Jean-Pierre e Luc Dardenne

Encontro com Rosetta

Luc Dardenne – Anunciamos que procurávamos moças de 16 ou 17 anos para ser a atriz principal de nosso próximo filme. Recebemos numerosas respostas de moças que queriam atuar. Não recordo quantas.

Jean-Pierre Dardenne – 500 ou 600.

Luc – Mais que isso.

Jean-Pierre – Mantivemos 500 ou 600 na primeira seleção.

Luc – Não, ficamos com 250. Sempre pedíamos por uma carta com foto. Só uma carta de apresentação. Só uma que dissesse “estou interessada…” ou apenas o endereço e uma foto. Baseado nas fotos, pelo menos, você sempre faz uma primeira seleção completa. “Aqui nós temos 250 candidatas em potencial.” Nós as filmamos… Mas não encontramos ninguém naquela seleção. Então, procuramos na pilha de candidatas de novo e acho que Jean-Pierre disse. “E ela?” Nós procuramos de novo nas candidatas dispensadas. E depois uma terceira vez. Procuramos diversas vezes. E então essa garota apareceu na seleção. Estava quente onde filmávamos. Nós mesmos fazemos a seleção. (…) Então essa garota entrou. Ela estava com muito calor. Então dissemos: “tire o suéter”. E ela estava de saltos. Dissemos: “tire seus sapatos”. “Sério?” Ela estava toda maquiada, cabelo feito, parecia a miss Bélgica. “É assim que eu me pareço quando me arrumo.” Então começamos a trabalhar. Ela estava descalça. Ela começou a suar. Seu rímel começou a sair. Seu cabelo, que ela enrolou, começou a se desfazer, porque pedimos para ela fazer algumas coisas várias vezes.

Jean-Pierre – Nós sentimos algo.

Luc – Especialmente em seus olhos. Ela tem olhos magníficos. Eles eram brilhantes, e se destacavam do suor e das lágrimas, porque ela praticamente chora para uma das cenas. Falamos para ela: “nós te avisaremos”. Sua mãe estava esperando na outra sala. Quando olhou para a filha, ela se assustou. “O que eles fizeram com você?” “Nada! Nós só trabalhamos com ela um pouco!” (risos) Ela era a melhor para o papel, mais intensa.

Um relato dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, sobre como encontraram a atriz ideal para interpretar Rosetta, a personagem-título do filme de 1999, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes. A eleita, Émilie Dequenne, também ficou com o prêmio de melhor atriz no festival. O trecho foi retirado de uma entrevista que se encontra nos extras do DVD do filme, lançado no Brasil pelo selo Obras-Primas.

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Os dez melhores filmes de todos os tempos segundo Jean-Pierre e Luc Dardenne

Os talentosos irmãos belgas são lembrados por grandes filmes realistas e já colecionam duas Palmas de Ouro – por Rosetta e A Criança. A lista abaixo foi publicada pelo Instituto Britânico de Filmes (veja aqui), na eleição dos Melhores Filmes de Todos os Tempos, em 2012, que ouviu críticos, cineastas e outros profissionais ligados à sétima arte. A lista está em ordem de lançamento, não de preferência.

Aurora, de F.W. Murnau

História de amor sobre um homem que luta para reconquistar a mulher após tentar matá-la. De repente, nesse ato de reconquista, ambos se vêem pela cidade, por bondes, entre carros. Obra máxima de Murnau.

Tempos Modernos, de Charles Chaplin

Comédia sobre a mecanização do mundo e a exploração dos trabalhadores. “Carlitos nas engrenagens é como o filme passando pelas engrenagens da câmera”, observa Luc no episódio de Chaplin Today para Tempos Modernos.

Alemanha, Ano Zero, de Roberto Rossellini

A história de uma criança entre os escombros da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial. O encontro com a miséria é inevitável nesse filme forte de Rossellini, neorrealista e realizador de Roma, Cidade Aberta.

Os Corruptos, de Fritz Lang

Pérola noir de Lang sobre um policial em busca de vingança, em uma rede que envolve corrupção e mafiosos. Glenn Ford tem um grande momento, mas quem rouba a cena é Lee Marvin, como o bandido Vince Stone.

Rua da Vergonha, de Kenji Mizoguchi

Retrato da prostituição no Japão, tema antes visitado por Mizoguchi no também extraordinário Mulheres da Noite. Em seu último filme, o mestre japonês mostra os dramas envolvendo mulheres de um bordel.

Rastros de Ódio, de John Ford

Como um homem amargo que aprendeu a odiar os índios, John Wayne retorna para casa e logo vê sua família ser destruída. É quando sai pelo mundo em busca das sobrinhas raptadas, na companhia de um rapaz.

