Joel McCrea

Mulher de Verdade, de Preston Sturges

Levado pela rapidez de Mulher de Verdade, o espectador chega a Quanto Mais Quente Melhor, comédia de Billy Wilder do fim dos anos 50. Recordará a sequência da festa regada à bebida, entre beliches, os corpos que sobem e descem pelo espaço, no trem em movimento.

O mesmo espaço pode ser visto no filme de Preston Sturges. Wilder não teria motivos para esconder a inspiração pelo cenário, pelo desenvolvimento da comédia no mesmo meio de transporte: o cineasta austríaco nunca escondeu sua paixão pelo americano nascido em Chicago, cujo salto da produção de roteiros para a direção de filmes, no início dos anos 40, foi fundamental para que outros artistas fizessem o mesmo – Wilder entre eles.

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Nem a comédia de aparência leve deixa esconder certa radicalidade: em Mulher de Verdade, Sturges coloca um bando de caçadores – confundidos com cavalheiros – pelos vagões do trem, com armas e cães, atrás da protagonista em fuga. Os homens embriagados atiravam para todos os lados, antes, na cabine em que estavam.

Não por acaso, esse tipo de comédia é chamada de “maluca”. Sturges, no momento em que a comédia americana passa da década de ouro para a década atrofiada por questões sociais (a da guerra, a do filme noir, a da mulher dominadora e malvada), renova o gênero ao olhar ao passado: seus trabalhos retiram algo da comédia muda. Sobre o cineasta, Georges Sadoul diria: “Renovou a comédia ligeira americana, em 1940, por um recurso à tradição de Mack Sennett: gags visuais, grandes piadas”.

Está por ali, e não ao acaso, o lendário Chester Conklin, que com Chaplin atuou nas comédias físicas de Sennett. Movido a essa loucura, à forma desregrada, talvez seja possível entender por que Sturges não cabia em Hollywood – ou apenas supor que o gênio chegou um pouco atrasado. Sua comédia dava um passo além se comparada às guinadas sociais de Capra, sendo a antessala às investidas ao sexo exploradas depois por Wilder.

Em Mulher de Verdade, é a mulher de Capra, a Claudette Colbert de Aconteceu Naquela Noite, que ganha protagonismo. A história passa-se depois do casamento, momento em que essa mesma mulher questiona sua posição na relação a dois: acredita, como deixará claro ao marido, que é apenas um empecilho, uma pedra em seu caminho.

Seria a deixa de Sturges: ela precisa se separar dele, o bonachão sempre interessante vivido por Joel McCrea, para escapar ao mundo. Pouco necessária a desculpa elaborada em detalhes, com profundidade: eis a comédia de movimento, em que os sentimentos mudam pouco ou nada o sentido do golpe, da queda, do engano.

Casais trocados, cães latindo, falsos senhores bondosos, amigos gays tratados como animais de estimação. O dinheiro não vale muito, ainda que possa comprar bobagens, ou algum diamante. E a mulher, veja só!, não tem problema algum em assumir seu desejo pela pedra brilhosa comprada pelo milionário que com ela deseja se casar.

Gerry Jeffers (Colbert) deseja casar com um ricaço para bancar o invento de seu amado Tom (McCrea). Pisará na cara do escolhido, quebrará seus óculos – ainda na cena dos beliches. Sturges, como em Natal em Julho, encontra a forma para rir da riqueza e de seus seres sem muita graça, pensativos demais, ou levados demais aos prazeres do momento.

O pretendente que tudo anota em um caderno, sem qualquer atrativo, representa o oposto ao sonhador encarnado por McCrea. Ninguém duvida que a mulher em fuga render-se-á ao segundo, o marido, ainda que fosse preciso correr muito, atravessar uma nação, para se ver seduzida pelo diamante comprado pelo submisso milionário.

Antes de fugir, a protagonista oferece sua justificativa: “Sou um carro que faz 10 quilômetros com tanque cheio, mas que não tem o tanque cheio”. O roteiro talvez não faça tanto sentido. Não importa. Sturges transfere o público de volta à comédia livre de décadas anteriores, na qual os supostos comportados colocavam tudo a perder.

