais velho, em sua primeira aparição, que ainda é dona daquele espaço; o rapaz afirma que um dia o dono será ele, enquanto Billy, ao canto, vê-se atraído pelo livro que furtou de uma livraria e que trata justamente de falcões.

Nesse universo individualista e material, o menino precisa criar sua própria companhia, sua fuga, ao passo que serve, magricela como é, de contraponto à paisagem opressora das grandes fábricas, em tomadas que dispensam legendas ou diálogos. É a partir delas que Loach faz pensar na falsa aparência de liberdade.

Pois Billy tem campos para correr, e vive correndo. Menino cheio de imperfeições que não precisa – em outro golpe consciente do cineasta – redimir-se, ou se fazer de vítima. É frio, dono de expressão triste, criança fundida aqui ao ambiente de paredões, de chaminés, às salas de aula atingidas parcialmente pela luz externa.

Loach trata de personagens à deriva, de volta ao mesmo ponto mesmo depois de tanto movimento. O diretor não oferece saídas. Desde o início, no caso de Billy, ele debate-se com os outros pelo espaço, para ocupá-lo ou para se livrar dele: na cena de abertura, o menino divide a cama com o irmão mais velho, avisa-o que está na hora de levantar e fica sob a luz acessa deixada pelo outro, uma forma de castigo.

O menino é a vítima perfeita. Loach não permite acesso ao pensamento de ninguém, vítimas ou agressores. De Billy o cineasta pede pouco mais que movimento e falas naturais, pouco mais que a vida de qualquer menino em situação semelhante, em uma cidade pequena e pouco ensolarada. Sem rodeios, pede que expresse a realidade.

Garota interrompida

Na comparação com as personagens dos filmes anteriores, a protagonista de Vida em Família, Janice (Sandy Ratcliff), é quem mais sofre – ou da qual o sofrimento pode ser observado com mais exatidão. Um drama que Ken Loach divide em pequenas doses, no prolongamento do tempo, dos diálogos, até do silêncio.

Como o menino de Kes, Janice não precisa dizer tanto. Não precisa gritar. Aos poucos ela perde a força: os pais, controladores, entendem que a filha é uma pessoa doente, e os médicos (a ciência) tampouco se esforçam para ver o oposto. A versão sobre o caso – e o drama – de Janice está dada: ela será vista, ao fim, apenas como paciente.

O caso a ser estudado, ou repudiado, diz Loach, é o de algumas esferas da sociedade. A começar pela família, aqui como instituição repressiva, o que ganha forma em Kes. Ao optar por uma narrativa que valoriza os detalhes e o tempo “prolongado”, o cineasta distancia-se da aparência da reportagem, do documentário, do aspecto que explorou em Cathy Come Home – com elipses e distanciamento.

O autor amadurece o suficiente para arriscar o tom frio, o drama em sua maior parte desenrolado nas casas quadradas dos créditos de abertura, ou nas clínicas psiquiátricas em que se apela aos remédios e aos choques elétricos como tratamento. As famílias procuram essas clínicas para eliminar o “problema” de seus rebentos. O espaço não é mais o de pessoas pobres e sem moradia.

E ainda que os ambientes fechados possibilitem, para Loach, uma nova construção narrativa em tempo e espaço, o cineasta não perde o foco no social. Nesse sentido, os conflitos familiares não escapam ao espectro político. Faz pensar, por exemplo, na filmografia de Marco Bellocchio, sobretudo em De Punhos Cerrados.

A família surge como o espaço de conflitos entre gerações, visões políticas em choque, seres que simplesmente não conseguem dialogar. Ao mesmo psicólogo que trata a filha, o pai confessa, a certa altura, que se afastou da menina porque a esposa não gostava de tal aproximação. Em Juventude Transviada, talvez o primeiro filme a tratar de conflitos do tipo, há uma situação semelhante: o filho confronta o pai submisso às forças da mãe.

Em Vida em Família, a filha quebra a normalidade quando aparece grávida. A mãe obriga-lhe a abortar. A menina continuará a citar a frustração ao longo da obra, o que influencia todos os problemas seguintes. A família de traços tradicionais – filmada com frieza e sob as poucas luzes da janela – deseja controlar a protagonista.

Ao fim, quando a moça foge da clínica com seu companheiro, a mãe confessa que a internou pesando que pudessem controlá-la. Pouco depois, ao retornar à clínica, Janice será exposta como peça de estudo aos alunos. O último quadro é o momento em que o professor abre para perguntas. A tela escura é a resposta de Loach: qualquer questão não levará à explicação correta sobre os problemas da menina.

