José Geraldo Couto

Bastidores: O Segundo Rosto

A primeira meia hora é um primor de narrativa audiovisual e de construção de atmosfera. Com poucos diálogos e muito virtuosismo de câmera (“travellings” nervosos, foco profundo alternado com grandes angulares que distorcem o espaço etc.), acompanhamos o ingresso de Arthur Hamilton nas entranhas da Companhia e seu vertiginoso mergulho (ou queda?) num novo plano da existência.

A fotografia em preto e branco, indicada ao Oscar, é do lendário James Wong Howe. Ela ajuda a criar um espaço maleável e ameaçador, um terreno incerto. Uma estação de trem, uma tinturaria, um frigorífico, tudo adquire aspecto de sonho ou, antes, de pesadelo, mais ou menos como fizera Orson Welles filmando Kafka uns anos antes (O Processo, 1962).

José Geraldo Couto, crítico de cinema, no jornal Folha de S. Paulo (11 de abril de 2010; leia a crítica completa aqui). Abaixo, o diretor de fotografia James Wong Howe e o cineasta John Frankenheimer nas filmagens (foto 1); o astro Rock Hudson relaxa nos bastidores (foto 2); Hudson durante as filmagens (foto 3); e Frankenheimer em ação (foto 4).

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Bastidores: Em Pedaços

Com notável segurança narrativa, Fatih Akin desenvolve ao mesmo tempo, de forma imbricada, o resvalamento de Katja em seu abismo interior e a sua ação externa em busca de vingança, com uma atitude que em vários momentos parece adquirir um aspecto de hipnose ou sonambulismo. Uma mulher que passou pelo que ela passou é capaz de tudo – e o filme explora muito bem essa imprevisibilidade, bem como o terreno movediço em que Katja se move. E não foi por acaso que Diane Kruger ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes.

José Geraldo Couto, crítico de cinema, jornalista e tradutor, em seu blog no site do Instituto Moreira Salles (leia aqui o texto completo). Abaixo, o diretor Akin e os atores Diane Kruger e Numan Acar durante as filmagens do longa-metragem.

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Bastidores: Ben-Hur

Para destacar filmes, então, o primeiro que eu me lembro de ter causado um impacto especial, que se diferenciou então dessa massa de filmes divertidos e interessantes, foi o Ben-Hur, filme do William Wyler que todo mundo conhece. Um filme bíblico, ou de ambientação bíblica, com o Charlton Heston. Não vi na época em que ele foi feito e lançado, não sou tão velho assim, já vi em uma reprise. O filme é de 1959, devo ter visto em meados dos anos 60. Na época me marcou muito, lembro de ter sonhado várias vezes com cenas do filme. Algumas, como a célebre cena da corrida de bigas, em que acontece o atropelamento do adversário do Ben-Hur, por exemplo. Ele se chamava Messala, é atropelado e cai. Ele é o mau da história, que tenta causar um acidente com a biga do Ben-Hur, mas é ele que acaba sofrendo um acidente, é atropelado e vira uma posta de carne e sangue, uma coisa muito impressionante. Lembro que eu tinha pesadelos com isso. E com a mãe e a irmã do Ben-Hur, que ficavam leprosas e iam parar no vale dos leprosos. Esse vale dos leprosos foi um lugar imaginário que povoou a minha infância, um lugar de horror, uma espécie de inferno, uma coisa assustadora. Qualquer manchinha na pele eu achava que estava com lepra e que ia parar no vale. Esse foi o primeiro filme que me causou uma grande comoção.

José Geraldo Couto, crítico de cinema e tradutor, em seu depoimento ao projeto Os Filmes da Minha Vida, que ocorre junto à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e publicado no quarto livro do projeto, O Real e o Imaginário (organização de Renata Almeida; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; pg. 59). No mesmo livro, a crítica de cinema Isabela Boscov diz que Ben-Hur também lhe marcou, ao vê-lo no cinema, nos anos 70. Abaixo, fotos dos bastidores das versões de 1925, de Fred Niblo, e 1959, de Wyler. Nos dois casos, são os bastidores da corrida de quadrigas.

