Jack Clayton

Os Inocentes, de Jack Clayton

Consideradas inocentes, as crianças soam intocadas perante os adultos. Demora para que a senhorita Giddens – por corredores entre sombras e luzes, à procura da resposta para os problemas da grande casa habitada por espíritos – compreenda que as crianças podem ser más, e que talvez tenham aprendido tudo com os mais velhos.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A protagonista, na pele de Deborah Kerr, quer descobrir o que aconteceu na casa em que acaba de chegar. Espíritos começam a se comunicar com ela, possuem alguma ligação com as crianças das quais passa a cuidar, os irmãos Miles (Martin Stephens) e Flora (Pamela Franklin), com comportamentos estranhos, falas inesperadas.

Não são raros os filmes de terror nos quais o espectador é posto no lugar da criança, em busca da compreensão do mundo adulto. Leva à pergunta: por que são tão maus? Em Os Inocentes, de Jack Clayton, o caminho é outro: as crianças dissimulam, ocultam, mentem, falam como se tivessem todas as certezas à medida que se recussam a ver os fantasmas.

Os adultos – simbolizados por Giddens – vagam perplexos ao ranger da madeira, à luz dos castiçais, ao som do vento na janela com cortinas trêmulas, à volta das estátuas que em algum momento dão espaço à aparência humana, ao espectro que flerta, ri, eleito o agente de todo o mal e, em vida, o suspeito de sempre, o empregado da casa.

Com outra empregada, Giddens descobre a história de um tal Peter Quint, que, antes de morrer, teria se envolvido com a senhorita Jessel, antiga educadora das crianças, também morta. Os espíritos retornam, nunca se encontram. A certa altura da noite, pelos corredores da casa, Giddens ouve o sussurro dos mortos, o indicativo dos problemas: os amantes viveram em conflito e foram assistidos pelas crianças.

Os mais novos refletem os mais velhos. Os fantasmas cobram algo, ou talvez sejam um delírio de Giddens para justificar a maldade das crianças. Só ela consegue enxergá-los: imagens distantes e sons em eco, vidas passadas que se insinuam, amor certamente proibido que confronta a aparência frígida da protagonista recém-chegada.

Ao som dos sussurros, das frases soltas, do pouco que se sabe sobre os amantes mortos, Giddens praticamente flutua por corredores, cabelos soltos, como se chegasse perto de uma libertação, do que crê ser seu grande achado: o que esconde a casa, ou o que escondem as pessoas que habitam o local, que se negam a dizer a verdade.

Kerr, hipnotizada, puritana, é perfeita ao papel. Precisa confirmar o que vê, os espíritos que enxerga, com alguma distância, nesse exercício de esforço. A busca pela confirmação casa-se, segundo Clayton, às distâncias que tem de percorrer no espaço, ou, principalmente, à distância entre o olho e o ponto observado.

Nenhuma sequência reproduz tão bem essa ideia quanto a do golpe de luz, momento em que vê, do jardim, com olhos ao alto, o fantasma de Quint no topo do castelo. O cinema como expressão da busca, o que passa igualmente pelos retornos constantes à face da mulher abobalhada, religiosa demais para não desistir de suas crenças.

Com direção de fotografia do grande Freddie Francis, a partir do livro de Henry James, poucas vezes se expressou tão bem o ponto de transição entre o suspense e o terror, entre a expectativa do que se encontrará e o que efetivamente se vê em tela.

O uso constante da profundidade de campo, que tudo põe em foco, causa dúvida sobre o verdadeiro tamanho desse universo e a distância percorrida entre um ponto e outro, entre o que separa a protagonista e os fantasmas que vê – do outro lado do lago, sobre o castelo, entre estátuas, através da vidraça. Por essas formas de ver, Os Inocentes é sobre o movimento da mulher à descoberta, à possível relação entre crianças e espíritos.