O controle – sobre Cathy, Billy e depois Janice – é contra algum “desvio”, alguma “rebeldia”, sobre o incompreendido. São seres que vagam em busca do espaço físico ou imaginário, sob as forças do Estado, da família e até da ciência, em filmes que moldam o cineasta de obras futuras como Terra e Liberdade e Eu, Daniel Blake. São seres de aparência pequena em confronto com diferentes formas de opressão.

(Idem, Ken Loach, 1966)
(Idem, Ken Loach, 1969)
(Family Life, Ken Loach, 1971)

Notas:
Cathy Come Home: ★★★★☆
Kes: ★★★★★
Vida em Família: ★★★☆☆

Veja também:
O Lagosta, de Yorgos Lanthimos

La La Land: Cantando Estações, de Damien Chazelle

O sonho duela o tempo todo com a realidade em La La Land: Cantando Estações. Em sua parte final, ainda mais: é o momento em que apenas o sonho ocupa a tela, quando o espectador assiste, de forma rápida, em resumo, a essa mesma história caso apenas o musical hollywoodiano fosse a matéria-prima em questão.

Claro que se trata de um musical hollywoodiano. Mas não como os clássicos, aqueles em que o sonho ultrapassava qualquer sinal de realidade, quando o cinema voltava-se a mocinhos e mocinhas que naturalmente terminavam juntos. Era sonho, apenas.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

La la Land

O moderno impõe o real, o que explica as comparações entre La La Land e os filmes do francês Jacques Demy. Em Os Guarda-Chuvas do Amor, por exemplo, o encerramento é triste, um reencontro dramático, à neve, entre o casal que não pode mais ficar unido. O real pede passagem. O sonho desfaz-se.

O filme de Damien Chazelle inicia com o choque de realidade logo quebrado, o local em que a vida parece mais real, e no qual o tempo é sentido: uma avenida congestionada. De um dos carros, de repente, uma garota sai e começa a cantar. Outros começam a cantar, e logo todos cantam e dançam sobre seus veículos.

O espetáculo vai e vem, às vezes como choque, às vezes natural, ao passo que o amor do casal ao centro – ela, Emma Stone, que sonha em ser atriz; ele, Ryan Gosling, que deseja ter sua casa de jazz – vem para contar algo visto tantas vezes, aqui diferenciado pela material que pula à frente, pela música, pela natural falsidade do meio.

No primeiro encontro, em uma casa de jazz na qual ele canta e ela entra por acaso, ambos chocam-se quando a menina tenta dizer algo. À frente, quando tudo é sonho e o momento repete-se, eles simplesmente se beijam. É como se Chazelle mostrasse que tudo seria falso – e feliz – fosse a vida o que se deseja dela.

Não é. Ou quase sempre não é. O musical retira as pessoas de seu meio bruto: do congestionamento sob o sol escaldante, dos testes de atores nos quais a banca avaliadora não se limita a ver muito, da plateia vazia para a apresentação teatral da moça.

la-la-land2

Ela, Mia, aprende a gostar de jazz com ele, Sebastian. O filme apela à velha história de que nasceram um para outro. Alguma coisa, no entanto, insiste em não dar certo. Também autor do roteiro, Chazelle dá a resposta: é a realidade. E ela insiste em tropeços, ou acasos, como o toque do celular que irrompe entre uma sequência musical, ou a película que queima durante uma sessão de Juventude Transviada.

A vida real aumenta à medida que a obra avança. A história corre em Los Angeles. Mia mostra para Sebastian a sacada em que foi filmada uma cena famosa de Casablanca. Com constância, La La Land remete ao passado da terra de filmes, na qual se esbarra em alguma gravação, na rua, ou se invade sem querer estúdios de cinema.

Alguns momentos rementem à dança de Gene Kelly, a Cantando na Chuva, aos cartazes com os rostos de Ingrid Bergman e Ava Gardner. Ao mesmo tempo, há quem diga que o jazz está morto. Sebastian, ao contrário, não liga em viver apenas com alguns trocados, sem o sucesso, para tentar reviver seu estilo musical favorito.

Toda a mistura que a obra joga por algum milagre não faz de La La Land algo ainda mais disforme. Os atores ajudam a dar coerência em meio a tanta velocidade, sobretudo a minguada Stone, de olhos enormes, que se impõe pelo jeito sonhador.

Os jovens e artistas em cena conseguem até flutuar. Ao olharem ao passado – ao outro filme que a certa altura passa por ali – veem que o sonho, com sua cidade ensolarada e gente bela, não sobrevive à inexplicável fadiga da vida real.

(La La Land, Damien Chazelle, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Poucas e Boas, de Woody Allen