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Ben-Hur

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Entrevista: José Geraldo Couto

A inspiração de Cronenberg

Minha primeira motivação na vida foi literária. Eu achava que seria romancista, um maravilhoso e obscuro romancista (risos). Quando criança, via filmes o tempo todo, mas de cinema em geral, sem nenhum gênero específico. Minha inspiração principal, ao menos consciente, vem da literatura, sobretudo dos romancistas que você mencionou [William Burroughs, Vladimir Nabokov e Henry Miller]. Na juventude, vi muito Fellini e Bergman, fiquei muito entusiasmado por Jean-Luc Godard, mas isso foi antes de eu saber que seria cineasta. De todo modo, é difícil separar nossas influências.

David Cronenberg, cineasta, em entrevista ao crítico de cinema José Geraldo Couto, no caderno Mais! do jornal Folha de S. Paulo (outubro de 1999; leia a entrevista aqui, para assinantes).

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Entrevista: José Geraldo Couto

Abaixo de cada comentário feito no blog de José Geraldo Couto, no site do Instituto Moreira Salles, estão mensagens que indicam a atenção e a sutileza do autor dos textos. Em quase todas, começa com “caro” ou “cara”, ao se dirigir aos seus leitores. Está no terreno do diálogo, do debate, o da crítica de cinema, o que José Geraldo – ou apenas Zé – encarna tão bem.

Seus textos revelam amor pelo cinema, críticas sobre obras em cartaz nas grandes salas que lutam para sobreviver. Ou mesmo sobre cineastas contemporâneos, dos mais variados nomes, nacionalidades e momentos históricos. Quem acompanha sua coluna na revista Carta Capital, entende que o leque de referências que o autor traz à tona é variado.

No começo de 2011, Zé celebrou o lançamento de A Mãe e a Puta em DVD, filme de um tal Jean Eustache. “Jean quem?”, deverá perguntar o leitor desavisado, ou o digno membro de um grupo (cada vez maior) que não se interessa pelo passado, por aquilo que há de bom no cinema – e que Zé, como outros (talvez poucos), tenta recuperar. É um pouco do que diz na entrevista abaixo, exclusiva ao Cinema Velho. “Há leitores/espectadores que se fecham a qualquer informação ou opinião que vá contra seu gosto ou suas ideias estabelecidas. Prefere o conforto do que já pensa e sente.”

O crítico de cinema nasceu em Jaú, em 1957, mas nunca morou lá. Viveu em São Paulo até o final de 1999, quando se mudou para Florianópolis. Tem um filho de 21 anos.

“Sempre gostei de escrever, desde o jornalzinho do colégio, mas só me tornei jornalista profissional com 27 anos, depois de ter até um livro publicado”, conta ele, que diz não ter um filme de cabeceira, “nem tampouco um livro”. Trabalhou para a Folha de S. Paulo por mais de 20 anos, também na revista Set entre 1987 e 1990. Colabora regularmente com as revistas Carta Capital e Bravo!, além de manter a coluna de cinema no blog do IMS. Não bastasse, faz também tradução de livros, especialmente para as editoras Companhia das Letras e Carta Capital e de artigos e ensaios para as revistas Serrote, Piauí e Zum. Confira abaixo a entrevista completa com o craque.

Sabemos que no cinema sempre há um conflito sobre o que é filme “de arte” e o que é entretenimento. E se uma determinada obra pode ser as duas coisas. Existe alguma contradição entre os dois lados? Um filme de Bergman como, por exemplo, Persona, pode ser também entretenimento ou é puramente arte?

Não existe, em princípio, uma contradição entre arte e entretenimento. Mas é evidente que certos filmes esteticamente mais exigentes e sem concessões ao gosto corrente terão mais dificuldade de entreter um público amplo. Alguns cineastas altamente originais e de valor artístico inegável, como por exemplo Hitchcock, Kurosawa e Fellini (para citar três muito diferentes entre si) conquistaram grandes plateias com seu cinema. Outros, como Jean-Marie Straub ou Agnès Varda, ou ainda o brasileiro Julio Bressane, optaram por linguagens mais áridas do ponto de vista do chamado “espectador comum”. Mas quem é esse espectador? Hoje prevalece a ideia de que não existe um único “público”, essa entidade abstrata, mas diferentes plateias, ou antes diferentes espectadores, cada um com seus próprios gostos e preferências. Quanto mais amplo for o repertório cultural desse espectador, provavelmente também será maior a sua exigência em termos de sofisticação de linguagem, de seriedade de tratamento etc. Seu entretenimento será diferente daquele de um espectador mais ingênuo, desinformado ou imaturo.

