jovens

Antes Passe no Vestibular, de Maurice Pialat

Os diálogos dos filmes de Maurice Pialat remetem a um universo passageiro. Suas personagens dizem frases fortes sem intensidade dramática. Cabe ao espectador agarrar esses fiapos de profundidade, para que não escapem, e chegar à grandeza desse cinema.

Pialat faz filmes realistas, utiliza pessoas verdadeiras. Como Robert Bresson, pede que deixem o mínimo. O máximo é por conta da câmera. Em Antes Passe no Vestibular, por exemplo, há um diálogo revelador e um pouco perdido – como quase todos os outros. A mãe reclama que o filho chega sempre de madrugada, que não toma um rumo na vida. O menino, à espera do café, responde: “É o progresso”.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Difícil não concordar. Difícil, também, não se colocar do outro lado: a mãe, ou a avó, pertence a outra geração, não compreende a ideia de viver o hoje, o prazer, em encontros nos quais os adolescentes em cena apenas se agarram, beijam-se, e logo trocam de companhia. Tudo é passageiro nesse grande filme de Pialat.

A sensação, à primeira vista, é de pouco aprofundamento. É necessário olhar com calma. Pialat satura a obra de realidade, de leveza, para aos poucos deixar ver o jogo, a forma de seus seres, como todos esses meninos e meninas são, na verdade, diferentes, donos das próprias características, rumo à vida adulta, à desilusão ou a um novo começo.

Crescem? É provável que não, ou que muito pouco. Uma das meninas – que no dia de seu casamento beija outro rapaz por diversão, ou talvez por amor – afirma ter se casado por falta de alternativas. Não quer estudar, não suporta mais a família. Pialat dá vida a um retrato triste da juventude na comuna de Lens, na França.

Essa menina – pequena, loura, incapaz de crescer – chama-se Agnès (Agnès Makowiak). Após brigar com o jovem marido, termina confessando seu amor a outro rapaz, o louro e mulherengo Bernard (Bernard Tronczak). São palavras de dor. “Viver é uma merda”, confessa ela, em outro cômodo, ao lado de uma banheira cheia de enguias.

Bernard, lembra outro menino, no bar em que todos se encontram, é o mais desejado entre eles. Está sempre na companhia de alguma garota. No mesmo local, a jovem Élisabeth (Sabine Haudepin) desfila com calça jeans apertada, jaqueta de couro, batatas fritas na mão. Chama a atenção de outro frequentador, Philippe (Philippe Marlaud).

O novo casal começa a namorar. Pialat deixa ver o que pode ser o início de uma história de amor. Mas para Élisabeth talvez seja apenas a chance de fuga. Em alguns momentos, ela será vista na companhia de seu professor de filosofia. Diz que não consegue organizar as ideias, que não entende o que esse mesmo homem expressa em seu trabalho.

O espectador chega a acreditar que ela poderá ser salva pelas ideias. Pialat apenas acena à possibilidade de mudança, ainda que prefira o caminho real. Ao fim, abre espaço para a viagem de dois rapazes para Paris. Fuga e novo começo. Ao mesmo tempo, a frase que fecha a obra também a abre: os jovens estão de volta à aula de filosofia, enquanto o professor discursa, enquanto a câmera retorna às mesas rasuradas.

A tinta sobre a madeira é o resumo dessas personagens, dessa juventude. A vontade de escapar, de produzir algo para além das palavras do professor, que fala sobre a necessidade de desaprender. Do lado de fora – no bar, nos encontros em suas casas, na praia -, os jovens guiam-se pelos desejos, pela novidade do instante, embebidos pela liberdade.

(Passe ton bac d’abord…, Maurice Pialat, 1978)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Os cinco melhores filmes de Maurice Pialat

Diferentes olhares sobre Berlim

No que há de mais superficial, Berlim – Sinfonia da Metrópole e Gente no Domingo são semelhantes. Ambos abordam a vida de pessoas comuns, seus movimentos, em pouco mais de um dia em Berlim, do amanhecer ao cair da noite.

