homenagem

Liv Ullmann, 80 anos

Envelhecer muda a gente por dentro. Quando uma mulher é atraente, ela deposita muito de si em seu visual. Seu rosto é uma pintura. Diz tudo. Quando essa mulher envelhece e se olha no espelho, dependendo do ângulo da luz, ela vai se sentir bonita, achar encantos. Mas aí ela olha uma foto e vê que é mentira, pois o tempo está ali, na frente. Eu estou nessa fase, de ver que a pintura não é o rosto, é o interior. Mas ainda me sinto mais bonita do que as mulheres de botox. Minha face não tem retoques. Sou o que sou.

Liv Ullmann, atriz, em entrevista ao jornal O Globo, na ocasião do lançamento do documentário Liv & Ingmar, de Dheeraj Akolkar, em 2012 (leia aqui). Abaixo, Ullmann em Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman.

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Bergman segundo Scorsese

Nos anos 1950, havia certos filmes e cineastas que tinham um impacto dramático nos espectadores, nas possibilidades do cinema, no que podiam fazer e até onde podiam ir. Havia Kurosawa, com Rashomon (1950) e Os Sete Samurais (1954). Havia Fellini, com Noites de Cabíria (1957) e A Estrada da Vida (1954). Havia Satyajit Ray com a trilogia Apu. Havia os filmes russos como Quando Voam as Cegonhas (1957). E havia Bergman. É impossível superestimar o efeito que esses filmes tinham nas pessoas. Não que Bergman tenha sido o primeiro artista a confrontar temas sérios. Mas ele havia trabalhado com uma linguagem simbólica e emocional que era séria e acessível. Ele era jovem, impunha um ritmo incrível, mas tratava de memória, de velhice, da realidade da morte, da realidade da crueldade, e fazia tudo de forma tão vívida, tão dramática. A conexão de Bergman com o público era um pouco como a de Hitchcock – direta, imediata.

Martin Scorsese, cineasta, em entrevista a Stig Björkman (íntegra da entrevista feita em 2010 para o documentário …Mas o cinema é minha amante, publicada no catálogo da mostra Ingmar Bergman, de 2012, do Centro Cultural Banco do Brasil; pg. 197).

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Algumas lembranças sobre Erich von Stroheim

Me nocautearam em Hollywood, disse ele com amargura, e ainda estou grogue.

Assim começou nosso primeiro encontro, alguns anos antes da última guerra, em 1936 ou 1937. Eu tinha ido vê-lo junto com Henri Langlois e alguns jornalistas, e me lembro que Stroheim nos fez beber um whisky atrás do outro. Ele parecia ter surgido de um de seus filmes, porque deliberadamente interpretava seu próprio papel. Estávamos muito comovidos de vê-lo em carne e osso e de acordo com sua reputação.

Gostaríamos de ter dinheiro suficiente para permitir que ele realizasse um novo filme. Era a época heroica da Cinemateca, quando Langlois guardava os filmes em seu banheiro, quando sonhávamos em reaver o negativo do filme mexicano de Eisenstein e convidá-lo a vir montar sua obra-prima profanada. Langlois também pensava em recuperar as passagens mutiladas das grandes obras de Stroheim… Mas o que poderia, naquela época, uma Cinemateca emergente?

Assim, nós todos bebíamos muito whisky enquanto o grande Stroheim falava. Segundo um costume seu, dirigia-se apenas a mim, a única mulher presente, mesmo que eu não fosse particularmente fotogênica. Dizia barbaridades sobre o amor e formulava paradoxos muitos atrevidos com a evidente intenção de me embaraçar. Sua maneira de falar era fascinante; eu senti intensamente o charme extraordinário deste homem estranho e magoado, cujos filmes tanto admirávamos. Partimos naquela tarde, Langlois e eu, surpreendidos e felizes de tê-lo encontrado. Tínhamos mesmo a impressão de ter atuado, durante algumas horas, num de seus filmes.

*

Depois da guerra, em nossa pequena sala na Avenida de Messine, Langlois pôde, enfim, mostrar a Stroheim seus filmes despedaçados. Eu estava sentada ao seu lado durante a projeção de Foolish Wives. Ele tinha um poder surpreendente para lembrar-se dos trechos que faltavam.

Aqui, dizia-nos, eu avanço em direção ao espelho, olho-me e pressiono um botão sobre o meu queixo.

Falava sempre de seus papeis dizendo “Eu faria isso ou aquilo”, de tal maneira que os revivia com precisão.

Ficamos emocionados, Mary Meerson, Langlois e eu, quando Stroheim viu Greed pela primeira vez. As lágrimas corriam sobre suas bochechas e nós o escutamos murmurar:

Não é possível, isso é um crime…

Ele nos contava cada cena ausente. Quem dera eu tivesse um gravador para registrar suas falas! Escutávamo-lo ofegante, vendo renascer, pouco a pouco diante de nós, o filme original, e sonhando secretamente em recuperar os fragmentos perdidos, provavelmente abandonados em algum porão ou sótão, onde mofavam.

Lotte H. Eisner, crítica de cinema e historiadora, em artigo publicado na Cahiers du Cinéma (v. XII, n. 72, junho de 1957; o artigo foi publicado na íntegra em Filmologia, em 2013, com tradução de Edson Costa, e pode ser lido aqui). Abaixo, Erich von Stroheim.

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Stroheim segundo Billy Wilder

Naturalmente, fiquei constrangido quando estive pela primeira vez diante do grande e admirado cineasta da época do filme mudo. Para driblar esse constrangimento, que resultava também do fato de que, como principiante, eu ousava oferecer um papel ao grande diretor de Ouro e Maldição, Maridos Cegos, A Viúva Alegre e Marcha Nupcial, disse a ele: “Com seus filmes, o senhor estava dez anos além de sua época”. Stroheim olhou-me por um instante e corrigiu-me: “Vinte anos”.

Billy Wilder, cineasta, em declaração ao seu biógrafo Hellmuth Karasek, em Billy Wilder: E o Resto é Loucura (Editora DBA; pg. 257). O cineasta referia-se ao momento em que escalou Stroheim para interpretar um oficial alemão em Cinco Covas no Egito. Eles voltariam a trabalhar juntos em Crepúsculo dos Deuses, de 1950.

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Cinco Covas no Egito, de Billy Wilder

Stroheim segundo Jean Renoir

Ele me ensinou muita coisa. O mais importante desses ensinamentos talvez seja que a realidade só passa a ter valor quando submetida a uma transposição. Em outras palavras, só é artista aquele que consegue criar seu pequeno mundo. Não é nem em Paris, nem em Viena, nem em Monte Carlo ou Atlanta que vivem os personagens de Stroheim, de Chaplin, de Griffith. Eles vivem no mundo de Stroheim, de Chaplin, de Griffith.

Mais tarde, tive a honra de ter Stroheim como intérprete de A Grande Ilusão. Ele fez tudo para me fazer esquecer que ele havia sido um dos profetas de nossa profissão. Sou-lhe grato por isso, mas menos que pelas lições essenciais que ele me dera, vinte anos antes.

Jean Renoir, cineasta, em texto escrito no início de 1959 e reproduzido no livro O Passado Vivo, reunião de artigos do próprio Renoir (Editora Nova Fronteira; pg. 117). Abaixo, Stroheim, Jean Gabin e Pierre Fresnay dividem a cena em A Grande Ilusão.

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