Helen Mirren

Excalibur, de John Boorman

É possível sentir o peso dos trajes de metal, a dificuldade de se movimentar. Os heróis são desajeitados, sem a aparência que os recobre nos tempos atuais. Em Excalibur, é como se entregassem a espada e a armadura a um rapaz qualquer, um Nigel Terry cuja figura de liderança é tão frouxa quanto a de Mark Hamill em Star Wars.

Por algum milagre, o filme ainda funciona. Seu herói será engolido à força graças ao talento do diretor John Boorman, também por ser um coadjuvante (ou quase) em um filme sem protagonista. É o que torna Excalibur um objeto estranho ao cinema moderno: é difícil definir um filme que embute momentos cômicos à tragédia épica, no qual o psicodelismo confunde-se o tempo todo com a cafonice.

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Parecerá psicodélico e bonito para alguns, ao mesmo tempo o retrato de uma época na qual o cinema do Ocidente somava a influência dos blockbusters aos ainda tempos loucos do Vietnã e da libertação sexual. Pode soar, para outros, uma experiência sem emoção, uma obra cuja grandeza é levada apenas ao exibicionismo. E é provável que a obsessão de Boorman inclua um pouco de tudo do que foi citado.

Começa com o pai do futuro rei Arthur, Uther, vivido por Gabriel Byrne, um carniceiro que decide quebrar o pacto de boa vizinhança com outro rei ao se sentir atraído sexualmente por sua amada, uma tal Igrayne (Katrine Boorman). Guerras representam menos problemas que os desejos da carne. Reinos são destruídos quando seus reis e rainhas resolvem frequentar outros cômodos e camas.

Uther, depois de engravidar Igrayne, crava sua espada, Excalibur, em uma rocha, no meio da floresta. O objeto só poderá ser retirado pelo futuro rei. Como sabe, será retirado por Arthur após tentativas, em vão, de outros homens (com demonstrações de força inconvincentes). O novo rei, não sem algumas mortes, será coroado e se casará com a bela e fria Guenevere (Cherie Lunghi).

A teia de relações ainda dá espaço à paixão de Guenevere por Lancelot (Nicholas Clay) e à presença da traidora meia-irmã de Arthur (Helen Mirren). Boorman dispensa a naturalidade. Seus seres são abertamente artificiais, e o filme é a exposição de uma lenda como deve ter sido imaginada por uma criança, em alguns momentos, ou por alguém chegado ao realismo da guerra, em outros. Das luzes artificiais segue-se aos homens ensanguentados, à lama, à beira de um lago escuro, em tempos de peste.

Ora ou outra surge o mago Merlin (Nicol Williamson), personagem cômica, quase um mestre de cerimônias exagerado e que dá piscadelas ao espectador na tentativa de adiantar o pior. Alguém dúbio e que reforça certa ousadia desse filme curioso. Em uma sequência estranha, o mago é preso a um grande bloco de gelo e o cenário faz pensar nos espaços do planeta Krypton no Superman de 1978.

A crítica Pauline Kael encontrou boa definição à obra de Boorman: “um conto de fadas sério e impróprio para menores”. O cineasta britânico não dispensa a seriedade, não abre mão dos corpos em sangue – ou do sexo – entre belas imagens e cenários suntuosos. A sequência em que Uther finge ser outro rei e faz sexo com Igrayne aos olhos da pequena Morgana é ousada e aponta ao que vem a seguir.

Perdidos em cena, os homens de lata de Boorman deixam ver suas fraquezas. E o filme, nessa conexão com a realidade, com o defeituoso, é então mais excitante. Aposta em um universo irregular, hoje cafona, algo desgovernado e que oferece certo prazer.

(Idem, John Boorman, 1981)

Nota: ★★★★☆

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Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach

Na Hollywood de Trumbo – Lista Negra, existem figuras exóticas, estranhas, como Hedda Hopper e John Wayne. A direção de Jay Roach salienta o que há de pior nesses seres: próximos ou não dos verdadeiros, ambos deixam claro quem são.

Estão do lado oposto da batalha, o lado errado, como inimigos de Dalton Trumbo, o roteirista comunista. Estão a serviço do extremismo, como o inimigo fácil, pronto para ser odiado. Nesse sentido, logo se vê a cilada do filme.

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Para escapar dela talvez valha a pena recorrer a outro filme sobre o macarthismo, que trata o drama de forma adulta e lega ao inimigo a imagem real, de antigas gravações da época. Fala-se aqui de Boa Noite e Boa Sorte, de George Clooney.

O filme de Roach prefere o risco de recriar esses inimigos, seguidores de Joseph McCarthy. Trumbo, sabe-se, tornou-se um dos Dez de Hollywood, perdeu o contrato com seu estúdio, foi preso e depois teve de escrever roteiros sob pseudônimos.

Ao contrário dos outros, Trumbo é cínico e um pouco sábio, diz o oposto do que se espera para surpreender – ou apenas para parecer dúbio. Ainda que a interpretação de Bryan Cranston impressione, a direção de Roach não permite arroubos.

De inimigos manjados e heróis ainda mais, o filme leva ao clima da época, entre os anos 40 e 50, quando os Estados Unidos e a União Soviética travam uma guerra ideológica. O cinema logo se torna um problema, ou mesmo uma solução: é o espaço para se projetar a imagem do país, a ideologia a ser levada ao público.

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O grande veículo de massa, como mostra o filme, não pôde correr o risco de estar sob a influência de textos de autores como Trumbo, ainda que insistissem em heroísmo. Como se sabe, Trumbo lutou na Segunda Guerra, ao contrário de Wayne.

