Ilha do Medo

Dez grandes filmes americanos esquecidos pelo Oscar (2006-2014)

Acostumado a esquecer, ou simplesmente ignorar, as produções estrangeiras, o Oscar também tem cometido injustiças com produções americanas. Não se trata de esquecê-las em uma ou em outra categoria, mas em todas.

A situação ainda é mais complicada quando se constata que nenhum dos filmes abaixo faria feio na categoria principal. Ainda pior é pensar que mesmo com a mudança nas regras – de cinco para até dez indicados para melhor filme – alguns desses filmes terminaram de fora da festa – isso, claro, sem falar dos atores e de toda a produção.

A Última Noite, de Robert Altman

O capítulo final de Altman passa-se na última apresentação de um programa de rádio, com seus tipos americanos e um anjo que passa por ali para visitar esses artistas.

a última noite

Zodíaco, de David Fincher

A reconstrução do caso envolvendo um suposto serial killer chamado Zodíaco. Ainda mais, a oportunidade de Fincher em explorar a paranoia e fazer algo oposto a Seven.

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Amantes, de James Gray

Pela janela do quarto, o rapaz judeu interpretado por Joaquin Phoenix tem uma visão apaixonante: é a bela e problemática vizinha, por quem ele está interessado.

amantes

Ilha do Medo, de Martin Scorsese

O diretor diz ter se inspirado em filmes de Fuller e de outros mestres para compor essa obra sobre um homem preso a si mesmo, em uma ilha, em meio a um labirinto.

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Killer Joe – Matador de Aluguel, de William Friedkin

O diretor de Operação França tem um momento inspirado ao abordar as relações de uma família disfuncional com o matador implacável vivido por Matthew McConaughey.

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O Abrigo, de Jeff Nichols

Poderoso estudo sobre o medo, em clima pós-11 de setembro: a história de um pai de família que constrói um abrigo e é visitado pela imagem de uma tempestade.

o abrigo

Frances Ha, de Noah Baumbach

Comédia leve sobre a amizade, sobre a menina do título, que tem a vida transformada quando sua melhor amiga arruma um namorado – o que ela entende como traição.

frances ha

Era Uma Vez em Nova York, de James Gray

Talvez o melhor filme de Gray, sobre uma imigrante na Nova York do início da década de 20, confrontada pelo inesperado e entre dois homens diferentes.

era uma vez em nova york

O Ano Mais Violento, de J.C. Chandor

Nova York novamente ganha espaço: é o terreno no qual um empresário tenta sobreviver e ser honesto – apesar das ambições da mulher e dos inimigos.

o ano mais violento

Dívida de Honra, de Tommy Lee Jones

Faroeste extraordinário com um protagonista pouco cativante. É sobre um beberrão e uma solteirona em uma diligência com três mulheres enlouquecidas.

dívida de honra

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Ilha do Medo, de Martin Scorsese

Os espaços da ilha confundem o espectador. Não é possível entender as divisas, os caminhos, as distâncias. No interior dos prédios, corredores e estruturas metálicas cruzam-se por todos os lados. Por ali caminha o protagonista, o policial.

Depois não é mais assim: Ilha do Medo, de Martin Scorsese, muda o tempo todo. O policial, na companhia do parceiro, vai àquela instituição psiquiátrica, na ilha isolada, para encontrar uma mulher desaparecida, uma interna.

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No meio desse jogo, eles trocam os ternos por roupas brancas. Tornam-se internos. A busca pela mulher deixa de ser o mais importante. Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), o protagonista, passa a procurar por Andrew Laeddis, homem que teria colocado fogo em seu apartamento e matado sua mulher, vivida por Michelle Williams.

Aos poucos, e a cada nova camada, o espectador começa a perceber que se trata de um labirinto: talvez Daniels não seja quem acredite ser, talvez a ilha sequer exista.

As novas camadas colocam o espectador na posição do homem louco ou esclarecido – o que depende sempre do ponto de vista. Como lembra Scorsese, em entrevista, ou se embarca ou não. A trama policial é apenas o refúgio de Daniels.

Ele criou uma personagem para sobreviver, uma trama central. É alguém iluminado, justamente o louco. Pois encontrou a “saída”, o “refúgio”: contra a tragédia de sua vida pessoal, sua vida verdadeira, preferiu a própria ficção.

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O que se tem é o ato maluco de percorrer corredores mentais, com fósforos à mão, com pouca luz, ou com a luz em excesso que parece cegar o investigador Daniels. É sobre loucura, sim, mas, sobretudo, como esta parece real, possível, como parece até mesmo necessária para se viver à sombra daquele estranho mundo de 1954.

A paranoia está por todos os cantos, da chegada à ilha entre a névoa à última tentativa de contato do médico com Daniels, ou Laeddis. Ao invés de se dirigir a ele pelo suposto nome verdadeiro, prefere o fictício. Talvez tenha embarcado na ficção.

