Ingmar Bergman

O Ovo da Serpente, de Ingmar Bergman

Ao homem incapaz de matar, cadáveres surgem por todos os cantos. Em uma Alemanha aos pedaços, em ritmo de transformações, ele caminha sobre rastros de sangue, às sombras, em becos escuros, sob o efeito das bebedeiras. Logo no início de O Ovo da Serpente, depara-se com o irmão morto, suicida, no interior do quarto em que vivia.

O protagonista em questão é o trapezista judeu Abel Rosenberg (David Carradine). Ao eleger alguém sem forças para vencer os problemas, ou ao menos tentar confrontá-los, Ingmar Bergman indica o suficiente: essa é a história dos perdedores, das pessoas que assistiram à queda de uma nação e à ascensão do mal, ao seu nascimento.

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É, por isso, sobre espectadores passivos, seres controlados, experiências estranhas que envolvem ciência e pessoas como marionetes para dentro dos prédios escuros dessa mesma Alemanha. Em Lanterna Mágica, Bergman afirma ter criado uma Berlim que ninguém reconheceu, espaço que talvez não fosse o de seus sonhos, tampouco o real.

O filme guarda certo mistério, é algo único na carreira do cineasta, nem político demais nem mergulhado demais no interior das personagens. Há sempre a tentativa de se expandir o campo de visão, de mostrar muito, de dar forma a esse painel, nessa Berlim refeita em estúdio – à contramão dos primeiros planos e closes típicos de Bergman.

Obra estranha sobre o nazismo ao olhar dos desvalidos, dos pobres, bêbados e prostitutas, artistas que desistiram, pessoas que correm aos cabarés enquanto estes ainda não foram destruídos, culpados por explorar a “arte degenerada”. A arte que resiste banha-se no erotismo, no desejo, no palco em que as mulheres mesclam-se aos homens vestidos como elas, aos “defeituosos” que refletem a verdade indigesta, a fuga.

A história foi contada outras vezes: entre os pecadores, não surpreende, estão os próprios nazistas, pessoas que depois estariam entre as fileiras de um tal Adolf Hitler. Repete um pouco do que se viu em Os Deuses Malditos, Cabaret e, em menor medida, O Porteiro da Noite. A distância entre o autoritarismo e a devassidão, entre os “gênios” que enxergam o futuro e os corpos livres, é sempre muito pequena.

Abel, diferente das personagens dos outros filmes citados, não está de lado algum. Essa é sua tragédia: ele desistiu do circo e não acha nada atraente a violência que toma forma nas ruas, nos mesmos becos pelos quais passa em voltas noturnas. Para o cineasta, Abel é a resposta àqueles que decidiram saudar os nazistas: a vítima que compartilha apenas o olhar, com dificuldades para fugir, sem posição a tomar.

Para Bergman, que flertou com o nazismo na adolescência, o protagonista não poderia ser um herói. Seu filme tem traços de Kafka: mesmo quando tenta abrir, expandir a visão, o que se vê é o aprisionamento, grades e paredes, além da culpa que Abel encontra em si próprio. Ao chefe da polícia, afirma que é perseguido por ser judeu.

Bergman oferece um mundo sem chão, sem horizontes, feito de paredes deterioradas, de prédios como túmulos de arquivos e dos quais seus cientistas observam a massa que se erguerá em revolta, a serpente que pode ser vista através do ovo, a nascer. Nesse país miserável, não faltam candidatos para cobaia em algum teste de substância qualquer, aos olhos dos mesmos cientistas que consideram o homem um erro.

“O homem é uma deformação, uma perversidade da natureza”, diz o cientista Hans (Heinz Bennent) para Abel, perto do fim, após o protagonista perder a companheira, ex-mulher de seu irmão (Liv Ullmann). Abel reconhece não ter o controle de sua própria vida, assistido e perseguido pelos poderosos, entre a ciência e os sinais do autoritarismo.

(The Serpent’s Egg, Ingmar Bergman, 1977)

Nota: ★★★★☆

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Bergman segundo Scorsese

Nos anos 1950, havia certos filmes e cineastas que tinham um impacto dramático nos espectadores, nas possibilidades do cinema, no que podiam fazer e até onde podiam ir. Havia Kurosawa, com Rashomon (1950) e Os Sete Samurais (1954). Havia Fellini, com Noites de Cabíria (1957) e A Estrada da Vida (1954). Havia Satyajit Ray com a trilogia Apu. Havia os filmes russos como Quando Voam as Cegonhas (1957). E havia Bergman. É impossível superestimar o efeito que esses filmes tinham nas pessoas. Não que Bergman tenha sido o primeiro artista a confrontar temas sérios. Mas ele havia trabalhado com uma linguagem simbólica e emocional que era séria e acessível. Ele era jovem, impunha um ritmo incrível, mas tratava de memória, de velhice, da realidade da morte, da realidade da crueldade, e fazia tudo de forma tão vívida, tão dramática. A conexão de Bergman com o público era um pouco como a de Hitchcock – direta, imediata.

