Jules e Jim – Uma Mulher para Dois

Jeanne Moreau (1928–2017)

Generosidade, ardor, cumplicidade, compreensão pela fragilidade humana, tudo isso pode ser lido na tela quando Jeanne Moreau representa.

No caminho de meus vinte anos de cinema, as filmagens de Jules e Jim, graças a Jeanne Moreau, permanecem uma recordação luminosa, a mais luminosa.

François Truffaut, cineasta, em 7 de setembro de 1981 (O Prazer dos Olhos – Escritos Sobre Cinema; Jorge Zahar Editor, pg. 250). Truffaut dirigiu Moreau em Os Incompreendidos (no qual empresta apenas a voz), Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (foto) e A Noiva Estava de Preto.

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Não dá para negar o apelido: François Truffaut foi, sem dúvida, o mais apaixonado dos cineastas. Sua fórmula, apesar de variações, eram quase sempre as mesmas: a paixão pelas mulheres, pelo cinema, pelas pequenas (ou grandes) situações cômicas, como um observador da vida, um cronista de seu tempo.

Morreu cedo. Poderia ter feito muito mais. Seu cinema difere-se do de Godard, do de Rivette ou Rohmer – alguns de seus parceiros no movimento nouvelle vague. Ora flerta com Renoir, ora com Hitchcock, em obras que saltam do drama profundo à graça da infância, do amor a três à possibilidade de amar várias mulheres ao mesmo tempo.

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10) O Último Metrô (1980)

Deliciosa comédia à maneira de Renoir, na qual a dona de um teatro (Catherine Deneuve) esconde seu marido judeu em plena França ocupada, durante a guerra.

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9) Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (1962)

Filme de amor livre, o mais apaixonado ato de Truffaut, com o trio de amantes e amigos divididos pela guerra. Em seu grande momento, Jeanne Moreau imortaliza-se na tela.

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8) As Duas Inglesas e o Amor (1971)

Outra história de amor a três: a relação de um francês (Jean-Pierre Léaud) com duas inglesas, em idas e vindas, com o passar do tempo e a tragédia imposta pela solidão.

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7) Um Só Pecado (1964)

Françoise Dorléac morreu jovem e deixou o filme como testamento. É sobre adultério, sobre um homem (Jean Desailly) entre a vida de casado e as escapadas com a amante.

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6) A História de Adèle H. (1975)

O amor cego, não correspondido, em seu estágio máximo de entrega: a tradução de tudo isso nos olhos de uma extraordinária Isabelle Adjani, indicada ao Oscar pelo papel.

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5) A Mulher do Lado (1981)

A história de amor feita do acaso, seu ponto de partida: o homem (Gérard Depardieu) vê sua vida mudar ao reencontrar a antiga amante (Fanny Ardant), agora sua nova vizinha.

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4) A Noite Americana (1973)

Ao lado de Assim Estava Escrito e O Jogador, é um dos melhores filmes sobre o universo do cinema, com suas estrelas, trapalhadas e apaixonantes improvisações.

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3) Beijos Proibidos (1968)

A terceira parte da saga de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) leva à aventura cômica, ao jovem detetive nos tempos conflituosos de 1968, decidido a desvendar o amor.

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2) O Garoto Selvagem (1970)

Poderoso estudo sobre a linguagem, a descoberta da vida, a adaptação da criança ao mundo de signos e avesso à selvageria. O diretor interpreta o professor Jean Itard.

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1) Os Incompreendidos (1959)

Marco inaugural da nouvelle vague, valeu a Truffaut o prêmio de direção em Cannes e apresentou ao mundo o crítico de cinema que ajudou a reinventar a sétima arte.

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Jules e Jim – Uma Mulher para Dois, de François Truffaut

Há sempre a impressão de incompletude ao longo de Jules e Jim – Uma Mulher para Dois, de François Truffaut. Pedaços pelo caminho, como na cena em que o trio – Jules, Jim e Catherine – caminha pela mata, observando objetos perdidos entre o verde.

