jornalismo

No Silêncio de uma Cidade, de Fritz Lang

O assassino em série de M, O Vampiro de Dusseldorf vive entre policiais e bandidos, na cidade pequena, de becos, de vendedores cegos e crianças pela rua. O de No Silêncio de uma Cidade, entre a urbanização agressiva, homens e mulheres sofisticadas, de prédios iluminados que cortam os céus para enunciar o nome de uma corporação.

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Nos dois casos, Fritz Lang usa o assassino como assessório: é a forma para se chegar às pessoas, à própria sociedade. E se M, para muitos, reflete um grupo que, na Alemanha, escolheu o nazismo, para outros não restarão dúvidas sobre No Silêncio de uma Cidade: é sobre a predominância do dinheiro, do poder, do bom emprego.

Ou, para dar a dimensão de tudo isso, da manchete a qualquer preço, vem a comprovação de que a imprensa – em um filme sobre personagens de um conglomerado de comunicação – é um negócio como outro qualquer. À época, a troca de poder talvez não fosse um clichê: o velho homem do jornal impresso, o chefão, morre e dá vez ao filho que pouco sabe além de competições desenfreadas em escritórios, produto da selva que se põe.

O filme é cruel. Lang nunca escondeu suas intenções em relação à natureza humana, com traço que não dispensava em qualquer obra: o instinto sobrepõe-se à aparência de um meio organizado, no qual homens escondem o que há de pior sob o véu da justiça. Do expressionismo da fase alemã ao noir da americana, será uma constante.

O protagonista de No Silêncio de uma Cidade é Edward Mobley (Dana Andrews), belo apresentador de televisão do conglomerado que acaba de perder seu dono. Este, por sinal, morre a tempo de sua morte ser dada em primeira mão, segundos depois, pelo mesmo apresentador: para a televisão – e para o jornalismo – timing é tudo.

Mobley fica entre dois mundos, passado e presente, e não entra na competição colocada pelo filho do chefe, que acaba de assumir a empresa, Walter Kyne (Vincent Price): quem descobrir a identidade do assassino em série que ataca a cidade ganhará um cargo novo na empresa, recém-criado, o de editor-executivo. Há três concorrentes para o posto.

Um deles é vivido por Thomas Mitchell, tiozinho agradável que aos poucos se revela tão animalesco quanto os demais: não se desprega do telefone, na madrugada, para saber se seu amigo Mobley tem novidades sobre o tal assassino em série. Seus olhos vibram pela possibilidade da manchete, ao passo que duela com outros.

O segundo é o rascunho do cinismo, o mesmo que, para Lang, emprestou seu tom no belo O Tesouro do Barba Rubra: quem mais, senão George Sanders, para viver o homem da agência de notícias, para distribuir os “furos” por todo um país, para telegrafar o que encontra pela frente? Em A Malvada, graças ao tema, o público é levado a pensar.

O terceiro é o amante da mulher do novo dono da empresa. Vivido por James Craig, o “honesto” tem apenas isso a seu favor nesse filme de salas fechadas, de aprisionamento a bares enormes estrategicamente posicionados aos pés do mesmo prédio que estampa a marca da empresa de comunicação, com balcões nos quais homens perdem suas cabeças.

O assassino é o mimado, à saia da mãe, cuja forma será entregue ainda no início. O protagonista desafia-o ao vivo, em cadeia nacional: à câmera, enumera suas características, e coloca o malvado atrás de sua nova companheira (Sally Forrest), com quem deve se casar. A ela, Lang tem um ótimo contraponto: Ida Lupino, no papel de uma escritora.

Não se torce por ninguém nessa estranha selva quadriculada, espaço em que o adultério é fácil, divertido, em que a bebida leva a culpa na manhã seguinte. Universo em que vence a malícia – sem nunca perder a seriedade que, décadas antes, viu-se em M. Uma diferença, talvez: o assassino em série não é mais o filho direto da sociedade em que está, mas alguém perdido entre ela, o “filho da mamãe” que não se vê entre pessoas que ainda se divertem.

