Humphrey Bogart

Joel McCrea: bandido, herói ou pastor

A um passo do bonachão, como bandido camarada ou herói, Joel McCrea encontra sua forma perfeita na pele de um pastor. Há um caminho tortuoso, engraçado, que inicia em Fúria Abrasadora, de André De Toth, passa por Golpe de Misericórdia, de Raoul Walsh, e chega a O Testamento de Deus, no qual repousa sob a direção de Jacques Tourneur.

São três faroestes diferentes, todos encabeçados por McCrea. O ator sofre para ser outro enquanto quase sempre termina o mesmo. No segundo deles, Golpe, luta para ser o bandido experiente, algo que Humphrey Bogart fez sem esforço algum na primeira versão dessa história, de 1941, o extraordinário Seu Último Refúgio.

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Da pequena fita de gangster, Walsh passou ao faroeste. As peças são semelhantes. McCrea é o velho bandido que se reúne a outros menos experientes, é traído por um figurão, vê-se frente a frente com a mulher que, como ele, nada tem a perder (e que para ele é perfeita) e sonha com a possibilidade de mudar de vida com outra moça.

Apaixona-se pela pessoa errada, a moça que migra para uma fazenda seca e perdida no meio do Oeste americano, ainda sendo desbravado, ainda sob a apreensão dos índios e a necessidade de se impor a lei. Esse cenário é manjado: suas personagens desejam escapar, recomeçar, e a moça em questão é vivida por ninguém menos que Dorothy Malone.

É, para o pistoleiro de McCrea, uma chance de viver outra vida, para deixar de ser o bandido que o mesmo ator nunca poderá ser. Apenas finge, lança ao público essa possibilidade. Depende de quem deseja aceitá-lo como dono da história. Mas McCrea tem uma figura feminina ainda mais forte pela frente: Virginia Mayo, no papel de uma mestiça.

Quase tudo fora do lugar, atores nas personagens erradas. Mayo, apesar de imponente, é bela e bronzeada demais à figura perdida entre homens e poeira, em uma pequena igreja – o covil dos bandidos – à espera de um macho verdadeiro. Caso o dono do ingresso deseje acreditar nesse jogo, e seguí-lo, o homem em questão será McCrea.

Nem sempre se tem um Bogart para ajudar, ou para servir. Mas o eterno Rick Blaine não poderia ser um pistoleiro ou um pastor. Atores como McCrea e Bogart serviam quase sempre aos mesmos tipos, e precisavam se esforçar para escapar da forma esperada. O primeiro deu certo como o tipo certinho, agradável, dos filmes de Preston Sturges. Suas gargalhadas na sala de cinema, em Contrastes Humanos, são inesquecíveis.

O ator esteve do outro lado, pouco antes, como o mocinho de Fúria Abrasadora. E se tem alguma dificuldade para provar sua vilania, nessa incursão ele sofre para transgredir as regras. Na pele de Dave Nash, de novo ele precisa encarar uma mulher forte, ainda que raquítica, a sempre misteriosa Veronica Lake.

A exemplo do que ocorre no filme noir, essas meninas surpreendem. A personagem de Lake está à espera de um homem que possa provar coragem, que possa matar e morrer para ganhar sua companhia. Um suposto enredo envolvendo terras, ovelhas e gado esconde o verdadeiro tema desse grande filme: a procura da menina mimada pelo homem real.

Lake sabe como fazê-la, enquanto McCrea tem dificuldades para ultrapassar limites e provar ser o candidato. Com técnica invejável e sequências incríveis, De Toth reconhece que tudo não passa de um teste para o homem correto, quadrado, enganado por um companheiro e pela garota a quem serve. É, de novo, o bonachão servil e deslocado.

McCrea é a segurança em pessoa, alguém a confiar. Encontra seu papel perfeito, por isso, no pastor Josiah Doziah Gray. Não apenas pela forma. Seu Josiah deve os contornos de perfeição e segurança ao olhar do outro: O Testamento de Deus, de Tourneur, é contado a partir das lembranças de uma criança, vivida por Dean Stockwell.