(The Palm Beach Story, Preston Sturges, 1942)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Bastidores: Wilder e Monroe

Correspondente Estrangeiro, de Alfred Hitchcock

Em viagem à Europa a trabalho, perto de assistir à eclosão da Segunda Guerra Mundial, o jornalista de Alfred Hitchcock percebe a mudança dos ventos. Talvez os que se dizem pacifistas escondam algo aterrorizante. Talvez os nazistas estejam por ali, infiltrados, à espera do momento certo para empurrar o mundo ao caos. Os ventos são outros.

Essa mudança é representada em uma sequência inesquecível, que trata do movimento do ar de forma literal: é quando o jornalista, na Holanda, repara que a típica paisagem pacata ganha alteração. As pás dos moinhos giram no sentido oposto ao vento. Mudam de novo, e de novo. O jornalista logo compreende que se trata de um sinal ao inimigo.

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O cenário aparentemente pacato de Correspondente Estrangeiro, do mestre Hitchcock, esconde o pior: ainda que a mudança seja inevitável – o giro em oposição ao vento, a suposta organização de paz como catalizadora da guerra -, as personagens têm dificuldades para enxergá-la. O diretor, nesse meio, conta outra vez com o herói um pouco ingênuo.

Na pele de John Jones, Joel McCrea deve algo ao Robert Donat de 39 Degraus. Mais tarde, seria Cary Grant, herói acidental de Intriga Internacional, o ator a repetir os anteriores. E nesse mesmo filme, lançado em 1959, Grant ver-se-á frente a frente com uma paisagem aparentemente pacata e perto de se transformar, no momento em que é atacado por um avião que sobrevoa os milharais e despeja veneno por ali.

Outra explicação ajuda a entender o motivo de McCrea, como Jones, ser um pouco ingênuo. O dono do jornal em que trabalha descobre que os “profissionais” que cobrem outros países não são mais capazes de enxergar a guerra iminente. Ao que parece, o jornal está disposto a criar uma guerra, se necessário, a partir do faro do editor.

Será preciso alguém com pouca experiência, alguém que diz o que vem à mente, ninguém muito culto, um homem como qualquer outro disposto a correr atrás de uma história. Surge na sala do chefe, então, aquele com todas as credenciais: o homem nada consciente do tamanho da encrenca na qual toda Europa e o mundo estão lançados.

Pois é desse olhar pouco avisado que nasce a grande história, do ponto cego que alguém como McCrea, com tom cômico perfeito, deixa ver o despreparo. Seu espaço não permite qualquer conforto; seu jeito, à contramão, conquista facilmente o espectador. Não demora para farejar a notícia, os criminosos, a reparar na mudança dos ventos que colocam todos, inclusive ele, sob risco eminente.

Antes de chegar aos moinhos, o herói espera por seu entrevistado debaixo de chuva, em uma escadaria, no local que servirá ao encontro dos pacifistas. A câmera de Hitchcock, em movimento panorâmico, revela o ambiente ocupado pela chuva e se aproxima do protagonista. A água é incômoda. Há realismo e até naturalidade nessa bela sequência. O homem que aparece por ali é assassinado por um fotógrafo armado. Mais tarde, o herói descobre que a vítima não era seu entrevistado, mas um duplo.

Outro momento exemplar ocorre na sala escura em que o velho senhor é torturado pelos nazistas à base de luzes contra a face e música constante. Esse homem, antes a fonte do jornalista em viagem à Europa, conhece a cláusula secreta cobiçada pelos nazistas. Isso, no entanto, é apenas um pretexto para o suspense – o chamado MacGuffin.

O tom de loucura que ocupa essa sala, com o velho delirante, é tom do mundo naquele momento: a tortura em salas fechadas, às sombras, que logo tomaria as ruas, os espaços externos. Universo que liga Hitchcock aos melhores filmes de Fritz Lang, a começar por O Testamento do Dr. Mabuse, o que também reforça o lado expressionista do mestre do suspense.

O homem de McCrea, até certo ponto ingênuo, logo afundado nesse meio político e paranoico até o pescoço, era mesmo ideal à empreitada. A diferença é que, ao invés de “produzir” a guerra, apenas se deixou apanhar por ela – no melhor estilo das personagens do cinema clássico, donas de frases heroicas nos instantes derradeiros.