Por falar em nessa diferença, fico com a impressão de que a maior parte dos filmes em listas de críticos são os ditos “de arte”, enquanto o público que vai ao cinema em shoppings quer mesmo, em sua maior parte, entretenimento. Não acha que crítica e público caminham em diferentes sintonias?

Esse aparente descompasso está, de certa forma, ligado ao que foi dito na resposta anterior. O crítico em geral tem, ou deveria ter, um olhar educado, aguçado, que lhe permite ver o que passa batido por um espectador que não tem a mesma formação e o mesmo treinamento. Seu papel, a meu ver, é o de fornecer subsídios ao espectador para que este também tenha uma percepção mais ampla e profunda dos filmes. O crítico não deve, por um lado, ignorar seu interlocutor, o leitor/espectador, mas também não deve de modo algum, por outro lado, fazer média com ele, tentar agradá-lo, tentar antecipar-se a seu gosto e dizer aquilo que julga que ele quer ouvir. Há leitores/espectadores que se fecham a qualquer informação ou opinião que vá contra seu gosto ou suas ideias estabelecidas. Prefere o conforto do que já pensa e sente. Mas há também os que gostam de ser instigados, provocados, desafiados. É para estes últimos, em última instância, que o crítico escreve. É com eles que procura conversar. Pois com os outros, os acomodados, ele não tem muito o que dizer. Eles continuarão a gostar das mesmas coisas e a resistir às mesmas coisas.

Há também uma impressão de que, no terreno do cinema clássico, um filme pode ser “arte” e entretenimento ao mesmo tempo – como no caso dos filmes dos Irmãos Marx e mesmo de Chaplin. Não acha que, com o surgimento do cinema moderno, as coisas ficaram um pouco mais polarizadas?

É possível que sim. Houve também, impossível negar, uma massificação extrema do gosto e um rebaixamento do repertório cultural e da atitude crítica, o que ajudou a aumentar a cisão entre a fruição descompromissada dos filmes e o pensamento em torno deles. Isso não aconteceu só com o cinema, mas também com a música popular, por exemplo. Houve um tempo em que uma produção de enorme qualidade artística (por exemplo, Luiz Gonzaga, Noel Rosa ou Dorival Caymmi) alcançava grande popularidade. Hoje os artistas de maior apelo comercial são de uma pobreza atroz (nem é necessário citar nomes). O papel da crítica não é “se adaptar aos tempos”, dizendo que Michel Teló é genial, e sim talvez tentar entender por que ele faz tanto sucesso – e tentar ajudar o ouvinte a perceber que existe coisa melhor, muito melhor.

Antes de começar a escrever sobre cinema você já era um cinéfilo? Como foi sua formação como crítico e qual os filmes que, digamos assim, o “iluminaram”?

Sempre gostei de cinema, desde a infância, mas digamos que me tornei cinéfilo no final do colégio e início da faculdade, ou na passagem da adolescência para a idade adulta. Não estudei cinema, e sim História e, depois, Jornalismo. Só passei a escrever profissionalmente sobre cinema tardiamente, por volta dos 25, 26 anos, primeiro como free lancer, depois na revista Set, quando esta estava começando, e finalmente na Folha de S. Paulo, já nos anos 90. Mas desde a época da faculdade de História eu procurava ver tudo o que havia de disponível (em cineclubes e mesmo no circuito comercial, que era bem mais generoso), fossem filmes importantes para a história do cinema ou apenas divertidos. Comecei a ler também sobre história do cinema, sobre cineastas, correntes estéticas, interpretações, interpenetrações do cinema com outros meios e disciplinas. Foi tudo muito assistemático, mas feito com muita paixão. Aliás, esse aprendizado continua até hoje.

Em uma lista que você publicou sobre seus filmes prediletos da última década consta A Fita Branca, do Haneke. Por que está cada vez mais difícil surgir cineastas com certo traço e atitude como é o caso de Haneke?

Difícil dizer. Talvez porque a pressão da indústria seja maior, ou porque o mercado esteja mais fechado a experiências radicais de expressão. Veja que mesmo cineastas que já mostraram grande vigor inventivo no passado (como Resnais, ou Coppola) hoje estão mais acomodados ou, no mínimo, menos inquietos e audaciosos.

Com a facilidade das câmeras leves e do compartilhamento pela internet, é possível que a forma de recepção de filmes mude e que as salas de cinema deixem de existir em um futuro não muito distante?