Aos supostos patriotas, o risco aproximava-se de um vírus mortal, de uma substância alienígena típica de filmes B. O cinema reserva-se ao cinema. Por isso, ironicamente, o protagonista usará um argumento que se aproxima do cinema para justificar o erro dos outros: após anos apontando o risco dos comunistas, nada aconteceu. Foi instalado apenas um clima, um estado contínuo de ficção e histórias irreais.

Muitos punidos para nada, e por nada. A vida americana seguiu como sempre foi, ou quase. A pior parte deve-se aos amigos de McCarthy: para darem vez à caça, chegaram até a rasgar a Constituição Americana. No filme, a vilania de Helen Mirren, como Hopper, ou de David James Elliott, como Wayne, revolta e constrange.

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Não estranha que termine com a vitória do protagonista. Após algumas batalhas, vê-se a amarga volta por cima, mas sem a forma “redonda” das velhas vitórias dos filmes clássicos americanos, com patriotas prontos para abater inimigos.

Em uma das melhores cenas, Trumbo observa a reação de alguns presidiários que assistem a um filme de John Wayne. Se na vida real ele não esteve no campo de batalha, a Hollywood da época encarregou-se de resolver o problema.

Essa terra de ficção cria suas lendas e varre para longe o que não lhe interessa. Por algum tempo, o trabalho de Trumbo só era possível se escondido, problema real quando se pensa nos créditos de um filme e nos produtores covardes.

Nota: ★★★☆☆

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Cinco filmes recentes sobre as consequências do nazismo

O nazismo foi explorado inúmeras vezes no cinema, sob múltiplos ângulos e gêneros. Não faltam filmes para esmiuçar as destruições causadas pelo regime de Adolf Hitler, das propagandas evidentes de Leni Riefenstahl à vida íntima do carrasco, como em Moloch e A Queda! As Últimas Horas de Hitler. A lista abaixo prefere as consequências do mal, o rastro deixado pelos criminosos e os traumas causados pelo regime, após a Segunda Guerra Mundial.

Ida, de Pawel Pawlikowski

Esse drama extraordinário centra-se nas descobertas da noviça que dá nome ao filme. O nazismo serve de fundo. É um passado incômodo, uma tragédia familiar. Em suas andanças, a moça descobre a própria linhagem: então chamada de Anna, Ida (Agata Trzebuchowska) é descendente de judeus. E há mais a explorar: o filme trata de suas descobertas familiares, sexuais, seu choque com o mundo dos homens, fora dos muros do convento, e ao lado da tia libertária.

ida

O Médico Alemão, de Lucía Puenzo

Filha do consagrado diretor Luis Puenzo, de A História Oficial, Lucía compõe um filme intrigante sobre a passagem de Josef Mengele (Àlex Brendemühl) pela Argentina. A diretora explora o olhar de uma garota, de mudança com a família, que acaba se aproximando do médico procurado. Ao invés de recorrer ao estereótipo do vilão nazista, a cineasta prefere um retrato até humano desse criminoso. Interessante observar a forte presença alemã na Argentina dos anos 60.

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Labirinto de Mentiras, de Giulio Ricciarelli

O diretor italiano Ricciarelli está à frente da produção alemã, sobre um jovem procurador (Alexander Fehling) que tenta colocar alguns nazistas atrás das grades. O caso desenrola-se no fim dos anos 50, momento em que os crimes nos campos de extermínio ainda estavam frescos na memória e os próprios alemães evitavam o assunto. Da geração seguinte, o herói sai em busca dos criminosos e descobre a dificuldade de se encarar a própria história.

Phoenix, de Christian Petzold

Passa-se logo após a derrota alemã, com Berlim aos pedaços. A protagonista Nelly Lenz (Nina Hoss) sobreviveu aos campos de concentração e retorna em busca do marido (Ronald Zehrfeld), responsável por seu cárcere. Ao amor ao algoz e à possível mudança para Israel, ainda em formação, soma-se a transformação da heroína, submetida a uma cirurgia na face. O trabalho de Petzold carrega contornos do cinema noir, além da bela interpretação de Hoss.

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A Dama Dourada, de Simon Curtis

Drama quadrado, ainda que com um ponto de partida original: é sobre Maria Altmann (Helen Mirren), refugiada judia que luta para reaver um valioso quadro de sua família, A Dama Dourada, de Gustav Klimt. A valiosa obra de arte encontra-se na Áustria, depois de roubada pelos nazistas durante o apogeu de Hitler. O caso vai parar nos tribunais. Nessa cruzada, Altmann conta com a ajuda do advogado certinho vivido por Ryan Reynolds, escolha ruim para o papel.

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Helen Mirren, 70 anos

Existem diferenças entre fazer filmes norte-americanos e britânicos?

Na verdade não. O figurinista é o mesmo na França, Itália, Alemanha, Austrália. O diretor de fotografia é o mesmo cara. O cineasta sempre usa uma jaqueta de couro, seja homem ou mulher, sempre. Eles são os mesmos personagens. É engraçado. E os jornalistas são sempre como você.

Helen Mirren, em resposta ao jornalista Eric Kelsey, da agência de notícias Reuters (leia a entrevista completa aqui). A atriz, que acaba de completar 70 anos, aparece abaixo em Caçada na Noite, de John Mackenzie, no qual vive Victoria, a mulher de um poderoso mafioso.

caçada na noite