Jean Arthur

Irene, a Teimosa, de Gregory La Cava

A distância é pequena entre o depósito de lixo e os espaços frequentados pelos mais ricos em Irene, a Teimosa, comédia clássica que une o controlado William Powell à mimada e bela Carole Lombard.

O roteiro não deixa mentir: “A prosperidade está na esquina”, diz a personagem de Powell, Godfrey, mendigo convertido em mordomo. Como um homem chique que a certa altura precisa tocar a barba de Powell para ter certeza que se trata de um desvalido, o espectador tem motivos de sobra para duvidar de sua imundice.

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Ela passa rápido. E Powell, à vontade, estará a circular em festas de gente poderosa, gastona, de pessoas exageradas que riem e bebem sem parar, que enxergam gnomos em suas manhãs de ressaca, que precisam de conselheiros para dizer o óbvio. É essa pouca distância entre o lixo e o luxo, sobretudo quando o ridículo põe-se do lado esperado, que faz de Irene, a Teimosa um perfeito exemplo do cinema de sua época. Ou o perfeito exemplo do espírito americano de sua época.

O mendigo em questão sabe o que é viver no lado oposto. Antes de ser o homem pobre de barba saliente, Godfrey era rico. Perdeu tudo e, com um novo terno, mais uma vez entre os abastados, encontra a deixa para recuperar seu dinheiro e empreender.

Vencer a distância entre lados será possível, claro, pois se trata do cinema hollywoodiano dos anos 30, em plena Grande Depressão, quando sonhos eram vendidos sem qualquer vergonha. O amontoado de latas e sujeira a céu aberto cede espaço para a passagem de moças ricas montadas em brilhantes vestidos de cetim.

Na Hollywood em questão, a menina ao centro, Irene (Lombard), podia se sentir atraída pelo homem errado (o mendigo) sem correr o risco de errar (afinal, ele é fino demais). É só uma questão de esconderijo, de voltas que levam ao esperado, sabe o público.

A comédia do diretor Gregory La Cava tem leveza e infantilidade, é ágil, com sofisticação e amostras da bobagem de um grupo no qual o mais interessante é o mordomo – como prova o amor da menina inocente, capaz de enxergar sua grandeza. E não será a única a se apaixonar por Godfrey. Lombard, com carne saliente, com seus pulinhos sobre a cama e forma fantasmagórica ao ser rejeitada, lega ao cinema clássico uma imagem tão poderosa quanto a de Jean Arthur nas comédias de Capra.

A química entre o casal é perfeita, também entre todos em cena: entre o pai nervoso com as contas da casa e sua mulher gastona e burra, entre as filhas, cada uma como um tipo de mulher (a loira e a morena), entre diferentes classes sociais.

Por curioso que pareça, Irene, a Teimosa não chega a ser uma história de amor ou farsa completa. A mudança, com a transformação do lixão em casa de shows, ao fim, dá o tom de esperança, como se fosse possível escapar da sujeira, superar a Depressão que recaia sobre todos.

Em meio à comédia de regras próprias, feita à forma da screwball desse mesmo tempo, o filme não pede para ser levado a sério. Supera a relação entre o casal, que termina mesmo como brincadeira, quando Irene não tem mais dúvida sobre sua paixão, quando Godfrey tem todas as dúvidas sobre esse relacionamento. A essa altura, esse é o menor dos problemas: o amontoado de lixo transforma-se em festa.

(My Man Godfrey, Gregory La Cava, 1936)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra

John Ford, anos 30

Antes de revolucionar o faroeste com No Tempo das Diligências e se tornar sinônimo do gênero, John Ford realizou algumas das melhores aventuras dos anos 30. Passou pelos filmes de guerra, pelo subgênero “catástrofe” e, às beiradas, até mesmo pelo cinema político.

A década prova que Ford está além do faroeste. E, à época, era um realizador confiável aos estúdios, que havia aprendido tudo sobre o ofício ao lado de mestres como D. W. Griffith. Em O Nascimento de uma Nação, Ford fez uma ponta como ator.

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no tempo das diligencias

Seus filmes dos anos 30 têm em comum a agilidade, histórias simples – no bom sentido do termo – e grandes sequências de ação. É o cinema clássico em plena atividade, com o diretor lançando até três filmes por ano, como em 1935, com O Homem que Nunca Pecou, Nas Águas do Rio e O Delator. O último lhe valeu seu primeiro Oscar.

A guerra é tema constante em sua obra. Sob as Ondas, de 1931, chama a atenção pela leveza e distância como trata as personagens, sem grande peso dramático. É sobre um grupo de marinheiros americanos contra um imbatível submarino alemão. Sua sequência final, com bombardeios e soldados escondidos em um barco, é poderosa.