(While the City Sleeps, Fritz Lang, 1956)

Nota: ★★★★☆

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A Mulher do Dia, de George Stevens

As mulheres incomodam: basta uma opinião sobre o desperdício de energia humana em uma partida de beisebol – ou de qualquer outro esporte – para que os homens fiquem arrepiados. Um deles, no desenrolar de A Mulher do Dia, momento em que o casal central ainda não se conhece, corre para desligar o rádio – para calar a mulher.

A dama, nesse caso, é a poderosa Tess Harding (Katharine Hepburn), feita de certezas, de palavras voltadas aos homens como uma metralhadora incansável: é do material ao mesmo tempo inteligente, ao mesmo tempo espontâneo e alegre. Fica claro o motivo da paixão dele por ela: difícil não se apaixonar por uma mulher como tal.

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A presença de Hepburn explica muito: Tess tem muito dela, ou quase tudo. E não se duvida do oposto: Spencer Tracy nasceu para viver Sam Craig, o colunista esportivo que primeiro confronta a colunista de assuntos internacionais, e que depois aprende a amá-la. Ambos trabalham no mesmo jornal, cada um em seu terreno, em seu andar.

Após a troca de farpas em suas colunas, ambos são chamados à sala do chefe. Ficam frente a frente pela primeira vez. Instante único, daqueles que fazem compreender por que o cinema clássico não se repete em tempos atuais: Hepburn, em um misto de malícia, independência e molecagem, estica a perna para além da saia, no exato momento em que Tracy cruza a linha da porta para entrar na sala do chefe.

O olhar dele perde-se entre susto e deslumbramento, a boca dela fecha-se aos poucos, à medida em que o corpo encolhe para esconder a perna. Nem seria necessário lembrar o espectador que os atores viviam um romance na vida real tamanha a química em tela, do primeiro ao último encontro, da guerra às juras de amor.

Do primeiro encontro resta a análise do outro, da cabeça aos pés, a aproximação. Logo se apaixonam. Logo ela será levada a um estádio para assistir a uma partida de beisebol; logo ele será convidado ao apartamento dela, em um encontro que inclui embaixadores, pessoas da alta roda, espaço em que todos falam diversas línguas.

Se no terreno dele imperam gritos e alguma boçalidade, no dela resta a profusão de línguas de um inevitável progresso ao qual o tempo de guerra parecia apontar: os diferentes vivem no mesmo lugar, ao menor ou ao maior sinal da inteligência feminina, sob o protagonismo da mulher que ganhava espaço cada vez mais.

Nem por isso o filme esconde o estranhamento dele, tampouco seus momentos de razão: a grandeza de A Mulher do Dia, com direção de George Stevens e roteiro de Ring Lardner Jr. e Michael Kanin, é não ceder ao artificialismo da perfeição, menos ainda ao estado em que um ou outro sexo parece perder poder – ainda que, em certa medida, tenha viés feminista.

Na plateia, entre homens que berram aos jogadores, Tess impõe-se com naturalidade confrontante: ela ergue-se à frente de todos, volta-se àquele jogo que, a distância, parece não indicar muita coisa senão a indiferença dos homens – daquela multidão que grita – à possível sensibilidade e aproximação, que, é verdade, não são o forte deles.

Pode parecer idiota pedir sensibilidade a homens assim, em uma partida de beisebol. As escolhas de Stevens, no entanto, dizem muito: a câmera prefere a multidão a distância, os jogadores chegam a cair sobre os pés de Sam enquanto ele trabalha, além do amigo pugilista cheio de histórias para contar, a se expressar com golpes.

Toda essa comédia gravita em torno de um delicioso “pacto de não agressão” entre o casal, perto do drama em alguns momentos, de olho na vida moderna em que os homens são obrigados a frigir os ovos, em que as mulheres ainda precisam aprender a lidar com as máquinas da cozinha, criadas justamente para elas.

O jeito de Tess sobrepõe o de Sam. Fica a impressão, mais tarde, na segunda parte do filme, que resiste a forma conservadora: a mulher terá de se sujeitar ao seu velho papel para ficar com o homem que ama. O conforto ainda pertence a ele, confrontado pela moça que discute política internacional, usa ternos e debocha do sexo oposto.

