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A criança Steven Spielberg

A garotada faz filmes desde que nasce, sem saber. Eu me deito no chão com minha lente e tento ver a cena, com os atores, com os elementos do cenário. É como coreografar uma dança – é isso que as crianças fazem com seus bonecos, seus super-heróis, suas Tartarugas Ninja, colocando Michelangelo e Leonardo cara a cara, inventando os movimentos deles… Só que eles crescem e viram médicos e professores e eu… cresci e continuei fazendo a mesma coisa.

Steven Spielberg, cineasta, em entrevista à jornalista Ana Maria Bahiana em A Luz da Lente – Conversas com 12 Cineastas Contemporâneos (Editora Globo; pg. 159). Abaixo, Spielberg nos bastidores de E.T.: O Extraterrestre e O Bom Gigante Amigo, respectivamente.

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Dez filmes delirantes com personagens aprisionadas

Filmes surrealistas ou do gênero terror apostam, ora ou outra, em personagens aprisionadas a algum local, ou a alguma condição. Não raro, o surreal também abarca o horror. Os resultados podem ser surpreendentes, como mostram alguns filmes da lista abaixo, de países e tempos variados, de diretores diferentes entre si.

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O Processo, de Orson Welles

Os labirintos de Kafka servem à perfeição ao realizador de Cidadão Kane. O resultado é um de seus melhores filmes, sobre um rapaz que é acusado sem saber do que se trata a acusação. Nesse meio, talvez seja culpado. Todos são culpados de algo, alguns já nascem assim. Um pouco futurista, um pouco no terreno do terror.

O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel

Os criados deixam a grande casa com pressa. Os burgueses veem-se sozinhos e presos, por dias, para em seguida assistirem à própria degradação. Por algum motivo inexplicável, não conseguem mais escapar da casa. Os dias passam. Vem o mau cheiro, a selvageria, o inesperado, a necessidade de sobreviver à reclusão.

Repulsa ao Sexo, de Roman Polanski

A bela e jovem Catherine Deneuve logo se tornaria uma estrela, nos anos 60, época em que realizou o ousado filme de Polanski. Na trama, a moça é deixada sozinha em seu apartamento após a irmã sair em viagem. Sexualmente reprimida, ela é “atacada” pelos delírios e investe contra as forças que desejam penetrar seu espaço.

O Enforcamento, de Nagisa Oshima

A intenção era matar o condenado à morte, colocado na forca e visto pela plateia à espera de seu fim, no Japão. Mas o coreano em questão sobrevive. O que fazer, então, com essa execução fracassada, a cerimônia que não deu certo? Na obra-prima de Oshima, os carrascos com supostos bons modos deliram, presos, à volta do condenado.

Imagens, de Robert Altman

O mestre Altman teria bebido na fonte de Quando Duas Mulheres Pecam, de Ingmar Bergman, para compor esse filme original e exigente, sobre uma mulher que passa a ter delírios, em uma casa afastada. Por ali, ela, vivida por Susannah York, recebe estranhas visitas – ou imagens -, como a do namorado morto e a de uma criança.

O Homem de Palha, de Robin Hardy

Policial católico investiga o desaparecimento de uma menina em uma ilha na Escócia. O local é propriedade particular de uma espécie de bruxo hippie, vivido por ninguém menos que Christopher Lee. O suposto paganismo – ou a libertinagem – confronta o policial quadradão e impotente, que entra na ilha para não mais deixá-la.

Alice, de Claude Chabrol

Grande filme nem sempre lembrado do mestre francês, com a musa Sylvia Kristel. Inspirado em Lewis Carroll, aborda a entrada de uma mulher à grande casa que encontra, por acaso, enquanto viaja de carro. Embrenha-se no espaço verde, ultrapassa os muros, conhece a casa – e desses ambientes demora a escapar.

Hausu, de Nobuhiko Ôbayashi

Delirante, entre a comédia e o horror, sobre uma menina que viaja, nas férias, para a casa da tia. Com as amigas, vê-se presa ao local. Coisas estranhas acontecem: esqueletos dançam, o piano ganha vida, um gato observa, espíritos rondam o local. Espera-se qualquer coisa desse grande filme japonês, à exceção do convencional.

Anticristo, de Lars von Trier

A morte do filho, no início, é paralela ao gozo sexual, à penetração. O agitador Lars é pouco chegado às concessões. Para muitos, seu filme soa indigesto, com cenas fortes, incluindo momentos de mutilação. Animais ganham voz. Homem e mulher, o casal, são presos à floresta, ao local chamado de Éden, e terminam em inevitável embate.

