Jeanne Moreau

Jeanne Moreau (1928–2017)

Generosidade, ardor, cumplicidade, compreensão pela fragilidade humana, tudo isso pode ser lido na tela quando Jeanne Moreau representa.

No caminho de meus vinte anos de cinema, as filmagens de Jules e Jim, graças a Jeanne Moreau, permanecem uma recordação luminosa, a mais luminosa.

François Truffaut, cineasta, em 7 de setembro de 1981 (O Prazer dos Olhos – Escritos Sobre Cinema; Jorge Zahar Editor, pg. 250). Truffaut dirigiu Moreau em Os Incompreendidos (no qual empresta apenas a voz), Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (foto) e A Noiva Estava de Preto.

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O Passo Suspenso da Cegonha, de Theodoros Angelopoulos

À pergunta do protagonista – “Por que alguém foge?” – impõe-se outra, talvez mais próxima do mistério de O Passo Suspenso da Cegonha: “Por que alguém se esconde?”. Ao encontrar um possível desaparecido, um político grego influente, o jornalista ao centro da história deverá fazer essa pergunta.

Esse rapaz, em uma cidade grega de fronteira, finca os pés na lama, na neve, em espaço frio. O filme todo não deixa ver o sol. Durante uma reportagem sobre os refugiados, gente de todas as partes e etnias, ele acredita ter captado a imagem do tal político desaparecido, interpretado aqui por Marcello Mastroianni.

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Com Blow-Up, de Antonioni, há apenas essa semelhança: o homem que acredita ter decifrado um mistério a partir de uma imagem, ao acaso. O resto é o oposto: enquanto em Antonioni a imagem constrói dúvidas, e enquanto quase se desenha uma história de suspense, na obra de Theodoros Angelopoulos a imagem leva à verdade.

Não por acaso, ora ou outra o diretor grego retorna a câmera não à ação, mas à pequena tela instalada no interior do furgão da equipe de reportagem. Entrega ao espectador a reprodução da matéria que fazem ali, voltando à pequena tela para tentar revelar a imagem verdadeira, ou a cópia fiel, no ato, do que ocorre.

Um desses momentos mostra justamente o encontro do homem que seria o político desaparecido (agora na pequena cidade da fronteira, vivendo como refugiado) e sua mulher, interpretada pela musa Jeanne Moreau (coincidência ou não, o casal de atores esteve junto, antes, em um filme de Antonioni, o extraordinário A Noite).

À medida que a imagem liberta-se do mistério, o mesmo jornalista (Gregory Patrick Karr) percebe que está preso à realidade da cidade, ao confronto da fronteira, àquelas pessoas desesperadas para pertencer a qualquer lugar. Seus tropeços não serão em vão. E sua condição carrega ironia: ao investigar o desaparecimento de um homem de seu país, encontra o “desaparecimento” de pessoas de outras nações.

Entre vagões de trem, ou mesmo do outro lado do rio, ele depara-se com pessoas que tiveram de viver entre escombros, não necessariamente em fuga. Nessa cruzada, muitas encontraram a morte, como é o caso do incidente real mostrado na abertura, no porto de Piraeus: os asiáticos que se jogaram no oceano após não serem aceitos na Grécia.

Desde o início, Angelopoulos volta a câmera à tragédia dos refugiados. A pequena cidade fronteiriça é o ponto de encontro de etnias, no qual o jornalista vê muitos mundos em um só. A certa altura, na companhia da equipe, assiste ao casamento entre uma jovem e um rapaz, ambos de lados diferentes da fronteira, lados opostos de um rio. O casamento, com seus convidados, é celebrado a distância.

Embalado pelo silêncio, em um filme sobre a difícil comunicação entre pessoas e sobre fronteiras como linhas fictícias, o espectador segue uma personagem pouco a pouco esmagada. Sua corrida termina com nova dúvida: o homem confundido com o político, talvez cansado da mesma cidade, volta a desaparecer.

Em momento de rara beleza, o protagonista vê-se sozinho e ao lado de uma mulher, em um restaurante, enquanto outras pessoas dançam ao redor. O casal encara-se. Em seguida, ela segue-o até o quarto do hotel. É a mesma moça que, pouco depois, casará com o rapaz do outro lado da fronteira, às margens do rio escuro.

O jornalista, ao fim, finca um dos pés na última linha que pertence à Grécia, sobre uma ponte, antes de chegar ao outro país, provavelmente a Albânia. Soldados são vistos do outro lado. Estão prontos para atirar caso alguém avance. Apenas um passo separa um local de outro, a vida da morte. Sobre a linha, o homem mantém-se em frágil equilíbrio.

(To meteoro vima tou pelargou, Theodoros Angelopoulos, 1991)

Nota: ★★★★☆

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Bastidores: Contatos Imediatos do Terceiro Grau

Eu disse a Spielberg: “Não sou ator. Só consigo fazer eu mesmo”. Ele disse: “Ótimo”. O filme começou a ser filmado no dia 14 de maio [de 1976], e, oh, meu deus, ainda não acabou. Deixei claro que era para me mandarem embora se eu não fosse bom. Nunca fiz nenhuma pergunta. Fiz questão de não incomodar o Spielberg. Jeanne Moreau uma vez me disse: “Em todo filme, você tem que amar todo mundo, exceto aquele que vai virar o bode expiatório”. Segui o conselho dela. Fiz de Julia Phillips, a produtora, meu bode expiatório. Toda vez que alguma coisa me desagradava, eu dizia que era sem dúvida culpa de Julia Phillips.