Tudo um pouco difuso, com idas e vindas, pessoas que não aceitam definição fácil. Tentam construir algo, mas isso não se concretiza. Buscam o amor, é certo, e este não chega porque talvez desejem amar demais. À frente, Jim (Henri Serre) diz a Catherine (Jeanne Moreau) que eles fracassaram ao tentar encontrar o amor verdadeiro.

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Diz muito, ainda que o essencial: eles teriam fracassado na busca pelo equilíbrio. Triste e verdadeiro, da comédia ao drama, ou à compreensão da derrota. A frase soa poderosa como outra, de Sem Destino, dita por Dennis Hopper, ao afirmar ao amigo que eles jogaram tudo fora. Em Jules e Jim, a busca pelo amor; em Sem Destino, a busca por outro país possível e tolerante. Nos dois casos, a derrota de uma geração.

Em posse do livro de Henri-Pierre Roché, Truffaut leva o público às aventuras de seu trio, às tentativas do amor livre e intenso. Vivem entre guerras: passam por uma, ainda na primeira parte da obra, e chegam às portas da Segunda Guerra Mundial, depois.

Lamentam os rumos da Europa: a essa altura, os alemães já queimam livros em praça pública, com uma enorme fogueira sob o foco da câmera, no cinejornal assistido por Jules, Jim e Catherine. Eles correm à margem da História. Suas histórias, no espaço íntimo, feita de inúmeras idas e vindas, de rompimentos, é o que interessa a Truffaut.

Jules, interpretado por Oskar Werner, é alemão. Jim, um francês. Estão de lados opostos quando estoura a guerra, e se preocupam com a possibilidade de machucar o outro no conflito. Voltam a se encontrar, depois, quando Jules está casado com Catherine.

De difícil compreensão, ela é o ponto central. Irrompe entre os rapazes não para separá-los. É livre, quer amar mais de um homem. Ama os dois. Sua luta, como Jim afirma no mesmo diálogo revelador, no fim, é para inventar o amor. O que o trio vive é um ensaio, uma possibilidade. Jules e Jim é o mais apaixonado dos filmes de Truffaut.

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A bela entre eles, ou com eles, surge aos poucos. Antes de encontrá-la, a dupla descobre estátuas femininas entre a mata. Contemplam a arte – fixa, bela, porém morta. Catherine brinca com os rapazes. Pela rua, na primeira saída a três, resolve confrontá-los: veste-se de homem, intitula-se Thomas, e os convida para uma corrida.

O amor livre proposto por Truffaut vem embalado pela fotografia de Raoul Coutard, com a câmera de um lado para outro, a girar, a seguir a “locomotiva” Thérèse (Marie Dubois), a namorada de Jim que percorre a sala com seu cigarro, soltando fumaça.

O filme é veloz, não para nunca. E, ao mesmo tempo realista, a mise-en-scène de Truffaut permite o irreal, por exemplo, no momento em que o rosto de Catherine é paralisado por instantes para mais tarde ganhar movimento. O diretor brinca com as possibilidades da linguagem cinematográfica em uma aventura de amor, em um universo de exageros, de palavras perdidas, nunca sem sentido.

Como Catherine, Jeanne Moreau tem o papel de sua vida. Não é a “locomotiva” abobalhada, faladora, jovem, tampouco a menina de cabeça oca feita apenas para o sexo e apresentada, a certa altura, para Jim. É, como se define aqui, uma visão, mulher fora de seu tempo. Pode amar dois ou mais homens enquanto tenta inventar o amor.

(Jules et Jim, François Truffaut, 1962)

Nota: ★★★★☆

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As Duas Inglesas e o Amor, de François Truffaut

As duas mulheres, no início, são jovens questionadoras. Não sabem bem o que é amar. O contato das duas inglesas com o francês Claude (Jean-Pierre Léaud) muda a vida de ambas: há algo para além da pequena casa à beira mar em que se conhecem.

A vida delas começa a mudar quando Claude vai passar alguns dias ali, na Inglaterra. Ou antes: quando uma delas, Ann (Kika Markham), fez uma visita a ele, na França. O filme é sobre passagens entre países, entre amores, entre diferentes.

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A cada uma, Claude entregará algo: a Ann, a libertação, a vida como uma mulher formada, a experiência física; a Muriel (Stacey Tendeter), o amor louco, o sentimento que ela nega e que depois a toma em As Duas Inglesas e o Amor.

