Hal Ashby

A Última Missão, de Hal Ashby

A amizade entre o trio de A Última Missão é instável, nem sempre visível. Em situações difíceis de entender, eles travam conflitos entre si, às vezes de maneira irracional, simplesmente porque um discorda do outro, ou apenas para extravasar.

É quase um milagre que o filme de Hal Ashby consiga, por pequenos espaços, ser ainda um filme sobre camaradagem. Em boa parte do tempo, os homens terminam juntos por obrigação e, ironia maior, ao fim anunciam caminhos diferentes.

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Pelos Estados Unidos atolados em uma guerra no Vietnã e com parte da população sem otimismo na ação de seus governantes, os marinheiros fazem uma viagem de descobrimento e rebeldia: dois deles levam o terceiro para a prisão, após o mesmo ter roubado 40 dólares de um serviço beneficente da Marinha americana.

Cada um fornece ao espectador algo diferente. O primeiro é Jack Nicholson, como o bruto e falador Buddusky, alguém que pode ser tão odioso quanto humano, tão inconstante quanto seguro. Poucos atores explodem de maneira tão espontânea quanto ele – e poucos sabem ser exagerados sem cair na caricatura.

Em bela sequência, ele grita a um balconista sua função, a do marinheiro armado que deseja ser atendido com doses de cerveja. Nesse país em que os protagonistas passam boa parte do filme em movimento, para fugir do frio, ele precisa gritar para ter o que deseja. E a obra de Ashby é justamente sobre um país mergulhado na frieza.

O segundo é o negro Otis Young, Mulhall, em oposição ao outro: é ele quem leva o espectador – também a missão da dupla – a um ponto de equilíbrio e consciência.

O prisioneiro é o ingênuo Randy Quaid, Meadows, que sequer ficou com os 40 dólares roubados – ainda que tenha confessado o crime. Desajeitado, alto, ele terá oito anos pela frente em uma cadeia militar, mas tem antes sua última semana de liberdade com os novos amigos.

Com roteiro de Robert Towne, a regra desse belo drama de Ashby é controlar as explosões, encontrar graça e drama em excesso em pontos impossíveis, não raro nos momentos banais – como aquele em que Meadows diz a uma mulher que não pode tentar a fuga, já que os companheiros de farda são seus melhores amigos.

Ou o momento em que ele – sob as poucas luzes da fotografia, como em quase todo o filme – pede que a prostituta prolongue o tempo do encontro, para que possa continuar ali, olhando para ela, sem fazer nada senão matar o próprio tempo.

O filme de Ashby é feito de instantes mágicos, simples, possíveis no período da Nova Hollywood, com o cinema livre de autores como Robert Altman, Jerry Schatzberg e o próprio Ashby (que mais tarde faria outros filmes sobre os problemas de seu país, como Amargo Regresso e Muito Além do Jardim).

A impressão é a de que nada acontece em A Última Missão, como nas sequências em que os homens resolvem se trancar em um quarto de hotel e beber sem parar. A missão revela-se inversa à ordem das instituições militarizadas: resulta quase sempre em anarquia, ponto em que a comédia funde-se ao drama.

A viagem leva a diferentes locais. Em uma das paradas, na cidade em que Meadows vivia, os três veem-se à porta da casa do jovem, de olho em seu interior vazio, em sua bagunça. O passado do menino vem à tona. Nenhum deles tem coragem de cruzar a linha. Observam o interior, a possível história por trás dos objetos da mãe de Meadows, a história do menino que agora será sacrificado pela tirania de seus líderes. O trio tenta viver sob o mal-estar desse país frio, impessoal, com tristeza por todos os cantos.

(The Last Detail, Hal Ashby, 1973)

Nota: ★★★★☆

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Outros da mesma época, apesar dos prêmios e atores famosos, não ficaram retidos na memória da maior parte do público. A lista abaixo pretende resgatar algumas joias raras que traduzem o espírito do final dos anos 60 e o início dos 70, com várias feridas abertas nos Estados Unidos. Tratam do culto às armas, da ética na imprensa, do vício em drogas, da contestação à ordem, do fim do sonho americano e do cinema como galvanizador de corações e mentes. Não é pouco.

Na Mira da Morte, de Peter Bogdanovich

Astro de antigos filmes de terror, Boris Karloff esteve à disposição do jovem diretor por apenas dois dias, já que ainda mantinha um contrato com o produtor Roger Corman para vencer nesse prazo. Apesar das evidentes deficiências e do parco orçamento, o filme abriu as portas para o cineasta, que pouco depois faria A Última Sessão de Cinema. Foi inspirado no ataque real de um atirador de 16 anos, em abril de 1965.

na mira da morte

Dias de Fogo, de Haskell Wexler

Outra pequena obra de arte da improvisação, com referências à nouvelle vague, sobretudo a O Desprezo, de Godard (com a câmera que se volta ao espectador no encerramento). O diretor era famoso por seus trabalhos como diretor de fotografia e acompanha aqui os passos de um cinegrafista (Robert Forster) nos tumultuados meses de 1968, entre a convenção Democrata de Chicago e os protestos contra o governo.

dias de fogo

Os Viciados, de Jerry Schatzberg

O filme que projetou a carreira de Al Pacino e certamente o levou ao primeiro Chefão, lançado um ano depois. Aborda o relacionamento conflituoso entre dois jovens viciados, frequentadores de um reduto de desregrados conhecido como “parque da seringa”, na Nova York dos anos 70. Entre sequências chocantes, não deixa de ser uma bela história de amor, com altos e baixos, sob a ótica realista do grande diretor.

