jornalista

O Motorista de Táxi, de Hun Jang

O protagonista, motorista de táxi, vive em um universo de cores fortes, a quem a fumaça dos protestos estudantis na rua da capital sul-coreana faz com que procure nova rota. Seu gesto explica muito sobre sua posição: ele engata marcha à ré e vai por outro caminho.

Evita o embate, evita a política sem saber dela, como se tudo não passasse de obstáculo para mais um dia de trabalho na cidade barulhenta. Canta, no veículo, enquanto dirige rumo à cidade. Tem uma filha pequena para cuidar, está em busca de corridas lucrativas para pagar o aluguel atrasado. Interpretado por Song Kang-ho, o herói é ainda um alienado.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A corrida chega. Em Motorista de Táxi, o guia deverá levar um jornalista alemão a uma cidade vizinha, Gwangju, onde o confronto com o Exército do país leva diversos estudantes à morte. Da música e das cores alegres o filme passa à fumaça, à dor, às vielas cercadas por sobrados mal iluminados nos quais a luz que resta traz tons avermelhados.

Pelos novos espaços, após ver confrontos ao longo do dia, o motorista tenta fugir do barulho da noite, dos militares e dos inimigos infiltrados entre civis. Em vão. Sua mutação é inevitável: a consciência que lhe toma tem combustão política, mas tem, sobretudo, a fórmula que compõe o humano em situações como essa: ele compreende que a batalha supera fatores meramente ideológicos. O que está em jogo é salvar vidas.

Se ganha no tom cômico e na humanidade que Kang-ho retira da personagem-título, o filme perde na caracterização dos outros, entre oprimidos inegavelmente honestos e vilões caricatos, representados pelo matador de cabelo impecável. O jornalista, Peter (Thomas Kretschmann), oferece a zona neutra, o olhar ávido pelo fato.

O texto inverte a situação central: o taxista é antes o guiado, não o guia. A esse protagonista sorridente, até certa altura livre do confronto, não haverá saída senão aceitar sua função. Antes conduzido ao invés de condutor, ele entende que não há fuga à própria consciência: estará depois entre a multidão, com seu táxi na linha de fogo.

Com foco nos confrontos e massacres, o filme evidencia um passado perdido, um quadro em que brota a pequena cidade confortável apesar de sitiada, um espaço de pessoas honestas, de estudantes simpáticos – abobalhados, personagens igualmente cômicas – armados com paus e pedras, com bandeiras e sobre um caminhão.

Da pequena cidade resulta um mundo particular mas violado, ruas feitas de portas fechadas como em um antigo faroeste, ambiente em que os novos visitantes embrenham-se para encontrar a si mesmos: no fundo, o motorista de táxi alienado está em situação semelhante à do jornalista, em terreno em que terá de aprender a “nova língua”. É como se O Motorista de Táxi apontasse sempre a uma paixão perdida.

O filme de Hun Jang, com variações aqui e acolá, foi feito inúmeras vezes. Em cena, o homem honesto e avesso aos problemas do mundo descobre que para preencher certo vazio precisa do gesto fraterno. Dele para os outros. A distância entre Seul e Gwangju pode ser maior ou menor do que se imagina – a depender do ponto de vista.

(Taeksi woonjunsa, Hun Jang, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Os filmes de Bong Joon-ho

Correspondente Estrangeiro, de Alfred Hitchcock

Em viagem à Europa a trabalho, perto de assistir à eclosão da Segunda Guerra Mundial, o jornalista de Alfred Hitchcock percebe a mudança dos ventos. Talvez os que se dizem pacifistas escondam algo aterrorizante. Talvez os nazistas estejam por ali, infiltrados, à espera do momento certo para empurrar o mundo ao caos. Os ventos são outros.

