história de amor

Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi

Duas pessoas aparentemente diferentes se encontram em sonhos. Do outro lado, no universo físico, elas trabalham no mesmo local, aos poucos se esbarram e se descobrem. Ele percebe ela. Ela demora a responder às intenções dele. A dificuldade do diálogo e, mais ainda, do contato físico é o que move Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi.

O casal torna-se animal nesses sonhos. Nem por isso o animal é o típico selvagem que se imagina. São cervos, a correr por uma floresta sob a neve, a percorrer lagos e bosques em busca de água e alimento: são apenas animais livres no espaço natural, onde a única interrupção do homem é justamente o que lhe reservam os sonhos: o olhar.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Nesses sonhos, no apagar, no convite a outro mundo, o equilíbrio vê-se pleno: espaço em que apenas vivem, apenas se deslocam, na natureza que não deixa vazão à dor, a relações complexas. Apenas se vive em silêncio nesse portal – o sonho – ao qual o casal é levado para se encontrar, para tocar o parceiro, à contramão da realidade.

O ambiente de trabalho não é o mais agradável. Estão em um matadouro, espaço de dor, em que o real explode e do qual é preciso, no caso de alguns, não de todos, desviar-se. Há carne e sangue. Como explica o protagonista, Endre (Géza Morcsányi), é possível se habituar ao sofrimento. Ele trabalha ali há anos; ela, ao contrário, acaba de chegar.

Da janela, Endre observa Mária (Alexandra Borbély) em seus primeiros dias, ou horas. A moça loura, com pouco ou nada a dizer, reserva-se às sombras: dá um passo para trás para escapar do sol, o que ajuda o espectador a entender sua dificuldade em mergulhar na natureza, no que pode tocar e assim sentir a vida. Não por acaso, à frente ela será atingida pela água em um parque, momento de reação espantosa, verdadeira, à beira do gozo.

Entre o encontro dos servos em sonhos e os olhares tristes dos bovinos prestes a serem mortos, desenrola-se a vida nada natural, mas verdadeira, desses dois amantes destinados a observar mais, a sofrer mais, no interior de suas bolhas. Em Corpo e Alma, só é possível chegar ao verdadeiro toque (o corpo) quando as almas encontram-se.

Mária será salva por esse encontro. Levada a tocar, a sentir, a descobrir a música romântica, a outra alma que a espera no refeitório do trabalho, todos os dias, para correspondê-la de alguma forma – ou como o animal que a guia, nos sonhos, pela floresta desabitada. A sensibilidade do filme torna possível uma história de amor de mínimo toque, feita de intenções, de poucas palavras, em local ocupado pela morte.

Os amantes descobrem que sonham o mesmo sonho quando são atendidos por uma psicóloga. O furto de um estimulador sexual para bovinos força a empresa a abrir uma investigação. A psicóloga deseja entender quem teria embolsado o produto. Vale questionar: por que é necessário um estimulador sexual para animais tão próximos, presos a um mesmo espaço, submetidos ao contato com os outros a todo o momento?

Mesmo enjaulados, esses animais não encontram estímulo ao coito. Nem os mais selvagens, desprovidos de consciência. São apenas bichos de olhares tristes, como se soubessem o que lhes aguarda. Não se sabe se possuem almas. Ao espectador a câmera confere essa possibilidade, sendo levado a encarar os animais em seus derradeiros momentos.

A sociedade de matadouros e filmes pornográficos expõe humanos sem a capacidade de se tocar de verdade. O filme de Enyedi é sobre a busca do toque, à medida que seus estranhos amantes resolvem saber mais, vagar pela alma do parceiro, dormir juntos sem a necessidade do sexo, apenas para revelar, pela manhã, o que sonharam. Mária, tão detalhista, e Endre, com seu braço imóvel, chegam à felicidade – não sem a alma, não sem o corpo.

(Teströl és lélekröl, Ildikó Enyedi, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Meu Século 20, de Ildikó Enyedi

Frantz, de François Ozon

A troca de lado, em Frantz, deixa ver a fragilidade das personagens centrais: primeiro a do francês que vai à Alemanha, após o fim da Primeira Guerra Mundial, para reencontrar a família do amigo morto no conflito, justamente Frantz; depois, é a noiva alemã da personagem-título que vai à França para encontrar o sobrevivente.

