Hannah

As dez melhores atrizes de 2018

Centrais
As cinco personagens representam mães com problemas: mulheres que perderam os filhos, as famílias, em jornadas de dor e até mesmo em contato com o sobrenatural. Em alguns casos, a história se desvia da tragédia e mira na sociedade ao redor.

Charlotte Rampling em Hannah

Diane Kruger em Em Pedaços

Frances McDormand em Três Anúncios Para um Crime

Karine Teles em Benzinho

Toni Collette em Hereditário

Outros destaques: Ana Brun em As Herdeiras; Andrea Berntzen em Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega; Juliette Binoche em Deixe a Luz do Sol Entrar; Kim Min-hee em O Dia Depois e A Câmera de Claire; Louise Chevillotte em Amante por um Dia; Luciana Paes em O Animal Cordial; Margot Robbie em Eu, Tonya; Maryana Spivak em Sem Amor; Meryl Streep em The Post: A Guerra Secreta; Sally Hawkins em A Forma da Água; Saoirse Ronan em Lady Bird: É Hora de Voar; Yalitza Aparicio em Roma.

Coadjuvantes
Um time variado, com atrizes de diferentes gerações, entre rostos conhecidos e outros jovens. A mãe traidora e autoritária, a mãe jovem que tenta sustentar a filha, a menina em uma família cheia de problemas, a dama de peruca, entre colonizadores, e a senhora de espírito amargo.

Allison Janney em Eu, Tonya

Bria Vinaite em Projeto Flórida

Fantine Harduin em Happy End

Lola Dueñas em Zama

Natalya Potapova em Sem Amor

Outros destaques: Adriana Esteves em Benzinho; Ana Ivanova em As Herdeiras; Elisabeth Moss em The Square: A Arte da Discórdia; Galatéa Bellugi em A Aparição; Jeon Jong-seo em Em Chamas; Laurie Metcalf em Lady Bird: É Hora de Voar; Léa Drucker em Custódia; Lesley Manville em Trama Fantasma; Lilli Palmer em O Outro Lado do Vento; Millicent Simmonds em Sem Fôlego.

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Hannah, de Andrea Pallaoro

Com a personagem-título, o espectador fica entre a impressão de chegar longe e a de não saber nada. A segunda certamente prevalece à medida que o filme, Hannah, revela-se uma jornada física com poucas aberturas ao interior da mulher em questão.

O que está em jogo é a dor, a expressão na pele, a do pequeno gesto, no teste que a mesma impõe ao público: é uma mulher fria que deixa ver o que sente a conta-gotas, de suas aulas de teatro à companhia do marido preso, das andanças pelo metrô ao trabalho como empregada doméstica da bela casa na qual cuida de uma criança.

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De Andrea Pallaoro, o filme é um estudo poderoso sobre a presença como ausência, em que tudo e nada emergem em um único ser de jeito triste, sob as expressões da talentosa Charlotte Rampling. Algumas situações apontam ao que se pode tomar como o drama central: seu marido está preso e o filho não a recebe mais, impedindo que veja o neto.

Teria o marido feito algo à criança? O crime não fica claro, tampouco a decisão do filho de tomar distância. Na sequência mais forte, Hannah vê-se com um bolo de aniversário em mãos, para fora da casa do filho, sem que possa participar do aniversário do neto. O bolo, feito com tanto cuidado, não pôde ser entregue à criança.

Em suas andanças, Hannah faz do óbvio, do repetitivo, sua força. Não estranha se alguém encontrar nesse caminhar – ao respingo das novidades – algo semelhante ao genial Jeanne Dielman, de 1975. Mas se a obra de Chantal Akerman aprisiona o espectador aos sinais do dia a dia da mulher, aos afazeres domésticos e, principalmente, aos mesmos cômodos, Hannah encaminha ao falso respiro, à falsa libertação.

O universo da personagem-título é montado com peso, imobilismo, representado pelo leviatã encalhado na praia, no encerramento. É como se, ao encarar o animal à beira da morte, Hannah encontrasse o que sua vida toda se tornou: um monstro sem caminho, sem força, curiosamente rodeado pelo ar que, nesse caso, serve-lhe de nada.

Na contramão de um ou outro drama pessoal, resta o caminhar, a impressão de se fazer algo. A súplica de Hannah – desesperada, em silêncio – desemboca justamente em suas aulas de teatro. Dizer algo sem sentido, com o poder da voz, é sua fuga; viver outro, também. Essa mulher foge enquanto se envolve nos mesmos espaços, presa à mesma vida.

(Idem, Andrea Pallaoro, 2017)

Nota: ★★★★☆

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