(Woman of the Year, George Stevens, 1942)

Nota: ★★★★☆

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Correspondente Estrangeiro, de Alfred Hitchcock

Em viagem à Europa a trabalho, perto de assistir à eclosão da Segunda Guerra Mundial, o jornalista de Alfred Hitchcock percebe a mudança dos ventos. Talvez os que se dizem pacifistas escondam algo aterrorizante. Talvez os nazistas estejam por ali, infiltrados, à espera do momento certo para empurrar o mundo ao caos. Os ventos são outros.

Essa mudança é representada em uma sequência inesquecível, que trata do movimento do ar de forma literal: é quando o jornalista, na Holanda, repara que a típica paisagem pacata ganha alteração. As pás dos moinhos giram no sentido oposto ao vento. Mudam de novo, e de novo. O jornalista logo compreende que se trata de um sinal ao inimigo.

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O cenário aparentemente pacato de Correspondente Estrangeiro, do mestre Hitchcock, esconde o pior: ainda que a mudança seja inevitável – o giro em oposição ao vento, a suposta organização de paz como catalizadora da guerra -, as personagens têm dificuldades para enxergá-la. O diretor, nesse meio, conta outra vez com o herói um pouco ingênuo.

Na pele de John Jones, Joel McCrea deve algo ao Robert Donat de 39 Degraus. Mais tarde, seria Cary Grant, herói acidental de Intriga Internacional, o ator a repetir os anteriores. E nesse mesmo filme, lançado em 1959, Grant ver-se-á frente a frente com uma paisagem aparentemente pacata e perto de se transformar, no momento em que é atacado por um avião que sobrevoa os milharais e despeja veneno por ali.

Outra explicação ajuda a entender o motivo de McCrea, como Jones, ser um pouco ingênuo. O dono do jornal em que trabalha descobre que os “profissionais” que cobrem outros países não são mais capazes de enxergar a guerra iminente. Ao que parece, o jornal está disposto a criar uma guerra, se necessário, a partir do faro do editor.

Será preciso alguém com pouca experiência, alguém que diz o que vem à mente, ninguém muito culto, um homem como qualquer outro disposto a correr atrás de uma história. Surge na sala do chefe, então, aquele com todas as credenciais: o homem nada consciente do tamanho da encrenca na qual toda Europa e o mundo estão lançados.

Pois é desse olhar pouco avisado que nasce a grande história, do ponto cego que alguém como McCrea, com tom cômico perfeito, deixa ver o despreparo. Seu espaço não permite qualquer conforto; seu jeito, à contramão, conquista facilmente o espectador. Não demora para farejar a notícia, os criminosos, a reparar na mudança dos ventos que colocam todos, inclusive ele, sob risco eminente.

Antes de chegar aos moinhos, o herói espera por seu entrevistado debaixo de chuva, em uma escadaria, no local que servirá ao encontro dos pacifistas. A câmera de Hitchcock, em movimento panorâmico, revela o ambiente ocupado pela chuva e se aproxima do protagonista. A água é incômoda. Há realismo e até naturalidade nessa bela sequência. O homem que aparece por ali é assassinado por um fotógrafo armado. Mais tarde, o herói descobre que a vítima não era seu entrevistado, mas um duplo.

Outro momento exemplar ocorre na sala escura em que o velho senhor é torturado pelos nazistas à base de luzes contra a face e música constante. Esse homem, antes a fonte do jornalista em viagem à Europa, conhece a cláusula secreta cobiçada pelos nazistas. Isso, no entanto, é apenas um pretexto para o suspense – o chamado MacGuffin.

O tom de loucura que ocupa essa sala, com o velho delirante, é tom do mundo naquele momento: a tortura em salas fechadas, às sombras, que logo tomaria as ruas, os espaços externos. Universo que liga Hitchcock aos melhores filmes de Fritz Lang, a começar por O Testamento do Dr. Mabuse, o que também reforça o lado expressionista do mestre do suspense.

