Guerra do Vietnã

Dez personagens para refletir sobre o extremismo e a alienação

As ideias e ações das personagens abaixo fazem pensar nas consequências da era dos extremos, quando o mundo produziu ideologias nefastas e situações de violência. A guerra e o que dela restou deram vez a muitos desses seres, figuras que ora ou outra aparecem por aí, no trânsito, no trabalho ou até em um palanque, em diferentes países e contextos.

O general louco com poder de apertar o botão
General Jack D. Ripper (Sterling Hayden) – Doutor Fantástico

Em plena Guerra Fria, a comédia ácida de Stanley Kubrick captou o clima de paranoia do momento. A personagem em questão é o general que resolve dar início ao ataque nuclear contra o inimigo, com uma simples ordem em um dia qualquer. Aberto o confronto, nem o presidente dos Estados Unidos consegue evitar o pior.

O pedófilo apadrinhado pelos nazistas
Martin Von Essenbeck (Helmut Berger) – Os Deuses Malditos

Uma família poderosa vende a alma aos nazistas. Um de seus membros, Martin, tem desejo por crianças e se vê cooptado pelas forças de Adolf Hitler. O casamento entre esses lados é perfeito. Do rapaz um pouco perdido sai um demônio com sede de poder. O grande filme de Luchino Visconti reproduz a queda dos “deuses” belos e louros.

O criminoso que acredita estar acima da lei
O inspetor de polícia (Gian Maria Volonté) – A Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita

O cinema político italiano dos anos 60 e 70 questiona a presença do fascismo entre as esferas do poder na Itália, o que pode ser visto em diferentes obras do período. Nesse ótimo filme de Elio Petri, um inspetor de polícia finge investigar os crimes que ele mesmo cometeu, tentando confirmar assim que pode estar acima da lei.

O fascista alienado e impotente
Marcello Clerici (Jean-Louis Trintignant) – O Conformista

Bernardo Bertolucci pode ter feito o filme definitivo sobre o fascismo. Ao seu protagonista, Marcello, é dada uma missão importante: matar seu antigo professor, que passou a dissidente político. No entanto, a impotência do matador de aluguel é cada vez mais clara à medida que se aproxima do outro homem e de sua companheira.

O jovem ignorante que se une ao inimigo
Lucien Lacombe (Pierre Blaise) – Lacombe Lucien

Durante a Ocupação Francesa, na Segunda Guerra Mundial, um rapaz sem rumo, ignorante, vê a oportunidade de ascender socialmente: torna-se um colaborador dos nazistas. Lucien é um retrato perfeito da alienação, do rancor, do sentimento de não fazer parte de seu grupo e, por isso, é a peça perfeita a ser manipulada pelo inimigo que invadiu seu país.

O solitário que usa a força para limpar a cidade
Travis Bickle (Robert De Niro) – Taxi Driver

Suas frases tornaram-se conhecidas. Pelas ruas úmidas de Nova York, Travis, nesta obra-prima de Martin Scorsese, declara seu desejo de limpar a cidade, de eliminar a escória, até o momento em que não vê outra saída a não ser apelar à violência. Compra armas, muda o visual. O solitário acredita estar em missão superior. Nada mais atual.

O soldado que encontra nas armas a solução final
Soldado Pyle (Vincent D’Onofrio) – Nascido Para Matar

Cansado de sofrer nas mãos de seu superior e dos colegas de farda, o soldado Pyle enlouquece e protagoniza uma das cenas de suicídio mais fortes do cinema. É o reflexo da guerra sem estar nela, fruto dos abusos de um mundo militarista cujos membros – a começar pelo próprio Pyle, a consequência – encontram nas armas a única saída.

O neonazista que descobre estar do lado errado
Derek Vinyard (Edward Norton) – A Outra História Americana

O protagonista mata um homem negro que tentou invadir sua casa. Termina preso e, na cadeia, descobre que estava do lado errado. O filme apresenta a sobrevivência do nazismo nos tempos atuais. No papel central, Norton tem talvez a melhor interpretação de sua carreira, que lhe valeu uma indicação ao Oscar de melhor ator.