(The Innocents, Jack Clayton, 1961)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Vídeo: Os Inocentes
Bastidores: Os Inocentes

20 grandes filmes sobre a morte do sonho americano

Importante dizer, de partida, que o chamado “sonho americano” é um rótulo, utopia embalada pela televisão, pela propaganda de margarina, pelo cinema idealista dos anos 30. O american way of life, com sua economia robusta, suas famílias suburbanas felizes, direitos iguais para todos, não resiste ao retrato da realidade – seja pela comédia ou pelo drama de contornos obscuros – levado à frente pela da lista abaixo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Existem outros vários filmes sobre a degradação desse ideal americano que ficaram de fora da relação. A lista também traz longas-metragens que se banharam em livros conhecidos, de autores como John Steinbeck e F. Scott Fitzgerald. Ainda assim, a visão dos cineastas tem peso maior, com narrativas de forte impacto. À lista.

Fúria, de Fritz Lang

Austríaco e fugitivo do nazismo, Lang deu vez a uma história sobre intolerância em seu primeiro filme americano, no qual um homem é considerado culpado por um crime que não cometeu. Do lado de fora da prisão, a multidão descontrolada pede seu pescoço.

fúria

Alma em Suplício, de Michael Curtiz

Esse filme noir traz Mildred Pierce (Joan Crawford), cuja escalada social será acompanhada pela degradação da filha, a quem a protagonista tenta dar a melhor educação. A história é contada em flashback, à polícia, após o assassinato do ex-marido de Mildred.

alma em suplício

O Cúmplice das Sombras, de Joseph Losey

O policial de Van Heflin descobre uma mulher casada, em uma bela casa de subúrbio, sozinha enquanto seu marido apresenta um programa de rádio. Passa a frequentar o local, torna-se seu amante. O destino desses fracassados tomará rumos inesperados.

o cúmplice das sombras

Vidas Amargas, de Elia Kazan

Vários filmes de Kazan tratam da morte do sonho americano. Nenhum deles, contudo, de maneira magistral como Vidas Amargas, da obra de Steinbeck, sobre um rapaz (James Dean) filho de um pai religioso e de uma mãe prostituta, em busca do amor de ambos.

vidas amargas

Delírio de Loucura, de Nicholas Ray

James Mason interpreta um professor pai de família que passa a ter comportamento violento com a mulher e o filho após iniciar um tratamento com cortisona. Esse remédio – amostra “milagrosa” da vida moderna – não garantirá a continuidade da família.

delírio de loucura

O Indomado, de Martin Ritt

A sequência mais famosa dá ideia da degradação geral: pai, filho e outros rancheiros matam o rebanho doente da fazenda. O filho (Paul Newman) quer vendê-lo mesmo assim, o pai (Melvyn Douglas) é contra. Por esses contrapontos, a família aos poucos se dissolve.

o indomado

O Beijo Amargo, de Samuel Fuller

A Kelly de Constance Towers esbofeteia seu cafetão antes de ir embora. Migra à pequena cidade interiorana, a uma “outra” América, indo trabalhar como enfermeira em um hospital para crianças com deficiência. Ali, apenas as crianças serão verdadeiras.

o beijo amargo

Sem Destino, de Dennis Hopper

Outra América é o que esperam também os motociclistas chapados de Hopper e Peter Fonda. Ganham um pouco de dinheiro e destroem um relógio antes de embarcar nessa viagem igualmente existencial – e repleta de intolerância, a dos outros.

sem destino

Perdidos na Noite, de John Schlesinger

Enquanto canta, no chuveiro, o caipira Joe Buck (Jon Voight) sonha acordado com as belas mulheres que almeja encontrar, na cidade grande, trabalhando como gigolô. A realidade é outra: termina quase sem nada, apenas com a companhia do marginal Ratso (Dustin Hoffman).

perdidos na noite

A Noite dos Desesperados, de Sydney Pollack

Nos tempos da Grande Depressão, algumas pessoas decididas a ganhar dinheiro se arriscam em um jogo insano: precisam sobreviver ao cansaço, horas sem dormir, em uma pista de dança na qual se convertem no centro de um espetáculo doentio.

a noite dos desesperados

O Grande Gatsby, de Jack Clayton

A versão de Baz Luhrmann desaparece quando comparada ao elegante trabalho de Clayton, a partir do livro de Fitzgerald, com suas passagens entre o paraíso e o inferno, seus amantes condenados, todos gravitando em torno do poderoso Gatsby (Robert Redford).

