Júlio César

Oito grandes filmes sobre os bastidores da política

De um lado a política dos palanques, da propaganda escancarada; de outro, os truques e conchavos de bastidores, ambiente em que homens e mulheres revelam-se ao público. Os oito filmes abaixo se embrenham nesses bastidores para fazer vazar a podridão da política partidária, feita de interesses e da busca desenfreada pelo poder.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A Mulher Faz o Homem, de Frank Capra

A América idealista de Capra era feita de homens como Jefferson Smith (James Stewart), herói incorruptível que se torna senador e, em Washington, confronta o interesse dos poderosos. A atuação de Stewart é comovente, resistindo por horas no centro da arena política, no Senado, e tentando provar que ainda existem homens honestos.

a mulher faz o homem

Cidadão Kane, de Orson Welles

O magnata da imprensa Charles Foster Kane (Welles) resolve se envolver com política. O homem que cria guerras em seus próprios jornais vê-se em meio a um caso de chantagem quando, às vésperas da eleição, seu principal concorrente ameaça revelar a existência de sua amante. Ele decide manter a candidatura e paga um preço alto.

cidadao-kane

A Grande Ilusão, de Robert Rossen

Caipira é convertido em líder político, ganha visibilidade e se torna governador. Visto pelo olhar de um jornalista, o grande filme de Rossen conta a trajetória de altos e baixos de Willie Stark (Broderick Crawford). Aparentemente honesto, no início, Stark passa a usar táticas escusas para seguir no poder e, ora ou outra, corre aos braços do povo.

a grande ilusão

Júlio César, de Joseph L. Mankiewicz

Produção cheia de astros e adaptada da obra de Shakespeare. Mostra como Júlio César (Louis Calhern) foi traído por Brutus (James Mason), acompanhado por um cínico Cassius (John Gielgud), depois vingado pelo leal Marco Antonio (Marlon Brando). Os discursos de Mason e Brando – dois dos melhores atores de todos os tempos – são os pontos altos.

julio-cesar

Tempestade Sobre Washington, de Otto Preminger

O presidente dos Estados Unidos tem problemas quando indica seu novo secretário de Estado (Henry Fonda), acusado de inclinações comunistas em plena Guerra Fria. Entre tantas tramas de bastidores, a situação precisa sufocar o outro lado e, a certa altura, revive o passado homossexual de um senador, interpretado por Don Murray.

tempestade-sobre-washington

O Caso Mattei, de Francesco Rosi

A queda do avião que matou o engenheiro Enrico Mattei (Gian Maria Volontè) foi considerada, em 1962, um acidente. Alguns discordam: teria sido um atentado. O grande diretor Rosi concorda com a segunda versão. Sua obra acompanha o engenheiro sem nunca se aproximar demais, em tom documental. Poderoso filme político dos anos 70.

o-caso-mattei

O Exercício do Poder, de Pierre Schoeller

O ótimo Olivier Gourmet interpreta o ministro dos Transportes da França, durante alguns dias em que deverá enfrentar obstáculos. Entre um problema e outro, ele encontra uma breve amizade em seu novo motorista. A imagem da abertura é uma metáfora das mutações políticas: uma bela mulher nua flerta com um crocodilo e é engolida pela fera.

o exercício do poder

No, de Pablo Larraín

A campanha pelo “não”, no Chile, mostra como o bom humor venceu a ditadura instalada por anos no país latino, com a chegada de Augusto Pinochet ao poder. O protagonista é um publicitário (Gael García Bernal), não um combatente político ou o líder de algum grupo de oposição. As propagandas levadas à tevê são um bom retrato da época.

no

Veja também:
Oito filmes recentes sobre a política feita por políticos

Bastidores: Júlio César

Marlon Brando é um rapaz engraçado, enérgico, egocêntrico, de 27 anos, nariz chato e cabeça redonda, braços e ombros enormes, e ainda dá a impressão de ser um estudante magrinho de Greenwich Village. É muito nervoso, resmunga suas falas e ensaia sozinho o dia inteiro. Muito respeitoso comigo, me arrastou para gravar dois discursos de Antônio em seu aparelho, onde ele escuta a própria voz e estuda gravações de Larry, Barrymore, Maurice Evans etc. para treinar a dicção. Creio que sua sinceridade pode levá-lo a uma atuação interessante? – seu inglês não é de todo mau e ele é obviamente muito ambicioso e inteligente. Contou-me que tem uma fazenda de gado e que, depois de mais dois anos filmando, vai estar completamente seguro financeiramente!! Faz parte de um teatro de estudantes em Nova York e é desesperadoramente sério a respeito de representar, mas acho que tem muito pouco humor e parece muito alheio a tudo, exceto ao desenvolvimento do próprio e evidente talento. Será bastante divertido observá-lo.

