Guerra nas Estrelas

100 grandes vilões do cinema

O que define um vilão? Em termos gerais, a capacidade de fazer o mal e colocar barreiras ao avanço do protagonista ou herói da história. Por outro lado, nem sempre se conta com o protagonista esperado e, por isso, há casos em que reinam os vilões, em que o espectador está sozinho com eles – ou quase. É o caso de obras desafiadoras como Laranja Mecânica ou Taxi Driver, nas quais seus protagonistas são também os vilões e, por consequência, representam o espaço e sintetizam a sociedade ao redor.

A lista abaixo traz vilões conhecidos e outros pouco lembrados. O apanhado tenta fazer justiça a muitos coadjuvantes que roubam a cena. Trata-se de um mergulho no espaço da maldade que o cinema não cansa de reinventar. Nele, não se pode negar a atração, o choque, os efeitos causados por grandes antagonistas. À lista.

100) Michael Myers (Tony Moran) em Halloween – A Noite do Terror

99) Edwin Epps (Michael Fassbender) em 12 Anos de Escravidão

98) Margot Shelby (Jean Gillie) em A Mulher Dillinger

97) Regan/ O Diabo (Linda Blair) em O Exorcista

96) John Fitzgerald (Tom Hardy) em O Regresso

95) General Paul Mireau (George Macready) em Glória Feita de Sangue

94) Iago (Micheál MacLiammóir) em Otelo

93) O Comandante (Idris Elba) em Beasts of No Nation

92) Sargento Barnes (Tom Berenger) em Platoon

91) Senhora Sebastian (Leopoldine Konstantin) em Interlúdio

90) Joe Cooper (Matthew McConaughey) em Killer Joe – Matador de Aluguel

89) Amy Dunne (Rosamund Pike) em Garota Exemplar

88) Jack Wilson (Jack Palance) em Os Brutos Também Amam

87) Assassino mascarado (Cameron Mitchell) em Seis Mulheres para o Assassino

86) Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) em O Abutre

85) John Claggart (Robert Ryan) em Billy Budd

84) Capitão Munsey (Hume Cronyn) em Brutalidade

83) Isabelle de Merteuil (Glenn Close) em Ligações Perigosas

82) Jeanne (Isabelle Huppert) e Sophie (Sandrine Bonnaire) em Mulheres Diabólicas

81) Alonzo Harris (Denzel Washington) em Dia de Treinamento

80) Vince Stone (Lee Marvin) em Os Corruptos

79) Annie Wilkes (Kathy Bates) em Louca Obsessão

78) Bill Cutting (Daniel Day-Lewis) em Gangues de Nova York

77) Verbal Kint (Kevin Spacey) em Os Suspeitos

76) Edoardo Nottola (Rod Steiger) em As Mãos Sobre a Cidade

75) Dobbs (Humphrey Bogart) em O Tesouro de Sierra Madre

74) Antonio Salieri (F. Murray Abraham) em Amadeus

73) Louis Cyphre (Robert De Niro) em Coração Satânico

72) O tenente (Anselmo Duarte) em O Caso dos Irmãos Naves

71) Amon Goeth (Ralph Fiennes) em A Lista de Schindler

70) O senhor Brown (Richard Conte) em Império do Crime

69) Matty Walker (Kathleen Turner) em Corpos Ardentes

68) Tommy DeVito (Joe Pesci) em Os Bons Companheiros

67) Vera (Ann Savage) em Curva do Destino

66) Alex Forrest (Glenn Close) em Atração Fatal

65) Harry Lime (Orson Welles) em O Terceiro Homem

64) Enfermeira Ratched (Louise Fletcher) em Um Estranho no Ninho

63) Asami (Eihi Shiina) em Audição

62) C.A. Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) em Metrópolis

61) Drácula (Bela Lugosi) em Drácula

60) Senhora Danvers (Judith Anderson) em Rebecca, a Mulher Inesquecível

59) Johnny Rocco (Edward G. Robinson) em Paixões em Fúria

58) Johnny Friendly (Lee J. Cobb) em Sindicato de Ladrões

57) Ricardo III (Laurence Olivier) em Ricardo III

56) Henry (Michael Rooker) em Henry: Retrato de um Assassino

55) John Doe (Kevin Spacey) em Seven: Os Sete Pecados Capitais

54) Zé Pequeno (Leandro Firmino) em Cidade de Deus

53) Margaret White (Piper Laurie) em Carrie, a Estranha

52) Eve (Anne Baxter) em A Malvada

51) Vidal (Sergi López) em O Labirinto do Fauno

50) Barrett (Dirk Bogarde) em O Criado

49) Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) em Sangue Negro

48) Tony Montana (Al Pacino) em Scarface (1983)