O homossexual enrustido que abraça o militarismo
Coronel Frank Fitts (Chris Cooper) – Beleza Americana

O pai linha-dura tenta entender o que atrai tanto o filho liberal à casa de seu vizinho, personagem interpretado por Kevin Spacey. Age às vezes de forma robótica, com discursos prontos, como se seu lar ainda fosse um espaço militar. A certa altura, ele finalmente revela o que o mantém aprisionado, seu desejo bem guardado.

O homem como marionete de um sistema controlador
Agente Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) – A Vida dos Outros

Outro ser com pouca alma, funcionário padrão de um sistema perverso: a Stasi, a polícia política da Alemanha Oriental. Seu novo trabalho é vigiar um casal de artistas. Passa seu tempo ao lado de máquinas, com escutas clandestinas, e não esperava se envolver emocionalmente com a história daquelas pessoas que passa a vigiar. Transforma-se.

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The Post: A Guerra Secreta, de Steven Spielberg

São várias as “invasões” da mulher aos ambientes dominados por homens ao longo de The Post: A Guerra Secreta, de Steven Spielberg: no restaurante, na Bolsa de Valores ou em qualquer sala de decisões. Em cena, Katherine Graham aos poucos revela poder e liderança.

Mais interessante é o contraste entre os ambientes de Graham e os do editor do jornal que ela comanda, Ben Bradlee. De um lado, com ela, vê-se a bela casa de móveis opacos, de luz entre cortinas, quente e aparentemente protegida. O dele, no jornal, é frio, em certa medida impessoal. O filme é sobre como Graham migra ao espaço de Bradlee.

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Diz-se muito sobre o filme como veículo para evidenciar, nos tempos de Trump, a importância da imprensa. É verdade. Está tudo lá. Por outro lado, é o choque entre universos – o masculino e o feminino – que nutre esse belo filme de ação em diálogos, de salas fechadas, do tempo em que o jornalismo ainda tinha certo charme.

O filme é de Graham (ou Meryl Streep), não de Bradlee (ou Tom Hanks). Ou sobre como ela, ao peitar o homem mais poderoso de seu país, o então presidente Richard Nixon, enfim será vista – no filme, ao menos – pelo espaço aparentemente impessoal da redação do jornal, no qual homens e mulheres servem-se de montanhas de papel, com som alto, feito do bater à máquina, para dar vida à linha de produção do periódico.

Ela, ao lado dele, será vista, ao fim, entre essa linha. É como se Spielberg dissesse que a dama, enfim, faz parte daquele meio de máquinas, metálico, aparentemente – ou quase sempre associado ao – masculino. Um filme sobre como a mulher luta para escapar à grande casa aconchegante e saltar ao ambiente de astutos como Bradlee.

O espectador, por isso, em momento algum ficará na zona de conforto: é a ela, não a ele, que resta a última palavra. Ao que parece, a mulher não será capaz de dar o “sim” tão desejado. E se dá, é contra as expectativas: suas mãos tremulam quando precisa autorizar a publicação.

O impasse entre os sexos, nesse jogo de poder, é interessante: Bradlee deixa suas certezas, mas nunca pode ir até o fim, ou mudar tudo; Graham, ao contrário, pode autorizar o lançamento das “bombas”, ainda que suas relações com homens de poder, em sua mesma casa de belo jardim, pareça sempre colocá-la um passo atrás.

E há, claro, a grande história em questão, o que move The Post em sua superfície: o vazamento dos conhecidos “papéis do Pentágono”, documentos que comprovam como diferentes líderes de Washington, por anos, souberam da fragilidade dos soldados no Vietnã, o que custou a vida de muitas pessoas na continuidade de uma guerra perdida.