os viciados

Pequenos Assassinatos, de Alan Arkin

Com amigos do teatro e pequeno orçamento, Arkin conseguiu realizar esse belo filme, sua estreia na direção. Resumi-lo em poucas linhas é trabalho árduo. Trata da relação amorosa entre uma mulher otimista (Marcia Rodd) e um niilista (Elliott Gould), da família excêntrica dela e também de assassinatos em série. O roteiro de Jules Feiffer, a partir de sua própria peça, mostra a violência intrínseca à sociedade americana.

pequenos assassinatos

O Último Filme, de Dennis Hopper

Não deixa de ser um estudo sobre a visão dos nativos em relação aos americanos e ao ato de fazer cinema. Um filme original, com as improvisações comuns à época, e com um diretor que não tinha problema em se assumir um louco. É um faroeste feito no Peru, com um filme dentro de outro e no qual o cineasta torna-se uma espécie de padre, a guiar os nativos. É, sobretudo, sobre o poder do cinema.

a ao último filme

Sonhos do Passado, de John G. Avildsen

Esse drama poderoso desenrola-se em apenas um dia. Do pesadelo de Harry Stoner (Jack Lemmon) ao seu encontro com o oceano, ao fim, o espectador assiste à derrocada do sonho americano. Para sobreviver, Stoner precisa tomar uma medida drástica: atear fogo na própria empresa – com a ajuda de um profissional – para receber o dinheiro do seguro. E, nesse dia, ele ora ou outra retorna ao passado.

sonhos do passado

A Última Missão, de Hal Ashby

Após ser detido tentando furtar 40 dólares, um jovem marinheiro (Randy Quaid) é condenado a oito anos de prisão. Para levá-lo ao cárcere, são designados outros dois oficiais. Tem início então uma jornada de descobrimento: a cada nova parada e bebedeira, esses homens revelam outro olhar sobre suas funções, sobre justiça e sobre aquele país transformado. Mais uma grande atuação de Jack Nicholson.

a última missão

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Os 25 melhores filmes sobre a velhice

Da comédia ao drama profundo, a velhice nem sempre tem sido tratada com constância no cinema. É comum atores com idade avançada ocuparem personagens coadjuvantes e com dramas que passam longe do seio da história. Às vezes são mordomos, feiticeiras ou, em muitos casos, guias espirituais ao herói jovem e galã.

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Os mais velhos, quando no centro, deram luz a grandes jornadas, com ensinamentos aos mais jovens, com aprendizado adquirido com o mundo bruto – como se vê nas obras-primas Morangos Silvestres e Viver. Alguns filmes não são fáceis: levam a pensar na morte, momento em que se pode deixar uma marca ou apenas aceitar o fim.

Os filmes abaixo deixam marcas com personagens maldosas, bem humoradas, muitas vezes como crianças desamparadas, perdidas entre os sinais da juventude. A velhice, no cinema, deixa motivos para comemorar – pelo menos do ponto de vista cinematográfico. É o que se constata em 25 filmes incríveis.

25) Nebraska, de Alexander Payne

nebraska

24) O Último Pistoleiro, de Don Siegel

o último pistoleiro

23) Ensina-me a Viver, de Hal Ashby

ensina-me a viver

22) Uma História Real, de David Lynch

história real

21) Up: Altas Aventuras, de Pete Docter e Bob Peterson

up

20) Uma Dupla Desajustada, de Herbert Ross

uma dupla desajustada

19) E se Vivêssemos Todos Juntos?, de Stéphane Robelin

e se vivêssemos todos juntos

18) Harry, o Amigo de Tonto, de Paul Mazursky

harry o amigo de tonto

17) Vou para Casa, de Manoel de Oliveira

vou para casa

16) A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino

a grande beleza

15) O Regresso para Bountiful, de Peter Masterson

O Regresso para Bountiful

14) Baleias de Agosto, de Lindsay Anderson

baleias de agosto2

13) Adeus, Mr. Chips, de Sam Wood

adeus mr chips

12) Hanami – Cerejeiras em Flor, de Doris Dörrie

hanami

11) O Carrinho, de Marco Ferreri

o carrinho1

10) A Morte do Sr. Lazarescu, de Cristi Puiu

a morte do senhor lazarescu

9) Amor, de Michael Haneke

amor

8) Poesia, de Lee Chang-dong

poesia

7) Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman

morangos silvestres

6) A Última Gargalhada, de F.W. Murnau

a última gargalhada

5) O Amor, de Károly Makk

o amor

4) Umberto D., de Vittorio De Sica

umberto d

3) Viver, de Akira Kurosawa

viver

2) A Cruz dos Anos, de Leo McCarey

a cruz dos anos

1) Era Uma Vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu

contos de tóquio

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Rebeldes

Uma lista rápida, com uma penca de nomes importantes, que vem à mente de uma hora para outra. Assim, como em uma inspiração. Sim, faltam outros, homens e mulheres. Mas fiquemos com estes por enquanto.

Abel Ferrara

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Arthur Penn

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Carlos Reichenbach

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Dennis Hopper

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Francis Ford Coppola

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Hal Ashby

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John Cassavetes

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Michael Cimino

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Nagisa Oshima

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Orson Welles

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Pier Paolo Pasolini

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Rainer Werner Fassbinder

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Robert Altman

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Samuel Fuller

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Werner Herzog

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William Friedkin

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