Em relação à forma, são filmes desiguais: o primeiro, de Walter Ruttmann, é calcado todo no poder da montagem e no distanciamento das pessoas; o segundo, feito de outro fluxo, leva a um nível pessoal, à proximidade das personagens, à vida como parece ser.

berlim sinfonia da metropole

A obra de Ruttmann faz parte das vanguardas europeias da época, na década de 20. Tem início com a chegada à cidade, com o movimento do trem que não se vê, com a entrada na estação que anuncia a cidade: a placa escancara o nome de Berlim, a metrópole.

É um filme em movimento, no qual a cidade está viva antes mesmo de surgirem pessoas: obra sobre a modernidade e suas contradições, evidenciadas graças ao paralelismo do cinema, à edição frenética que impõe seu desafio aos olhos.

A cidade viva, Berlim, tem grandes prédios que se jogam ao público, tem o movimento, o túnel do trem que leva da escuridão à claridade rapidamente, os trilhos com suas curvas estranhas, a ideia de que o choque é possível antes de o trem desviar-se.

Como a música, tem seu ritmo próprio: a cidade é construída, nunca mostrada como realmente é. A metrópole pela visão de Ruttmann tem sua forma particular: é uma sinfonia feita de pequenos pedaços, de partículas vivas, de pessoas distantes.

berlim sinfonia da metropole2

Não se ignora o poder das imagens isoladas, com suas crianças tristes ou felizes, com suas mulheres que mendigam pela rua, com a gente rica que espera os belos pratos de comida em um restaurante – quando até mesmo a culinária torna-se linha de montagem.

Por outro lado, é na edição, no choque entre imagens, que está a força da obra de Ruttmann: na maneira como busca seu próprio ritmo, sua sinfonia pessoal.

O autor divide o filme em capítulos e, em cada um, expõe sua crescente, da aparente quietude à evidente explosão, das pessoas que saem de suas casas, pouco a pouco, à velocidade da fábrica – para depois retornar às pessoas, às suas janelas abertas.

A conexão das imagens fornece a beleza da obra, como o paralelo entre homens que brigam na rua e cães excitados. A certa altura, o suicídio de uma mulher – em uma possível encenação, com o close da personagem e seus olhos esbugalhados – parece quebrar a rotina e fornecer o ápice da agitação fílmica.

gente no domingo

Se no filme de Ruttmann as pessoas são partículas como outras, em Gente no Domingo, de diferentes cineastas, a cidade dá-se pela aproximação a elas – ou simplesmente aceita servir de fundo, espaço mais ameno e belo, apaixonante em alguns momentos.

Lançado em 1930, o filme tem a assinatura de cinco diretores, todos no início de carreira: Edgar G. Ulmer, Fred Zinnemann, Rochus Gliese e os irmãos Curt e Robert Siodmak. Alguns deles ficariam famosos por trabalhos futuros em Hollywood. Entre os roteiristas está Billy Wilder, que também iria para os Estados Unidos e faria sucesso.

Sem atores profissionais, apenas com pessoas da cidade, o filme foi feito com total liberdade, a partir de 5 mil marcos que Robert havia ganhado de presente de seu tio. A ideia era mostrar um dia – e um pouco mais – na vida de alguns berlinenses.

Começa no sábado, com a rotina de alguns rapazes, com o convite para encontrar garotas no domingo, quando todos estão interessados em gastar o tempo com diversão. Desde o início, fica clara a intenção da obra em dispensar atuações.

gente no domingo2

Nesse sentido, o filme deseja ser realista, e talvez antecipe um pouco da estrutura do cinema neorrealista do pós-guerra, além de nadar contra a maré das produções de estúdio feitas na Alemanha da época, cuja forma assemelhava-se à de Hollywood.

O filme tem sua sinfonia, antes, nas pessoas, em suas relações, em suas pequenas brigas e romances, em seus rostos que se paralisam – tornam-se fotografia – e depois retornam ao movimento. A sinfonia, aqui, precisa de certa “história”, ainda que parca.