o grande gatsby

Stroszek, de Werner Herzog

Um rapaz com aparente problema mental (Bruno S.), uma prostituta (Eva Mattes) e um baixinho (Clemens Scheitz) saem da Alemanha para tentar a vida na América. Após os imaginados fracassos, como a perda da casa, eles decidem aderir à violência.

stroszek

Eles Vivem, de John Carpenter

A sociedade capitalista é descortinada de forma original nessa ficção científica: o mundo foi dominado por alienígenas que não se deixam ver, nem suas mensagens. O herói grandalhão (Roddy Piper) só consegue enxergá-los quando utiliza óculos especiais.

eles vivem

Nascido em 4 de Julho, de Oliver Stone

Antes uma criança que brincava com armas, jovem apaixonado e patriota, o protagonista (Tom Cruise) retorna do Vietnã em uma cadeira de rodas. Repensa tudo, muda de lado: não demora a protestar, a aderir às passeatas contra seu próprio governo.

nascido em 4 de julho3

O Sucesso a Qualquer Preço, de James Foley

Sob as ordens do chefe, alguns corretores imobiliários correm para vender mais e cumprir as metas, em noite chuvosa. O roteiro é de David Mamet, baseado em sua própria obra. O protagonista, entre o cômico e o cínico, é ninguém menos que Jack Lemmon.

o sucesso a qualquer preço1

Felicidade, de Todd Solondz

Painel sobre a vida privada dos moradores de subúrbio, com seus segredos e a busca pela inclusão. Há o pai de família pedófilo, a solteira chorona em busca do “príncipe encantado”, o rapaz solitário atrás de sexo fácil, a escritora frustrada, entre outros.

felicidade

Beleza Americana, de Sam Mendes

O protagonista (Kevin Spacey) sonha com as rosas vermelhas que saltam do corpo da bela garota (Mena Suvari), ninfeta e amiga de sua filha. Outro painel de degradação da doce vida americana, com tipos variados como o vizinho que vende drogas e seu pai militar.

beleza americana

Longe do Paraíso, de Todd Haynes

O tempo e as cores de Douglas Sirk. Também os traços de suas personagens, a sociedade que desaba, a família infeliz. Em cena, uma dona de casa (Julianne Moore) descobre as inclinações homossexuais do marido enquanto se encanta com a presença de um jardineiro negro.

longe do paraíso

O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

O consagrado diretor de Taxi Driver vai a Wall Street mostrar a trajetória de jovens em busca de dinheiro fácil, sem qualquer humanidade. A vida é uma diversão feita de escritórios abarrotados com homens caçando números, de orgias paralelas. É a loucura americana.

o lobo de wall street

O Ano Mais Violento, de J. C. Chandor

O ano é 1981, quando os índices de criminalidade foram os mais altos em Nova York. Nesse cenário, o jovem empresário Abel Morales (Oscar Isaac) tenta conquistar espaço com sua empresa, ao lado da mulher “perfeita” (Jessica Chastain) e homens estranhos. Ser honesto não será fácil.

o ano mais violento

Veja também:
Os cinco melhores filmes com Kevin Spacey
Cinco filmes recentes sobre o capitalismo selvagem

Bastidores: Os Inocentes

Fosse ela uma adúltera (A Um Passo da Eternidade) ou uma freira (O Céu é Testemunha, de John Huston), o espectador podia estar seguro de que ia ver na tela uma atriz capaz de expressar sentimentos viscerais da mulher. Talvez tenha sido este o grande legado de Deborah Kerr. Na sua grande fase, ainda anterior ao feminismo, ela humanizou a mulher no cinema, abordando seus sentimentos em relação ao amor e ao sexo em papeis (e filmes) que se tornaram inesquecíveis. A inválida de Tarde Demais para Esquecer, de Leo McCarey; a amante do pai hospitalizada pela jovem Jean Seberg em Bom Dia, Tristeza, de Otto Preminger; a governanta das crianças que podem estar possuídas de Os Inocentes, terror gótico de Jack Clayton; a missionária reprimida de A Noite do Iguana, que John Huston adaptou de Tennessee Williams; e o novo casal adúltero que ela formou com Burt Lancaster em Os Pára-Quedistas Estão Chegando, de John Frankenheimer, mostraram que essa grande dama não temia subverter a própria imagem, para melhor servir a seus personagens.