(…)

Agora estamos em nossos três últimos dias de filmagem, estou deixando a barba crescer e ficarei parecendo um assaltante, ou o 13º apóstolo. A cena da tenda ficou muito boa, embora eu ainda pisque e me remexa nas tomadas em close, e meus olhos vagueiem para os lados, como se procurassem um policial que estivesse vindo para me prender. James Mason é tão seguro e claro em sua representação facial que chego a ter inveja. Ele fez uma interpretação muito boa de Brutus e, quero crer, fará um grande sucesso nesse papel tão difícil. Se fizerem os cortes com argúcia, creio que eu consiga passar incólume, mas espero que não pensem que eu tenha feito uma interpretação teatral e veemente demais. Não vi nada das cenas de Brando, mas dizem que sua cena no Fórum ficou excelente.

John Gielgud, ator, em cartas para sua mãe, em 1952, sobre as filmagens de Júlio César, a versão de 1953 dirigida por Joseph L. Mankiewicz (“Reflexos do palco”, Revista Piauí, julho de 2010; leia aqui texto completo). No filme, Gielgud interpreta Cassius. Abaixo, Deborah Kerr, Marlon Brando e Greer Garson, todos do mesmo elenco.

julio césar

Veja também:
Bastidores: Gilda

13 grandes filmes sobre o teatro

Alguns filmes da lista abaixo não deixam ver o limite entre cinema e teatro. Talvez uma arte deva tanto à outra que o melhor é se adaptar à confusão. Essa mescla deixa sempre certa riqueza: os atores podem estar vivendo ou interpretando. Nem sempre se sabe. E, seja qual for o caso, fazem cinema de qualidade.

Em seus primeiros passos, a sétima arte foi acusada de ser “teatro filmado”. Por isso, acusada de “arte menor”. A história e as experiências com a câmera provaram o contrário: o cinema tinha vida e forma próprias. Ainda assim, não deixou de retornar ao palco, seja como espaço ao drama das personagens ou fusão entre artes. Abaixo, o cinema encontra o teatro para evocar obras inesquecíveis, de grandes diretores.

Crisântemos Tardios, de Kenji Mizoguchi

O drama de um filho que deixa a casa, o pai, para viver como artista na estrada, para mais tarde provar seu talento, e talvez receber sua aguardada ovação.

crisantemos tardios

Ser ou Não Ser, de Ernst Lubitsch

Na Polônia à beira da Segunda Guerra Mundial, uma trupe de atores prepara a encenação de Hamlet e tenta sobreviver ao totalitarismo de Hitler – à base da comédia.

ser ou não ser

O Boulevard do Crime, de Marcel Carné

Ninguém esquece as personagens, seus laços, suas voltas e o tempo a persegui-las: a amada Garance, o mímico Baptiste, o inconfiável Frédérick Lemaître.

o boulevard do crime

A Carruagem de Ouro, de Jean Renoir

Em uma América Latina ainda sob o domínio espanhol, uma trupe de teatro prepara sua apresentação. Em cena, na vida e no palco, está a explosiva Anna Magnani.

a carruagem de ouro

Dá-Me um Beijo, de George Sidney

Curiosa e original mescla de cinema e teatro, com toques tipicamente hollywoodianos, a partir de uma adaptação de A Megera Domada, de William Shakespeare.

dá-me um beijo

Paris Nos Pertence, de Jacques Rivette

A jovem protagonista é tomada por questionamentos após seu vizinho de apartamento, um espanhol, suicidar-se. Ao mesmo tempo, ela envolve-se com um grupo de atores.

paris nos pertence

A Viagem dos Comediantes, de Theodoros Angelopoulos

Parte da história grega é contada na viagem de uma trupe de atores por pequenas cidades, entre guerras, bandeiras, crueldade. Pelos cantos, a arte (quase) incólume.

a viagem dos comediantes

O Fiel Camareiro, de Peter Yates

Albert Finney e Tom Courtney estão memoráveis nesse drama de bastidores, sobre a relação de um grande ator à beira da morte com seu fiel assistente.

o fiel camareiro

O Meu Caso, de Manoel de Oliveira

Começa quase como teatro filmado e depois migra para o cinema – mas sem esquecer o palco. Essa experiência radical questiona o espectador sobre o caso de todos: a arte.

o meu caso

Jesus de Montreal, de Denys Arcand

Após sofrer um acidente em uma apresentação de A Paixão de Cristo, um ator passa a acreditar que é o próprio filho de Deus. Ao fim, consegue fazer seu “milagre”.