Martin Scorsese, cineasta, em entrevista a Stig Björkman (íntegra da entrevista feita em 2010 para o documentário …Mas o cinema é minha amante, publicada no catálogo da mostra Ingmar Bergman, de 2012, do Centro Cultural Banco do Brasil; pg. 197).

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A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman

O estupro seguido de assassinato choca o espectador. Impossível esquecer o rosto da menina, a bela Birgitta Pettersson, enquanto olha ao algoz, enquanto escorre sangue por sua face, depois de ser golpeada. Ela não tinha motivos para duvidar das maldades até então: era apenas uma menina pura que seguia para a igreja, em dia de sol.

Sua morte será um teste ao espectador quando são cometidos outros crimes em A Fonte da Donzela. Nas situações que se seguem, seu pai ficará frente a frente com os assassinos. Por sinal, encontrará os criminosos antes mesmo de encontrar o corpo da filha, pela floresta. Os responsáveis aparecem em sua propriedade por acaso, ganham abrigo.

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Ingmar Bergman mostra como os preceitos cristãos sucumbem ao desejo de vingança, à violência como saída, ao “olho por olho, dente por dente”. O pai não consegue se controlar. Ainda pensa, sofre sem fazer algo, sem dizer. Investe contra uma árvore no alto de um morro e, por instantes, Bergman oferece apenas ele, em plano geral, tentando, com força e fúria, derrubar a mesma árvore, ao menos incliná-la, retirar suas folhas.

Sob o olhar de Bergman, os crimes seguintes serão tão cruéis quanto o primeiro. Há entre as vítimas uma criança, além de dois adultos. São três irmãos. Na manhã seguinte, quando o pai da menina ataca os culpados, subitamente eles parecem mais humanos. O efeito é estranho: no momento da morte, frágeis, tentam escapar da casa fechada.

O pai vingador, interpretado por Max von Sydow, converte-se agora no algoz, aos olhos da mulher, a mais religiosa das personagens. Tomada igualmente pela dor da perda, ela deseja que se faça a vingança. Bergman leva primeiro à realidade; o extraordinário vem depois.

Ao encontrarem o corpo da menina na mata, sua família e moradores das redondezas assistem a um milagre: do espaço em que estava seu corpo jorra água em abundância, surge uma fonte à qual se lança uma das personagens, uma mulher grávida (Gunnel Lindblom), a típica impura vista com desconfiança por todos ao redor.

O gesto de Bergman, a partir do roteiro de Ulla Isaksson, tem efeito semelhante ao de Carl Theodor Dreyer no encerramento de A Palavra: o milagre, nessas histórias, é o ponto de rompimento com o materialismo, com os movimentos até então explicáveis, atos medidos pela razão ou, como é o caso de A Fonte da Donzela, pela inevitável selvageria.

Ambos os filmes confinam o espectador nas relações do grupo, de poucas pessoas, entre famílias, ambientes em que todos se conhecem. Há os aceitos, os adaptados; há os que se despregam, que ousam confrontar os outros. Em Bergman, a mulher solteira e grávida, que crê nos deuses nórdicos, não no cristianismo; em Dreyer, o filho que diz ser Jesus Cristo. Convivem entre todos, ainda que se separem o tempo todo.

Nesses filmes, a prisão é iminente. São sufocantes, estreitam a visão, levam o público a mergulhar em universos que não escondem certo esquematismo, nos quais não há coincidências. Em A Fonte da Donzela, os criminosos não poderiam ir a outro lugar senão à casa da família da vítima. Naquela noite, o pai não poderia negar o abrigo, o espaço na mesa, a cama com palha à criança com frio.

E à mesma criança um dos moradores da grande casa conta a história que resume o todo, parábola sobre o confinamento, sobre a chegada da morte. Fala da fumaça trêmula presa à casa, como se “estivesse com medo”, enquanto “só precisa do ar, e lá fora tem todo o espaço para si”. Mas ela, a fumaça, não sabe. Fica por ali.

Na manhã seguinte, quando o pai volta-se aos criminosos, um deles tenta escapar pelo vão do teto, como a tal fumaça trêmula. Tarde demais. Por algum motivo inexplicável, essas pessoas são conduzidas sempre ao mesmo caminho, à sombra da morte, ao passo que o espectador – ainda que relute, que recorra à consciência – deverá desejar a vingança perpetrada pelo pai, contra os homens que atacaram sua menina não muito longe dali.

(Jungfrukällan, Ingmar Bergman, 1960)

Nota: ★★★★☆

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