À sua maneira, antecipa O Sol é para Todos. Crianças – ou apenas uma – que olham ao passado, que se refugiam em um meio mítico de bondade e no qual o mal ainda se embrenha entre máscaras. Claro que não pode ser ocultado. Ainda assim, o filme emerge com o filtro do sonho, servido por figuras humanas perdidas e confiáveis.

Tem um pouco do que John Ford construiu em Caminho Áspero: pessoas caipiras em um meio (quase) intocado, vivendo sob a pressão de grandes fazendeiros, entre as novidades e a tradição que insiste em persistir. McCrea é a tradição, o servo de Deus que pouco a pouco passa a dividir seu espaço de trabalho – por obrigação – com um jovem médico da cidade. Ambos seguem à casa dos doentes, ou dos mortos.

Em um dos casos, o pastor é o primeiro a chegar. Em outros, o segundo. O médico ampara-se na ciência, o protagonista na fé. O filme não almeja escapar desse jogo até certo ponto previsível. Por outro lado, é tocante, entre adultos e crianças, entre a igreja, o bar e a pequena escola da cidade. Feito de pessoas conhecidas, especiais, a começar por McCrea.

(Colorado Territory, Raoul Walsh, 1949)
(Ramrod, André De Toth, 1947)
(Stars in My Crown, Jacques Tourneur, 1950)

Notas:
Fúria Abrasadora: ★★★★☆
Golpe de Misericórdia: ★★★☆☆
O Testamento de Deus: ★★★★☆

Foto 1: Golpe de Misericórdia
Foto 2: O Testamento de Deus

Veja também:
Caminho Áspero, de John Ford

A Lei da Noite, de Ben Affleck

Ao mesmo tempo em que contribuiu tanto ao cinema americano, certa imagem da máfia tornou-o vítima de seus rascunhos. É o que alimenta o diretor Ben Affleck em nova investida no gênero policial: um rascunho com pouca vida em embalagem atraente.

Ainda assim, seu A Lei da Noite não merece desprezo: ajuda a lembrar, em vários momentos, o quanto essa imagem da máfia – ou do outro mundo americano entre guerras, de roupas elegantes e lourinhas ao estilo Jean Harlow – ainda gera atração.

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A maldade elegante entre chapéus e ternos brancos, carros quadrados de rodas finas, lenços à face para assaltos relâmpagos sob a constante falta de luz de túneis e bares. Um meio em que os homens, mesmo criminosos, ainda conservam a forma de heróis, e quase tudo se confunde: os bandidos lutaram na guerra e assim se formaram.

Essa história de retorno, de mudança, foi contata outras diversas vezes no cinema americano, o blábláblá de que o sistema cria seus assassinos, convertendo os bons em maus, como no clássico Heróis Esquecidos, de Raoul Walsh, no qual Bogart termina na mesma vala que Cagney, na guerra, e ambos retornam como chefes do crime.

Mas o Affleck ator não tem um centímetro sequer da face criminosa de Bogart ou Cagney: o homem que viveu Bruce Wayne (e não serviu a ele assim tão mal) é agora visto como o criminoso que migra, e sem parar, por várias situações em um mesmo filme, da Boston em sombras à Tampa ensolarada e miscigenada.

O também diretor é Joe Coughlin, a quem ocorre quase tudo: após lutar na Primeira Guerra Mundial, torna-se ladrão de banco, envolve-se com a mulher de um mafioso (Sienna Miller), é preso pelo próprio pai (Brendan Gleeson) e, mais tarde, converte-se em líder da venda ilícita de bebida, em plena Lei Seca, em Tampa, na Flórida.

Terá de enfrentar a concorrência e a intolerância de homens da Ku Klux Klan, que não aceitam o fornecimento do destilado à comunidade latina. O que obriga o protagonista fazer suas costuras enquanto mantém rosto confortável, sempre sob as mesmas expressões (não muitas) do ator Ben Affleck. Suas limitações são conhecidas.

