Jornal Público

Stéphane Audran (1932–2018)

Foi uma presença recorrente na obra de Chabrol, e também na sua vida: foram casados 16 anos, entre 1964 e 1980, mas a relação de amizade e de trabalho estendeu-se bem para lá da data do divórcio. Em termos criativos, foi uma parceria de duração invulgar e singularmente feliz, tanto que é difícil pensar em Chabrol sem Audran, e em Audran sem Chabrol.

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E com o cinema de Chabrol passaria imediatamente a “fazer corpo”, intérprete feita daquele “teatro da crueldade” que era o território do realizador, numa presença onde o “abandono” (Les Bonnes Femmes, 1960) alternava com a “frieza” (Les Biches, 1968; La Femme Infidèle, 1969), e onde a sua beleza – às vezes tratada de modo “esfíngico” – tanto podia ser sinal de vida como manifestação de um destino mais negro.

Luís Miguel Oliveira, crítico de cinema, no Jornal Público (27 de março de 2018; leia o texto aqui). Abaixo, Audran em Os Primos, primeiro filme da atriz com Chabrol e o quarto de sua carreira, em 1959.

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Em ruas perigosas

As streets são espaço onde também se forjam alianças de sangue, por isso não oferecem alternativa à claustrofobia familiar. “You don’t make up for your sins in church. You do it in the streets. You do it at home. The rest is bullshit and you know it”, dizia a voz off, de Scorsese, em Mean Streets (1973). Scorsese aparecia na sequência final deste filme, no banco de trás de um carro, a abater a tiro a hipótese de fuga de Keitel e Robert De Niro — e nesses anos voltaria a inquietar a partir do banco de trás de um táxi, naquele seu tenebroso cameo como passageiro pretty sick de Travis Bickle no Taxi Driver (1976).

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Foi quando descobriu Paisà, de Rossellini, numa das tais emissões televisivas, que Martin encontrou a origem e a explicação dos rostos e dos corpos que o rodeavam em Little Italy. Mais tarde, colocaria as imagens de um home movie que um primo lhe ofereceu — Elizabeth Street no início do século XX, a loja dos avós paternos, a avó materna nas compras, procissões, um mundo que já desaparecera mas que ele ainda conseguira habitar, ou pelo menos de que ouviu ainda ecos — no início do seu A Minha Viagem a Itália (1999), o documentário em que viajou pelos filmes que o fundaram. Como se se tratasse da mesma coisa, o home movie e o neo-realismo italiano. Foi na noite com Paisà que percebeu a potência dos filmes, foi esta a sua grande descoberta: o cinema só pode forjar cumplicidades com o rosto da verdade — mesmo que Marty não descartasse as fantasias de Roy Rogers e do cavalo Trigger na sala de cinema do bairro.

Vasco Câmara, crítico de cinema e editor, sobre o cineasta Martin Scorsese, na ocasião da exposição Scorsese na Cinemateca Francesa, no jornal Público (28 de janeiro de 2016; leia aqui o texto na íntegra). Abaixo, Harvey Keitel em Caminhos Perigosos.

caminhos perigosos

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Fassbinder em Brecht

Baal foi feito para a televisão da Alemanha Ocidental, foi exibido apenas uma vez, em 21 de Abril de 1970, e apesar de haver contratos de distribuição nunca mais pôde ser mostrado, porque a viúva de Brecht, Helene Weigel, fez uso dos seus direitos. Como mais tarde me contou o dramaturgo Tomas Brasch, Helene Weigel, que viu o filme nessa noite do outro lado do Muro de Berlim, achou a interpretação de Fassbinder “horrorosa” (“não basta usar um blusão de cabedal e pendurar um cigarro ao canto da boca para ser Brecht…!”). Sem a sua autorização não conseguimos fazer nada com o filme durante 40 anos. O que os herdeiros de Brecht nunca perceberam foi que já havia Fassbinder no Baal de Brecht, e que havia o espírito de 68 no jovem Brecht.

Volker Schlöndorff, cineasta, sobre seu filme Baal, que tem o também diretor Rainer Werner Fassbinder como personagem-título, em uma entrevista a Vasco Câmara (Jornal Público, outubro de 2014; leia a entrevista completa aqui). Na imagem abaixo, de Baal, Fassbinder aparece ao lado da atriz Hanna Schygulla, que viria a ser sua musa.

baal

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Setsuko Hara (1920–2015)

Vilmos Zsigmond (1930–2016)

Sempre defendeu que a direção de fotografia deve estar subordinada à realização, acreditando no trabalho de equipe. Por causa disso, nunca voltou a trabalhar com Spielberg, apesar do Oscar que recebeu por Contatos Imediatos do Terceiro Grau, dizendo que se tinha sentido um simples operador de câmara sem possibilidades de contribuir com ideias. “Estive para me despedir várias vezes, mas não encontraram um substituto e por isso acabei a rodagem”, contou vários anos depois.

Do obituário do jornal Público, em sua versão on-line, sobre o lendário diretor de fotografia, morto no primeiro dia de 2016 (leia texto completo aqui). Mestre no ofício, Zsigmond foi diretor de fotografia de Altman, Cimino, Spielberg e De Palma. Com o último, fez Um Tiro na Noite, como se vê na imagem abaixo, na qual aparece no canto inferior direito.

um tiro na noite

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Um Tiro na Noite, de Brian De Palma

Maureen O’Hara (1920–2015)

Era a última grande vedeta, e grande atriz, sobrevivente da época clássica de Hollywood, memória viva dessas longínquas décadas douradas que o cinema americano viveu entre os anos 30 e os anos 50. Com a morte dela, Hollywood morre mais um bocadinho.

Joana Amaral Cardoso, jornalista de cultura, e Luís Miguel Oliveira, crítico de cinema, no site do jornal Público (leia aqui), sobre a grande estrela, morta aos 95 anos e famosa, sobretudo, pelas colaborações com o diretor John Ford, como em Depois do Vendaval (foto abaixo).

depois do vendaval

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