Quem dá o furo é o jornal concorrente, o New York Times. O Post corre atrás do prejuízo: Bradlee logo entende a necessidade de publicar os mesmos documentos, ainda que a justiça americana tenha barrado a investida da imprensa. A luta fica mais difícil, envolve também os futuros negócios do mesmo Washington Post: levado ao capital aberto da Bolsa de Valores, com Graham na ponta da mesa repleta de homens às bordas, o jornal, segundo os novos investidores, deveria ter cuidado na publicação de matérias do tipo.

O dinheiro tem seu peso. O destino do jornal também. Parte do filme apresenta a movimentação dos jornalistas em busca da notícia; outra parte, a movimentação de Graham entre graúdos, entre seus advogados, entre todos os homens que, à exceção de Bradlee, tentam convencê-la a não publicar a matéria sobre os “papéis do Pentágono”.

Em vão. E não se trata aqui de revelar o desfecho. O filme de Spielberg vai além. Sua grandeza está na ambientação, na transformação e na força inesperada da personagem feminina, ao mesmo tempo na caracterização certeira de Streep. Fechada, presa ao espírito dos homens que a antecederam, alguém que não precisa de discursos calculados – como a Margaret Thatcher da mesma atriz – para expor força e coragem.

(The Post, Steven Spielberg, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Três Bêbados Ressuscitados, de Nagisa Oshima

Entre os filmes de Nagisa Oshima, Três Bêbados Ressuscitados é talvez o mais desafiador. Não pela violência ou pelo debate que deseja suscitar, mas pela aparência de absurdo, pelo surrealismo, uma comédia de aventuras típica das novas ondas da época.

Em cena, três jovens japoneses tentam se salvar após serem confundidos com coreanos. Na praia, dois deles têm as roupas trocadas. Os verdadeiros coreanos deixam dinheiro no local, sobre a areia. A confusão logo se expõe: os jovens tentam comprar cigarros e levantam suspeitas do vendedor, que liga para a polícia.

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O trio é interpretado pelos músicos do The Folk Crusaders, pouco chegados à seriedade, com cabelo tigelinha e mínimas expressões além de um sorriso distante. À câmera, são jovens livres como os Beatles, quase em uma versão japonesa – porém politizada – de Os Reis do Iê-Iê-Iê, o sucesso de Richard Lester de 1964.

Três Bêbados Ressuscitados foi lançado no Japão em 1968, pouco depois de o fotógrafo americano Eddie Adams captar sua imagem mais famosa, Execução em Saigon, em fevereiro daquele mesmo ano. A imagem mostra o exato momento em que um vietcongue é assassinado por um general, com um tiro na cabeça.

Ela integra um dos momentos finais desse filme provocador. Oshima expõe não apenas o momento do tiro: uma reprodução em cores da fotografia de Adams, observada pelos jovens no interior do trem, simula a ideia de movimento, da chegada da vítima à própria queda, enquanto é cercada por soldados. A pintura da foto é exposta em um grande muro, à frente do qual um coreano é executado por autoridades japonesas.

A obra de Oshima reflete a fotografia às vezes como comédia, de forma a provocar: os três jovens – talvez embriagados, não se sabe – tentam simular o rosto do vietcongue no momento do tiro, de sua execução, retorcendo a boca e outros músculos da face. A execução será vista em outros momentos, nas investidas de coreanos contra japoneses e também o contrário, como se passa nos já citados momentos finais.

Do que trata o filme? Identidade, ou de sua confusão. É sobre se sentir estrangeiro em seu próprio país, ser transformado no “outro” a ser executado entre as fileiras de coreanos que foram lutar na Guerra do Vietnã, em apoio ao governo americano.

O trio termina nessa luta, ao menos em sonho. Oshima chega à teatralidade exagerada, em comunhão com os absurdos que sua obra expõe. A certa altura, os jovens conhecem uma garota coreana, seu pai adotivo e abusador (com tapa-olho e gancho no braço) e os dois coreanos que vieram para o Japão como clandestinos para fugir da guerra.