Desajuste Social, de Pier Paolo Pasolini

Primeiro longa-metragem de Pasolini. O cenário é a periferia italiana, na qual se vê a personagem-título, cafetão obrigado a fazer mudanças em sua rotina quando sua fonte de renda, uma prostituta, é atropelada.

Dodeskaden, de Akira Kurosawa

Filme do mestre japonês sobre o cotidiano de um grupo de favelados. Está por ali, por exemplo, um menino com deficiência intelectual que dirige um bonde imaginário. Chegou a ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro.

Loulou, de Maurice Pialat

Outra bela obra que dá espaço a seres à margem. Dessa vez um tipo vagabundo interpretado por Gérard Depardieu, com quem Nelly (Isabelle Huppert) termina envolvida. Filme livre e delicioso de Pialat.

Shoah, de Claude Lanzmann

Para muitos, o melhor filme já feito sobre o Holocausto. Obra extensa (566 minutos) que dá voz a sobreviventes, testemunhas e algozes, sem uma única imagem de arquivo. Brilhante estudo sobre a força da memória.

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Bastidores: Dois Dias, Uma Noite

Para Jean-Pierre, em frase que justifica a substituição dos documentários pelas narrativas ficcionais, ainda que sejam construídas com ferramentas documentais, “a ficção é mais interessante do que a realidade”. Em outros termos: a ficção fornece instrumentos para compreender melhor a realidade. Lembremos, por exemplo, a angustiante jornada de Sandra (Marion Cotillard) em Dois Dias, Uma Noite (2014): os pouco mais de 90 minutos que passamos ao seu lado, enquanto luta desesperadamente para convencer os colegas de trabalho a abrir mão de um bônus para que ela mantenha seu emprego, condensam a perversidade das relações de trabalho no modelo capitalista, de modo mais impactante (e, portanto, eficaz) do que extensas reportagens sobre o tema. Há algo de didático, sim, nessa estratégia de cinema político, mas no melhor sentido do termo – aquele que entende ser papel da arte iluminar, e não obscurecer, as engrenagens da sociedade.

Sérgio Rizzo, crítico de cinema, em texto publicado no catálogo da mostra Cinema Humanista – Irmãos Dardenne, do Centro Cultural Banco do Brasil (veja o catálogo completo aqui). Abaixo, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne dirigem Marion Cotillard.

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A Garota Desconhecida, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

A médica e protagonista Jenny Davin (Adèle Haenel) procura por uma identidade. Após saber que uma imigrante morreu e que poderia salvá-la, ela não ambiciona descobrir quem é o assassino, ou seus motivos. Deseja apenas chegar ao nome da vítima.

Move, assim, A Garota Desconhecida, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, que não é mais um suspense envolvendo imigrantes e desumanização. O nome é o primeiro passo – e o último – para conferir um fio de humanidade à mulher morta.

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Algumas revelações surgem à moça na clínica em que trabalha, na qual atende imigrantes com medo de ir ao hospital e serem deportados. O que parece preguiça do roteiro ganha novo contorno: os Dardenne exploram um universo que pertence apenas à médica, colada à câmera, em cena o tempo todo e ao mesmo tempo desconhecida.

Como outros filmes dos irmãos, há uma jornada, pessoas diversas batendo à porta, retornos constantes aos mesmos locais e às mesmas personagens. Situação, de novo, de clausura, com câmera a flagrar detalhes, a respiração, o incansável retorno ao celular e os “tempos mortos”. O visual realista exclui luzes fortes, não há trilha sonora.

Os Dardenne retornam ao cinema rígido que faziam em longas como Rosetta, O Filho e A Criança. Mais tarde, com O Garoto da Bicicleta, explorariam o drama com música. Algo se transformava nessa filmografia repleta de trabalhos importantes e premiados.

Com A Garota Desconhecida, levam à médica, talvez à verdadeira desconhecida que circula pelas casas dos pacientes. Nunca chega a ser uma heroína. É pequena, fria como seu universo, a dizer palavras repetidas a quem interpela, a fumar em sua janela.

Certa noite, enquanto conversa com um estudante de medicina e colega de trabalho, Jenny recusa-se a atender a campainha da clínica. Descobre, pela polícia, que uma mulher em busca de socorro foi assassinada. Justamente quem batia à porta.

A opção dos Dardenne continua a mesma: a aproximação à personagem não deixará saber nunca quem ela é, o que pensa. O acesso, apesar de tamanha proximidade, é impedido: a médica fornece apenas sua caminhada e o filme espalha humanismo a conta-gotas, até chegar ao momento do abraço, no encerramento.