O homem ao qual o título remete é um fantasma que continua a perseguir o novo casal, algo como a sombra da guerra recém-terminada, ainda viva nos sentimentos. O preto e branco confunde-se com o rapaz que não se vê mais: seja da ausência da cor ou do fantasma, o casal – desajeitado, em dor – (quase) não consegue escapar.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O diretor François Ozon faz o material plano alçar voo e revelar novas ambições. Nem por isso escapa a certo formalismo, às piscadelas ao cinema de gênero, a algumas reviravoltas esperadas para comover o espectador. Tudo é um pouco calculado, à medida que a expressão petrificada dá vez à excitação, às emoções.

A ida ao cemitério, mais de uma vez, na Alemanha ou na França, dá o tom da Europa em questão, dos dois países, do que vem pela frente: é um filme sobre martírio, em que em apenas alguns momentos é possível escapar da guerra, da morte, de seu estado – e do preto e branco. As cores são respiros: momentos em que Frantz surge vivo ou em que as personagens centrais conseguem se livrar de seu fantasma perseguidor.

Para Ozon, o fantasma é a guerra, e confunde: nas lembranças, o rapaz morto no interior de uma trincheira será visto sempre como angelical, distante, perfeito às aparências. De nome curto, sem se deixar decifrar, ele amava a música, Paris, os bares, as danças, a arte de Manet e, em especial, como salienta Ozon, o quadro O Suicida.

O pouco que se sabe sobre esse fantasma é sempre imaginação. E sempre pelo olhar do suposto amigo que retornou para colocar flores sobre seu túmulo vazio. Ele, o francês Adrien Rivoire (Pierre Niney), precisa se livrar desse preto e branco do qual o filme de Ozon vê-se impregnado. Próxima ao túmulo está a noiva do morto, a bela Anna (Paula Beer).

Surge ali uma proximidade. Durante uma das andanças pela pequena cidade alemã, eles escapam a uma caverna e terminam em um lago. Ele nada, ela observa. O desejo é evidente. As cores ganham espaço para ratificar o fôlego, a fuga, um breve momento em que é possível fugir do fantasma do conflito que insiste em permanecer.

Nos bares, do lado francês ou alemão, sobra rancor, nacionalismo, o canto da Marselhesa que embala rostos apaixonados. Seguem a um clima de suposta vitória, ou resistência, ou, no caso alemão, vingança e ódio, que não os retira – e nem poderia – da sombra, ou da ausência de cores vivas. Nessa troca de lados, as cores podem surgir do inesperado, como revela o diretor no último instante do filme: justamente do quadro de Manet, o qual celebra o suicida.

Sob o visual amargo, aparência de um tempo perdido, as personagens de Frantz têm dificuldades para avançar aos desejos, para se revelar, talvez deixar ver o que ocorreu no passado. O visual imobiliza, aprisiona, como uma velha fotografia de seres assexuados que se movem em círculos. As cores são raras, ainda assim possíveis.

(Idem, François Ozon, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
8 Mulheres, de François Ozon
Jovem e Bela, de François Ozon

Histórias de Amor que Não Pertencem a Este Mundo, de Francesca Comencini

Personagens apaixonadas tornam-se irritantes com facilidade. A protagonista de Histórias de Amor que Não Pertencem a Este Mundo não escapa a essa forma, e nela permanece – para a tristeza do público – em boa parte do trabalho de Francesca Comencini. É uma mulher ainda apaixonada pelo homem que a deixou, talvez seu grande amor.

Desde o título, o filme aborda uma história que “não pertence a este mundo”, de amor idealizado, de gente desesperada. Ou, dirão alguns, “amor de cinema”, o espaço em que se morre – mas nem sempre, ou nem tanto – por amor. Por outro lado – eis a sorte do espectador de Comencini -, seu filme está no terreno da comédia, o que lhe retira o total fracasso.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Em cena, tomada por sentimento avassalador, a mulher retorna às lembranças. A narrativa divide-se entre passado e presente, entre dias de amor e separação. E aí repousa outra questão curiosa: as recordações, ainda mais de alguém apaixonada, tendem a ser distorcidas, a levar a um filtro sempre inconfiável. São interpretações de quem as viveu.

Exatas ou não, são interpretações. A protagonista, Claudia (Lucia Mascino), deixa que as mesmas invadam a tela. De temperamento às vezes explosivo, perdida em sentimentos, de maquiagem borrada por chorar pelas mesmas lembranças, ela simplesmente vaga. Tenta se redescobrir com outro sexo ao conhecer uma mulher, uma aluna atraente.