No domingo, um rapaz e seu colega encontram uma moça e sua amiga. O segundo deixa a mulher em casa, dormindo. Partem para um dia no campo, à beira de um lago. Nadam, flertam, ouvem música e se divertem.

gente no domingo3

Um dos rapazes capta a atenção das duas mulheres. Na água, tenta beijar a primeira e é repelido; entre as árvores, beija a segunda e é aceito. Ao rapaz, surgem dois tipos de amor, dois tipos de mulher naquele domingo como muitos outros.

Ao escapar, de repente, para outros jovens, ou mesmo para as pessoas que encaram a câmera, Gente no Domingo mostra seu interesse pela mágica cotidiana, enquanto as personagens próximas ao espectador não conduzem ao drama esperado.

É leve e, por isso, diferente da obra de Ruttmann, com sua industrialização, suas máquinas, seus manequins na vitrine, seus homens mecanizados. Difícil não sentir certo mal-estar com a beleza e força dessa Berlim, com os excessos da cidade grande.

Fotos 1 e 2: Berlim – Sinfonia da Metrópole
Fotos 3, 4, e 5: Gente no Domingo

Veja também:
Cinco mortes inesquecíveis nos filmes de Jean-Luc Godard

30 grandes filmes, há 60 anos

Não é exagero: 1955 tem tanto peso ao cinema quanto 1939. Talvez não tenha o mesmo número de filmes americanos importantes, mas tem todos os ingredientes que dariam vez ao cinema moderno, além de filmes com contornos clássicos.

Lançados há 60 anos, alguns desses filmes abordam a juventude, têm grandes diretores que ainda não tinham chegado ao topo, outros que terminavam a carreira, além da façanha de antecipar movimentos como a nouvelle vague e o cinema novo. Ano para não esquecer.

30) Sementes de Violência, de Richard Brooks

Professor pacato tem de conviver com os conflitos de uma nova geração. O filme de Brooks marcou época e tem na abertura o som de “Rock Around The Clock”.

sementes de violência

29) Geração, de Andrzej Wajda

Primeiro filme de Wajda, sobre a luta de resistência polonesa contra tropas nazistas. É o primeiro da Trilogia da Guerra, da qual fazem parte Kanal e Cinzas e Diamantes.

geração

28) A Trapaça, de Federico Fellini

Trapaceiros profissionais encabeçados pelo bonachão Broderick Crawford fingem ser homens da igreja para levar dinheiro de fieis em pequenas vilas pobres da Itália.

a trapaça

27) Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos

Filme brasileiro que abriu caminho ao cinema novo da década seguinte, com um panorama da “cidade maravilhosa”, seus abismos e, claro, o futebol.

rio 40 graus

26) As Diabólicas, de Henri-Georges Clouzot

Para compensar a falta de talento de Véra Clouzot há a presença de Simone Signoret nesse suspense sobre duas mulheres (amante e esposa) unidas para matar um homem.

as diabólicas

25) Noite e Neblina, de Alain Resnais

Marcante documentário sobre a memória do Holocausto, com imagens em cores dos campos de concentração e outras da época dos fatos, com doses de horror.

noite e neblina

24) Conspiração do Silêncio, de John Sturges

Homem misterioso e correto desembarca em pequena cidade perdida no mapa para investigar um assassinato. É o suficiente para deflagrar diferentes conflitos.

conspiração do silêncio

23) Ricardo 3º, de Laurence Olivier

Mais lembrado pela adaptação de Hamlet, Olivier levou às telas – com fotografia extraordinária – essa exuberante história de cobiça a partir de Shakespeare.

ricardo 3

22) O Homem do Braço de Ouro, de Otto Preminger

O diretor só conseguiu fazer esse trabalho graças à presença de Frank Sinatra. À época, tratar o uso de drogas ilícitas no cinema era algo novo e poderia causar afronta.