O homem de McCrea, até certo ponto ingênuo, logo afundado nesse meio político e paranoico até o pescoço, era mesmo ideal à empreitada. A diferença é que, ao invés de “produzir” a guerra, apenas se deixou apanhar por ela – no melhor estilo das personagens do cinema clássico, donas de frases heroicas nos instantes derradeiros.

(Foreign Correspondent, Alfred Hitchcock, 1940)

Nota: ★★★★★

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Quando Fala o Coração, de Alfred Hitchcock

Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca, de Peter Landesman

Difícil, para quem viu e reviu Todos os Homens do Presidente, imaginar uma vida por trás do Garganta Profunda. Ou um coração. É verdade que Mark Felt – o homem por trás do apelido – não é lá muito emotivo. Em cena, interpretado por Liam Neeson, é um daqueles profissionais que levam a honra e o trabalho a sério, viciados no que fazem.

A impressão é que ele, como o filme, é viciado em “ser americano” – apesar de todas as implicações que a expressão pode ter, além de soar um pouco preconceituosa. De qualquer forma, é o que se vê em Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca, a história do Garganta Profunda e os dias em que viu o FBI, no qual trabalhava, ser desmoralizado.

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Após a morte de John Edgar Hoover, a instituição recebe uma liderança alinhada aos arapongas republicanos. Devido à corrupção, Felt – o primeiro na linha sucessória não fossem os fatores políticos – decidiu entregar a sujeira à imprensa. Vêm então as manchetes, os fatos assustadores, as informações que apenas alguém do FBI poderia ter. Não demora, sabe-se, para o bomba cair no colo de Richard Nixon.

Em tempos de filmes feitos de barulho, tiros e explosões, Mark Felt vai a caminho contrário: quer ser – e até certo ponto consegue – uma daquelas obras feitas de sombras, diálogos, cuja emoção depende do toque no telefone, do sussurro ou mesmo da conversa no fundo de uma garagem (como se viu em Todos os Homens do Presidente).

Filme atípico, portanto, para um público hoje restrito e, sobretudo, àqueles que se interessam pela história americana recente. É também sobre um tempo de paranoia e perseguição, sobre homens grampeados, desconfiados, quando ninguém podia confiar em ninguém – à medida que as notícias remetiam ao Vietnã e à ação de grupos terroristas.

Felt é o homem passado, experiente, quase sempre em terno de contornos perfeitos, de cabelo grisalho que pouco sai do lugar. Chegado à pintura, revela ser também um homem culto. Ama a mulher e a instituição na qual trabalha. Alguém, diz o filme, acima de qualquer suspeita, o bom americano – apesar de delator revelado.

Homem que, fechado, traz à tela um enigma, e talvez um problema: Felt parece perfeito e ideal demais para os atos que praticou, mesmo quando esses atos, revela o filme, seriam necessários para expor a sujeira praticada pelos capangas de Nixon. O ato reprovável à situação correta, aqui para dar luz ao herói.

Há, por isso, muitas perguntas sem respostas, limitadas a um filme que toma partido, que prefere o silêncio e o mistério à ambiguidade. Mesmo com jeito soturno, reservado, o tipo honesto que sofre calado, Felt ainda deixa dúvidas. Sua fraqueza, em determinado momento, quando os integrantes do FBI são pressionados a dizer quem é o delator, pode ser vista em um ou outro olhar perdido, no semblante do competente Neeson.

A desculpa é sempre a honra de uma instituição, o que permite abalar, por isso, a honra de um homem. Com suas várias escapadas para desculpar o herói, o trabalho de Peter Landesman escancara sua estratégia no epílogo, momento em que outra situação vem à tona para proteger esse homem americano demais, ou feito para assim parecer.

O visual feito à escuridão, não muito distante de Todos os Homens do Presidente, lança uma nação às sombras, ao tempo de incertezas no qual um presidente perdia credibilidade à medida que o jornalismo ganhava pontos, enquanto um delator, fantasma ou coadjuvante por décadas, era identificado apenas por um apelido desagradável.