O filme retorna ao início quando atinge a metade: os mesmos três garotos estão à praia, com roupas trocadas, e o que poderia ser a reprise da mesma história encontra variações. Oshima conta outra história e ao mesmo tempo a mesma. Em ambas, coreanos e japoneses trocam de posições e são executados.

A discriminação aos coreanos no Japão é um assunto caro a Oshima. Segundo o diretor, os coreanos refletem os próprios japoneses (ou deveriam). “Olhando para os coreanos, podemos nos encontrar. Sempre pensei que devíamos olhar para os coreanos, é preciso reconhecer que eles existem, especialmente os coreanos no Japão. Eles estão sempre muito deprimidos, porque são discriminados, eu quis me solidarizar com eles, contra o Japão”, disse o diretor, em entrevista a Lucia Nagib.

O filme foi lançado logo após O Enforcamento, um dos melhores trabalhos do cineasta japonês. Nele, um coreano é condenado à forca e sobrevive, mas fica sem memória. As autoridades japonesas tentam fazê-lo recordar sua identidade e seu crime para que assim possam tentar matá-lo novamente. Essa tentativa de regressão leva à crítica de Oshima sobre a condição do coreano na sociedade japonesa.

Com câmera na mão, o trio do Folk Crusaders sai às ruas e aborda os transeuntes. Três Bêbados Ressuscitados ganha contornos de documentário. Eles perguntam às pessoas se elas são japonesas. “Não, sou coreano”, diz uma delas. “Por quê?” “Porque sim”. É justamente o ator Do-yun Yu, o protagonista de O Enforcamento.

(Kaette kita yopparai, Nagisa Oshima, 1968)

Nota: ★★★★☆

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Sete grandes filmes nem sempre lembrados da Nova Hollywood

Muitos filmes do período conhecido como Nova Hollywood tornaram-se medalhões e figuram facilmente nas listas de melhores de todos os tempos. Obras como O Poderoso Chefão, Bonnie & Clyde, Sem Destino, A Conversação e Chinatown.

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Outros da mesma época, apesar dos prêmios e atores famosos, não ficaram retidos na memória da maior parte do público. A lista abaixo pretende resgatar algumas joias raras que traduzem o espírito do final dos anos 60 e o início dos 70, com várias feridas abertas nos Estados Unidos. Tratam do culto às armas, da ética na imprensa, do vício em drogas, da contestação à ordem, do fim do sonho americano e do cinema como galvanizador de corações e mentes. Não é pouco.

Na Mira da Morte, de Peter Bogdanovich

Astro de antigos filmes de terror, Boris Karloff esteve à disposição do jovem diretor por apenas dois dias, já que ainda mantinha um contrato com o produtor Roger Corman para vencer nesse prazo. Apesar das evidentes deficiências e do parco orçamento, o filme abriu as portas para o cineasta, que pouco depois faria A Última Sessão de Cinema. Foi inspirado no ataque real de um atirador de 16 anos, em abril de 1965.

na mira da morte

Dias de Fogo, de Haskell Wexler

Outra pequena obra de arte da improvisação, com referências à nouvelle vague, sobretudo a O Desprezo, de Godard (com a câmera que se volta ao espectador no encerramento). O diretor era famoso por seus trabalhos como diretor de fotografia e acompanha aqui os passos de um cinegrafista (Robert Forster) nos tumultuados meses de 1968, entre a convenção Democrata de Chicago e os protestos contra o governo.

dias de fogo

Os Viciados, de Jerry Schatzberg

O filme que projetou a carreira de Al Pacino e certamente o levou ao primeiro Chefão, lançado um ano depois. Aborda o relacionamento conflituoso entre dois jovens viciados, frequentadores de um reduto de desregrados conhecido como “parque da seringa”, na Nova York dos anos 70. Entre sequências chocantes, não deixa de ser uma bela história de amor, com altos e baixos, sob a ótica realista do grande diretor.