47) Mark Lewis (Karlheinz Böhm) em A Tortura do Medo

46) Duke Mantee (Humphrey Bogart) em A Floresta Petrificada

45) Chuck Tatum (Kirk Douglas) em A Montanha dos Sete Abutres

44) Hans Landa (Christoph Waltz) em Bastardos Inglórios

43) Dr. Caligari (Werner Krauss) em O Gabinete do Dr. Caligari

42) Inspetor (Gian Maria Volonté) em A Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita

41) Senhor Potter (Lionel Barrymore) em A Felicidade Não se Compra

40) Raymond Lemorne (Bernard-Pierre Donnadieu) em O Silêncio do Lago

39) Szell (Laurence Olivier) em Maratona da Morte

38) HAL 9000 (voz de Douglas Rain) em 2001: Uma Odisseia no Espaço

37) Paul (Arno Frisch) e Peter (Frank Giering) em Funny Games

36) Príncipe Próspero (Vincent Price) em A Orgia da Morte

35) Travis Bickle (Robert De Niro) em Taxi Driver

34) Rico (Edward G. Robinson) em Alma no Lodo

33) Baby Jane Hudson (Bette Davis) em O que Teria Acontecido com Baby Jane?

32) Noah Cross (John Huston) em Chinatown

31) Tony (Paul Muni) em Scarface – A Vergonha de uma Nação

30) O Coringa (Heath Ledger) em Batman – O Cavaleiro das Trevas

29) Hank Quinlan (Orson Welles) em A Marca da Maldade

28) Anton Chigurh (Javier Bardem) em Onde os Fracos Não Têm Vez

27) J.J. Hunsecker (Burt Lancaster) em A Embriaguez do Sucesso

26) Ryunosuke (Tatsuya Nakadai) em A Espada da Maldição

25) Capitão Bligh (Charles Laughton) em O Grande Motim

24) Zé do Caixão (José Mojica Marins) em À Meia-Noite Levarei Sua Alma

23) Jack Torrance (Jack Nicholson) em O Iluminado

22) Conde Orlok (Max Schreck) em Nosferatu

21) Lady Kaede (Mieko Harada) em Ran

20) Alex DeLarge (Malcolm McDowell) em Laranja Mecânica

19) A Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton) em O Mágico de Oz

18) Pinkie Brown (Richard Attenborough) em O Pior dos Pecados

17) Tom Powers (James Cagney) em O Inimigo Público

16) Eleanor Shaw Iselin (Angela Lansbury) em Sob o Domínio do Mal

15) Regina Giddens (Bette Davis) em Pérfida

14) Tio Charlie (Joseph Cotten) em A Sombra de uma Dúvida

13) Ellen Berent Harland (Gene Tierney) em Amar Foi Minha Ruína

12) Harold Shand (Bob Hoskins) em Caçada na Noite

11) Darth Vader em Guerra nas Estrelas e O Império Contra-Ataca

10) Cody Jarrett (James Cagney) em Fúria Sanguinária

Cagney é pura maldade. Um demônio que não esquece a mãe e que, ao fim, chega ao “topo do mundo” para gritar por ela.

9) Don Lope de Aguirre (Klaus Kinski) em Aguirre, A Cólera dos Deuses

O homem levado pelo rio, e que leva todos seus companheiros à desgraça. Alguém do qual pouco se sabe e retém todo o mal dessa expedição.

8) Harry Powell (Robert Mitchum) em O Mensageiro do Diabo

Pode ser até mesmo cômico em alguns momentos. Com os dedos marcados, torna a vida de duas crianças um inferno.

