Julie Christie

Nicolas Roeg (1928–2018)

Se você não está prestando muita atenção em um dos filmes de Nic, você não sabe o que está acontecendo, porque muito pouca informação é levada ao diálogo. Nesse sentido, os filmes de Nic têm essa linha direta com o cinema mudo. Eu adoro quando um filme conta sua história através de imagens e ninguém diz alguma coisa. Se fosse Game of Thrones, no final a mulher teria se voltado para Julie Christie e dito: “Você está se sentindo bem?” “Estou me sentindo um pouco doente esta manhã, espero não estar grávida.” Teria sido assim em Breaking Bad também.

Mas se você olhar e vê-la, você entende que o marido dela era mediúnico. Nic está tentando falar sobre coisas que não podem ser ditas. Se você fala sobre elas, elas soam banais, e você as rejeita tanto quanto Donald Sutherland rejeita tudo o que sabe ser verdadeiro naquele filme. Ele é o cético que diz ao longo do filme: “Não, isso é besteira, estas são velhas estúpidas, elas estão se aproveitando de você”. E, claro, o que está sempre falando é que ele é o único com a premonição, o único que está tendo essas visões terríveis e que está em total negação. Se você verbalizar essas coisas, ou você as torna muito banais ou inacreditáveis. Considerando que, se você mostrá-las e deixar o público experimentá-las, você terá a noção do que está por aí.

(…)

O trabalho de Nic durará. Daqui a cem anos, veremos os filmes de Nic. Nós não vamos estar olhando para os filmes de blá blá, que ganhou o Oscar no ano passado. Não importa quem elas são, porque são todas iguais, essas pessoas. Elas são apenas pessoas que foram promovidas por Harvey Weinstein durante uma semana.

Bernard Rose, diretor, em entrevista ao documentário Nicolas Roeg – It’s About Time, em 2014 (leia aqui em inglês; a tradução é do site). Em seu depoimento, Rose refere-se ao filme Um Inverno de Sangue em Veneza. Abaixo, o diretor Nicolas Roeg nas filmagens de A Longa Caminhada.

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12 grandes rostos do novo cinema britânico

A exemplo das “novas ondas” em países como França e Brasil, o cinema britânico teve seu momento de reinvenção. Algumas características seguem o que se viu em outros pontos do mundo: diretores jovens, temática social e visual renovador. E, com esses novos filmes, novos rostos ganharam espaço, como se vê na lista abaixo.

O novo cinema britânico é também conhecido como “cinema livre”. Mas nem todos os filmes britânicos da época podem ser considerados parte do movimento. Em geral, as obras legítimas desse grupo miram em operários e pessoas de classe média baixa, com fotografia em preto e branco e personagens desiludidas, em busca de uma saída.

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Alan Bates

O ator é lembrado principalmente por seus papéis em Zorba, o Grego e Mulheres Apaixonadas. Esteve, no auge do novo cinema britânico, no primeiro longa de John Schlesinger, Ainda Resta uma Esperança, sobre um rapaz que se vê obrigado a casar com uma garota.

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Albert Finney

Com o ótimo Tudo Começou no Sábado, Finney marcou época. Ele interpreta um operário mulherengo, entre a vida em sua pequena casa, em ruas apertadas, na linha de produção, e as escapadas à casa da amante, mulher casada. Faria depois As Aventuras de Tom Jones.

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Dirk Bogarde

Um dos grandes atores da História do cinema. Lembrado, principalmente, por sua contribuição a Luchino Visconti em Morte em Veneza. Mas foi com Joseph Losey, na Inglaterra, que teve grandes momentos: em O Monstro de LondresO Criado e Estranho Acidente.

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Julie Christie

Grande estrela da época, ela recebeu um Oscar já em seu primeiro papel importante durante o novo cinema britânico, em Darling – A Que Amou Demais. Fez, no mesmo ano, a Lara de Doutor Jivago. Pouco antes, esteve no extraordinário O Mundo Fabuloso de Billy Liar, de Schlesinger.

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Laurence Harvey

Nascido na Lituânia, o ator fez ponte entre o cinema britânico – esteve também em Darling – e o americano – por exemplo, ao lado de Frank Sinatra em Sob o Domínio do Mal. Vale lembrar seu momento em Almas em Leilão, de Jack Clayton, que lhe rendeu indicação ao Oscar.

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Rachel Roberts

Depois de algumas séries de televisão, a atriz interpreta a amante casada de Albert Finney em Tudo Começou no Sábado, sempre com jeito irritante. Pouco depois, Roberts tem uma grande interpretação em O Pranto de um Ídolo, do cineasta Lindsay Anderson.

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Richard Harris

É justamente em O Pranto de um Ídolo que Harris tem seu grande momento, na pele de um trabalhador das minas de carvão que se torna jogador de rúgbi. O ator é mais lembrado, sobretudo pelas novas gerações, pelo papel do professor Dumbledore da série Harry Potter.

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Rita Tushingham

O rosto de Tushingham é mais lembrado que seu nome. Um dos símbolos do novo cinema britânico, ela é a menina grávida que vive com o amigo homossexual em Um Gosto de Mel, ou a menina ingênua que acaba de chegar a Londres no também ótimo A Bossa da Conquista.

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Sarah Miles

Outro rosto inesquecível. Em O Criado, viveu a suposta irmã do mordomo de Dirk Bogarde, Vera, introduzida em uma grande casa para causar problemas ao proprietário. Seria vista depois em Blow-Up e O Assalariado. O último valeu-lhe um prêmio especial em Cannes.

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Shirley Anne Field

O protagonista de Tudo Começou no Sábado fica entre uma mulher casada e outra mais jovem. O papel da segunda é desempenhado pela bela Field, também em outro filme marcante da época: Como Conquistar as Mulheres, de Lewis Gilbert, que transformou Michael Caine em astro.

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Tom Courtenay

Ainda um dos grandes atores em atividade, Courtenay é o sonhador Billy Fisher em O Mundo Fabuloso de Billy Liar, que tenta, sem sucesso, ir embora de sua pequena cidade. Esteve, antes, em A Solidão de uma Corrida Sem Fim e, depois, em Doutor Jivago.

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Vanessa Redgrave

A londrina é uma das grandes de sua geração, filha de Michael Redgrave e irmã de Lynn Redgrave. Foi casada com o cineasta Tony Richardson. Tem grande momento em Deliciosas Loucuras de Amor e, no mesmo ano, aparece em Blow-Up, como a misteriosa mulher do parque.

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Doutor Jivago, 50 anos

Entre homens diferentes, a bela Lara (Julie Christie) leva mais que a atenção da personagem-título, o Jivago de Omar Sharif. Ele, de traços exóticos; ela, menina fina, anjo em meio a uma revolução. A partir do livro de Boris Pasternak, o cineasta David Lean dá luz a uma grande história de amor, entre as melhores do cinema moderno.

Toda vez que Jivago encontra Lara, em diferentes situações, é ao olhar dela que a câmera volta-se: Lean mantém o homem no plano palpável, enquanto a mulher vive em outro universo, inatingível, sempre a ser descoberta.

É justamente a história do amor inatingível, o que faz pensar na morte do herói, ao fim: a necessidade de tocá-la, entre a multidão, após sair de um bonde, enquanto ela perde-se em meio aos outros – e talvez sequer seja Lara aquela mulher entre tantas.

Aos 50 anos, Dr. Jivago continua belo, filme extenso como quase não se faz – da época em que grandes épicos com quatro horas de duração também representavam ganhos de bilheteria, espetáculos para ver em tela grande e com direito a intervalo.

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