(Foreign Correspondent, Alfred Hitchcock, 1940)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Quando Fala o Coração, de Alfred Hitchcock

Joel McCrea: bandido, herói ou pastor

A um passo do bonachão, como bandido camarada ou herói, Joel McCrea encontra sua forma perfeita na pele de um pastor. Há um caminho tortuoso, engraçado, que inicia em Fúria Abrasadora, de André De Toth, passa por Golpe de Misericórdia, de Raoul Walsh, e chega a O Testamento de Deus, no qual repousa sob a direção de Jacques Tourneur.

São três faroestes diferentes, todos encabeçados por McCrea. O ator sofre para ser outro enquanto quase sempre termina o mesmo. No segundo deles, Golpe, luta para ser o bandido experiente, algo que Humphrey Bogart fez sem esforço algum na primeira versão dessa história, de 1941, o extraordinário Seu Último Refúgio.

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Da pequena fita de gangster, Walsh passou ao faroeste. As peças são semelhantes. McCrea é o velho bandido que se reúne a outros menos experientes, é traído por um figurão, vê-se frente a frente com a mulher que, como ele, nada tem a perder (e que para ele é perfeita) e sonha com a possibilidade de mudar de vida com outra moça.

Apaixona-se pela pessoa errada, a moça que migra para uma fazenda seca e perdida no meio do Oeste americano, ainda sendo desbravado, ainda sob a apreensão dos índios e a necessidade de se impor a lei. Esse cenário é manjado: suas personagens desejam escapar, recomeçar, e a moça em questão é vivida por ninguém menos que Dorothy Malone.

É, para o pistoleiro de McCrea, uma chance de viver outra vida, para deixar de ser o bandido que o mesmo ator nunca poderá ser. Apenas finge, lança ao público essa possibilidade. Depende de quem deseja aceitá-lo como dono da história. Mas McCrea tem uma figura feminina ainda mais forte pela frente: Virginia Mayo, no papel de uma mestiça.

Quase tudo fora do lugar, atores nas personagens erradas. Mayo, apesar de imponente, é bela e bronzeada demais à figura perdida entre homens e poeira, em uma pequena igreja – o covil dos bandidos – à espera de um macho verdadeiro. Caso o dono do ingresso deseje acreditar nesse jogo, e seguí-lo, o homem em questão será McCrea.

Nem sempre se tem um Bogart para ajudar, ou para servir. Mas o eterno Rick Blaine não poderia ser um pistoleiro ou um pastor. Atores como McCrea e Bogart serviam quase sempre aos mesmos tipos, e precisavam se esforçar para escapar da forma esperada. O primeiro deu certo como o tipo certinho, agradável, dos filmes de Preston Sturges. Suas gargalhadas na sala de cinema, em Contrastes Humanos, são inesquecíveis.

O ator esteve do outro lado, pouco antes, como o mocinho de Fúria Abrasadora. E se tem alguma dificuldade para provar sua vilania, nessa incursão ele sofre para transgredir as regras. Na pele de Dave Nash, de novo ele precisa encarar uma mulher forte, ainda que raquítica, a sempre misteriosa Veronica Lake.

A exemplo do que ocorre no filme noir, essas meninas surpreendem. A personagem de Lake está à espera de um homem que possa provar coragem, que possa matar e morrer para ganhar sua companhia. Um suposto enredo envolvendo terras, ovelhas e gado esconde o verdadeiro tema desse grande filme: a procura da menina mimada pelo homem real.

Lake sabe como fazê-la, enquanto McCrea tem dificuldades para ultrapassar limites e provar ser o candidato. Com técnica invejável e sequências incríveis, De Toth reconhece que tudo não passa de um teste para o homem correto, quadrado, enganado por um companheiro e pela garota a quem serve. É, de novo, o bonachão servil e deslocado.

McCrea é a segurança em pessoa, alguém a confiar. Encontra seu papel perfeito, por isso, no pastor Josiah Doziah Gray. Não apenas pela forma. Seu Josiah deve os contornos de perfeição e segurança ao olhar do outro: O Testamento de Deus, de Tourneur, é contado a partir das lembranças de uma criança, vivida por Dean Stockwell.