o homem do braço de ouro

21) Ensaio de um Crime, de Luis Buñuel

Filme de serial killer que segue a mania de Buñuel sobre a impossibilidade de concretizar um ato. Algo sempre dá errado quando a personagem tenta matar alguém.

ensaio de um crime

20) Sorrisos de Uma Noite de Amor, de Ingmar Bergman

Traições entre diferentes casais embalam a comédia de Bergman, com a presença luminosa de Harriet Andersson, empenhada a provocar um rapaz puritano.

sorrisos de uma noite de amor

19) A Morte de um Ciclista, de Juan Antonio Bardem

Grande filme mexicano sobre um casal que mata acidentalmente um ciclista, à estrada, e tem a vida transformada quando há a suspeita de que alguém teria presenciado o crime.

a morte de um ciclista

18) Quinteto da Morte, de Alexander Mackendrick

Contra os experientes bandidos está o impensável: a pacata senhora que acredita se tratar de um grupo de músicos profissionais. Última comédia dos Estúdios Ealing.

quinteto da morte

17) Abandonada, de Francesco Maselli

Rapaz burguês tem a vida transformada ao hospedar uma família pobre em sua fazenda, nos tempos de guerra. A certa altura, ele vê-se obrigado a lutar com a resistência.

abandonada

16) A Rosa Tatuada, de Daniel Mann

Presença de força, Anna Magnani é a mulher deixada pelo marido e que tem de cuidar da filha. A certa altura, conhece outro homem, vivido pelo ótimo Burt Lancaster.

a rosa tatuada

15) Stella, de Mihalis Kakogiannis

A presença da atriz Melina Mercouri entrou para a história do cinema, interpretando uma cantora que seduz homens diversos e não aceita ser domada.

stella

14) Grilhões do Passado, de Orson Welles

O mestre Welles interpreta mais uma figura curiosa, Gregory Arkadin, com um trabalho estranho a um homem perdido no mundo: investigar sua própria vida.

grilhões do passado

13) Império do Crime, de Joseph H. Lewis

Com toques expressionistas, a obra de Lewis tem sequências magistrais. Segue a corrida do policial vivido por Cornel Wilde, no rastro do chefão do crime e preso às sombras.

império do crime

12) Juventude Transviada, de Nicholas Ray

Com O Selvagem e Sementes de Violência, o filme de Ray coloca o jovem definitivamente nas telas do cinema. Nesse caso, o rebelde sem causa.

juventude transviada

11) Férias de Amor, de Joshua Logan

O forasteiro recém-chegado à cidade arranca suspiros das mulheres: com o peito nu, sem raízes, ele logo se envolve com a garota mais bela do local.

férias de amor

10) La Pointe-Courte, de Agnès Varda

Antes dos filmes que deram vez à nouvelle vague, no fim dos anos 1950, a diretora Varda utilizou parcos recursos e conseguiu antecipar o movimento.

La Pointe-Courte

9) Rififi, de Jules Dassin

Após ir embora dos Estados Unidos, perseguido pelo macarthismo, Dassin realiza esse grande filme de assalto. A sequência do roubo, meticulosa, entrou para a história.

rififi

8) Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk

Melodrama classe A, talvez o melhor de Sirk ao lado de Palavras ao Vento, sobre o amor (quase) impossível entre uma mulher madura e seu jardineiro.

tudo que o céu permite

7) Casa de Bambu, de Samuel Fuller

No Japão cheio de americanos do pós-guerra, a bandidagem ianque lucra alto enquanto policiais infiltrados tentam descobrir os tentáculos dessa organização.

casa de bambu

6) A Morte Num Beijo, de Robert Aldrich

Como o típico filme noir, as mulheres são inconfiáveis, o chão é um tabuleiro de xadrez e a surpresa final, nesse caso, ainda permite a abertura da Caixa de Pandora.

a morte num beijo

5) Lola Montes, de Max Ophüls

Último filme do mestre Ophüls, mais uma de suas obras-primas. Chegou a ser mutilado na época e só mais tarde ganhou a versão que o diretor desejava.