O filme migra do romance à comédia com toques feministas (e ainda consegue rir dos mesmos). Não deixa ver bem o que é, ou o que quer ser. Perde-se nas divisões, soa confuso, para mais tarde sua personagem descobrir que tudo pode ser mais leve e que o melhor é seguir vivendo a despeito das idas e vindas, dos golpes do coração, das separações.

Essas “histórias de amor que não pertencem a este mundo” pertencem às lembranças, ou a algum espaço inexistente que faz das pessoas, por algum tempo, idiotas por completo. Ainda que belo, o amor, diz o filme, não é o que move as personagens; parece mesmo um empecilho, digno de riso, ou algo que as mulheres, tão fortes, precisam confrontar.

E para a mulher desviar-se do amor não é preciso um homem imperfeito. Ao contrário, o desejado é atraente e misterioso. De cabelos grisalhos, Flavio (Thomas Trabacchi) leva equilíbrio à relação, e em alguns momentos fala – e lamenta – pelo espectador. Em um filme sobre o universo feminino, ele não tem muito a fazer.

No decorrer do longa surgem imagens antigas. Não se sabe ao certo em que contexto foram feitas. Despidas de aproximação e psicologismo, ou mesmo de personagens que se deixam tocar, essas imagens servem de interessante contraponto às complicações da vida moderna que embriaga Comencini, com seres que saltam rapidamente da lágrima ao riso.

(Amori che non sanno stare al mondo, Francesca Comencini, 2017)

Nota: ★☆☆☆☆

Veja também:
Uma Janela para o Amor, de James Ivory

Depois Daquela Montanha, de Hany Abu-Assad

É curioso como alguns filmes partem para o isolamento de suas personagens – de uma, duas ou mais – sem se preocupar com a imersão nas mesmas. Não se trata, no caso de Depois Daquela Montanha, de dizer como deveria ter sido feito, quais opções seu diretor, o israelense Hany Abu-Assad, apenas rasura no invólucro do bolo.

Nem o isolamento em espaço distante, gelado, fará com que suas personagens soem naturais: mesmo perdidas e entregues à morte certa, à desesperança, elas não partem a qualquer atitude que chegue à pele, a algo próximo do visceral. É Hollywood impondo outra vez seu casco brilhante à frente da situação-limite, levando a bocejos.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Parte do problema está na velocidade. Do encontro no aeroporto à queda da avião, a impressão é que a montagem de Lee Percy precisa acelerar para não esbarrar em possível monotonia, outra das pragas que o produto hollywoodiano tenta combater. Nada de tempos mortos, nada de espaços para o isolamento parecer ainda pior, com neve e montanhas.

E se não peca pela lentidão, melhor arriscar no pecado da maratona, da economia, da impressão de tudo ocorre quando nada ou pouca coisa poderia ocorrer senão a espera pelo pior. Nesse sentido, a união do médico Ben (Idris Elba) com a jornalista Alex (Kate Winslet) não chega nunca a empolgar, ainda que os atores sejam competentes.

Ela, que o convida a dividir o aluguel de uma pequena aeronave para que ambos cheguem mais rápidos a seus destinos, está prestes a se casar. Será no dia seguinte. Ele, como explica no aeroporto, tem uma cirurgia marcada e não pode se atrasar. Os dois embarcam, o piloto (Beau Bridges) sofre um mal súbito e o avião cai sobre uma montanha.

Com a perna machucada, ela tenta resistir ao instinto de seguir em frente, de tomar uma trilha – à contramão do desejo do companheiro – e tentar encontrar ajuda. Ele, o médico que peca pelo excesso de razão, alguém capaz de dizer que o coração “é só um músculo”, prefere ficar e talvez ser resgatado, com o pouco de comida que resta.

As diferenças das personagens ajudam a montar o que o drama propõe, ainda que a velocidade atrapalhe, de novo, o desenvolvimento das relações. Ninguém duvida que essas criaturas perfeitinhas estarão, em breve, nos braços do outro. A obra de Abu-Assad empresta algo de Náufrago, entre outros filmes nos quais suas figuras vivem isoladas e em situações-limite: é preciso se perder para se encontrar.

Por outro lado, diferente do filme de Robert Zemeckis, o retorno à civilização ainda leva o espectador a novo golpe dramático: após dias intensos em que tentavam – em vão – negar desejos e sentimentos, as personagens descobrem que não podem viver sem o outro. Algo piegas como “o que a natureza impõe o coração não separa”.