7) Mabuse (Rudolf Klein-Rogge) em Dr. Mabuse – O Jogador

Fritz Lang fez de Mabuse a síntese do mal que recairia sobre a Alemanha anos mais tarde – e voltaria a ele em outros filmes fantásticos.

6) Frank Booth (Dennis Hopper) em Veludo Azul

É assustador até mesmo quando ajoelha à mulher que aprisiona e interpreta uma criança em busca do seio da mãe.

5) Norman Bates (Anthony Perkins) em Psicose

Duas personalidades duelam nessa figura atormentada, assexuada, que observa a nova vítima com alguma curiosidade antes de atacá-la.

4) Frank (Henry Fonda) em Era Uma Vez no Oeste

Mais lembrado por heróis e figuras honestas, Fonda está assustador como esse pistoleiro que mata adultos e crianças.

3) Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) em O Silêncio dos Inocentes

Ninguém esquece o momento em que ele conta como matou e, em seguida, comeu o fígado da vítima com favas e “um bom Chianti”.

2) Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) em Pacto de Sangue

A falsa loura mobiliza um homem aos seus pés para matar o marido e, claro, ficar com o dinheiro do falecido ao fim.

1) Michael Corleone (Al Pacino) em O Poderoso Chefão – Parte 2

Transformado em líder na primeira parte, de rapaz assustado à chefe mafioso vingativo, Michael forma-se vilão na segunda parte. É capaz de matar o próprio irmão quando é traído. Seus movimentos são calculados, sua frieza é extrema. Assusta justamente porque é real e palpável.

Atores presentes em dois filmes: Al Pacino, Bette Davis, Daniel Day-Lewis, Edward G. Robinson, Glenn Close, Humphrey Bogart, James Cagney, Kevin Spacey, Laurence Olivier, Orson Welles, Robert De Niro e Rudolf Klein-Rogge.

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Espectador idiotizado (ou como chegamos à onda de filmes de super-heróis)

Os blockbusters são parte da cultura de massa há décadas. Há os bons, empolgantes; há os esquecíveis, deploráveis. O cinema voltado ao entretenimento existe desde que Méliès resolveu fazer dessa arte um veículo para sua mágica: não se tratava mais da opacidade, mas da transparência, de um fluxo de quadros que induziam o espectador a outro universo, do qual sua “prisão” (na falta de uma palavra melhor) estava ligada diretamente ao talento do diretor.

Em seus esforços para atrair a atenção e captar alguns centavos, entre crises de criatividade e financeiras, o cinema tem tentado se ajustar à demanda de um espectador que nem sempre se deixa decifrar, e que às vezes leva a sucessos acidentais. Com os filmes de super-heróis, a indústria parece ter descoberta um filão rentável longe de perder a força.

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Da chamada “arte de feira” ao universo digital em que o céu não é mais o limite, essa arte tem passado por diferentes ondas: o burlesco, o filme falado, o musical, a fita policial, a comédia social, o filme de monstro, o filme de guerra, o épico bíblico, os filmes de alienígena, os filmes com rebeldes, os filmes catástrofe, os filmes realistas e amargos, os filmes que resgatam, enfim, o prazer da matinê em meio a tempos difíceis etc.

Muitos dirão: Steven Spielberg e George Lucas são os culpados. Errado. O que reproduzia um cinema aparentemente infantil – ou o que voltou a produzi-lo em plena Nova Hollywood – ainda acompanhava inegável qualidade. Tubarão e Guerra nas Estrelas são grandes filmes. O que veio depois foi, sobretudo, uma mudança nas regras do jogo. Spielberg e Lucas pavimentaram apenas uma (pequena) parte do caminho.

Assim como esses realizadores entenderam que o espectador estava disposto a voltar para uma “galáxia muito, muito distante”, outros entenderam que os filmes de super-heróis, décadas depois, ainda tinham combustível para queimar. Superman, nos anos 70, e Batman, nos 80 e 90, apenas rasparam a superfície da mina de ouro. Por algum tempo, continuações que não deram certo pareciam ter sepultado a presença dos heróis na tela.