Luiz Carlos Merten, crítico de cinema, em O Estado de S. Paulo (leia aqui). O texto foi publicado na ocasião da morte de Deborah Kerr, em 2007.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

os inocentes

Veja também:
Bastidores: Lolita

Stavisky…, de Alain Resnais

O jeito de Jean-Paul Belmondo não deixa mentir. Ou o contrário: permite que se minta a todo o momento, ainda que o espectador, em Stavisky…, reconheça essa mentira.

Como Serge Alexandre Stavisky, ele é revestido de beleza pelo diretor Alain Resnais, em uma história supostamente verdadeira. Os letreiros da abertura, sobre liberdade de interpretação, são uma desculpa.

Simples: todo filme supostamente baseado em eventos reais lida, diretamente, com a ficção. Questões da falsidade. “Fatos reais” existem apenas na realidade. O Stavisky… de Resnais toca a verdade a partir de ideias, de seu resultado final.

stavisky foto

Para tanto, Belmondo não precisa se preocupar. Ele está à vontade, como o trapaceiro rico, o galã irresistível, talvez o político que deseje mudar as regras do jogo quando se fala, sem parar, em Hitler, Mussolini, fascismo na Espanha, Stálin e Trotsky.

Mais ainda, o líder soviético caçado pelo estalinismo é observado aqui, em paralelo, na época em que se exilou na França. Em momento algum ele encontra Stavisky.

Para Resnais, interessa mais o estado do mundo a partir do trapaceiro, não do idealista. Ou, como parece irônico, os trapaceiros são aqueles que na verdade bagunçam as coisas. A Justiça deveria estar mais atenta a eles, menos aos idealistas políticos.

Enquanto Trotsky é recebido na França, Stavisky desfila por belos elevadores de madeira lustrada, com parceiros, assistentes, passando pelo teatro, a olhar todos aqueles que vivem para ele. A questão teatral é cara: Stavisky, no fundo, é um grande ator.

Nesses golpes políticos, de fascistas a negociadores, todos precisam de interpretação. Como em O Conformista, de Bertolucci, a beleza serve para se aliviar tudo o que é inegavelmente podre. Mas não consegue esconder o pior.

O rico trapaceiro está com seus negócios em ruínas: faz dívidas para manter sua vida como está, com seus jogos, gastanças noite adentro e belas mulheres. Abrir mão de tudo aquilo é renunciar à respiração, à vida.

stavisky foto2

Ao seu lado está o sinal do passado, um velho barão interpretado por ninguém menos que Charles Boyer, cuja classe foi emprestada várias vezes ao cinema clássico. É tipo de ator que, com pouco, impõe grande respeito.

O filme de Resnais nasce dessas fusões e é mais formal quando comparado às suas obras passadas, como Muriel e A Guerra Acabou. No entanto, ainda há algo em comum com os outros: a personagem Stavisky é um camaleão, alguém que não se deixa revelar.

Ou vale questionar, ainda, se ela não seria alguém autêntica, que representava os excessos de sua época, dona de uma morte mal explicada. Fica o que parece evidente: a morte por suicídio, como ocorreu ao pai.

Há grande cuidado com o visual, a ponto de parecer falso, ou uma imagem emoldurada de um tempo perdido – como em O Grande Gatsby, de Jack Clayton. O teatro ajuda a compor essa ideia, ou simplesmente a forma como o palco parece importante para Stavisky. A certa altura, ele chega a ler um texto em um teste de elenco.

Interessante notar o desejo do protagonista em estar em meio à política. Por isso, cai em descrédito: ela é feita não por idealistas, mas por malandros da alta sociedade, homens de ternos caros, cercados por belas mulheres, flores brancas e pedras preciosas. Aos idealistas resta o deslocamento, o exílio. O mundo não pertence a eles.

Nota: ★★★☆☆