Essa mudança é representada em uma sequência inesquecível, que trata do movimento do ar de forma literal: é quando o jornalista, na Holanda, repara que a típica paisagem pacata ganha alteração. As pás dos moinhos giram no sentido oposto ao vento. Mudam de novo, e de novo. O jornalista logo compreende que se trata de um sinal ao inimigo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O cenário aparentemente pacato de Correspondente Estrangeiro, do mestre Hitchcock, esconde o pior: ainda que a mudança seja inevitável – o giro em oposição ao vento, a suposta organização de paz como catalizadora da guerra -, as personagens têm dificuldades para enxergá-la. O diretor, nesse meio, conta outra vez com o herói um pouco ingênuo.

Na pele de John Jones, Joel McCrea deve algo ao Robert Donat de 39 Degraus. Mais tarde, seria Cary Grant, herói acidental de Intriga Internacional, o ator a repetir os anteriores. E nesse mesmo filme, lançado em 1959, Grant ver-se-á frente a frente com uma paisagem aparentemente pacata e perto de se transformar, no momento em que é atacado por um avião que sobrevoa os milharais e despeja veneno por ali.

Outra explicação ajuda a entender o motivo de McCrea, como Jones, ser um pouco ingênuo. O dono do jornal em que trabalha descobre que os “profissionais” que cobrem outros países não são mais capazes de enxergar a guerra iminente. Ao que parece, o jornal está disposto a criar uma guerra, se necessário, a partir do faro do editor.

Será preciso alguém com pouca experiência, alguém que diz o que vem à mente, ninguém muito culto, um homem como qualquer outro disposto a correr atrás de uma história. Surge na sala do chefe, então, aquele com todas as credenciais: o homem nada consciente do tamanho da encrenca na qual toda Europa e o mundo estão lançados.

Pois é desse olhar pouco avisado que nasce a grande história, do ponto cego que alguém como McCrea, com tom cômico perfeito, deixa ver o despreparo. Seu espaço não permite qualquer conforto; seu jeito, à contramão, conquista facilmente o espectador. Não demora para farejar a notícia, os criminosos, a reparar na mudança dos ventos que colocam todos, inclusive ele, sob risco eminente.

Antes de chegar aos moinhos, o herói espera por seu entrevistado debaixo de chuva, em uma escadaria, no local que servirá ao encontro dos pacifistas. A câmera de Hitchcock, em movimento panorâmico, revela o ambiente ocupado pela chuva e se aproxima do protagonista. A água é incômoda. Há realismo e até naturalidade nessa bela sequência. O homem que aparece por ali é assassinado por um fotógrafo armado. Mais tarde, o herói descobre que a vítima não era seu entrevistado, mas um duplo.

Outro momento exemplar ocorre na sala escura em que o velho senhor é torturado pelos nazistas à base de luzes contra a face e música constante. Esse homem, antes a fonte do jornalista em viagem à Europa, conhece a cláusula secreta cobiçada pelos nazistas. Isso, no entanto, é apenas um pretexto para o suspense – o chamado MacGuffin.

O tom de loucura que ocupa essa sala, com o velho delirante, é tom do mundo naquele momento: a tortura em salas fechadas, às sombras, que logo tomaria as ruas, os espaços externos. Universo que liga Hitchcock aos melhores filmes de Fritz Lang, a começar por O Testamento do Dr. Mabuse, o que também reforça o lado expressionista do mestre do suspense.

O homem de McCrea, até certo ponto ingênuo, logo afundado nesse meio político e paranoico até o pescoço, era mesmo ideal à empreitada. A diferença é que, ao invés de “produzir” a guerra, apenas se deixou apanhar por ela – no melhor estilo das personagens do cinema clássico, donas de frases heroicas nos instantes derradeiros.

(Foreign Correspondent, Alfred Hitchcock, 1940)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Quando Fala o Coração, de Alfred Hitchcock

Kirk Douglas, 100 anos

Não se pode dizer que Kirk Douglas será lembrado por um filme menor. Spartacus é uma grande obra. Stanley Kubrick, à época, não era um diretor das primeiras fileiras de Hollywood. Após ter trabalhado com o jovem cineasta em Glória Feita de Sangue – que é melhor que o seguinte – Douglas decidiu levá-lo para Spartacus.

