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Bastidores: O Expresso da Meia-Noite

Coisas estranhas acontecem quando uma equipe de filmagem trabalha tão intensamente e tão implacavelmente em um assunto tão sombrio e brutal e provavelmente todos nós ficamos um pouco loucos junto com os atores durante as filmagens. (…) Basta dizer que Brad [Davis] deu tudo o que tinha ao filme (…) No final das filmagens, ele não era mais Brad, mas “Billy”, convencido de que acabara de passar quatro anos em uma prisão turca, em vez de 53 dias em um set de filmagem em Malta, tão intenso era seu compromisso com o papel. Eu tive que empurrá-lo tanto quanto ele poderia ir como ator e houve momentos em que talvez eu me apoiei nele tanto quanto nós dois levamos tudo dramaticamente ao extremo.

Alan Parker, cineasta, em texto para acompanhar o DVD do filme, em sua edição de 25 anos (leia o texto completo aqui; a tradução é do blog). Abaixo, o diretor trabalha com o ator Brad Davis.

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Bastidores: Os Duelistas

O apelo de Os Duelistas como um assunto para Scott se devia a “uma bela edição de bolso das Guerras Napoleônicas – a colisão de cavalheirismo e agressão”, como ele disse à Empire em 2005. “Ele [o livro] tinha menos de 80 páginas e de alguma forma encapsulou o loucura de um argumento e como no final de um período de 20 anos um deles esqueceu a razão pela qual estavam lutando. Isso não é familiar? Quando encontramos o local mais apropriado para o filme, Salat in the Dordogne, descobri que ambos os personagens do livro eram baseados em homens que realmente viveram. Conrad encontrou este artigo de jornal – depois de 27 anos, um dos rapazes morreu de causas naturais e eles reconheceram sua morte com este artigo.”

Scott originalmente queria Michael York e Oliver Reed para os antagonistas mútuos, mas seus salários eram proibitivos, resolvendo em vez disso Carradine e Keitel (…). Carradine na época estava terminando uma turnê musical para o seu número vencedor do Oscar “I’m Easy”, do filme de Robert Altman, Nashville, que atrasou as filmagens até o inverno. Scott persuadiu Keitel de que as filmagens seriam intercaladas com relaxantes horas de folga desfrutando de vinhos finos da região e charutos caros.

Tim Pelan, crítico de cinema, no site Cinephilia & Beyond (leia aqui; tradução do blog). Abaixo, Carradine, Keitel e o diretor Ridley Scott.

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Bastidores: Os Renegados

Nós víamos moradores de rua nas estradas. Jovens, velhos. E nos dez anos antes de eu fazer o filme, nos anos 70, começaram a aparecer garotas nas ruas. Eu fiquei impressionada. Fiz muita pesquisa dirigindo sozinha em ruelas e pegando garotas com mochilas na rua. Conversei com elas e elas me disseram que queriam liberdade, não queriam trabalhar, não tinham medo de homens, não chamavam atenção. Pensei que esse seria um bom tema atual. Eu tive a sorte de ter Sandrine Bonnaire para fazer o papel da Mona. Sandrine não tinha nem 18 anos, ela fez aniversário nas filmagens. E ela tinha tanta rebeldia e tanta raiva, que ela podia ser ela mesma e ser a personagem.

(…)

Eu queria… não ensaiar as ações, mas ensaiar, tipo, como colocar a mochila, como tirar os sapatos, como dormir na rua. E eu a mandei [a atriz Bonnaire] com outra garota, elas acamparam por três dias antes das filmagens. Mas ela é muito talentosa porque era muito intuitiva, entendia de primeira. E acho que ela realmente construiu o filme comigo. Ela fez muito sucesso, assim como o filme. Preciso dizer que foi o único filme que realmente fez dinheiro dentre todos os meus filmes.

Agnès Varda, cineasta, em declaração em junho de 2017 (a entrevista faz parte do material extra do digipak Agnès Varda, lançado pela distribuidora Obras-Primas do Cinema). Os Renegados ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e é conhecido no Brasil também como Sem Teto, Nem Lei. Abaixo, a atriz Bonnaire ao lado da câmera e a cineasta ao fundo.

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Os Pássaros, um filme de mulheres

Em Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, os homens apenas vagam de um lado para o outro, fundamentais mas sem expressão. O homem ao centro é o advogado vivido por Rod Taylor, Mitch Brenner.

A rica e um pouco aventureira Melanie Daniels (Tippi Hedren) vai atrás dele em uma pequena cidade na qual cada centímetro remete a um mundo passado, com gente pacata e conservadora, nada a ver com a loura atrevida da cidade grande.