Ou, por se tratar de um filme de François Truffaut, poderia ser o amor estranho. Pois o amor, nessa obra, baseada no livro de Henri-Pierre Roché, sempre depende da negação. Quando Claude quer, Muriel não quer; quando chega a vez dela, é ele que volta atrás.

Seguem assim por algum tempo, entre troca de cartas, entre dores às vezes contidas, às vezes convertidas em desmaios. As moças até poderiam tentar esconder algo, ajudadas como são pelo lado pacato britânico. Ainda assim fracassam com frequência.

Para suprir a dor da ausência de Muriel, Claude, por um período, terá Ann. O triângulo amoroso está formado. Ann vai a Paris. Pinta quadros e convida Claude a frequentar seu ateliê. O rapaz também está envolvido com artes, deseja escrever.

O lado pacato do início, com seus contornos comportados, passa à libertação de ambientes despojados. O filme muda, ganha vida. Mas o amor continuará a ser um problema ao trio, principalmente a Muriel, que decide renunciar a quase tudo.

No filme de Truffaut, o amor é um problema fundamental, insuperável. Ao fim, quando Claude encara seu reflexo e crê estar velho, é como se perdesse a paixão: cansou de esperar pela amada, ou de procurar seu reflexo nas jovens garotas.

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O início, com as primeiras brincadeiras e convivências, é cheio de estranheza. Ann fala muito sobre Muriel. É certo que o amor pela irmã impede-a de investir no rapaz. E é certo que estará mais aberta ao mundo se comparada à outra, e com mais amantes.

Muriel tem problema nos olhos, não pode ficar exposta à luz forte. Com frequência é vista de óculos escuros. Quando Claude reencontra-a no ateliê de Ann, eles precisam ficar no escuro, o que resume mais que o universo dela: é também o anúncio do amor insuportável e estranho, amor às sombras que não pode dar certo.

Com Ann, ele vive dias de prazer à beira de um lago. Ambos aceitam os outros relacionamentos. Vivem a liberdade. A moça transforma-se, deixa que seu corpo seja tocado. E Truffaut sempre prefere a distância, a narração calma e explicativa.

De Roché, Truffaut adaptou também Jules e Jim – Uma Mulher para Dois e fez um belo filme. Ambas as histórias tratam de triângulos amorosos, ambas sobre o fracasso em lidar com o amor, ainda que de diferentes maneiras.

Em As Duas Inglesas e o Amor, Claude encontra dois mundos em duas mulheres. O que resta dessa experiência – com prazer e amor – é o homem que ainda vaga em busca de um sinal, com o reflexo que traduz o tempo e o fim.

(Les deux Anglaises et le continente, François Truffaut, 1971)

Nota: ★★★★☆

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Além de cineastas e outros profissionais da sétima arte, a nouvelle vague trouxe uma galeria de grandes faces. Esses atores e atrizes também fizeram carreira em filmes fora do movimento, antes e depois dele. Alguns morreram prematuramente, outros continuam na ativa.

Estudiosos divergem sobre o início e o fim da nouvelle vague. Segundo a versão mais aceita, começaria em 1958 ou 1959, com Nas Garras do Vício ou Os Incompreendidos, e seguiria até os embates de Maio de 1968. Abaixo, ícones dividem espaço com atores menos lembrados, em lista para resgatar um momento único da História do Cinema.

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Anna Karina

A bela de Godard, mas também de Rivette e outros. Em Viver a Vida, fez história com lágrimas que remetem a Dreyer e sua Joana D’Arc. Também trabalhou sob a direção do mestre Valerio Zurlini no belo Mulheres no Front, de 1965.

viver a vida

Bernadette Lafont

Seu primeiro filme, o curta Os Pivetes, foi dirigido por François Truffaut, com quem voltaria a trabalhar em Uma Jovem Tão Bela como Eu. No primeiro, é a beleza distante, aos olhos dos meninos atrevidos. Mais tarde esteve no extraordinário A Mãe e a Puta.