os viciados

Pequenos Assassinatos, de Alan Arkin

Com amigos do teatro e pequeno orçamento, Arkin conseguiu realizar esse belo filme, sua estreia na direção. Resumi-lo em poucas linhas é trabalho árduo. Trata da relação amorosa entre uma mulher otimista (Marcia Rodd) e um niilista (Elliott Gould), da família excêntrica dela e também de assassinatos em série. O roteiro de Jules Feiffer, a partir de sua própria peça, mostra a violência intrínseca à sociedade americana.

pequenos assassinatos

O Último Filme, de Dennis Hopper

Não deixa de ser um estudo sobre a visão dos nativos em relação aos americanos e ao ato de fazer cinema. Um filme original, com as improvisações comuns à época, e com um diretor que não tinha problema em se assumir um louco. É um faroeste feito no Peru, com um filme dentro de outro e no qual o cineasta torna-se uma espécie de padre, a guiar os nativos. É, sobretudo, sobre o poder do cinema.

a ao último filme

Sonhos do Passado, de John G. Avildsen

Esse drama poderoso desenrola-se em apenas um dia. Do pesadelo de Harry Stoner (Jack Lemmon) ao seu encontro com o oceano, ao fim, o espectador assiste à derrocada do sonho americano. Para sobreviver, Stoner precisa tomar uma medida drástica: atear fogo na própria empresa – com a ajuda de um profissional – para receber o dinheiro do seguro. E, nesse dia, ele ora ou outra retorna ao passado.

sonhos do passado

A Última Missão, de Hal Ashby

Após ser detido tentando furtar 40 dólares, um jovem marinheiro (Randy Quaid) é condenado a oito anos de prisão. Para levá-lo ao cárcere, são designados outros dois oficiais. Tem início então uma jornada de descobrimento: a cada nova parada e bebedeira, esses homens revelam outro olhar sobre suas funções, sobre justiça e sobre aquele país transformado. Mais uma grande atuação de Jack Nicholson.

a última missão

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Os 20 melhores ganhadores de Cannes

O Festival de Cannes, realizado anualmente em maio, tornou-se a maior vitrine do cinema mundial. Quando se pensa em qualidade e descoberta de novos autores, ultrapassa, com facilidade, o Oscar, então dedicado à previsão fácil.

Cannes tem como concorrentes os festivais de Berlim e Veneza. Não é o mais antigo deles. A exemplo da concorrência, seleciona sempre inéditos para sua mostra principal, que ao vencedor outorga a Palma de Ouro, em outros tempos chamada de Grand Prix. Tem tapete vermelho, entrevistas concorridas, astros que passam por ali para lançar filmes grandes – não necessariamente grandes filmes. Tem marketing, claro.

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Em sua história, acertou em diferentes ocasiões ao premiar grandes filmes e revelar autores. É hoje quase impossível pensar em uma obra dos Irmãos Dardenne ou de Haneke fora de Cannes. Ao cinéfilo, é comum esperar por maio, quando a seleção à Palma aponta ao melhor do cinema mundial. Abaixo, a lista com os 20 melhores ganhadores do festival – segundo a opinião do Palavras de Cinema.

20) Se…, de Lindsay Anderson

Depois de 68, quando o festival foi cancelado, a Palma caiu no colo de Anderson e seu filme sobre jovens rebeldes de colégio interno dominado por padres e moralismo.

se...