Não apenas ele. O ator e coprodutor do épico de 1960 bancou o nome de Dalton Trumbo no roteiro. Uma ousadia: Trumbo integrava a Lista Negra de Hollywood, a apontar os comunistas “infiltrados” na indústria do espetáculo. Por anos, Trumbo teve de assinar roteiros com pseudônimos. Seu retorno marcou o início do fim do período.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

a-montanha-dos-sete-abutres

A ação de Douglas revela alguém tão combativo dentro das telas quanto fora. Algumas de suas melhores interpretações remontam à imagem: o homem intenso em cada ato, explosivo em diferentes personagens. Spartacus, de escravo a líder de uma revolução, é apenas um deles. Seus vilões também merecem lugar de destaque.

Mito vivo, o ator completou 100 anos em dezembro de 2016. Em seu terceiro filme, o noir Fuga do Passado, ele interpreta o vilão Whit, em cena com o protagonista Robert Mitchum. Os atores voltariam a se encontrar mais tarde em Desbravando Oeste. Mitchum como o guia pacato, Douglas como o ambicioso desbravador.

Apesar do sucesso Quem é o Infiel?, em outro papel menor, Douglas chegou de vez ao estrelato com O Invencível, de 1949, que lhe valeu a primeira indicação ao Oscar de melhor ator. A segunda veio em seu grande momento nas telas, o papel do produtor de cinema sem escrúpulos de Assim Estava Escrito, no qual atua ao lado de Lana Turner.

De queixo perfurado, sua marca registrada, o ator viveria o pintor van Gogh em Sede de Viver. Outra grande interpretação, outra indicação ao Oscar – perdendo para o Yul Brynner de O Rei e Eu, musical com todos os traços do cinema clássico da época.

Pouco antes, a face cínica de Douglas serviu bem ao diretor mais ácido da Hollywood clássica: Billy Wilder. Produto das pitadas de sexo da comédia screwball, sempre a zombar de regimes totalitários, Wilder, com Douglas, voltou suas armas à imprensa americana da época em A Montanha dos Sete Abutres.

Em um local perdido no mapa, ele, Chuck Tatum, vê a oportunidade de dar uma virada em sua carreira de jornalista. Aproveita-se de uma vítima presa em uma mina, manipula autoridades e a opinião pública para fabricar, dias a fio, novas manchetes.

A energia de Douglas produzia grandes personagens como Tatum. Magnífica, de estranha atração apesar de corrupta. A mesma levaria ao oposto, ao destemido coronel Dax de Glória Feita de Sangue. Difícil não se emocionar com sua convicção ao defender três soldados condenados à morte. Bom ou mau, há sempre o grande ator.

Veja também:
Olivia de Havilland, 100 anos

Robert Redford, 80 anos

O que te fez querer ser um ator?

Isso ocorreu por acidente. Eu queria ser um artista. Eu estava em Nova York planejando uma carreira relacionada à arte e alguém me disse que havia incerteza em relação ao meu futuro, entre meus amigos e minha família. Eles estavam assustados em relação ao que eu estava fazendo, em um “território” perigoso, e que eu poderia terminar sendo um fracassado, ou algo assim. Então eu fiz um acordo para acalmá-los. Eu queria ser um artista, mas sabia que isso os assustaria, porque eles achavam que a maioria dos artistas não tem sucesso, não consegue ganhar a vida, morre de fome. Então eu pensei em ser um diretor de arte, e penso que isso soava bem. Era simplesmente a palavra “diretor”, mas não tinha ideia do que isso significava. (…) Então eles me disseram: “bom, se quer ser diretor de arte, tem de ter um treinamento dramático, e aí você pode criar cenários e tudo isso”. E foi assim que terminei na Academia Americana de Artes Dramáticas. Eu não havia planejado fazer isso, mas, quando eu entrei lá, algo inesperado me deu um “clic”, porque eu tive de fazer uma audição. Eu estava muito contido, e eu transmitia muita raiva nesse momento da minha vida. Tudo isso veio para fora, acho, nessa audição. E a diretora que fazia a audição viu algo em mim. Eu imaginei que tinha sido uma má audição, que não deveria estar lá, e me perguntava por que estava fazendo aquilo. E ela me disse: “Não, você deveria fazer isso”. Ela me convenceu a ficar, de ir a essa escola e continuar. Esse foi o ponto de virada que eu não havia esperado.