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Com ela vem a fúria da natureza, os pássaros. E a mulher, coitada, leva o mal ao grupo de pessoas. A cidade transforma-se em palco de destruição, pavor, com doses de ação e suspense controladas com maestria por Hitchcock.

O filme assume contornos bíblicos, com a mulher entre destruição, proibição e mudança. Impossível, por exemplo, não se ater ao olhar daquele velho senhor de um pequeno mercado, a quem Melanie pede ajuda ao chegar à cidade. É o velho americano desconfiado frente à modernidade feminina.

Para Hitchcock, a mulher traz diferenças, sendo também a rival e a dominadora. Aqui, Melanie tem concorrentes de peso.

A figura da mãe

Mitch tem uma mãe desconfiada. Ao ser apresentada a Melanie, nota-se o desconforto dela: a ideia de que pode, àquela altura, perder o filho definitivamente para a cidade grande. Talvez, acredite a mãe, ele não volte à pequena cidade, à sua casa à beira do lago, ao clima interiorano de todos os fins de semana.

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O que se vê é o risco em mudar hábitos. Hitchcock apresenta, visualmente, essa luta da mãe para estar entre a nova loura, a nova mulher, e o filho desinteressante. Em uma sequência-chave, ela atende ao telefone enquanto os novos amantes estão ao fundo, um de cada lado. Jessica Tandy interpreta essa mulher com perfeição.

Nessa mesma sequência, o homem muda de lugar no espaço, vai ao outro ponto da sala, desloca-se como se já deixasse claro estar em busca da outra mulher.

A professora

Naquela mesma cidade há o contraponto a Melanie: a professora de cabelos pretos que cultiva o hábito de limpar o jardim, Annie Hayworth (Suzanne Pleshette). Por trás dela, de seu rosto aparentemente frágil, corre uma história – e Hitchcock permite que corra.

Talvez deseje ser o que representa Melanie: a mulher emancipada, com o direito a sair em busca de seu homem sem que isso gere constrangimento. Os lados são invertidos. Também as cores. Seus cabelos pretos indicam a mulher fria, impedida de ser vista por Mitch, ou mesmo retornar para seus braços. Está presa àquela cidade, àquele estado de vida, a ser o que Melanie não é.

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O filme representa a oposição perfeita quando elas estão à porta, uma de cada lado, com um pássaro morto ao chão. A mulher passa por uma transformação. O pássaro é um aviso do mal: a passagem da morena presa à loura liberta.

Há, para Hitchcock, a vingança da natureza – e é provável que isso esteja também na obra que deu origem ao filme, assinada por Daphne Du Maurier. Spielberg entendeu esse espírito em Tubarão, quando, na abertura, o monstro representa também uma vingança da natureza – ou de Deus, de um velho mundo – contra a modernidade dos jovens em busca de sexo à beira-mar, que nadam nus e cantam.

Se a mãe de Tandy não pode dividir o filho com mulher alguma, tampouco a professora poderá se libertar de sua prisão. No fundo, essas pessoas estão em suas próprias gaiolas, em suas vidas comuns – até surgir a moça loura íntima às fofocas de colunas sociais.

Melanie pertence a uma nova espécie, gera atração em todos ao redor, representa o desejo, o passo à frente. Difícil é escapar da grande gaiola.

(The Birds, Alfred Hitchcock, 1963)

Nota: ★★★★★

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Bastidores: Contatos Imediatos do Terceiro Grau

Eu disse a Spielberg: “Não sou ator. Só consigo fazer eu mesmo”. Ele disse: “Ótimo”. O filme começou a ser filmado no dia 14 de maio [de 1976], e, oh, meu deus, ainda não acabou. Deixei claro que era para me mandarem embora se eu não fosse bom. Nunca fiz nenhuma pergunta. Fiz questão de não incomodar o Spielberg. Jeanne Moreau uma vez me disse: “Em todo filme, você tem que amar todo mundo, exceto aquele que vai virar o bode expiatório”. Segui o conselho dela. Fiz de Julia Phillips, a produtora, meu bode expiatório. Toda vez que alguma coisa me desagradava, eu dizia que era sem dúvida culpa de Julia Phillips.

François Truffaut, cineasta, em declaração à jornalista Lillian Ross em 1976, em uma análise chamada François Truffaut por Lillian Ross e reproduzida na revista Serrote (número 20, julho de 2015; pg. 38). O cineasta francês e a jornalista encontraram-se cinco vezes ao longo de 16 anos. Abaixo, Truffaut com o ator Richard Dreyfuss nas filmagens de Contatos Imediatos do Terceiro Grau.

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