Na tentativa de humanizar essas figuras a todo custo, há ainda o cachorro do piloto morto. O animal sobrevive e segue o casal. Quando um ou outro vê-se sozinho, lá está o cão para encarar essas pessoas, para surtir um efeito emocional gratuito, forma à qual as plateias não resistem, seguida pela mensagem: “a natureza, apesar de tudo, pode ser bondosa”.

(The Mountain Between Us, Hany Abu-Assad, 2017)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Amor & Amizade, de Whit Stillman

A Bela e a Fera, de Jean Cocteau

A moça bondosa, Bela, fica entre a fera que se aproxima do homem e o homem que se aproxima da fera. Dois homens cruzam seu caminho, ou duas bestas que não são meros animais, que ultrapassam o desejo pela carne alheia. Bela, para devolver a vida ao pai (outro homem), precisa se render à criatura e a seu castelo mágico.

Do conto de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, a história coloca a mulher ao centro de um jogo de homens, de desejos e interesses. Em cena, a fera que pode voltar a ser príncipe, que pede a mulher em casamento toda noite, que resiste a devorá-la para provar ser um pouco mais que um selvagem em roupas extravagantes e luxuosas.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Pela beleza que expõe, a de Jean Marais, há o rapaz que deseja Bela (Josette Day), amigo de seu irmão e de suas falantes (e mesquinhas) irmãs, Avenant. Como se sabe, ao tal restam atributos físicos. E só. Pelo pai, o típico pensador que se envolve em enrascadas, inclinado à filha incumbida de seus cuidados, vê-se a dependência.

Bela é vítima desse meio de homens. E, em A Bela e a Fera, de Jean Cocteau, encontra seu caminho ao paraíso, ao fim, justamente pelos braços do príncipe, do homem, da figura que antes se escondia na besta. Enfim, a fera é o homem. Não há muito o que fazer. As famosas versões seguintes, da Disney, manteriam a situação.

A versão de Cocteau é a melhor. Um filme estranho que se inicia com o mundo real, desordenado, pelo qual a câmera fracassa ao tentar manter a beleza que o material exige: esse declive, como se sabe, é proposital. Cocteau filma, primeiro, a bagunça, as crianças adultas em figurinos enormes, entre flechadas que erram o alvo, entre mulheres que se preparam para alguma celebração à qual não se incluem facilmente.

Vêm o castelo, o efeito mágico: pelas imagens, pelos cenários, pelas estátuas e paredes que ganham vida, tudo funciona. O que mantém esses quase humanos no mesmo ambiente da Fera, quase homem, não é aqui explicado. É certo que todos precisam assumir a face humana, que o grande castelo esconde tesouros vigiados pelas mesmas estátuas, e que o homem de fora, indesejado, baterá à porta para tentar roubá-los.

Os castiçais são elevados por braços, a bebida chega ao copo por outros. O rosto da estátua move-se de repente, solta fumaça pelo nariz. O presente que a Fera dá para a Bela, a certa altura, será um belo colar apenas nesse reino de sonhos. O tesouro alimenta a sonhadora garota apenas nos domínios daquele castelo, ou de seu corpo.

Eleita companheira da Fera, Bela resiste a amá-la. Ainda assim não teme ser devorada, confia no homem oculto sob o pelo e o couro do animal. O público estranhamente aprende a gostar da criatura: o homem que dela emana, ao fim, é chato, quadrado, um típico sonho assexuado que precisa voar às estrelas. Voa porque não existe, é certo.

Cocteau leva ao sonho dentro de outro: o castelo é perfeito apesar de seu principal – e único – anfitrião. Ou é assim justamente por sua causa. A Fera que lembra a Bela da distância entre a forma pura que se impõe, apesar de um pouco animalesca, e a humanidade repleta de problemas do lado de fora. Seu novo companheiro divide-se entre selvagem e cavalheiro. No bosque, a certa altura, será visto bebendo água, inclinado como um animal.

Além de cineasta, Cocteau era também pintor e poeta. O cinema, em suas palavras, era um dos modos de exprimir “a personagem desconhecida que o habita”. Sua versão de A Bela e a Fera é uma história romântica à beira do horror, o delírio de uma menina que se apaixona antes pela mágica, não pela criatura. Vê-se enredada pelo castelo vivo, pelo espelho que tudo revela e reflete, e pelo monstro que ousa dizer palavras fortes, aproximar-se dos românticos, morrer como miserável.

(La belle et la bête, Jean Cocteau, 1946)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
O Silêncio do Mar, de Jean-Pierre Melville