infância

Rubens Ewald Filho (1945-2019)

Não sei dizer bem como o meu amor pelo Cinema começou. Amor é uma palavra forte mas apropriada. Deve ter sido em algum momento da minha infância reprimida e bloqueada. Não me lembro de nada de antes dos cinco anos. (…) Não sei que mecanismo mágico me protegeu quando criança, mas o fato é que esse vício adquirido de pequeno foi o que me salvou através de anos de insegurança, complexos e relacionamentos mal resolvidos. Quando tudo o mais falhava, sempre me restava o Cinema. E isso ainda é verdade, quando sofro alguma rejeição, pessoal ou profissional, o Cinema nunca me trai. Ainda mais agora, que você pode ter seu filme favorito em casa, em vídeo ou DVD. Portanto, de certa forma você nunca está sozinho.

Rubens Ewald Filho, crítico de cinema, em Rubens Ewald Filho: O Oscar e Eu (Companhia Editora Nacional; pg. 18).

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A educação religiosa de Ingmar Bergman

A maior parte de nossa educação era baseada em conceitos como pecado, confissão, castigo, perdão e misericórdia, fatores concretos nas relações entre pais e filhos e com Deus. Em tudo isso se encerrava uma lógica que nós aceitávamos e acreditávamos compreender. Provavelmente isso contribuiu para a nossa desalentada aceitação do nazismo. Nunca tínhamos ouvido falar de liberdade, nem sequer experimentáramos o seu gosto. Num sistema hierárquico todas as portas estão fechadas.

Ingmar Bergman, cineasta, em relato sobre sua infância na autobiografia Lanterna Mágica (Cosac Naify; pg. 21). Abaixo, cena de Através de um Espelho, o primeiro filme da chamada Trilogia do Silêncio.

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Dez bons filmes recentes sobre ditadura militar

Ditaduras em diferentes países da América Latina são relembradas em filmes poderosos. As narrativas, em alguns casos, fogem ao esperado: não estão em cena apenas o embate físico, a tortura, as ações clandestinas e outras práticas conhecidas. As obras abaixo – de diferentes países – apostam em abordagens como a infância, a memória, a libertinagem, a família e até uma campanha publicitária com boas doses de graça.

Post Mortem, de Pablo Larraín (2010)

O protagonista (Alfredo Castro) trabalha em um necrotério. Quando os militares tomam o poder no Chile, corpos não param de chegar ao local. Ao mesmo tempo, esse homem recluso aproxima-se de sua vizinha, com pai e amante comunistas. Como no extraordinário Tony Manero, Larraín vai aos anos de chumbo de seu país.

Infância Clandestina, de Benjamín Ávila (2011)

Essa produção argentina foi comparada, na ocasião de seu lançamento, ao brasileiro O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Tratam de assuntos semelhantes: os efeitos da ditadura na vida de dois garotos com pais na luta armada. O protagonista, Juan (Teo Gutiérrez Moreno), vive esse tempo de apreensão enquanto descobre o mundo adulto.

infância clandestina

A Memória que me Contam, de Lúcia Murat (2012)

Já no período democrático, com a esquerda no poder, um grupo de amigos, no Brasil, encontra-se quando um deles está no hospital, à beira da morte. Mesmo antes de morrer, Ana (Simone Spoladore) é o espírito questionador entre todos: é a imagem da liberdade, da revolta nos anos de chumbo, contraponto ao hospital monocromático.

a memória que me contam

O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer (2012)

Documentário poderoso, em momentos difícil de ver, sobre os assassinos a mando dos ditadores na Indonésia. Ao cineasta, eles contam como exterminaram os inimigos comunistas, em detalhes, inclusive reencenando as ações e as torturas. Os homens desse esquadrão da morte gozam a vida em liberdade e ainda reconstroem suas histórias – suas versões – para o cinema daquele país.

No, de Pablo Larraín (2012)

Larraín de novo. Situa-se nos momentos finais da ditadura de Pinochet, no Chile, quando alguns comunicadores – entre eles René Saavedra (Gael García Bernal) – unem-se para derrubar o velho sistema. Utilizam uma arma comum às eleições de regimes democráticos: a propaganda. Nasce assim a campanha pelo “não” (o “no”), com boas doses de criatividade.

no

Cara ou Coroa, de Ugo Giorgetti (2012)

É curiosa a nostalgia que move Giorgetti, mostrando como os tempos de chumbo também davam vez a aventuras amorosas e artísticas. Ao olhar esse passado amargo, o cronista paulistano revela histórias deliciosas, entre elas a da garota Lilian (Julia Ianina), neta de um general (Walmor Chagas), que acaba escondendo dois guerrilheiros em sua casa.