os pivetes

Brigitte Bardot

Antes de Godard e O Desprezo, Bardot marcou época como a menina livre de E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim. Estavam escancaradas ali as portas do paraíso: Saint-Tropez, onde a mesma se banharia em ambas as obras, e onde seria seguida por diferentes homens.

o desprezo

Claude Jade

A primeira aparição da jovem atriz em Beijos Proibidos, de Truffaut, é talvez o ponto alto do filme. Ela aproxima-se do vidro e, do lado de fora, acena para Antoine Doinel. É o par perfeito para o jovem em dúvida, com quem voltaria a se encontrar nos filmes seguintes.

beijos proibidos

Corinne Marchand

Bastou apenas uma personagem para que Corinne ficasse marcada como uma das musas da nouvelle vague: a protagonista de Cléo das 5 às 7, de Agnès Varda, sobre os momentos de tensão que antecedem a retirada de um importante exame médico.

cleo das 5 as 7

Delphine Seyrig

O rosto misterioso de O Ano Passado em Marienbad. Mais: o rosto difícil de esquecer, o da mulher que vive com o enteado e recebe a visita de um velho amor em Muriel, outro de Alain Resnais. E como deixar de lado, entre outros, o incrível Jeanne Dielman?

o ano passado em marienbad

Françoise Dorléac

Outra atriz bela de poucos papéis, lembrada, sobretudo, por sua personagem em Um Só Pecado, de Truffaut, e que morreu cedo, em um acidente de carro, em Nice, em 1967. Pode ser vista também em Armadilha do Destino e Duas Garotas Românticas.

um só pecado

Jean Seberg

Apesar de ter trabalhado em grandes produções, a americana Seberg seria lembrada por sua personagem em Acossado, Patricia Franchini, que pelas ruas de Paris vende o New York Herald Tribune. A atriz contracenou antes com David Niven em Bom Dia, Tristeza.

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Jean-Louis Trintignant

Trabalhou ao lado de diversos cineastas, entre eles Vadim (E Deus Criou a Mulher), Claude Lelouch (Um Homem, Uma Mulher) e Eric Rohmer (Minha Noite com Ela). Fora do tempo da nouvelle vague, ainda contribuiria com outros mestres, como Kieslowski.

minha noite com ela

Jean-Pierre Léaud

Eternizado como Antoine Doinel nos cinco filmes que Truffaut dedicou à personagem. E não só: também esteve em filmes de Godard, como no divertido Masculino-Feminino e, pouco depois, no maoísta A Chinesa, de 1967. Esteve no recente e encantador O Porto.

os incompreendidos

Jean-Paul Belmondo

Podia ser um pequeno criminoso em Acossado e, no ano seguinte, 1961, o padre de Léon Morin, de Jean-Pierre Melville. Ator versátil, de expressão inesquecível, e de filmes nem sempre lembrados como Duas Almas em Suplício, de Peter Brook.

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Jean-Claude Brialy

Viveu o protagonista de Nas Garras do Vício, um dos filmes que lançaram a nouvelle vague. Voltaria em outro de Chabrol, logo depois, Os Primos, e em diversas produções marcantes como Uma Mulher é Uma Mulher e, mais tarde, O Joelho de Claire.

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Jeanne Moreau

Provavelmente o rosto feminino mais importante da época, a Catherine de Jules e Jim, papel que a imortalizaria. Viveu outras personagens intensas em grandes filmes como Eva, A Baía dos Anjos, A Noite e, pouco antes, em Amantes e Ascensor para o Cadafalso.

Jeanne Moreau

Maurice Ronet

Esteve no mesmo Ascensor para o Cadafalso ao lado de Moreau e, de novo com o diretor Louis Malle, interpretou a personagem principal em Trinta Anos Esta Noite. Com Alain Delon, dividiu a cena em outros bons filmes: O Sol por Testemunha e A Piscina.

Trinta Anos Esta Noite

Stéphane Audran

O olhar enigmático é sua marca registrada. Pode ser visto nos filmes de Claude Chabrol, com quem foi casada até 1980. E com ele fez grandes filmes, incluindo um pequeno papel em Os Primos, Entre Amigas e, mais tarde, A Mulher Infiel e O Açougueiro.

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