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A busca pelo nome da vítima leva Jenny a diferentes locais, a personagens diversas. Leva a um nome que talvez não seja o verdadeiro, ao cemitério no qual a mulher será enterrada, ao mesmo estudante de medicina (Olivier Bonnaud) – em local afastado – que desistiu da profissão após não conseguir atender um menino que convulsionava.

O início, quando Jenny e o estudante atendem um homem, o tema do filme e o próprio cinema dos Dardenne são expostos: eles silenciam para ouvir a respiração – ou mais: o interior do paciente – e chegar ao diagnóstico. É sobre atingir esse espaço invisível.

No interior vazio apenas às aparências há mais a encontrar: os cineastas deixam sempre os rastros de cansaço da protagonista, e cada retorno ao mesmo ponto, cada giro em falso, cada movimento sem sentido tornam a viagem mais dolorosa.

Diferente de outros filmes dos cineastas, A Garota Desconhecida é otimista. A protagonista justifica essa guinada: mesmo distante, ela deixa-se agarrar. Ao se sentir culpada pela morte de uma mulher, aceita a jornada por um mínimo que não pode ser ignorado, algo cada vez mais em desuso: o nome. Ou, antes, o humano.

(La fille inconnue, Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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Três heroínas de 2015

Heroínas como Katniss Everdeen, da série Jogos Vorazes, são, para muitos jovens frequentadores de cinema, um modelo a ser seguido – às vezes frágeis, às vezes fortes.

A certa altura do novo filme da série, A Esperança – O Final, ela precisa dizer, mais de uma vez, que não há o que fazer senão matar o vilão. É como se justificasse, em outras palavras, o impensável: o único caminho à esperança passa pela morte.

jogos vorazes

A mesma heroína, bela e jovem, não consegue enxergar o que parece óbvio a qualquer adolescente: ela está sendo manipulada pelos líderes rebeldes.

Na verdade, a corajosa Katniss (Jennifer Lawrence) apenas muda de lado, mas continua como sempre. Sai da redoma dos jogos, vistos no primeiro e segundo capítulos, e cai na redoma do mundo real, espaço em que a manipulação dói ainda mais.

Contra essa manipulação de fundo político, a esperança é a própria heroína: emoção pura, menina que não esconde suas lágrimas e seu amor pelo próximo, representação de um cinema juvenil feito para agradar o chamado “público médio”.

Se no mundo à beira do caos de Katniss ainda pode ser salvo, o mesmo não se pode dizer do mundo desértico da Furiosa de Charlize Theron (abaixo) em Mad Max: Estrada da Fúria. Dominado por um ditador que joga água sobre os maltrapilhos com sede, ela quer fugir e, talvez, reencontrar um velho e belo mundo, o paraíso inexistente.

mad max estrada da fúria

Nesses filmes, mais diferentes do que parecem, o ambiente e as possibilidades para o futuro dizem muito sobre suas guerreiras futuristas.

Em Mad Max, o “paraíso”, lá pela metade do filme, revela-se um campo sujo, escuro, com quase nenhuma vida. O paraíso virou inferno. Diferente da possibilidade de terminar com beleza, como Jogos Vorazes, o que resta é o caos.

Não que seja mais realista por isso. O realismo, no caso do filme de George Miller, tem a ver com a abordagem: a rejeição a heróis infantis como Katniss, levados a derrotar o mal com doses pesadas de manjado sentimentalismo.

Furiosa encontra a perda em sua corrida para salvar outras moças do ditador malvado. Vai ao deserto para continuar nele, preso à sua vastidão – depois obrigada a retornar a seu ponto inicial, em guerra, sob os gritos dos maltrapilhos.

Outro tipo de heroína, dessa vez realista, é a Sandra de Marion Cotillard (abaixo). Em Dois Dias, Uma Noite, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, ela não encontra nem a destruição nem a salvação, e precisa revelar bravura a partir de suas complicações.

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Antes dos outros, enfrenta a si mesma, suas crises, seu espelho. Sandra esteve afastada do emprego devido à depressão. Aparentemente recuperada, descobre que sua cabeça foi colocada a prêmio em seu trabalho: os outros funcionários tiveram de escolher entre um bônus em dinheiro e a permanência da protagonista no cargo.

De porta em porta, tem início a peregrinação de Sandra: ela terá de convencer os outros a votar a seu favor e contra o bônus, enquanto quase todos enfrentam problemas financeiros. Crise econômica de um lado, humana de outro.

O cinema, então, permite a existência de uma heroína adulta, sem esconder fraquezas, que encontra na rendição, ao fim, sua vitória. Serve um público adulto, interessado em heróis que compreendem ser menores que o mundo, seu sistema e sua política suja.

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