Mãe!, de Darren Aronofsky

Mais um casal isolado. É a nova aposta de Aronofsky no campo das representações religiosas, na casa-planeta convertida em labirinto, em prisão, ou na mulher que não entende as estranhas visitas ao local. O marido, um deus permissivo, estranho, deixa que o local seja povoado por convidados. Tudo, claro, descamba ao horror.

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Bastidores: O Franco Atirador

O que me surpreende que nenhum crítico haja notado não é o conteúdo fascistoide (ridículo), racista e historicamente absurdo do filme. É que o sr. Cimino é um diretor de péssima qualidade, não tem a menor noção de desenvolvimento, de organicidade. Não sabe estabelecer uma personagem.

Paulo Francis, jornalista e escritor, no jornal Folha de S. Paulo (8 de abril de 1979). O artigo foi reproduzido no livro A Segunda Mais Antiga Profissão do Mundo (organização de Nelson de Sá; pg. 110).

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O Bandido, de Alberto Lattuada

Em O Bandido, de Alberto Lattuada, as mulheres surgem para destruir a vida do protagonista: uma como a irmã corrompida, que se torna prostituta após a guerra; a outra como amante inconfiável e sedutora.

Com elas, ou por elas, Ernesto (Amedeo Nazzari) tentará sobreviver em um país ainda em reconstrução e encontrará sua desgraça. Ele retornou da guerra na companhia de um amigo e acreditava encontrar uma Itália melhor e mais justa. Ele engana-se, torna-se bandido.

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Na abertura, o trem é uma esperança em meio à névoa. Lattuada capta o desespero dos viajantes, uns sobre as outros, em busca de um espaço para dormir ou para fugir. Ernesto está entre eles: é o único com o rosto na janela, o mais ansioso para reencontrar sua terra. Ele e amigo Carlo (Carlo Campanini) conseguem deixar o trem e, de carona em um caminhão, chegam à grande cidade.

O protagonista fica no meio urbano. Carlo vai ao meio rural, para perto da filha e de outras pessoas. Um escolhe fugir, o outro lutar. Tais diferenças, à frente, farão todo o sentido, já que a cidade, para Lattuada, é essencial ao movimento de sua história – na qual Ernesto vai do apogeu na vida criminosa à derrocada.

Certa noite, como um vagabundo às beiradas, ele encontra a carteira da mulher de um criminoso. É Lidia (Anna Magnani), com quem logo estará aos beijos, com quem descobrirá seu lado bandido.

É a primeira parte da imersão à tragédia. A segunda ocorre quando, pela rua, ele vê uma bela mulher caminhar pela escuridão – em locais quase sempre escuros, becos, escadas apertadas até quartos com cafetões e mulheres exuberantes. Essa dama seguida passo a passo – e desejada – é a irmã que Ernesto acreditava ter perdido, Maria (Carla Del Poggio), prostituta no pós-guerra.

Uma Itália despedaçada, sem esperança, contra a Itália que os homens desejavam encontrar ao voltar da guerra. Tornar-se bandido – ou prostituta – resulta do encontro com a realidade. A ironia é que Ernesto foi treinado para matar pelo governo, para defender uma bandeira. Antes com permissão para isso, ele torna-se perseguido.

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Sua história impressiona Lidia, mulher de beijos a diferentes homens, descontraída, com o jeito imponente que Magnani confere com facilidade. Não deixa o público respirar. Perto dela, até mesmo Ernesto – com seu bigode fino, seu jeito falso (mais tarde levado a Noites de Cabíria) – fica pequeno.

Bandido, o protagonista vê-se de cabelo impecável, com belo terno, sapatos lustrados. Lattuada ainda deixa ver nele certo idealismo, quando compra brinquedos para enviar à filha de Carlo, ou quando – em uma daquelas coincidências difíceis de digerir – encontra a mesma menina em uma montanha.

Em outro momento, leva o dinheiro roubado de ricaços a um beco escuro. Chama mendigos e faz a festa de todos ao lançar notas ao alto. Há quem grite que ficou, do dia para a noite, milionário em um instante. O bandido talvez não seja assim tão mau.

A Itália encontrada por Ernesto é a das diferenças, também a da intolerância. Nela, o homem ganha diferentes camadas, alguém que deseja e ao mesmo tempo condena a irmã, que não se aceita por completo. Assassino e protetor, justo e bandido. Um novo homem para uma nação em pedaços.

(Il bandito, Alberto Lattuada, 1946)

Nota: ★★★★☆

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