(Mark Felt: The Man Who Brought Down the White House, Peter Landesman, 2017)

Nota: ★★★☆☆

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O Outro Lado da Esperança, de Aki Kaurismäki

The Post: A Guerra Secreta, de Steven Spielberg

São várias as “invasões” da mulher aos ambientes dominados por homens ao longo de The Post: A Guerra Secreta, de Steven Spielberg: no restaurante, na Bolsa de Valores ou em qualquer sala de decisões. Em cena, Katherine Graham aos poucos revela poder e liderança.

Mais interessante é o contraste entre os ambientes de Graham e os do editor do jornal que ela comanda, Ben Bradlee. De um lado, com ela, vê-se a bela casa de móveis opacos, de luz entre cortinas, quente e aparentemente protegida. O dele, no jornal, é frio, em certa medida impessoal. O filme é sobre como Graham migra ao espaço de Bradlee.

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Diz-se muito sobre o filme como veículo para evidenciar, nos tempos de Trump, a importância da imprensa. É verdade. Está tudo lá. Por outro lado, é o choque entre universos – o masculino e o feminino – que nutre esse belo filme de ação em diálogos, de salas fechadas, do tempo em que o jornalismo ainda tinha certo charme.

O filme é de Graham (ou Meryl Streep), não de Bradlee (ou Tom Hanks). Ou sobre como ela, ao peitar o homem mais poderoso de seu país, o então presidente Richard Nixon, enfim será vista – no filme, ao menos – pelo espaço aparentemente impessoal da redação do jornal, no qual homens e mulheres servem-se de montanhas de papel, com som alto, feito do bater à máquina, para dar vida à linha de produção do periódico.

Ela, ao lado dele, será vista, ao fim, entre essa linha. É como se Spielberg dissesse que a dama, enfim, faz parte daquele meio de máquinas, metálico, aparentemente – ou quase sempre associado ao – masculino. Um filme sobre como a mulher luta para escapar à grande casa aconchegante e saltar ao ambiente de astutos como Bradlee.

O espectador, por isso, em momento algum ficará na zona de conforto: é a ela, não a ele, que resta a última palavra. Ao que parece, a mulher não será capaz de dar o “sim” tão desejado. E se dá, é contra as expectativas: suas mãos tremulam quando precisa autorizar a publicação.

O impasse entre os sexos, nesse jogo de poder, é interessante: Bradlee deixa suas certezas, mas nunca pode ir até o fim, ou mudar tudo; Graham, ao contrário, pode autorizar o lançamento das “bombas”, ainda que suas relações com homens de poder, em sua mesma casa de belo jardim, pareça sempre colocá-la um passo atrás.

E há, claro, a grande história em questão, o que move The Post em sua superfície: o vazamento dos conhecidos “papéis do Pentágono”, documentos que comprovam como diferentes líderes de Washington, por anos, souberam da fragilidade dos soldados no Vietnã, o que custou a vida de muitas pessoas na continuidade de uma guerra perdida.

Quem dá o furo é o jornal concorrente, o New York Times. O Post corre atrás do prejuízo: Bradlee logo entende a necessidade de publicar os mesmos documentos, ainda que a justiça americana tenha barrado a investida da imprensa. A luta fica mais difícil, envolve também os futuros negócios do mesmo Washington Post: levado ao capital aberto da Bolsa de Valores, com Graham na ponta da mesa repleta de homens às bordas, o jornal, segundo os novos investidores, deveria ter cuidado na publicação de matérias do tipo.

O dinheiro tem seu peso. O destino do jornal também. Parte do filme apresenta a movimentação dos jornalistas em busca da notícia; outra parte, a movimentação de Graham entre graúdos, entre seus advogados, entre todos os homens que, à exceção de Bradlee, tentam convencê-la a não publicar a matéria sobre os “papéis do Pentágono”.

Em vão. E não se trata aqui de revelar o desfecho. O filme de Spielberg vai além. Sua grandeza está na ambientação, na transformação e na força inesperada da personagem feminina, ao mesmo tempo na caracterização certeira de Streep. Fechada, presa ao espírito dos homens que a antecederam, alguém que não precisa de discursos calculados – como a Margaret Thatcher da mesma atriz – para expor força e coragem.

(The Post, Steven Spielberg, 2017)

Nota: ★★★★☆

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