Outra onda pôs-se em curso no início dos anos 2000. Vieram o Homem-Aranha, os X-Men, Hulk, outra vez Superman, e outro Aranha, e outro Hulk. Repaginadas, recomeços, outros atores. Sob a batuta de Christopher Nolan, Batman ficou mais adulto. Durou três filmes. Batman vs. Superman, depois, veio dizer que era necessário infantilizar novamente. Mais luzes, mais maquiagem, mais CGI. Outra bobagem.

Com a Marvel dando as cartas, e com a enxurrada de dinheiro que seus filmes passaram a levar, inúmeros atores respeitáveis procuraram ali uma vaga, mesmo que pequena, como coadjuvante. Para ficar em dois nomes: Anthony Hopkins e Tilda Swinton.

Entre erros e acertos, a Marvel não escapa à seguinte constatação: um fracasso cinematográfico – não financeiro, que fique claro – dá vez a algo difícil de ver, indigerível, como são os casos da segunda parte de Guardiões da Galáxia e da terceira de Thor. E um mínimo sucesso não é mais que um filme bom, como Homem-Aranha: De Volta ao Lar.

Quer dizer, mesmo os melhores são pouco mais que medianos, pouco mais que bons entretenimentos. O fato é que a Marvel não fez um grande filme até o momento. As explicações são variadas, mas nenhuma será mais gritante que a falta de talento de seus realizadores, ou a proposital inclinação ao entretenimento médio voltado ao público médio.

Não se trata de subestimar o espectador. Quem o faz, na verdade, é a Marvel, não este crítico. O estúdio dá sinais de que não está disposto a ousar. O caminho é o contrário: quando uma marca mostra desgaste, como Thor, o que faz é apelar ao oposto, tornar o produto mais colorido, cômico e infantil, nada ambíguo ou adulto.

Não há problema em ser cômico, desde que a comédia em questão seja sustentável, ou se sirva de um roteiro interessante. A comédia da Marvel reduz-se a roteiros pobres, tiradas pouco engraçadas, situações inesperadas que não a fazem original.

O máximo que se pode dizer de um filme como Thor: Ragnarok é que se aproxima do nonsense – o que já soa como elogio. Banha-se em cores fortes, com um bando de gente esforçando-se para parecer desmiolada, ou engraçada, e dando à obra impacto algum. Diferentes situações exemplificam isso. Em uma delas, Bruce Banner (Mark Ruffalo) salta de uma nave para se transformar em Hulk e enfrentar uma fera, já nos momentos finais. Ao atingir o solo, no entanto, ele continua Bruce Banner. O monstro verde demora um pouco mais para surgir, algo fora do lugar. A farsa venceu a ação.

A esse balaio de “inovações”, a Marvel mantém alguns ítens amados pelos jovens consumidores de filmes, pipoca e refrigerante (nem sempre nessa ordem): as cenas pós-créditos, as participações de Stan Lee, as participações de personagens de outros filmes, o resgate de atores veteranos em pequenos papéis (Jeff Goldblum em Ragnarok, Stallone em Guardiões da Galáxia Vol. 2), além das estratégias de marketing amadas pelos fãs (e adotadas por outros estúdios), como a presença da marca em eventos de cultura geek/nerd.

A quem se dirigem todos esses filmes, todo esse barulho, todo esse visual propositalmente cafona – ou, se querem alguns, nonsense – senão para um público geek/nerd ou próximo a ele? Não se trata de criticar tal público, longe disso. A impressão, contudo, é que a fórmula de venda dirigida aos “jovens” é a “fórmula que deu certo”, na qual os filmes precisam parecer cada vez mais idiotas, para elevar o riso cada vez mais.

Ragnarok ri de si mesmo. Ri de suas bobagens, como se falasse ao espectador – nas palavras que as imagens mantêm suspensas, mas inescapáveis – que todo o consumidor desse cinema deve se sentir como um adolescente sedento por piadas e situações ridículas, quando subverter a expectativa do público passa longe de algo original ou inteligente.

E ao se deixar levar apenas por essas piadas, pelas tiradas, pelas piscadelas descontraídas de um Chris Hemsworth ou de um Chris Pratt, o espectador médio talvez esteja disposto a sair da sala com as mãos – e o cérebro – abanando. Dirão alguns: o propósito é apenas a diversão. Mas é possível ser entretenimento e ser levado a sério como cinema.