19) O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte

Único brasileiro ganhador da Palma. Há uma história (não se sabe se verdadeira) de que os aplausos da consagração do filme de Duarte teriam sido puxados por Truffaut.

o pagador de promessas

18) O Show Deve Continuar, de Bob Fosse

O Oito e Meio de Fosse, obra magistral em que o artista debruça-se sobre si mesmo, com seus vícios, lembranças, suas formas de criação e a escolha da próxima companheira.

o show deve continuar

17) M.A.S.H, de Robert Altman

A guerra feita de nenhum combate, com o riso na medida certa, seus médicos endiabrados em tendas sujas, seus golpes para colocar todos em perfeita anarquia.

mash

16) Sob o Sol de Satã, de Maurice Pialat

Pialat chegou a ser vaiado em Cannes ao receber a Palma de Ouro. A obra está entre as mais poderosas a abordar a religiosidade, representando uma guinada na carreira do diretor.

sob o sol de satã

15) Senhorita Julia, de Alf Sjöberg

Maravilhoso conflito de classes passado em poucas horas, a partir da peça de August Strindberg. Em uma grande casa, um serviçal confronta e flerta com a filha do patrão.

senhorita julia

14) O Mensageiro, de Joseph Losey

Empurrado à Europa pelo macarthismo, Losey produziu grandes obras e ganhou uma merecida Palma por uma das melhores, sobre um garoto de recados entre dois amantes.

o mensageiro

13) Pulp Fiction, de Quentin Tarantino

A explosão começou em Cannes. Depois chegou ao Oscar. O diretor independente revelar-se-ia acima da média, com os pés fincados em referências a mestres do passado.

pulp fiction

12) Paris, Texas, de Wim Wenders

O diretor alemão – da geração do novo cinema feito em seu país – já havia sido indicado à Palma outras três vezes e se consagrou com esse grande filme sobre reconciliação.

paris texas

11) O Salário do Medo, de Henri-Georges Clouzot

Chamado de “Hitchcock francês”, Clouzot moldava a narrativa com perfeição. Em cena, as personagens viajam por estradas esburacadas com porções de nitroglicerina na bagagem.

o salário do medo

10) A Árvore dos Tamancos, de Ermanno Olmi

Filme neorrealista realizado fora do período, longo e de uma simplicidade absurda (no melhor sentido do termo), todo feito com verdadeiros camponeses de uma província.

a árvore dos tamancos

9) O Piano, de Jane Campion

Drama profundo, às vezes frio, quase sempre escuro, sobre uma mulher muda, sua filha expressiva e dois homens em conflito – além do piano, objeto que move a história.

o piano

8) Portal do Inferno, de Teinosuke Kinugasa

Poucas vezes as cores serviram tão bem ao cinema. Simula um épico sobre revolução, mas parte para uma história de amor: ao centro, um homem que deseja tomar uma mulher à força.

portal do inferno

7) Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

Coppola era um diretor consagrado quando ganhou sua segunda Palma. O filme, sabe-se, teve produção tumultuada e levou anos para ficar pronto. A demora compensou.

apocalypse now

6) Blow-Up – Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni

Grande Antonioni, talvez o maior. Seu primeiro filme falado em inglês, sobre um fotógrafo em dúvida: por acaso, em um dia no parque, ele acredita ter registrado um assassinato.

blow-up

5) Taxi Driver, de Martin Scorsese

O táxi brota da fumaça, na abertura, e fornece a pista do que viria a seguir: a imersão de uma personagem errática pela Nova York suja e violenta dos anos 70.

taxi driver

4) A Conversação, de Francis Ford Coppola

O herói chega a destroçar a imagem da santa, ao fim, para tentar encontrar o grampo. O detalhe não passa incólume: nada supera o medo de ser vigiado. Nem a fé.

a conversação

3) A Doce Vida, de Federico Fellini

Um dos melhores exemplos do então agitado cinema moderno, no qual as personagens não parecem fazer nada, celebram o vazio, ao passo que Fellini prova ser um gênio.

a doce vida

2) O Terceiro Homem, de Carol Reed

O melhor filme já feito sobre o pós-guerra. A personagem de Joseph Cotten procura pelo amigo morto e este retorna, mais tarde, como Orson Welles, para a surpresa geral.

o terceiro homem

1) O Leopardo, de Luchino Visconti

Grande em tudo. Em cenários, figurinos, atores, direção. É o que se espera de um filme histórico, que expõe as transformações da Itália, a passagem da nobreza à burguesia.

o leopardo

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