lola montes

4) Vidas Amargas, de Elia Kazan

O rapaz deslocado de James Dean é um inconformado: deseja ajudar o pai a todo custo e reencontrar a mãe. De quebra, talvez acabe apaixonado pela namorada do irmão.

vidas amargas

3) A Palavra, de Carl Theodor Dreyer

A religião divide mais do que une nesse grande filme de Dreyer, com a incrível sequência final, capaz de emocionar até os espectadores mais céticos.

a palavra

2) A Canção da Estrada, de Satyajit Ray

A primeira parte da Trilogia de Apu é também o primeiro filme de seu diretor, sobre a difícil vida de um garoto em região rural da Índia, em meio à pobreza absoluta.

a canção da estrada

1) Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton

Com os dedos tatuados e amedrontador, às vezes até engraçado, Mitchum é o vilão perfeito, o falso pregador que persegue duas crianças inocentes.

o mensageiro do diabo

Veja também:
Os 100 melhores filmes dos anos 70

Última Felicidade, de Arne Mattsson

Os jovens não suportam viver sob o julgamento dos outros. Eles dançam e se divertem em Última Felicidade, de Arne Mattsson, ambientado no campo. Contra eles está o olhar corrosivo do pároco, representação do passado, do conformismo.

O ambiente repressivo leva mais uma vez ao confronto entre tradição e modernidade – entre os jovens pecadores e os religiosos. À mesa, o pároco fala sobre o desrespeito aos domingos, sobre o problema das danças, do teatro, dessa diversão.

última felicidade

Quando o protagonista questiona ele sobre a tolerância cristã, seu gesto é rápido: levanta-se e fecha a janela, como se o barulho de fora – os jovens que se divertem aos domingos – fosse um insulto à ordem religiosa.

O protagonista é um rapaz da cidade, Göran Stendahl (Folke Sundquist), que vai ao campo passar um tempo com o tio. O que seria uma temporada estende-se: o filme de Mattsson baseia-se na passagem das estações, entre o verão de libertação e o inverno triste, entre o calor dos jovens e constatação, ao fim, da frieza da morte.

Aqui, Göran será julgado ainda no início, quando chega ao cemitério. Os outros o encaram como a doença que veio de fora, responsável por levar uma jovem à perdição – mas nem todos estão convencidos disso, ou tomados pelas ideias e palavras do pároco.

As imagens de Mattsson levam ao amor idealizado, ao jovem forte, irretocável, cuja face deixa saber cedo sobre sua bondade. A menina, sua amada, oferece o mesmo: é o anjo que se despe – como a Mônica de Ingmar Bergman, ainda mais importante quando o assunto é sexo no cinema – e que não deixa dúvidas.

última felicidade2

Kerstin (Ulla Jacobsson) vai dos 14 aos 17 anos sem mudar. Mulher forte, ao mesmo tempo a adolescente em dúvida, sob a pressão dos outros – do pároco, de sua ajudante mais velha, do homem com aparente deficiência mental e que ronda os ambientes, como uma criança, ou apenas um servo cego da Igreja. Homem em estado infantil.

Ela ainda resiste em sua forma angelical, e o filme não se inclina ao cinismo. Se a Mônica de Harriet Andersson toma o protagonismo de seu universo e confronta o espectador, Kerstin é mantida presa e incompreendida.

O filme tem sequências incríveis. Mattsson apresenta o paraíso dos jovens vivos, rebeldes, sob a luz brilhante que emana do fundo e delineia os corpos – também a luz que quase não deixa vê-los quando estão nus na água.

última felicidade3

Em outra situação, o casal central entrega-se ao desejo: estão juntos e sozinhos (ou quase) em uma noite chuvosa, no pequeno cômodo de madeira de Kerstin. Raios e trovões sintetizam o conflito contra os outros, a abalar o suposto paraíso.