jesus de montreal

Tio Vanya em Nova York, de Louis Malle

A partir de uma adaptação da consagrada obra de Anton Chekhov, Malle, com um texto de David Mamet, questiona o que é realidade e representação.

tio vania em nova york1

Vocês Ainda Não Viram Nada!, de Alain Resnais

Após a morte, um famoso dramaturgo convida os amigos atores para assistir à gravação de uma peça em que todos trabalharam, dessa vez encenada por atores mais jovens.

vocês ainda não viram nada

César Deve Morrer, de Paolo Taviani e Vittorio Taviani

Verdadeiros presidiários montam uma versão de Júlio César, de Shakespeare, tanto no palco quanto nos espaços da cadeia. A partir da experiência, questionam a própria vida.

césar deve morrer1

César Deve Morrer, de Paolo e Vittorio Taviani

Interessa, aos irmãos Paolo e Vittorio Taviani, o ensaio. A apresentação teatral é como parece ser: teatro filmado, em ambiente realista, um resultado. O ensaio é maior: para dentro da prisão, encurralados por paredes, muros, celas, grades, corredores envelhecidos, os presos transformam-se nas personagens de Júlio César, de William Shakespeare, em César Deve Morrer. Os Taviani contam essa história que não parece bem uma história convencional. Pouco se sabe sobre os presos e mais sobre a peça, a conhecida peça levada outras vezes ao cinema, nem sempre de forma tão original.

Shakespeare toca o poder o tempo todo. Os Taviani transformam a prisão – como a coragem de alguns homens – em um canal para contornar a condição do preso – condenado a anos de clausura ou mesmo à prisão perpétua. Ao confinado, apenas à luz do sol, resta a arte como resposta. A arte liberta. “Desde que conheci a arte, esta cela se transformou em uma prisão”, narra Cosimo Rega, ao deixar sua personagem da peça, Cássio, após a apresentação da abertura.

Cosimo foi condenado à prisão perpétua, por homicídio. A informação chega quando seu rosto, à tela, é banhado ao preto e branco. Tal como outros, ele foi levado à ficção, ao passo que os Taviani permitem uma feliz mistura entre arte e vida, entre o que parece ser documentário e o que deixa de ser. O resultado é uma preparação para Júlio César em puro cinema, ao preto e branco, diferente do mero teatro filmado, proposital na abertura e no fechamento.

Os irmãos diretores não estão preocupados em fazer o público entender a realidade, mas em fazer valer a arte. O que sempre fica é a expressão, o produto, o humano revelado aos poucos e às beiradas. Econômicos, os diretores mostram controle: levam o espectador aos homens pela peça conhecida, não às vidas particulares, às histórias passadas. Os homens só são homens de verdade – ou voltam a ser – quando mergulhados na arte. O crime e a realidade não compensam: ficam para fora.

Ora ou outra, claro, a realidade é presente. Ora ou outra esses homens saem das personagens, sentam, pensam, entristecem-se e simplesmente – pela condição de presidiários – voltam a ser quem realmente são. A tristeza não pode ser evitada e as portas metálicas das celas são mostradas em cores, pois a arte, aqui, chega pelo preto e branco. O ensaio é transformação, vivência, passagem. A apresentação é o resultado final, junção, no palco que nada lembra a verdadeira prisão.

César Deve Morrer poderia ser irreal caso não fosse o oposto. Seu significado vai além da mera preparação de um grupo de atores. Em certo ponto, eles passam às personagens, a ouvir – como o espectador – o que antes era exclusivo ao texto e, ainda mais, à imaginação. Em um dos vários momentos fortes, Antonio Frasca, como Marco Antônio, fala à suposta população, próximo ao corpo de César. Leva todos ao ódio. Outros presidiários escutam o companheiro a partir de suas janelas. Pulam e se debatem.

Diferente de Marlon Brando, na pele de Marco Antônio na famosa versão de Júlio César de 1953, Frasca tem atrás de si apenas uma parede. Uma parede alta. É como se os Taviani – mesmo pelo fundo, não pela frente – lembrassem o público constantemente daquela condição. Não é Shakespeare por inteiro, tampouco real por inteiro. Longe da Hollywood de Brando, não há uma escadaria, não há um cenário recriado. Fica o discurso inflamado, ao preto e branco, à base da arte que liberta e do cinema que funde tudo: nada é real ou ficcional por completo. Tudo se confunde em ensaios sobre o poder, o sonho do poder, da força, da redenção. A arte confronta o pior dos sons, o som da cela que se fecha, contemplada pelos Taviani como algo sem qualquer graça, morto, ironicamente em cores.