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Milos Forman (1932-2018)

Fazer cinema é como amar: você tem que sentir um frio na barriga a cada nova paixão. Eu não sinto mais essa sensação. Então não há o que contar. E, no meu caso, se não há desejo, não há como dar prosseguimento ao tipo de obra que eu construí, centrada no embate entre o indivíduo e as instituições.

(…)

Para fazer um filme, você precisa de tempo para entender o que ele representa, como narrativa, como linguagem, como gesto político. Não tenho mais esse tempo. Estou velho. Não houve problemas com Hollywood, até porque, nos EUA, onde vivo como cidadão naturalizado americano, ninguém jamais será tratado como artista excluído se tiver ideias minimamente rentáveis, por mais polêmicas que sejam. A questão comigo hoje é mais do que cansaço. É a sensação de que não há mais interesse pela verdade individual. Ninguém mais quer se debruçar sobre o ponto de vista de um autor e dissecar seus sentimentos. E cinema para mim é compartilhar verdades minhas e trocá-las pelas verdades dos outros, a verdade do espectador, do crítico.

(…)

Tecnologia nenhuma é difícil de dominar quando você entende da técnica do cinema. Mas de nada adianta um parque tecnológico sofisticado se você não tiver uma boa história para contar. Esse é o paradoxo estético do cinema.

Milos Forman, em entrevista ao jornal O Globo (junho de 2014; leia a entrevista completa aqui). Abaixo, o cineasta nos bastidores de Um Estranho no Ninho, que lhe rendeu o primeiro Oscar de melhor diretor.

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O último encontro com Mastroianni

Angelopoulos prefere escrever textos literários a produzir roteiros. Busca a imediata cumplicidade do ator na empreitada. E foi com o italiano Marcello Mastroianni que ele estabeleceu a parceria mais produtiva e emotiva. “Eu tinha certa restrição em convidá-lo para rodar O Apicultor (1986), mas, ao contar detalhes do roteiro em nosso primeiro encontro, Marcello exibia as reações faciais que eu esperava para o papel.”

Voltaram a trabalhar juntos em O Passo Suspenso da Cegonha (1991) e repetiriam a dose em A Eternidade e Um Dia (1998), mas o ator não resistiu a um câncer de pâncreas e morreu em dezembro de 1996. Os olhos de Angelopoulos ficam marejados quando se recorda do último encontro, quando revelaria ao ator que o papel não seria dele. “Ele estava em cartaz com uma peça, em Paris, justamente um texto sobre um homem que enfrenta a morte”, lembra o cineasta. “Fisicamente, Marcello estava irreconhecível, muito magro, mas seu magnetismo continuava em cena.”

Terminada a apresentação, combinaram de se encontrar em um restaurante próximo do teatro. “Eram apenas 100 metros mas Marcello precisou ir de táxi. Quando lá chegou e me encarou, logo percebeu o que eu iria dizer.” Angelopoulos conta que, curiosamente, para esse filme, tinha desenvolvido um roteiro e entregue antes ao ator. “Justamente um roteiro que Marcello não conseguiria filmar. Quando conversamos sobre a história, ele me interrompeu quando eu disse que era uma trama triste. ‘A poesia jamais é triste, Theo’, ele disse.”

Terminado o jantar, período em que a assistente de Mastroianni não conteve o choro em inúmeros momentos, Angelopoulos acompanhou o ator ser auxiliado a entrar em um táxi. “Antes de o carro sair, Marcello abaixou o vidro e me olhou. Chovia, por isso não sei se foi um pingo d’água ou uma lágrima que vi em seu rosto. Em seguida, ele me acenou e partiu. Foi a última vez que encontrei aquele homem excepcional.”

Ubiratan Brasil, jornalista, com relatos do cineasta grego Theodoros Angelopoulos em matéria do jornal O Estado de S. Paulo (28 de outubro de 2009; leia aqui o texto completo). Abaixo, Mastroianni e Angelopoulos durante as filmagens de O Passo Suspenso da Cegonha.

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Bastidores: O Franco Atirador

O que me surpreende que nenhum crítico haja notado não é o conteúdo fascistoide (ridículo), racista e historicamente absurdo do filme. É que o sr. Cimino é um diretor de péssima qualidade, não tem a menor noção de desenvolvimento, de organicidade. Não sabe estabelecer uma personagem.

Paulo Francis, jornalista e escritor, no jornal Folha de S. Paulo (8 de abril de 1979). O artigo foi reproduzido no livro A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo (organização de Nelson de Sá; pg. 110).

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Paulo Emílio Sales Gomes, 100 anos

Como resumir a vida de um escritor e professor tão importante, com tamanha relevância ao exercício da crítica de cinema no Brasil? O grande Paulo Emílio Sales Gomes, cujo centenário ocorre em dezembro de 2016, é lembrado com uma mostra de filmes em São Paulo (até 7 de setembro). Nela, são apresentadas obras variadas, de diferentes países, que ele analisou ao longo da vida. Em homenagem ao seu centenário, o blog traz um pouco da importância de Hiroshima, Meu Amor ao autor, além de um trecho de seus escritos sobre a obra de Alain Resnais.

(…) Paulo Emílio escreveu nada menos que cinco (cinco!) artigos sobre Hiroshima, Meu Amor ao Suplemente Literário do Estado. Acercando-se da obra com cuidado, vendo-a por ângulos diversos, respeitando-a como enigma colocado em desafio ao espectador. “O filme é absurdo e múltiplo como a realidade”, escreve em um desses textos. Caso raro de crítico que, ao colocar em ação seus dotes interpretativos, coloca-se à altura da obra-prima que tem diante de si.

Luiz Zanin Oricchio, no jornal O Estado de S. Paulo (“O legado crítico de Paulo Emílio Salles”, 1º de setembro de 2016; Caderno 2, pg. C8; leia texto completo aqui).

Dizer apenas que Hiroshima mon amour viola a cronologia não é suficiente. A película não oferece tampouco uma estrutura espacial contínua. Sua matéria-prima é o fragmento, geográfico, histórico, psicológico, narrativo. Confiar na pura lógica para a apreensão de Hiroshima mon amour não seria aconselhável. Essa fita exige atenção, tensão, e ao mesmo tempo abandono. É possível que seja um tanto hermética, é certamente muito contraditória.

Paulo Emílio Sales Gomes, no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo (25 de junho de 1960; a análise foi reproduzida no livro O Cinema no Século, com críticas de Paulo Emílio; Companhia das Letras, pg. 528). Abaixo, uma imagem de Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais.

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