cara ou coroa

Tatuagem, de Hilton Lacerda (2013)

O contraponto ao militarismo é a libertinagem de um grupo de artistas. Na bela obra de Lacerda, quase tudo está à margem, a começar pelas personagens. E ao centro surge o desejo do soldado Fininha (Jesuíta Barbosa) pelo homem à frente do cabaré, Clécio (Irandhir Santos), depois de visitar o local. O abismo está exposto: são dois países em um só.

tatuagem

O Clã, de Pablo Trapero (2015)

Mesmo após o fim, a ditadura argentina deixou algumas práticas nefastas em sua sociedade. Entre a família Puccio, seu líder (Guillermo Francella) arrasta o filho mais velho para um trabalho inglório: sequestrar pessoas ricas para conseguir boas quantias de dinheiro. Os crimes são descobertos à medida que a família desfaz-se.

o clã1

O Botão de Pérola, de Patricio Guzmán (2015)

O documentário do mestre Guzmán (responsável pelo referencial A Batalha do Chile) é uma continuação de A Nostalgia da Luz. Mescla a história do universo, a do cosmos, à sede de poder que culmina com a presença dos militares e as vítimas de Pinochet. Delas, sobram os botões de pérola: as partículas que resistem à água salina.

Uma Noite de 12 anos, de Álvaro Brechner (2018)

A história do cárcere de três revolucionários no Uruguai ditatorial dos anos 1970 e 1980, um deles José Mujica (Antonio de la Torre), que se tornaria presidente do país anos depois. Momentos de dor são casados à ternura. O tempo passa e os homens tentam sobreviver à escuridão dos buracos em que são lançados, em luta contra a insanidade.

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Cafarnaum, de Nadine Labaki

Livres ou presas, as crianças estão sempre vulneráveis. Correm e tropeçam, esbarram e xingam os outros, vivem no meio-fio, em risco constante, às portas do choque com o metal ou o concreto. Há miséria, desamor, mas, para Nadine Labaki, há antes a relação física, estado em que a criança vê-se despregada de tudo.

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O físico em excesso é o principal acerto de Cafarnaum, aparência de maturidade de sua realizadora. O jovem protagonista, como tantas crianças pobres e marginalizadas, anda em círculos, retorna aos mesmos pontos. Os cabelos crescem bagunçados, a dor nos olhos é cada vez maior. A certa altura, toma consciência de sua posição e, mais ainda, do crime cometido pelos pais ao colocá-lo no mundo.

Essa consciência encaminha-o ao tribunal: para todos – juiz, advogados, pais e outros que passaram por esse começo de vida -, revela o desejo de vingança, ou justiça. É quando a criança toma – à contramão da forma raquítica – a posição adulta, no local em que todos podem ouvi-la, dar algum crédito, talvez, àquilo que externa.

O tribunal é o presente, ponto de pouca mobilidade, seguro, local em que a criança finalmente está presa ao adulto, não mais à própria sorte. Por outro lado, o tribunal guarda o momento mais dramático, quando o pequeno pode dizer o que pensa dos outros, confrontar os pais que o geraram e o fizeram sofrer.

Em passado nada distante está a criança inconformada, que não aceita o fato de os pais terem vendido sua irmã de 11 anos. O filme de Labaki é uma sucessão de tristezas permeada por realismo, pela impossibilidade de não se apegar aos desprotegidos. Pouco é muito. O drama está dado pelo local, pelo movimento, sobretudo pela condição.

Em momentos, chicoteia o espectador com gestos bruscos e rápidos movimentos de câmera; em outros, busca o nada. E detalhe algum escapa à atmosfera de pavor, sujeira, do sentimento de que a qualquer momento tudo pode vir abaixo – um barraco, uma viela, o corpo de uma criança. Ao lado, os passantes não estão atentos aos sinais dessas quedas.

O sofrimento é grande em determinado momento. O protagonista Zain (Zain Al Rafeea) deixa um bebê amarrado a um cordão, a alguns metros dele, na calçada. O espectador assiste à criança indefesa tentando se movimentar. Perigoso se soltar, perigoso ficar ali. Perdida, sem nada, enquanto Zain, também criança, quer se livrar do fardo. Viveu o suficiente para sentir seu peso, compreender a dificuldade de criar um bebê.