Robert Redford, ator, em resposta ao jornalista argentino Alexis Puig no lançamento do recente Meu Amigo, o Dragão (a entrevista pode ser assistida aqui, com legendas em espanhol). O astro fez 80 anos em 18 de agosto de 2016. Abaixo, Redford entre Paul Newman e Katharine Ross, seus parceiros de elenco em Butch Cassidy, filme que o colocou definitivamente entre as estrelas de Hollywood.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

robert redford

Veja também:
Dez grandes erros do Oscar

A doce vida de Woody Allen

A adoração a Federico Fellini levou Woody Allen a Memórias, em 1980, sua versão de Oito e Meio. É sobre um cineasta que revê a própria vida. Não se trata de plágio, mas de homenagem. Allen nunca escondeu a paixão pela filmografia do italiano.

Se na obra de Fellini há suas figuras típicas, seu circo e seus palhaços, na de Allen sobram características do cômico americano: suas crises, seus problemas de relacionamento, seu retorno constante ao cinema.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

memórias

Mais tarde, com Celebridades, Allen deságua em outro Fellini, na obra-prima A Doce Vida. Com o diretor de fotografia favorito de Ingmar Bergman, Sven Nykvist, e em preto e branco, ele leva ao público às aventuras de um jornalista, escritor frustrado, que talvez se aventure no cinema com algum roteiro capaz de fazê-lo faturar alto.

O cinema move-se em velocidade maior nos Estados Unidos. As celebridades também: há sempre algo a fazer, sempre algum evento, lançamento, sempre um artista a dizer algo esdrúxulo, a colocar objetos fálicos gigantes nos locais inesperados.

A velocidade do cinema é celebrada logo na abertura, em contraponto à calmaria dos verdadeiros artistas. E o cinema, em Celebridades, pede socorro: um avião cruza o céu e escreve, com fumaça, esse pedido, o “socorro” que servirá à trama filmada, com uma bela atriz, seu diretor apressado e o jornalista ao fundo.

Esse intruso tem explicação, como tinha o Marcello (Marcello Mastroianni) de A Doce Vida, em suas noites na companhia de belas mulheres: o jornalismo é a profissão que permite acessos, que une os seres de carne e osso às intocadas celebridades.

a doce vida

Estas, ao que parece, tentam viver como seres de carne e osso, ainda que uma aura sempre as separe dos demais: caminham e se comportam como seres diferentes, dançam como outros, trocam olhares e saliva como gestos passageiros.

Como Fellini, Allen celebra a beleza do vazio, a tal “doce vida” sem muito a oferecer. Seu jornalista está intoxicado pelo universo festeiro, pelas passarelas e bastidores, pela luxúria: não consegue resistir às belas mulheres, tão belas são elas.

Há um efeito curioso, irônico: o próprio espectador fica intoxicado pelo vazio, sem poder se despregar das lembranças de A Doce Vida. A ideia de cópia é imediata: se Mastroianni tem sua escapada com a bela Sylvia (Anita Ekberg), o jornalista vivido por Kenneth Branagh aventura-se com a modelo de Charlize Theron.

Com ela, não poderá ir “até o fim”. O espectador entende essa vítima da contemplação, que nunca chega a ser parte daquele meio. É no fim de Memórias que o protagonista, vivido pelo próprio Allen, encontra a beleza, ainda que distante, na aparição da ainda jovem Sharon Stone. Como o Marcello de A Doce Vida, não poderá tocá-la.

Foto 1: encerramento de Memórias
Foto 2: encerramento de A Doce Vida

Veja também:
Seis grandes cineastas inspirados por Federico Fellini