Spielberg e Lucas não deixaram o cinema mais infantil. Aqui ou acolá, filmes sempre reproduziram, em diferentes formas ou momentos, um espírito infantil e ingênuo. Basta pensar na comédia burlesca de Mack Sennett nos anos 1910 ou nos musicais dos anos 30. Ingênuos, leves, à contramão da realidade. Infantis na forma como expressam o espírito de pureza de uma nação, um mundo que podia dar certo.

Comparar os musicais da MGM com os filmes da Marvel é covardia. Cada onda representa o entretenimento para multidões em uma determinada época. Pensar nas transformações, por outro lado, é desanimador, pois o buraco que separa esses filmes não evitou que, ontem como hoje, fossem feitos em linha de produção, para atrair bilheteria. Em qualquer um dos casos, e a despeito das transformações, a indústria segue em pleno movimento.

Ainda não se sabe quanto tempo vai durar essa onda de filmes de super-herói. Não se sabe até quando o público vai ter paciência, nem quando os produtores e seus estúdios – e a resposta a esta pergunta é a mais difícil – tratarão o espectador como adulto e pensante, não um mero consumidor feito para inflar gráficos e apontar a novas tendências de mercado.

Foto 1: Thor: Ragnarok
Foto 2: Batman vs. Superman
Foto 3: Guerra nas Estrelas

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O sonho da Nova Hollywood

A previsão que Coppola fizera em 1968 de que não haveria mais “uma Hollywood como conhecemos quando sua geração de estudantes de cinema deixar a faculdade” provou estar parcialmente correta. A indústria mudou, embora certamente não da maneira que Coppola um dia esperara que fosse mudar – e ele, assim como seus companheiros autores George Lucas e Steven Spielberg, tem culpa parcial nisso.

O estupendo sucesso de bilheteria de filmes autorais caros como O Poderoso Chefão, Tubarão (Jaws, 1975) e Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977) – o próprio tipo de filme que Coppola um dia pensara que iria fomentar uma nova indústria autoral em Hollywood – levou a indústria a generalizadamente se focar em faturamentos provindos de blockbusters. O sucesso de filmes de autor nos anos 1970 não permitiu, como Coppola esperava que fosse acontecer, que os autores tivessem mais acesso a financiamento para seus filmes. Em vez disso, os diretores tornaram-se cada vez mais dependentes de financiamentos de estúdios para produzir e distribuir “grandes” filmes.

Com a possibilidade de se obter receitas enormes derivadas de um único produto (de um só filme), os estúdios começaram a concentrar seus esforços na procura pelo próximo O Poderoso Chefão, Tubarão ou Guerra nas Estrelas, à custa de qualquer coisa e de qualquer outra coisa. O resultado final do cinema autoral, então, não era uma maior independência para os autores (como o Zoetrope Studios de Coppola resumia e simbolizava) ou um aumento na oferta para o consumidor. Em vez disso, por volta de 1980, Hollywood parecia estar encolhendo, e o papel dos intermediários que poderiam unir financiamentos de produção e de distribuição tornou-se mais importante do que nunca.

Jon Lewis, professor da School of Writing, Literature, and Film da Oregon State University, onde leciona cursos sobre cinema e estudos culturais desde 1983. O texto foi publicado originalmente sob o título The New Hollywood em Whom God Wishes To Destroy… Francis Ford Coppola and The New Hollywood (Durham e Londres: Duke University Press, 1995) e reproduzido no catálogo da mostra Francis Ford Coppola – O Cronista da América (pgs. 175 e 176; tradução de André Duchiade; leia aqui). Abaixo, Marlon Brando e Coppola nos bastidores de O Poderoso Chefão.

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Excalibur, de John Boorman

É possível sentir o peso dos trajes de metal, a dificuldade de se movimentar. Os heróis são desajeitados, sem a aparência que os recobre nos tempos atuais. Em Excalibur, é como se entregassem a espada e a armadura a um rapaz qualquer, um Nigel Terry cuja figura de liderança é tão frouxa quanto a de Mark Hamill em Star Wars.