Não convence como o mafioso de jeito heroico, de atalhos para se regenerar típicos do cinema clássico – como simplesmente passar o bastão e deixar o mundo do crime de um dia para o outro após a chacina final. O filme serve-se mais do classicismo de Os Intocáveis que das sombras e sussurros – e da maldade – de O Poderoso Chefão.

Ou seja, ainda prefere o jogo de mocinhos e bandidos em um meio que, na prática, excluiu-o. A insistência de Affleck em fixar, de novo, certa imagem da máfia, de homens soturnos e em nada ambíguos, dá vida a um filme desagradável, no qual nem mesmo o movimento constante evita o fracasso da empreitada.

(Live by Night, Ben Affleck, 2016)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Argo, de Ben Affleck

Dez encerramentos simbólicos do cinema clássico americano

O cinema clássico americano produziu uma infinidade de sequências memoráveis, que seguem povoando o imaginário popular. Abaixo, o blog pinçou dez encerramentos que sintetizam o espírito desse cinema, com simbolismo e diálogo com sua época. Dez são pouco, claro, mas dão ideia do poder dos mitos no cinema estadunidense. De Alma no Lodo a O Homem que Matou o Facínora, são imagens que fizeram história.

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Na sarjeta (Alma no Lodo)

O encerramento tem aqui dupla função: ao mesmo tempo em que resume o período da Grande Depressão, mostra a atitude moral do cinema da época quando retratava criminosos. “Mãe Misericórdia… Este é o fim de Rico?”, questiona o grande Edward G. Robinson, antes da morte. Ao lado, vê-se a propaganda de um espetáculo teatral

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As Muralhas de Jericó (Aconteceu Naquela Noite)

“Por que iam querer uma trombeta?”, questiona a senhora do hotel à beira da estrada, sobre a trombeta que soa antes da queda das “Muralhas de Jericó” – uma forma original encontrada pela grande comédia de Frank Capra para apresentar o sexo entre o casal desajustado.

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À tempestade (A Mocidade de Lincoln)

A tempestade que se aproxima, na obra-prima de John Ford, tem seu significado, ou significados: além de anunciar a morte de Lincoln (Henry Fonda), aponta às batalhas travadas pelo líder, como a Guerra Civil, além de anunciar a guerra que se aproximava na época do lançamento do filme, no fim dos anos 30, a Segunda Guerra Mundial.

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Do material que são feitos os sonhos (O Falcão Maltês)

“Essa estátua é o motivo de toda a confusão”, diz o detetive Sam Spade aos policiais, enquanto a companheira chora. “É pesado. Do que é feito?”, questiona um deles. “Do mesmo material com que são feitos os sonhos”, explica, antes de despachar a dama fatal.

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O começo de uma nova amizade (Casablanca)

O herói de Humphrey Bogart fica sem a mulher de sua vida. Para compensar, ganha um amigo, aqui vivido por Claude Rains. Há quem veja um final gay. É, sobretudo, uma união que aponta a dias melhores: a possibilidade de amizade em um mundo dividido e em guerra.

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A união, apesar de tudo (Os Melhores Anos de Nossas Vidas)

A ação transcorre no casamento de Wilma e Homer. “Podemos levar anos para chegar a algum lugar”, diz a personagem de Dana Andrews para Peggy (Teresa Wright), quando William Wyler, com o uso da profundidade de campo, apresenta duas situações no mesmo quadro.

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A imagem que perde o foco (Crepúsculo dos Deuses)

Cecil B. DeMille já era um veterano quando Billy Wilder chegou a Hollywood. O novo diretor sabia de sua mitologia, e o quanto seria perfeito que Norma Desmond clamasse por ele antes de se apagar. Eis a frase: “Tudo bem, senhor DeMille, estou pronta para meu close-up”.

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A despedida do pistoleiro (Os Brutos Também Amam)

“Não se volta à rotina depois de matar. Não dá para voltar atrás. Certo ou errado, é como uma marca que fica. Não há como voltar atrás”, diz Shane, antes de partir, para o garoto Joey. E os gritos do menino ecoaram pela eternidade, nesse grande faroeste de George Stevens.