Depois de encarar os moradores do campo, Göran foge do cemitério. À beira do lago, a câmera toma distância e passa entre a vegetação que sai das águas. O rapaz aos poucos desaparece. Sobram a natureza bruta e certo vazio.

O amor idealizado não sobrevive ao velho mundo totalitário da igreja, à velha ordem de seus líderes, sequer ao homem infantil que nada sabe sobre a vida senão o que parece bom e o que não parece. O casal ao centro não cabe na percepção simplista da maioria.

Nota: ★★★★☆

Os cinco melhores filmes de Olivier Assayas

Antes de se tornar diretor de prestígio, Olivier Assayas foi crítico e também escreveu roteiros. Entre eles, o do belo Rendez-vous, de André Téchiné, com uma jovem Juliette Binoche no elenco. Seu último trabalho, ausente da lista abaixo, é Acima das Nuvens, justamente com Binoche, sobre uma atriz que confronta a passagem do tempo.

O cinema de Assayas tem diferentes caminhos: há filmes que pedem paciência, que registram o tempo das relações humanas – como Horas de Verão e Acima das Nuvens. E há outros, feitos com velocidade, com tramas de suspense, como Espionagem na Rede e Traição em Hong Kong. O melhor do diretor, segundo este blog, segue abaixo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

5) Depois de Maio (2013)

Retrato da juventude após o Maio de 68, feito com a paixão típica de Assayas quando se trata do universo jovem – tão distante do mundo adulto e sua falta de ação. Começa na sala de aula e logo vai às ruas, às correrias dos jovens com a polícia no encalço. Faz retornar, não por acaso, a Água Fria, outro belo retrato da juventude feito pelo diretor. Há paixão em cada quadro.

depois de maio

4) Irma Vep (1996)

Um filme sobre o próprio cinema, com a homenagem a Os Vampiros, de Louis Feuillade. No papel da vampira coberta de preto está Maggie Cheung, que pouco depois se casaria com Assayas. Após o fim do relacionamento, o diretor voltou a fazer um filme com ela, o também belo Clean. Como em A Noite Americana, de Truffaut, o espectador conhece a rotina e os problemas dos bastidores de um filme.

irma vep

3) Horas de Verão (2008)

A obra gravita ao redor de uma casa. A família, aparentemente bela e unida, começa a se desfazer. O filme flerta com a juventude, mas sem que os adultos deixem de olhar para trás, com a casa que leva a outro tempo – quase à força. Ao centro, três irmãos lidam com essa herança. Dois deles não vivem mais por ali e um terceiro carrega o dilema envolvendo o imóvel, entre passado e presente. Lutam, ainda, para ser uma família. E certamente não serão como antes.

horas de verão

2) Água Fria (1994)

Ainda no início, o casal jovem ao centro envolve-se em problemas: o rapaz furta alguns discos da loja e, ao escapar, deixa a menina para trás. Ela termina detida, está cansada de sua vida e, levada pelos impulsos dos jovens de Assayas, resolve fugir. Não sem levá-lo junto. O resultado é mais um poderoso retrato da juventude, com a apaixonante sequência da festa, na qual os convidados fazem uma fogueira e aproveitam cada instante até o amanhecer.

água fria

1) Carlos (2010)

Apesar do formato de série, em três capítulos com quase duas horas cada, a obra passou em festivais de cinema, inclusive em Cannes, onde não pode competir por causa do formato. Ainda assim, tem todas as características do grande cinema político, atualmente cada vez mais raro. Tem Édgar Ramírez como Ilich Ramírez Sánchez, ou apenas Carlos, o “Chacal”. Tem o retrato de sua época – de um mundo dividido, de atos extremos, da paixão pelas ideologias e depois a inclinação ao sinal dos tempos – em cada quadro. Não falta, aqui, o poder de Assayas sobre a narrativa: ao se debruçar sobre essa longa história, faz o tempo passar com prazer e emoção.

carlos1

Veja também:
Atores vivendo atores (em seis filmes recentes)