À sua maneira, antecipa O Sol é para Todos. Crianças – ou apenas uma – que olham ao passado, que se refugiam em um meio mítico de bondade e no qual o mal ainda se embrenha entre máscaras. Claro que não pode ser ocultado. Ainda assim, o filme emerge com o filtro do sonho, servido por figuras humanas perdidas e confiáveis.

Tem um pouco do que John Ford construiu em Caminho Áspero: pessoas caipiras em um meio (quase) intocado, vivendo sob a pressão de grandes fazendeiros, entre as novidades e a tradição que insiste em persistir. McCrea é a tradição, o servo de Deus que pouco a pouco passa a dividir seu espaço de trabalho – por obrigação – com um jovem médico da cidade. Ambos seguem à casa dos doentes, ou dos mortos.

Em um dos casos, o pastor é o primeiro a chegar. Em outros, o segundo. O médico ampara-se na ciência, o protagonista na fé. O filme não almeja escapar desse jogo até certo ponto previsível. Por outro lado, é tocante, entre adultos e crianças, entre a igreja, o bar e a pequena escola da cidade. Feito de pessoas conhecidas, especiais, a começar por McCrea.

(Colorado Territory, Raoul Walsh, 1949)
(Ramrod, André De Toth, 1947)
(Stars in My Crown, Jacques Tourneur, 1950)

Notas:
Fúria Abrasadora: ★★★★☆
Golpe de Misericórdia: ★★★☆☆
O Testamento de Deus: ★★★★☆

Foto 1: Golpe de Misericórdia
Foto 2: O Testamento de Deus

Veja também:
Caminho Áspero, de John Ford

Anjos de Cara Suja, de Michael Curtiz

Nos rostos dos garotos que formam os Dead End Kids, Rocky Sullivan vê o próprio reflexo: o rapaz do passado, quando era jovem, época em que foi detido e levado a um reformatório, antes de se profissionalizar no mundo do crime.

A primeira parte de Anjos de Cara Suja leva a essa época, em que Rocky, na companhia do amigo Jerry Connolly, vê o bairro do alto, da escada de incêndio do prédio, as meninas que passam, as pessoas que se amontoam para ganhar a vida por ali.

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Eles vivem o instante seguinte: depois de perambularem pela linha de trem, resolvem furtar um carregamento de canetas. Jerry questiona Rocky sobre a necessidade de ter esses objetos, momento em que o amigo diz que tudo pode ser vendido.

Tentam furtar, são perseguidos, e Rocky termina preso. É fiel ao amigo no reformatório: não o entrega à polícia. Rocky, interpretado na fase adulta pelo gigante James Cagney, torna-se bandido; o amigo Jerry, sob a face de Pat O’Brien, forma-se padre do bairro.

A oposição está dada nesse grande filme de Michael Curtiz: o remédio contra os bandidos está na igreja que não demora a surgir. Quando Rocky é libertado e procura pelo amigo, este comanda os jovens do bairro em seu espaço, a cantar, na igreja que libera as luzes de salvação a um filme coberto, em grande parte, pelas sombras.

Sombras, importante lembrar, que ocupam a caminhada de Rocky. E revelar esse destino dado não é novidade: é o que resta aos criminosos em filmes do tipo, aos gângsteres que decidem viver à margem, com seus negócios ilícitos.

Os Dead End Kids ganharam destaque no também poderoso e anterior Beco Sem Saída, de William Wyler, e no qual a oposição fica por conta de Humphrey Bogart e Joel McCrea, o bandido que retorna ao seu bairro e o bom homem que vaga por ali.

O ambiente sujo escapa ao realismo: em ambos os casos, os estúdios tentavam – e nem sempre conseguiam – reproduzir o meio urbano e marginal da época, ainda sob os efeitos da Grande Depressão. Por outro lado, esse visual dava vez às falsidades do cinema clássico, o que nunca era um problema por completo.

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Nesse ambiente, Bogart e Cagney podem tramar as saídas mais simples e às vezes menos convincentes e quase sempre convencer o espectador com um desfecho qualquer. Todo o mundo ao redor se torna fácil, destrutível ao menor golpe, ao mesmo tempo acabado em suas oposições, como o enfadonho O’Brien.

Em alguns filmes realizados na década seguinte, como Cidade Nua, o ambiente dos criminosos e da polícia passa a ganhar novos contornos: a cidade torna-se grande demais. Não se fala apenas de um bairro, de alguns garotos, de poucos vilões.