François Truffaut, cineasta, em declaração à jornalista Lillian Ross em 1976, em uma análise chamada François Truffaut por Lillian Ross e reproduzida na revista Serrote (número 20, julho de 2015; pg. 38). O cineasta francês e a jornalista encontraram-se cinco vezes ao longo de 16 anos. Abaixo, Truffaut com o ator Richard Dreyfuss nas filmagens de Contatos Imediatos do Terceiro Grau.

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As mulheres de François Truffaut

As damas são parte fundamental do cinema de François Truffaut. Mulheres belas que enlouquecem por amor (Adèle Hugo), que fazem os homens enlouquecerem (Marion Vergano), que não encontram mais espaço para o amor (Mathilde Bauchard) e, ainda mais longe nessa exploração, que não conseguem inventá-lo (Catherine, a musa de Jules e Jim). Elas, diz Truffaut, são um universo inacessível e misterioso.

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Catherine (Jeanne Moreau), em Jules e Jim – Uma Mulher para Dois

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Colette (Marie-France Pisier) em Antoine e Colette

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Nicole (Françoise Dorléac) em Um Só Pecado

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Clarisse/Linda Montag (Julie Christie) em Fahrenheit 451

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Christine (Claude Jade) em Beijos Proibidos

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Marion Vergano (Catherine Deneuve) em A Sereia do Mississippi

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Ann Brown (Kika Markham) em As Duas Inglesas e o Amor

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Camille Bliss (Bernadette Lafont), em Uma Jovem Tão Bela como Eu

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Julie Baker (Jacqueline Bisset) em A Noite Americana

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Adèle Hugo (Isabelle Adjani) em A História de Adèle H.

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Hélène (Geneviève Fontanel) em O Homem que Amava as Mulheres

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Cecilia (Nathalie Baye) em O Quarto Verde

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Sabine (Dorothée) em O Amor em Fuga

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Mathilde Bauchard (Fanny Ardant) em A Mulher do Lado

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Jules e Jim – Uma Mulher para Dois, de François Truffaut

Há sempre a impressão de incompletude ao longo de Jules e Jim – Uma Mulher para Dois, de François Truffaut. Pedaços pelo caminho, como na cena em que o trio – Jules, Jim e Catherine – caminha pela mata, observando objetos perdidos entre o verde.

Tudo um pouco difuso, com idas e vindas, pessoas que não aceitam definição fácil. Tentam construir algo, mas isso não se concretiza. Buscam o amor, é certo, e este não chega porque talvez desejem amar demais. À frente, Jim (Henri Serre) diz a Catherine (Jeanne Moreau) que eles fracassaram ao tentar encontrar o amor verdadeiro.

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Diz muito, ainda que o essencial: eles teriam fracassado na busca pelo equilíbrio. Triste e verdadeiro, da comédia ao drama, ou à compreensão da derrota. A frase soa poderosa como outra, de Sem Destino, dita por Dennis Hopper, ao afirmar ao amigo que eles jogaram tudo fora. Em Jules e Jim, a busca pelo amor; em Sem Destino, a busca por outro país possível e tolerante. Nos dois casos, a derrota de uma geração.

Em posse do livro de Henri-Pierre Roché, Truffaut leva o público às aventuras de seu trio, às tentativas do amor livre e intenso. Vivem entre guerras: passam por uma, ainda na primeira parte da obra, e chegam às portas da Segunda Guerra Mundial, depois.

Lamentam os rumos da Europa: a essa altura, os alemães já queimam livros em praça pública, com uma enorme fogueira sob o foco da câmera, no cinejornal assistido por Jules, Jim e Catherine. Eles correm à margem da História. Suas histórias, no espaço íntimo, feita de inúmeras idas e vindas, de rompimentos, é o que interessa a Truffaut.

Jules, interpretado por Oskar Werner, é alemão. Jim, um francês. Estão de lados opostos quando estoura a guerra, e se preocupam com a possibilidade de machucar o outro no conflito. Voltam a se encontrar, depois, quando Jules está casado com Catherine.

De difícil compreensão, ela é o ponto central. Irrompe entre os rapazes não para separá-los. É livre, quer amar mais de um homem. Ama os dois. Sua luta, como Jim afirma no mesmo diálogo revelador, no fim, é para inventar o amor. O que o trio vive é um ensaio, uma possibilidade. Jules e Jim é o mais apaixonado dos filmes de Truffaut.

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A bela entre eles, ou com eles, surge aos poucos. Antes de encontrá-la, a dupla descobre estátuas femininas entre a mata. Contemplam a arte – fixa, bela, porém morta. Catherine brinca com os rapazes. Pela rua, na primeira saída a três, resolve confrontá-los: veste-se de homem, intitula-se Thomas, e os convida para uma corrida.

O amor livre proposto por Truffaut vem embalado pela fotografia de Raoul Coutard, com a câmera de um lado para outro, a girar, a seguir a “locomotiva” Thérèse (Marie Dubois), a namorada de Jim que percorre a sala com seu cigarro, soltando fumaça.

O filme é veloz, não para nunca. E, ao mesmo tempo realista, a mise-en-scène de Truffaut permite o irreal, por exemplo, no momento em que o rosto de Catherine é paralisado por instantes para mais tarde ganhar movimento. O diretor brinca com as possibilidades da linguagem cinematográfica em uma aventura de amor, em um universo de exageros, de palavras perdidas, nunca sem sentido.

Como Catherine, Jeanne Moreau tem o papel de sua vida. Não é a “locomotiva” abobalhada, faladora, jovem, tampouco a menina de cabeça oca feita apenas para o sexo e apresentada, a certa altura, para Jim. É, como se define aqui, uma visão, mulher fora de seu tempo. Pode amar dois ou mais homens enquanto tenta inventar o amor.

(Jules et Jim, François Truffaut, 1962)

Nota: ★★★★☆

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