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O enterro do melodrama (Imitação da Vida)

A obra de Douglas Sirk encena mais que o enterro da personagem da criada: é o próprio enterro de um tipo de cinema, à beira das mudanças dos anos 60. O ano é 1959, às portas das novas ondas, quando um mestre como Sirk e seu melodrama pareciam um pouco fora de moda.

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A última viagem do faroeste (O Homem que Matou o Facínora)

O encerramento desse grande faroeste de John Ford (mais um) dispensa palavras. O silencioso político de James Stewart, correto como eram os políticos de seu tempo, segue pela estrada de ferro. E, para alguns críticos, essa viagem marca o fim da era dos faroestes.

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Veja também:
15 comédias malucas e inesquecíveis do cinema clássico

Anjos de Cara Suja, de Michael Curtiz

Nos rostos dos garotos que formam os Dead End Kids, Rocky Sullivan vê o próprio reflexo: o rapaz do passado, quando era jovem, época em que foi detido e levado a um reformatório, antes de se profissionalizar no mundo do crime.

A primeira parte de Anjos de Cara Suja leva a essa época, em que Rocky, na companhia do amigo Jerry Connolly, vê o bairro do alto, da escada de incêndio do prédio, as meninas que passam, as pessoas que se amontoam para ganhar a vida por ali.

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Eles vivem o instante seguinte: depois de perambularem pela linha de trem, resolvem furtar um carregamento de canetas. Jerry questiona Rocky sobre a necessidade de ter esses objetos, momento em que o amigo diz que tudo pode ser vendido.

Tentam furtar, são perseguidos, e Rocky termina preso. É fiel ao amigo no reformatório: não o entrega à polícia. Rocky, interpretado na fase adulta pelo gigante James Cagney, torna-se bandido; o amigo Jerry, sob a face de Pat O’Brien, forma-se padre do bairro.

A oposição está dada nesse grande filme de Michael Curtiz: o remédio contra os bandidos está na igreja que não demora a surgir. Quando Rocky é libertado e procura pelo amigo, este comanda os jovens do bairro em seu espaço, a cantar, na igreja que libera as luzes de salvação a um filme coberto, em grande parte, pelas sombras.

Sombras, importante lembrar, que ocupam a caminhada de Rocky. E revelar esse destino dado não é novidade: é o que resta aos criminosos em filmes do tipo, aos gângsteres que decidem viver à margem, com seus negócios ilícitos.

Os Dead End Kids ganharam destaque no também poderoso e anterior Beco Sem Saída, de William Wyler, e no qual a oposição fica por conta de Humphrey Bogart e Joel McCrea, o bandido que retorna ao seu bairro e o bom homem que vaga por ali.

O ambiente sujo escapa ao realismo: em ambos os casos, os estúdios tentavam – e nem sempre conseguiam – reproduzir o meio urbano e marginal da época, ainda sob os efeitos da Grande Depressão. Por outro lado, esse visual dava vez às falsidades do cinema clássico, o que nunca era um problema por completo.

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Nesse ambiente, Bogart e Cagney podem tramar as saídas mais simples e às vezes menos convincentes e quase sempre convencer o espectador com um desfecho qualquer. Todo o mundo ao redor se torna fácil, destrutível ao menor golpe, ao mesmo tempo acabado em suas oposições, como o enfadonho O’Brien.

Em alguns filmes realizados na década seguinte, como Cidade Nua, o ambiente dos criminosos e da polícia passa a ganhar novos contornos: a cidade torna-se grande demais. Não se fala apenas de um bairro, de alguns garotos, de poucos vilões.

Anjos de Cara Suja ainda guarda as características passadas, como se o mundo em questão não fosse além do observado na abertura, quando a câmera sai à busca dos protagonistas jovens, que se colocam a ver esse mesmo mundo do alto, a dominá-lo.

Esse falso espaço possível, entre bandidos e padres, luzes e sombras, não pode ser repetido – nem sequer pensado – sem parecer distante aos olhos atuais. O filme de Curtiz é uma joia perdida, com um delicioso demônio ao centro.

(Angels with Dirty Faces, Michael Curtiz, 1938)

Nota: ★★★★☆

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