Anjos de Cara Suja ainda guarda as características passadas, como se o mundo em questão não fosse além do observado na abertura, quando a câmera sai à busca dos protagonistas jovens, que se colocam a ver esse mesmo mundo do alto, a dominá-lo.

Esse falso espaço possível, entre bandidos e padres, luzes e sombras, não pode ser repetido – nem sequer pensado – sem parecer distante aos olhos atuais. O filme de Curtiz é uma joia perdida, com um delicioso demônio ao centro.

(Angels with Dirty Faces, Michael Curtiz, 1938)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Os cinco melhores personagens coadjuvantes de Humphrey Bogart

Meu Filho é Meu Rival, de Howard Hawks e William Wyler

O problema do protagonista de Meu Filho é Meu Rival, cuja direção é assinada por Howard Hawks e William Wyler, é não se despregar do passado. Ele tenta e sempre fracassa.

Ao fim, em um instante pequeno, à maneira do cinema clássico, fica clara sua “volta por cima”, quando a personagem busca se redimir. É o momento em que Barney Glasgow (Edward Arnold) bate o sino de sua empresa, em uma festa, como se estivesse na fazenda. Misto de industrialização e selvageria. O homem grita sem parar e avisa a todos que, se não vierem comer, o alimento será dado aos cães.

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O mundo em questão é dividido entre o pai, tragado ao passado, e seu filho, sempre de olho no futuro. Ambos se apaixonam pela mesma mulher, ou pela mesma imagem. Barney um dia amou a cantora de bares Lotta (Frances Farmer). No entanto, preferiu deixá-la para se casar com a filha de um poderoso homem de negócios.

O mundo dá voltas. Chega Richard (Joel McCrea), o filho, a modernização em pessoa. Ele apaixona-se por Lotta, filha da cantora de mesmo nome. Se na época do pai belas mulheres cantavam sobre balcões, as novas querem progredir, têm ambição.

Tão importante à história, a dama é interpretada nos dois tempos pela mesma atriz. No bar do passado, ela canta “Aura Lee”, e os homens param para ouvi-la – e vê-la. Caem como cairiam, depois, aos encantos de Marilyn Monroe em qualquer um de seus filmes de palco, bares e plateias – com selvagens à espreita.

Farmer não deixa curvas ou sexo à mostra. É mais contida, tem olhar penetrante, exala desejo. Dá para entender por que pai e filho começam a guerrear. De tempos diferentes, não resistem à mesma mulher.

Hawks teria feito a maior parte do filme, brigou com o produtor Samuel Goldwyn e deixou a produção. Wyler, outro grande cineasta, assumiu a empreitada. A sequência mais interessante, sem dúvida, é a dor bar, quando Arnold, Farmer e o sempre coadjuvante Walter Brennan (ganhador do Oscar pelo papel) brigam com um bando de homens, lançando bandejas contra vidros e contra tudo ao redor.

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Com fotografia de Rudolph Maté e Gregg Toland, Farmer é filmada em contra-plongée (de cima para baixo), com os homens em posição inferior a ela, no mesmo bar. Trata-se de um plano não muito comum aos tempos de cinema clássico, quando não se revelava o teto dos ambientes em que a história ocorria.

Pouco depois, Toland teria posição de destaque nos créditos finais de Cidadão Kane, de Orson Welles, também com sequências em que se vê o teto dos ambientes. Difícil pensar em dois diretores de fotografia tão bons em um filme como Meu Filho é Meu Rival, hoje quase esquecido. Maté havia trabalhado com Carl Theodor Dreyer na obra-prima O Martírio de Joana D’Arc e faria A Dama de Shangai, mais tarde, justamente com Welles – dessa vez no terreno do noir.

Nem sempre a reunião de gênios resulta em grandes obras. Restam alguns bons momentos, talvez grandes. E um deles, sem dúvida, está na virada final, no sorriso ao mesmo tempo cínico e explicativo do protagonista. Representa a derrota de alguém como Glasgow, figura inseparável da América, do meio dos poderosos, como seria Charles Foster Kane.

(Come and Get It, Howard Hawks e William Wyler, 1936)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Minha Rainha, de Erich von Stroheim