O passado de Daniels emerge distorcido, em suas memórias: ele lembra a passagem pelos campos de concentração, rememora as pilhas de gente morta. Em uma sala com quadros de Hitler, assiste à morte de um oficial alemão, que agoniza.

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O Holocausto é a tragédia de quem sobreviveu à guerra. Ilha do Medo, a partir da obra de Dennis Lehane, é sobre lidar com a morte. Daniels, ou Laeddis, transfere a dor da perda familiar à das mortes no campo de concentração – e, depois, transfere as torturas e experiências desses campos ao hospital onde está internado, na suposta ilha.

Durante sua procura, seu mergulho em si mesmo, encontra essa explicação: tudo à sua volta evoca a paranoia. Uma fábrica para produzir loucos, não para curá-los. As vítimas seriam os comunistas. Era o tempo do macarthismo, das perseguições.

Portanto, talvez a loucura de Daniels revele verdade: sua fuga, ao contrário do que se pensa, prende-o ainda mais. O mesmo farol que ilumina também mata. As tentativas de purificar uma raça – sob os ideais nazistas – levam a atitudes impensáveis, assistidas por Daniels quando era um soldado de olhar assustado.

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Seu olhar segue como sempre. Ao longo filme, ele treme, tem dúvidas. Quando parece ter recuperado a “sanidade”, explica ao suposto parceiro que está pronto para tentar escapar de novo, ou apenas para ficar por ali, perambulando por sua ficção.

A tal ilha revela-se um hospital de bairro. O caminhar final, à morte, é tranquilo, pois o pior está na quietude, na aparência banal. Fora da ficção resta quase nada.

O espectador é refém do homem louco, que continua a fazer as mesmas perguntas. Não aceita outro caminho senão o já traçado, com médicos suspeitos, prisões, nazistas, tempestades, cemitérios, desfiladeiros e cavernas perdidas.

Nota: ★★★★☆

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Bastidores: Ilha do Medo

Alguns filmes são crucificados de forma injusta. É o caso de Ilha do Medo, de Martin Scorsese. Obra complexa à primeira vista, cujo sentido é mais claro em um segundo olhar. E é justamente nesse ponto que a observação do próprio Scorsese faz sentido: ou se embarca ou não. Parece não haver meio-termo.

É sobre a morte, ou sobre como um homem encontra sua fuga para não encará-la. Ele é Andrew Laeddis (Leonardo DiCaprio), mas chamado por todos de Teddy Daniels, personagem que criou a si mesmo. Embarca-se, então, no olhar do homem louco – ou iluminado. Fortes são os que ficam para sofrer com seus traumas ou os que encontram caminhos alternativos para lidar com a dor?

A pergunta talvez ajude a entender parte do ódio à obra: é sempre complicado quando um filme entrega tal protagonista, e quando muda tanto em tão pouco tempo. Um homem louco talvez seja tudo o que o espectador não queira. Com ele, tem-se sempre a inconstância, o caminho duvidoso, a paranoia.

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20 ótimos filmes americanos que não foram indicados ao Oscar (nos últimos dez anos)

Mais grave que não premiar um grande filme indicado é sequer incluí-lo em sua lista de melhores do ano. Pois o cinéfilo deve se acostumar: a cada ano, os “esquecimentos” do Oscar parecem mais gritantes. Abaixo, uma lista de 20 filmes marcantes (alguns grandes, outros ótimos) que não integraram a categoria principal do mais famoso prêmio do cinema. Alguns não foram lembrados em uma categoria sequer.

Syriana, de Stephen Gaghan

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Marcas da Violência, de David Cronenberg

marcas da violência

Mais Estranho que a Ficção, de Marc Forster

mais estranho que a ficção

Voo United 93, de Paul Greengrass

voo united 93

A Última Noite, de Robert Altman

a última noite

Zodíaco, de David Fincher

zodíaco

Não Estou Lá, de Todd Haynes

não estou lá

O Visitante, de Thomas McCarthy

o visitante

Amantes, de James Gray

amantes

Star Trek, de J.J. Abrams

star trek

Além da Vida, de Clint Eastwood

além da vida

Ilha do Medo, de Martin Scorsese

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Drive, de Nicolas Winding Refn

drive

Killer Joe – Matador de Aluguel, de William Friedkin

killer joe

O Abrigo, de Jeff Nichols

o abrigo

O Mestre, de Paul Thomas Anderson

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Frances Ha, de Noah Baumbach

frances ha

Blue Jasmine, de Woody Allen

blue jasmine

Os Suspeitos, de Denis Villeneuve

os suspeitos

Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum, de Ethan e Joel Coen

Inside Llewyn Davis

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Nos bastidores dos indicados ao Oscar 2014