Ser adulto talvez não signifique ter força para carregar e criar uma criança, mas a consciência de que, em certos casos, melhor é entregá-la para outro cuidar. O problema é que Zain entrega à pessoa errada. Antes, com panelas e a mesma criança a reboque, sentiu na pele a dificuldade de sobreviver ao ambiente em que é preciso gritar para ser visto.

Labaki realiza um filme em que as crianças não são feitas de puro amor ou bondade, idealizadas como nos filmes clássicos. Nem sempre são bondosas ou más em excesso. Zain é verdadeiro, criança como criança, como ensinava Truffaut. Menino que viveu muito em pouco tempo, que se revolta com as coisas como são. Suas palavras não se dirigem apenas aos pais ausentes, ao se reencontrarem no tribunal. Vão além.

Outros, próximos ou não, também são culpados – menos que os pais, porém culpados. Não puderam resgatar – ou sequer enxergaram – a criança que, ainda cedo, aprendeu a amassar medicamentos para fazer drogas, obrigada a vender suco nas esquinas, a quem sequer um documento foi feito e, depois de tudo, ainda capaz de sorrir para a câmera.

(Capharnaüm, Nadine Labaki, 2018)

Nota: ★★★★☆

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Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle

Nas vielas pobres, na sala escura do interrogatório ou mesmo no programa de televisão, as crianças são perseguidas pelos adultos. Elas tentam escapar, sobreviver, livrar-se dos golpes dos gigantes de cassetete, dos deformados e abusadores, dos criminosos dispostos a aliciar jovens para ganhar dinheiro alto pelas ruas da Índia urbanizada.

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Desde o início de Quem Quer Ser um Milionário?, resta ao protagonista correr, esconder-se e, mais tarde, como trunfo, perceber o quanto a memória ainda compensa. É com ela que Jamal (Dev Patel), o “menino do chá”, passará a responder – e acertar – cada pergunta do programa de televisão que remete ao título brasileiro do filme de Danny Boyle.

Quer ser um conto de fadas moderno, acelerado, sem que se exclua alguma dor – sempre pelo ponto de vista da criança, ou do jovem que insiste em não crescer. A começar pela televisão, esse olhar infantil – fácil, limitado, perseguidor, triste – retornará o filme todo, o do menino que sonha em viver com a garota que ama, por algum tempo sumida.

Ela, a exemplo de Jamal, é deixada à rua após perder os pais. Vaga com o garoto e seu irmão por algum tempo, torna-se prostituta. O mundo adulto sempre atrapalha os planos de Jamal. Para vencê-lo, terá de ir à televisão e jogar. O show – com fundo cruel, realidade que não chega ao telespectador – trata sua audiência justamente como criança. Não estranha, por isso, que se tenha ali um candidato forte a ganhador.

O tom dado pelo cineasta aproxima o filme do videoclipe. Basta se deixar levar, entre cortes abruptos e pessoas que saltam à tela a todo o momento, entre sacadas engraçadas de um apresentador chato e os olhares perdidos do mesmo protagonista, preso ao passado.

Criança, ele guia-se pelo instinto; sua vitória provará não a superioridade da inteligência, mas a da experiência, a da vida em que se colhe um pouco de tudo, em todos os lugares, em todos os cantos. Os descrentes falarão do acaso. Outros, do destino. A televisão alimenta-se de qualquer coisa, sem um foco ou assunto com aprofundamento.

A interpretação racional não cabe à obra de Boyle, que, a partir do roteiro de Simon Beaufoy, da obra de Vikas Swarup, aborda mesmo o impossível, o amor contra o cinismo. Jamal não levanta suspeitas: é plano, bobinho, à espera do desfecho feliz e esquemático que alguém desculpará ao argumentar que se trata apenas de uma fantasia.

Funciona com suas próprias regras. Prende, é verdade, mas sempre à base do entretenimento ralo, sem muito a oferecer senão a velha fórmula do “homem contra a sociedade”, contra uma força dispersa, aqui chamada de “mundo adulto”. Jamal e sua amada preservam-se apesar de tudo. A bondade resiste no cansativo espetáculo de Boyle.

O mais interessante de Quem Quer Ser um Milionário? é a relação do menino com a televisão, reino fechado de luzes e pessoas ao fundo, aos risos, em emoção, enquanto toda uma vida retorna. No centro do estúdio, aos olhos de milhões, o menino passa a ser alguém. Sua história é sua salvação, ou apenas o salto às milhões de rupias.

(Slumdog Millionaire, Danny Boyle, 2008)

Nota: ★★★☆☆

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