Por algum milagre, o filme ainda funciona. Seu herói será engolido à força graças ao talento do diretor John Boorman, também por ser um coadjuvante (ou quase) em um filme sem protagonista. É o que torna Excalibur um objeto estranho ao cinema moderno: é difícil definir um filme que embute momentos cômicos à tragédia épica, no qual o psicodelismo confunde-se o tempo todo com a cafonice.

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Parecerá psicodélico e bonito para alguns, ao mesmo tempo o retrato de uma época na qual o cinema do Ocidente somava a influência dos blockbusters aos ainda tempos loucos do Vietnã e da libertação sexual. Pode soar, para outros, uma experiência sem emoção, uma obra cuja grandeza é levada apenas ao exibicionismo. E é provável que a obsessão de Boorman inclua um pouco de tudo do que foi citado.

Começa com o pai do futuro rei Arthur, Uther, vivido por Gabriel Byrne, um carniceiro que decide quebrar o pacto de boa vizinhança com outro rei ao se sentir atraído sexualmente por sua amada, uma tal Igrayne (Katrine Boorman). Guerras representam menos problemas que os desejos da carne. Reinos são destruídos quando seus reis e rainhas resolvem frequentar outros cômodos e camas.

Uther, depois de engravidar Igrayne, crava sua espada, Excalibur, em uma rocha, no meio da floresta. O objeto só poderá ser retirado pelo futuro rei. Como sabe, será retirado por Arthur após tentativas, em vão, de outros homens (com demonstrações de força inconvincentes). O novo rei, não sem algumas mortes, será coroado e se casará com a bela e fria Guenevere (Cherie Lunghi).

A teia de relações ainda dá espaço à paixão de Guenevere por Lancelot (Nicholas Clay) e à presença da traidora meia-irmã de Arthur (Helen Mirren). Boorman dispensa a naturalidade. Seus seres são abertamente artificiais, e o filme é a exposição de uma lenda como deve ter sido imaginada por uma criança, em alguns momentos, ou por alguém chegado ao realismo da guerra, em outros. Das luzes artificiais segue-se aos homens ensanguentados, à lama, à beira de um lago escuro, em tempos de peste.

Ora ou outra surge o mago Merlin (Nicol Williamson), personagem cômica, quase um mestre de cerimônias exagerado e que dá piscadelas ao espectador na tentativa de adiantar o pior. Alguém dúbio e que reforça certa ousadia desse filme curioso. Em uma sequência estranha, o mago é preso a um grande bloco de gelo e o cenário faz pensar nos espaços do planeta Krypton no Superman de 1978.

A crítica Pauline Kael encontrou boa definição à obra de Boorman: “um conto de fadas sério e impróprio para menores”. O cineasta britânico não dispensa a seriedade, não abre mão dos corpos em sangue – ou do sexo – entre belas imagens e cenários suntuosos. A sequência em que Uther finge ser outro rei e faz sexo com Igrayne aos olhos da pequena Morgana é ousada e aponta ao que vem a seguir.

Perdidos em cena, os homens de lata de Boorman deixam ver suas fraquezas. E o filme, nessa conexão com a realidade, com o defeituoso, é então mais excitante. Aposta em um universo irregular, hoje cafona, algo desgovernado e que oferece certo prazer.

(Idem, John Boorman, 1981)

Nota: ★★★★☆

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Bastidores: Guerra nas Estrelas

Eu era um grande fã de Flash Gordon e esse tipo de coisa, um protetor muito forte do espaço, e então eu disse: “Isto é muito natural”. Um, vai proporcionar às crianças uma fantasia, e dois, talvez transforme alguém em um Einstein jovem e as pessoas vão dizer: “Por quê?”. O que nós realmente precisamos fazer é colonizar a próxima galáxia, esquecer os problemas de 2001 e entrar de fato no lado romântico da coisa. Ninguém vai colonizar Marte por causa da tecnologia, eles vão fazê-lo porque acham que talvez sejam capazes – é o aspecto romântico o que importa.

George Lucas, cineasta, em entrevista à revista Rolling Stone (agosto de 1977).

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