Essa mudança já é visível a olho nu. Mas acredito que as salas de cinema continuarão a existir por um bom tempo, seja apelando para o 3-D ou simplesmente para o mero atrativo do ritual de ver filmes na sala escura, acompanhado de uma massa anônima. Talvez, com o tempo, esse ritual se torne uma coisa de uma minoria nostálgica, uma atividade de igrejinhas, uma excentricidade semelhante aos dos colecionadores de antiguidades. Mas não sei. Sou péssimo para fazer previsões.

Abro um parêntese para citar duas suposições: você vai assistir um filme em um dia ruim, em um dia em que está com problemas, dores de cabeça, etc. E, um dia depois, vai assistir outro filme, mas no qual a história fala de algo que lhe é comum, ou que viveu na sua vida. Não acha que, em qualquer um dos dois casos, você pode não ser tão isento como deveria em sua análise da obra e deixar as coisas partirem até mesmo para um lado pessoal? Ou acha que o crítico tem total direito de deixar que seu estado no dia da análise interfira no resultado dela?

Você tem toda razão Citou casos extremos, mas mesmo em condições mais “normais”, o crítico nunca está totalmente isento. Penso que o melhor que ele tem a fazer é identificar justamente os pontos em que a questão pessoal possa aflorar e, na medida do possível, deixar isso claro para o leitor. Acima de tudo, acho saudável que o crítico deixe claro que sua apreciação de um filme é instável e provisória e que ele não pretende dar conta da totalidade do filme em questão.

Lembra de um filme que, por tratar de algo próximo a você, fez com que gostasse dele ou mesmo sentisse repulsa? Ou mesmo de uma cena que tem a ver com sua vida ou sua forma de ver o mundo?

As situações são tantas que seria impossível citá-las. Vou me limitar a um único caso: como perdi meu pai quando tinha 7 anos de idade, sei que sou particularmente vulnerável a filmes sobre orfandade precoce, sobre relação pai-filho etc.

Tem uma frase famosa de Luis Buñuel em que ele diz que “o acaso é o senhor de todas as coisas”. Acha que um grande filme pode ser obra do acaso?

Há alguns exemplos de acasos felizes que ajudaram na realização e no resultado final de certos filmes. Mas um grande filme nunca será simplesmente obra do acaso, pois sua grandeza depende da confluência de talentos e competências de uma porção de gente.

Nos últimos tempos você tem mudado bastante de endereço virtual. Primeiro, era blogueiro da Folha, depois esteve em um endereço pessoal e, agora, no site do Instituto Moreira Salles. Há algum motivo para tantas mudanças?

Os motivos foram alheios à minha vontade. Eu tinha um blog na Folha On-line porque trabalhava para a Folha de S. Paulo (o jornal impresso) e me convidaram para ter um blog. Quando fui demitido da Folha, saí também da Folha On-line e mantive meu blog de modo independente, até ser convidado pelo Instituto Moreira Salles para fazer uma coluna de cinema no blog deles, que aliás eu considero muito bom.

Você chegou a dizer, na Folha, que o filme Crash, de David Cronenberg, representava a “tara de uma época”. Se tivesse de citar um filme que representa a “tara” de nossa época, qual citaria?

Puxa, que pergunta difícil. Do ponto de vista do “conteúdo” explícito, penso que A Rede Social é um filme totalmente sintonizado com nosso tempo, por tratar de um universo cada vez mais predominante em nossas vidas, o universo da internet. Mas não sei. Teria que pensar melhor no assunto.

E, por falar em Cronenberg, em seu último filme, Um Método Perigoso, ele mudou um pouco o estilo e deixou a violência extremada e as transformações do corpo de lado. Essas mudanças de estilo e temas que alguns cineastas resolvem experimentar não lhe incomodam?

Não, muito pelo contrário. Desde que não sejam frutos de viradas oportunistas, para aderir a alguma moda ou tendência, e sim buscas pessoais, essas mudanças são saudáveis e estimulantes. O próprio Cronenberg já havia explorado as entranhas da mente em Spider. Estou curiosíssimo para ver como ele aborda essa relação de Freud e Jung com os paradoxos humanos e científicos da psicanálise (na ocasião da entrevista, o filme de Cronenberg ainda não havia estreado no Brasil).

Leia aqui a crítica de A Mãe e a Puta, por José Geraldo Couto

Rafael Amaral (11/04/2012)