O mesmo se vê no desfecho de A Patrulha Perdida, de 1934: do mar aberto, Ford passa ao deserto, com estranhos soldados em conflito, do grandalhão Victor McLaglen ao sempre sinistro Boris Karloff. E o último, famoso por interpretar o monstro de Frankenstein, é o fanático que pode colocar tudo a perder.

McLaglen, colaborador frequente de Ford, imortalizado pelo Judas em busca do perdão em O Delator (foto abaixo), é o último dos homens nesse grande filme de guerra. Se o ator deixa certezas sobre seu heroísmo em A Patrulha Perdida, no outro ele investe na face do perdedor que entrega o melhor amigo, revolucionário irlandês, às autoridades.

o delator

Ao lado de A Mocidade de Lincoln, O Delator é o drama mais famoso de Ford da década de 30. No entanto, e à contramão de boa parte dos filmes americanos desse momento, aposta em uma personagem difícil, amarga, verdadeira derrotada.

O Gypo Nolan de McLaglen deseja mudar: ele encontra a amada em vida degradante, entregue à prostituição. Precisa de dinheiro para mudar. Precisa controlar seus vícios, ou simplesmente suas emoções: deixa ver ainda mais sua culpa a cada movimento rumo às pessoas que traiu. Entrega-se com pouco, enquanto o ator tem grande atuação.

Como Ford, McLaglen ganhou um Oscar. Desbancou três atores que concorriam por O Grande Motim – entre eles Charles Laughton, como o inesquecível capitão Bligh.

Os tipos errantes de Ford fazem a diferença. São coadjuvantes que roubam a cena, talvez por mostrarem mais realidade, ao contrário dos heróis. É o caso do também grande Thomas Mitchell, como o médico beberrão que precisa fazer um parto em meio à catástrofe que coloca fim a O Furacão (foto abaixo), de 1937.

furacão

As mesmas “imperfeições”, depois, com o mesmo ator: em No Tempo das Diligências, Mitchell é o embriagado e falador Josiah Boone, dessa vez em uma caravana que sintetiza os Estados Unidos, com a “terra de John Ford” ao fundo.

Por outro lado, há algum excesso de perfeição, ou a necessidade de heroísmo nesses dois filmes – nos anos de idealização de certo tipo imbatível, anterior à guerra que se avizinha. São estampados no Terangi de John Hall e no Ringo Kid de John Wayne.

A melhor coisa de Quatro Homens e uma Prece, por sinal, é outro tipo engraçado, o mulherengo vivido por David Niven, que cria sons inesquecíveis para se comunicar com um garçom latino, em um barco cheio de bandidos, em filme pouco marcante.

Outra figura de destaque nos filmes de Ford dos anos 30 é o ator Will Rogers. Era sempre o mesmo, com filmes na medida: o bom americano honesto e caipira. Duas belas obras mostram essa face: Juiz Priest (foto abaixo) e Nas Águas do Rio.

juiz priest2

No primeiro, Rogers é o juiz interiorano disposto a combater a força dos cínicos que desejam tomar seu tribunal. Ele rejeita a seriedade vista, mais tarde, no jovem Lincoln, em 1939. Ao contrário, torna o tribunal um local tranquilo e alegre.

Mágico sem qualquer esforço, Priest resolve questões por acaso: é o tipo que se debruça no túmulo da mulher, à noite, para lhe fazer companhia. Não requer quase nada. Vive para unir os outros, os mais jovens. Protagonista do filme, mas coadjuvante daquele universo. O mesmo ocorre a ele em Nas Águas do Rio.

Em mais uma parceria entre Ford e Rogers, o ator é John Pearly, comandante de um navio e na companhia de uma bela menina simples. Ambos desejam salvar o companheiro dela, injustamente condenado à morte. Os Estados Unidos sulistas de Ford incluem religião, fanatismo e homens dispostos a fazer sua própria Justiça.

Dois homens em um, em Edward G. Robinson, podem ser vistos no ótimo O Homem que Nunca Pecou (foto abaixo). O ator de Alma no Lodo interpreta duas personagens, ao mesmo tempo o profissional exemplar de um grande escritório e um temido criminoso.

o homem que nunca pecou

Robinson pode ser as duas coisas com igual excelência, enquanto Ford brinca com as excentricidades de seu país, enquanto homens engravatados adiantam-se para cuspir fogo, e enquanto Jean Arthur – imortalizada graças às personagens dos filmes de Frank Capra – deixa tudo ainda mais descompromissado.

Mais tarde, com No Tempo das Diligências e A Mocidade de Lincoln, ambos de 1939, o cinema de Ford chega a outro patamar. Faria novas obras-primas em décadas seguintes. Os anos 30, para ele, sinalizam um diretor em perfeita sintonia com o sistema de estúdios, com características esperadas para seu tempo, e outras nem tanto.

Veja também:
Bastidores: O Delator
Juiz Priest, de John Ford